
FOLHAS CADAS

ADELINE YEN MAH


A HISTRIA VERDICA DE UMA CRIANA CHINESA
INDESEJADA TRADUO ELSA MARIA BOTO ALVES gradiva Ttulo original
ingls: Falling Leaves: The True Story of an Unwanted Chinese Daughter
(c) 1997, by Adeline Yen Mah Todos os direitos reservados Autorizada a
traduo da edio em lngua inglesa por John Wiley & Sons, Inc.
Traduo: Elsa Maria Boto Alves Reviso do texto: Manuel Joaquim Treira
Capa: Armando Lopes Fotocomposio: Gradiva Impresso e acabamento:
Grfica Manuel Barbosa & Filhos, L.~ Reservados os direitos para
Portugal por: Gradiva-Publicaes, L.d Rua de Almeida e Sousa, 21, r/c,
esq. - 1399-041 Lisboa Telefs. 397 40 67/8 - 397 13 57 - 395 34 70 Fax
395 34 71- Email: gradiva@ip.pt i1RL: http://www.gradiva.pt 2. edio:
Dezembro de 1999 Depsito legal n. 144283/99 Dedico esta histria 
minha tia Baba, cuja crena ina balvel no meu valor me amparou ao longo
de uma infncia angustiada. Dedico-a tambm ao meu marido, Bob, sem o
amor do qual eu no poderia ter escrito este livro. Veja o nosso site na
Internet http://www.gradiva.pt Nota da autora Esta  uma histria
verdadeira, grande parte da qual escrita com dor e dificuldade. Senti,
contudo, que esta era uma tarefa a cumprir. Continuo muito ligada a
diversos membros da minha famlia e no desejo magoar nenhum deles
desnecessariamente. Por essa razo, alterei os nomes prprios dos meus
irmos ainda vivos, das suas esposas e dos seus filhos. Os nomes dos
meus pais so, todavia, reais, bem como todos os acontecimentos
descritos nesta obra. Indice Prlogo: Hong-Kong, 19 de Maio de
1988.......................................13 1. Men Dang Hu Dui - A
porta certa encaixa na ombreira da casa certa.........17 2. Dian Tie
Cheng Jin - Transformar ferro em ouro .......................... 25 3.
Ru Ying Sui Xing - Inseparveis como a prpria
sombra.................... 30 4. Xiu Se Ke Can - Encantos
suficientemente surpreendentes para uma festa....37 5. Yi Chang Chun
Meng - Um episdio de um sonho de Vero .................. 45 G. Jia
Chou Bu Ke Wai Yang - Roupa suja lava-se em casa- ................... 53
7. Yuan Mu Qiu Yu - Subir s rvores para
pescar............................ 86 8. Yi Shi Tong Ren - Tratamento
igual para todos sem excepo ............. 101 9. Ren Jie Di Ling - Uma
aluna brilhante numa terra maravilhosa ........... 109 10.Du Ri Ru Nian
- Cada dia como um ano.................................... 116 11.Zi Chu
Ji Zhu - Ideias originais para composies literrias ........... 121
12.Tong Chuang Yi Meng - Na mesma cama com sonhos diferentes
...............127 13.You He Bu Ke? - Haver algo impossvel?
................................ 131 14.Yi Qin Yi He - Um s canto, uma
s gara ............................... 144 15.Fu Zhong You Yu - Um
peixe a nadar num caldeiro ....................... 150 16.Pi Ma Dan
Qiang - Um cavalo, uma s lana ...............................161
17.Jia Ji Shui Ji - Casa com uma galinha e seguirs uma galinha
............168 18.Zhong Gua De Gua - Colhers o que semeares
..............................177 19.Xin Ru Si Hui - Coraes reduzidos
a cinzas ............................ 187 20.Fu Zhong Lin Jia - Escamas
e conchas dentro da barriga ................. 201 21.Tian Zuo Zhi He -
Unio paradisaca .................................... 213 22.Si Mian
Chu Ge - Cercados por todos os lados ............................219
23.Chu Cha Dan Fan - Arroz branco e ch de m qualidade
................... 225 24.Yin Shui Si Yuan - Quando beberes da gua,
lembra-te da fonte .......... 233 25.Yi Dao Liang Duan - Cortar esta
relao com um s golpe................. 240 26.Wu Feng Qi Lang - Fazer
ondas sem vento ................................ 245 27.Jin Zhu Zhe Chi;
Jin Mo Zhe Hei Junto do vermelho tornamo-nos avermelhados e junto da
tinta [-da -china]              tornamo-nos enegrecidos
...............................................249 28.Jiu Rou Peng You -
Amigos apenas para comer e beber ......................257 29.Wu Tou
Gong Na - Um caso sem ps nem cabea ............................. 266
30.Kai Meng Yi Dao - Abre a porta e sada o ladro
..........................270 31.Yan Er Dao Ling - No querer ver o que
 evidente.........................274 32.Luo Ye Gui Gen - As folhas que
caem regressam s suas razes .............277 PRLOGO Hong-Kong, 19 de
Maio de 1988 No estaria a dizer toda a verdade se afirmasse que, em
quarenta anos, era a primeira vez que estvamos todos reunidos. Cada um
de ns, separadamente, tinha muitas vezes, algumas mesmo em segredo,
participado em reunies deste tipo, embora em todas elas tivesse havido
um denominador comum: uma ausncia. Hoje era o pai que no estava
presente. Susan, a nossa irm mais nova, figura bem conhecida na
sociedade e mulher do banqueiro multimilionrio Tony Liang, tambm no
se encontrava entre ns. No tinha sido convidada para o funeral do pai
nem para a subsequente leitura do testamento. O seu nome no fora
includo no obiturio publicado no Sotrth China Morni~ag Post'. "Joseph
Tsi-rung Yen", podia ler-se na nota, "amado esposo de Jeanne Prosperi
Yen, pai de Lydia, Gregory, Edgar, James e Adeline, expirou em paz a 13
de Maio de 1988 no Hong-Kong Sanatorium." Na manh em que falecra, o
pai tinha sido sepultado no cemitrio catlico de North Point, situado
no lado oriental da ilha de Hong-Kong. Eram agora 4.30 da tarde e
encontrvamo-nos reunidos nos espectaculares escritrios de advogados
Johnson; Stokes & Masters, no Jornal dirio em lngua inglesa publicado
em Hong-Kong. (N. da T.) 13 17. andar do Prince's Building, em
Hong-Kong, prontos a ouvir a leitura do testamento. Ansiosos,
aguardvamos na sala de conferncias, sentados em volta de uma grande
mesa oval com tampo de granito polido. Tal como o cho, tambm de
granito, a condizer, a mesa brilhava ao sol da tarde, que inundava o
aposento atravessando as enormes janelas sobre o porto. Lydia, a minha
irm mais velha, chegou-se a mim e, num gesto protector, passou-me o
brao por cima do ombro. Os meus trs irmos mais velhos, Gregory, Edgar
e James, encontravam-se sentados ao lado uns dos outros, de rosto
sombrio. Louise, a bonita mulher de James, mirava solicitamente a nossa
madrasta, sino-francesa, a quem chamvamos - Niang o termo chins que
significa "me". Acompanhada pelo seu advogado, Niang ocupava o topo da
mesa; uma nuvem de fumo libertava-se da boquilha de ouro que apertava
entre os dedos, meticulosamente arranjados. A sala parecia-me enorme e
eu sentia-me agoniada de desgosto. O meu pai tinha sido um homem muito
rico. Correra riscos no seu percurso, mas fora sem dvida um dos homens
de negcios mais bem sucedidos de Hong-Kong. Fugido de Xangai em 1949,
fundara uma com panhia de importao-exportao, que diversificara
posteriormente para os ramos de produo, construo, comrcio e
imobilirio, tendo mesmo chegado a index-la na Bolsa de Hong-Kong,
conhecida pelo seu alto grau de competitividade. James e Niang tinham
gerido as suas finanas a partir do momento em que a doena o
impossibilitara de o fazer. Niang apresentava-se impecavelmente vestida
num dispendioso fato parisiense de seda preta. Na lapela ostentava um
grande alfinete de diamantes que combinava com o anel que trazia no
dedo. O cabelo, pintado de preto azeviche, estava cuidadosamente
penteado sobre a testa larga. De uma carteira preta de pele de crocodilo
retirou um par de culos de marca, que colocou sobre o nariz. Um sinal
de cabea ao advogado bastou para que, nesse momento, cada um de ns
recebesse uma cpia do testamento do pai. O advogado pigarreou e disse:
- A me dos senhores, a minha cliente, Sra. Jeanne Yen, pede que no
voltem a pgina neste momento. Mais tarde explicar-vos- o porqu deste
pedido. Iniciou ento a leitura da primeira pgina, cada um de ns
suspenso das suas palavras. Senti-me como se tivesse 7 anos, quando
vivia em Xangai. "Eu, Joseph Yen, residente no n. 18 de Magazine Gap
Road, Magnolia Mansions, n. 10a, Victoria, colnia de Hong-Kong, afirmo
ser esta a minha ltima vontade e o meu testamento", assim se iniciava o
documento. Seguia-se a fraseologia habitual sobre a revogao de todos
os testamentos e aditamentos anteriormente lavrados. O pai apontava
ento sua mulher, Jeanne Yen, como testamenteira nica. "E a ela lego
todos os meus bens, quaisquer que eles sejam e onde quer que se
encontrem." Caso Niang no lhe sobrevivesse, continuou o advogado, James
seria o nico beneficirio do testamento do pai. O advogado chegara ao
final da pgina. Tossiu nervosamente e afirmou: -  meu dever
inform-los de que recebi instrues da Sra. Jeanne Yen, me dos
senhores, para vos dizer que no h dinheiro nenhum entre os bens
deixados pelo vosso pai. Cravmos nele os olhos com o maior dos
espantos. No h dinheiro nenhum? Todos os olhos se voltaram para Niang,
a nossa madrasta. Fixou-nos um por um. - Dado que no h dinheiro nenhum
- disse ela -,no precisam de continuar a leitura do testamento. No h
nada que vos tenha sido atribudo. O vosso pai morreu sem deixar um
centavo. Estendeu a mo e, vagarosa e relutantemente - obedecendo,
contudo -, cada um de ns lhe entregou a respectiva cpia do testamento
sem ler a pgina seguinte, exactamente como nos tinha sido pedido.
Ningum proferiu palavra. O silncio prolongado arrastava consigo uma
atmosfera de mal-estar; entretanto, continuvamos a olhar para Niang,
aguardando uma explicao. - Nenhum de vocs parece compreender - disse
Niang -, o testamento do vosso pai no faz qualquer sentido porque ele
no tinha dinheiro nenhum. Levantou-se e entregou ao advogado todas as
cpias do testamento do pai. A leitura tinha terminado. Ningum ps em
causa a legitimidade das aces de Niang, do mesmo modo que ningum
voltou a primeira pgina para ver o contedo da pgina seguinte.
Estupefactos e incapazes de qualquer reaco, acatmos as ordens de
Niang. No fazamos ideia do modo como o pai desejara dispor da sua
fortuna, nem de como imaginara o futuro da nossa famlia. 14 15 O pai
fora uma pessoa de grande fortuna e carcter. Por que razo todos ns
devolvramos o testamento sem o ler, como se fssemos bonecos sem poder
de deciso? Para explicar a docilidade de todos ns nessa tarde terei de
voltar ao princpio. H um provrbio chins que diz - ~,~~ luo ye gui
gen ("as folhas que caem regressam s suas razes"). As minhas razes
assentavam numa famlia de Xangai chefiada por um pai influente e pela
sua mulher euro-asitica, num cenrio de portos e tratados encaixados em
concesses estrangeiras, envolvidos pela coliso do Ocidente com o
Oriente, coliso essa que se deu dentro e fora da minha prpria casa. 16
1 Men Dang Hu Dui A porta certa encaixa na ombreira da casa certa Quando
tinha 3 anos, a minha tia-av proclamou a sua independncia, recusando
categoricamente que lhe ligassem os ps e, por isso, rasgava
decididamente as ligaduras assim que lhe eram colocadas. Nascera em
Xangai (cidade  beira-mar), em 1886, durante a dinastia Qing, na poca
em que a China era governada pelo imperador-criana Kuang Hsu, que vivia
l muito ao norte na Cidade Proibida. Menina mimada da famlia, oito
anos mais nova do que o meu av, ~ Ye Ye, a tia-av triunfou finalmente
quando se recusou a comer e a beber at que os seus ps fossem, segundo
as suas prprias palavras, "resgatados e libertados". No final do sculo
Fax, Xangai no tinha par entre as outras cidades da China. Constitua
um dos cinco portos dos tratados abertos  GrBretanha aps a Primeira
Guerra do pio, em 1842. Tornou-se, gradualmente, um intermedirio
gigante entre a China e o resto do mundo. Estrategicamente situada nas
margens do rio Huangpu, 17 milhas acima do poderoso Yangtse, a cidade
estava ligada por via martima s pro 17 vncias ocidentais do interior.
No outro extremo, mais para leste, o oceano Pacfico ficava apenas a uns
80 quilmetros de distncia. A Gr-Bretanha, a Frana e os Estados
Unidos da Amrica estabeleceram concesses estrangeiras dentro da
prpria cidade. E ainda hoje, por entre os novos arranha-cus, a
arquitectura de Xangai reflecte a influncia dos comerciantes
estrangeiros. Algumas das grandes manses, anteriormente residncias de
diplomatas e magnatas do comrcio, ostentam a grandeza eduardina de
qualquer casa senhorial nas margens do Tamisa, em Inglaterra, ou at
mesmo o esplendor de uma vila no Loire, em Frana. O termo
extraterritorialidade significava que, dentro das concesses
estrangeiras, todos os sbditos, fossem eles estrangeiros ou chineses,
eram governados pelas leis estrangeiras, no sendo abrangidos pela
aplicao das leis chinesas. Os estrangeiros possuam o seu prprio
governo municipal, polcia e tropas. Cada uma das concesses tornara-se
uma cidade independente dentro da prpria cidade: pequenos enclaves de
solo estrangeiro situados nos portos abrangidos pelos tratados ao longo
da linha costeira chinesa. A China era governada, no por leis escritas,
mas por regulamentos provenientes de magistrados nomeados pelo
imperador; tradicionalmente, os cidados viam estes mandarins como
semideuses. Durante cerca de 100 anos (entre 1842 e 1941), os Ocidentais
foram vistos na China como seres superiores cujos desejos ultrapassavam
mesmo os dos prprios mandarins. Os conquistadores brancos eram tratados
com reverncia, temor e admirao pelo chins mdio. Os casos legais
eram julgados perante um magistrado chins, presididos, porm, por um
acessor consular estrangeiro com poder abroluto e a quem competia a
deciso final. A populao local sentia-se extremamente humilhada por
lhe ser vedada a posse de ou mesmo o livre acesso a muitos dos sectores
mais atraentes dentro da sua prpria cidade. Discriminao, segregao e
abusos coloriam a maior parte dos contactos inter-raciais, com os
Ocidentais a considerarem os Chineses como inferiores e vencidos. De
tudo isto emergia um amargo ressentimento. A sul da Concesso Francesa
de Xangai, o meu bisav possua uma casa de ch na velha cidade murada
de Nantao. Estes bairros chineses, tambm designados por Cidade Velha,
estavam apinhados de edifcios baixos, pequenos mercados fervilhantes e
pequenas alamedas salpica 18 das de letreiros coloridos. O negcio era
bem sucedido, apesar da competio dos vendedores ambulantes, que
transportavam os seus foges com o auxlio de varas de bambu, vendas de
berma de estrada e pequenos cafs de uma nica sala. Quando a tia-av
tinha 7 anos, o pai mudou a casa de ch para um local mais na moda,
situado na Concesso Internacional, resultado da fuso das Concesses
Britnica e Americana. Nessa altura mudou-se com toda a famlia para uma
casa situada a poucas ruas de distncia, numa pacata zona residencial da
Concesso Francesa. Os Franceses construam jardins, blocos de
apartamentos, edifcios de escritrios e avenidas arborizadas, que
baptizavam com os nomes dos dignitrios franceses. Estas avenidas
enchiam-se de cafs e automveis importados, que coexistiam ao Lado de
carrinhos de mo, riquexs e triciclos para transporte de passageiros.
Xangai comeou a ser conhecida como a Paris do Oriente, embora a tia-av
protestasse sempre que era a Paris que deveriam chamar Xangai da Europa.
Os irmos mais velhos da tia-av receberam pouca instruo, mas
aprenderam a ler e a escrever com um professor particular. Sendo a mais
nova de cinco irmos, a tia-av foi o fruto de uma reflexo posterior.
Quando chegou  idade escolar, o meu bisav era j um homem prspero.
Matriculou-a num estabelecimento de ensino caro e em voga na poca, a
McTyeire Christian Girls' School, dirigida por missionrias metodistas
americanas. Foi ela a primeira criana da famlia Yen a receber uma
educao estrangeira. Por essa altura Xangai tornara-se o centro do
comrcio e da indstria chineses. As oportunidades eram ilimitadas. O
irmo mais velho da nossa tia-av criara um negcio bem sucedido, ao
produzir peas metlicas para riquexs, triciclos, bicicletas e alguns
dos mais modernos electrodomsticos. Todavia, morreria ainda novo,
provavelmente de sfilis, uma vez que se deixara levar pelos trs vcios
mais comuns entre os Chineses naquela poca: pio, jogo e bordis. As
mulheres que dispunham de tempo para si prprias tambm jogavam e
fumavam pio, mas de uma forma mais discreta, nas suas prprias casas. O
segundo irmo da tia-av estabeleceu-se com um negcio promissor de
importao e exportao de ch, mas tambm ele foi contaminado por uma
doena venrea e, como tal, no pde ter filhos. A outra irm de ambos
fez um casamento an-anjado, tendo morrido de tuberculose. O terceiro
irmo da tia-av, o meu av Ye Ye, era meigo e tranquilo. 19 Budista
fervoroso, alto e magro, fazia tiradas poticas e tinha maneiras gentis.
No gostava do corte de cabelo manchu, obrigatrio na poca, que
consistia em rapar a testa apanhando o resto do cabelo numa nica e
longa trana. Mesmo na sua juventude mantinha a cabea rapada (a nica
alternativa permitida), usava um chapu redondo, ajustado  cabea, e
exibia um bigode rigorosamente aparado. Decidido a no seguir o caminho
da runa que os irmos tinham levado, provou ser, de longe, mais capaz
do que qualquer deles. Durante o perodo em que foi aluna da McTyeire, a
tia-av desenvolveu uma paixo pela equitao que a acompanharia ao
longo de toda a sua vida. Tornou-se fluente na lngua inglesa, recebeu o
baptismo cristo e travou amizades com ocidentais atravs da Igreja. Uma
dessas amigas, membro da Associao contra os Ps Ligados, ofereceu-lhe
um emprego como funcionria de escritrio no departamento de poupanas
do Banco de Xangai. A trabalhou durante vinte anos, tendo estudado
todos os aspectos da economia bancria. Ascendeu ao lugar de gerente da
sua diviso. A tia-av nunca casou. Nesse tempo, a lei permitia ainda
que as filhas fossem vendidas ou utilizadas como moeda de troca. A
esposa era frequentemente tratada como uma escrava na casa do seu
marido, especialmente perante a sogra. Se no fosse capaz de dar  luz
um filho varo, uma ou vrias concubinas eram trazidas para casa. O
segundo casamento para os vivos era considerado uma rotina, mas em
relao s vivas era visto como falta de castidade. A maioria dos
homens abastados frequentava habitualmente os bordis, mas uma mulher
que fosse infiel ao marido poderia ser punida com a morte. Recordo-me da
tia-av como uma figura alta e imponente, tratada com grande estima por
todos os membros da nossa famlia. At Ye Ye e o prprio pai satisfaziam
todos os seus desejos, o que era extraordinrio numa sociedade onde as
mulheres eram desprezadas. Por respeito, ns, as crianas, devamos
chamar- Ihe ~; ~~~ "Gong Gong", que significava tio-av. Era prtica
comum as mulheres muito bem sucedidas assumirem, dentro do cl, o ttulo
masculino equivalente ao seu ttulo feminino. Com 1,67m de altura,
aproximadamente, ela era apenas um pouco mais baixa do que Ye Ye.
Direita, com uma postura digna, sem jamais ter tido os ps ligados, era
uma presena admirvel, que contrastava claramente com o solcito
segundo plano caracterstico das mulheres do 20 seu tempo. O cabelo
negro, cortado acima das orelhas, era penteado para trs, descobrindo
uma testa suave acima de um rosto oval. Por detrs dos culos redondos,
com aros de metal pintados', uns grandes olhos penetrantes. Sempre
elegante, preferia os gipaos'- (vestidos chineses) de seda, escuros e de
uma s cor, com colarinhos  mandarim e botes em forma de borboleta. De
pele clara, tinha o nariz levemente salpicado de sardas. Aplicava
habitualmente creme no rosto, m pouco de rorge e um tudo nada de
bton, adornando as orelhas com brincos de jade ou prolas
cuidadosamente escolhidos. Movimentava-se com facilidade e uma graa
atltica, montando a cavalo e jogando tnis depois de j ter entrado na
casa dos 60. Guardo uma fotografia dela com um sorriso de confiana,
montada num grande cavalo negro, vestida com uma blusa branca, gravata
preta e calas de montar de bom corte. Em 1924, a tia-av fundou o seu
prprio banco, o Shanghai Women's Bank.  impossvel sobrestimar este
seu empreendimento. Numa sociedade feudal, onde at a ideia de a mulher
ser capaz de tomar as mais simples decises do dia-a-dia era motivo de
troa (quanto mais de levar a cabo importantes negociaes
empresariais!), nessa mesma sociedade a coragem da tia-av era algo de
extraordinrio. A sua reputao era to indiscutvel, que ela conseguiu
o financiamento para o seu banco sem encontrar dificuldades de maior.
Emitiram-se aces, que foram compradas na sua totalidade. Todo o
pessoal do banco era constitudo por mulheres e organizado para
responder aos requisitos das prprias mulheres. E elas foram surgindo:
filhas solteiras, com as heranas e as poupanas que tinham amealhado;
primeiras mulheres (as chamadas grandes esposas), com os seus dotes e o
que tinham ganho a jogar mah jong'; concubinas (as chamadas pequenas
esposas), com presentes em dinheiro oferecidos pelos seus senhores; e
outras mulheres, profissionais e instrudas, cansadas de serem amparadas
em estabelecimentos dominados por homens. O Shanghai Women's Bank deu
lucro desde o incio e assim permaneceu at a tia-av se ter reformado,
em 1953. Com os lucros obtidos empreendeu a construo de um edifcio de
seis andares para o seu banco, situado no n. 480 da Rua de Nanquim, 2
Conforme o original. (1V. da T.) ' Jogo h~adicional chins. (N. da T.)
que nos anos 20 e 30 era o mais prestigiado endereo empresarial na
China. O banco localizava-se no centro nevrlgico da Concesso
Internacional, adjacente aos maiores edifcios de escritrios e grandes
armazns, a cerca de 1500 metros do Bund (nome dado  Wall Street de
Xangai), o famoso passeio junto ao rio, onde, nessa poca, os Chineses
no estavam autorizados a possuir propriedade horizontal. Todo o pessoal
do banco vivia em confortveis instalaes nos andares mais elevados.
Apenas os melhores materiais de construo foram utilizados.
Instalaram-se elevadores e a mais moderna canalizao, incluindo
autoclismos, aquecimento central e gua corrente quente e fria. A
tia-av ocupava um espaoso apartamento no 6. andar, que partilhava com
uma amiga, Miss Guang, conhecimento que travara atravs da igreja.
Falava-se da relao entre ambas. Partilhavam o mesmo quarto e a mesma
cama. Na China, a amizade ntima estabelecida entre mulheres solteiras
era mal vista mas tolerada. Miss Guang, nascida em 1903, tinha dinheiro
e era um dos maiores investidores da tia-av. Tornou-se vice-presidente
do banco. Mais tarde, a tia-av adoptou uma filha. (Esta era uma prtica
comum em mulheres com meios, mas sem filhos, exigindo poucas
formalidades.) O pessoal da casa era constitudo por trs criadas, um
cozinheiro e um motorista. Recebiam muito. Muitas transaces eram
negociadas durante o almoo, ao sabor de uma boa sopa de barbatana de
tubaro, no apartamento da tia-av. Aos 26 anos, o terceiro irmo mais
velho da tia-av, o meu Ye Ye, contraiu um casamento arranjado atravs
de uma mei por (casamenteira chinesa). A minha av, ento com 15 anos,
provinha de uma importante famlia' de Xangai. O casamento de ambos foi
um casamento men dang her fluis (a porta certa encaixa na ombreira da
casa certa). Do outro lado da rua onde estava instalada a casa de ch do
meu bisav, o pai da noiva possua uma pequena ervanria, cheia de
folhas secas, razes, p de chifre de rinoceronte, haste de veado,
vescula de cobra seca e outras poes exticas. Os noivos viram-se pela
primeira vez no dia do seu casamento, em 1903. Na vspera do casamento,
a av foi chamada  presena do pai. - Amanh passars a pertencer 
famlia Yen - ouviu ela. - A partir de agora, esta j no  a tua casa e
no poders entrar em contacto connosco sem autorizao do teu marido. O
teu dever  agradar ao teu esposo e aos teus parentes. D-lhe muitos
filhos. Esconde os teus prprios desejos. Torna-te para os Yen o seu
pote de cuspir e o seu bacio e sentiremos orgulho em ti. No dia
seguinte, uma noiva trmula, vestida de seda vermelha e de rosto coberto
por um vu tambm de seda vermelha, foi depositada em casa da sua futura
famlia, numa cadeirinha de seda vermelha e dourada , -previamente
alugada numa loja especializada em casamentos e funerais- onde estavam
pintados a fnix e o drago. O cortejo do casamento foi colorido e
bamlhento, ladeado de lanternas vermelhas, bandeiras, ao som das
trombetas e do troar dos gongos. Constitua um ponto de honra para as
famlias delapidarem o que tinham nestas ocasies. Contudo, no caso dos
meus avs, os amigos e parentes ofereceram inmeros presentes de
casamento, entre os quais se contavam grandes prendas em dinheiro para
que pudessem fazer face s despesas. Os receios da noiva no tinham
razo de ser, pois Ye Ye provou ser meigo e atencioso. Por insistncia
dela, o casal quebrou a tradio e abandonou a casa da famlia Yen,
mudando-se para uma casa prpria, alugada na Concesso Francesa.
Autodidacticamente, a av dedicou-se ao estudo da matemtica e da
tirava grande proveito nos jogos dirios de mah-jong. Lembro-me dela
como um esprito sagaz, com uma vontade de ferro, uma fumadora
inveterada, de ps ligados, cabelo curto e uma lngua cortante. Aos 3
anos de idade, os ps da av tinham sido fortemente apertados com
ligaduras longas e estreitas, que comprimiam os quatro dedos menores por
debaixo da planta do p, de tal modo que apenas o dedo grande se
estendia. Estas ligaduras eram apertadas diariamente durante anos,
esmagando dolorosamente os dedos e impedindo permanentemente o
crescimento do p, por forma a obter-se um pezinho minsculo, to do
agrado do homem chins. Na realidade, as mulheres eram deliberadamente
deformadas e a sua incapacidade para andarem com facilidade simbolizava
tanto a subservincia como a riqueza da prpria famlia. Os ps da av
foram, durante toda a sua vida, a causa de muitas dores. Mais tarde
preferiu enfrentar o ridculo aos olhos da sociedade a infligir  sua
prpria filha o mesmo sofrimento. Os meus avs vieram a amar-se e
tiveram sete filhos, uns a seguir aos outros. De todos eles, s os dois
mais velhos sobreviveram. A tia Baba, nascida em 1905, e o meu pai, que
veio ao mundo dois anos mais tarde. 23 A 10 de Outubro de 1911, na
altura em que a tia Baba tinha 6 anos, a dinastia manchu viu chegar o
seu fim. O Dr. Sun Yat Sen, chefe dos revolucionrios chineses,
regressou a Xangai, vindo do exlio, triunfal mente aclamado no dia de
Natal desse mesmo ano. Foi nomeado presidente da Repblica da China e um
dos seus primeiros actos foi abolir o costume de ligar os ps das
mulheres. Ye Ye sustentava a famlia atravs da compra e aluguer de uma
pequena frota de sampanas 6 que cruzavam a superfcie do rio Huangpu no
bulcio das guas de Xangai. As mercadorias eram transportadas de e para
o interior da China, para serem depois carregadas nos cargueiros
transocenicos ancorados em frente do Bund. Ye Ye nunca jogava e jamais
gastava o seu dinheiro em bordis ou em pio. Quando chegou aos 40 anos,
j tinha acumulado uma riqueza considervel. Foi ento abordado pelo
jovem K. L. Li, o dinmico proprietrio de uma prometedora companhia de
importao-exportao - a Hwa Chong Hong -, para que se tornasse gerente
da companhia em Tianjin, uma cidade porturia a cerca de 1600
quilmetros a norte de Xangai. O certo  que Ye Ye tinha um segredo:
enjoava sempre que viajava de barco e detestava pr um p que fosse nas
suas prprias sampanas. Assim, e apesar de o seu prprio negcio estar
em franco desenvolvi mento, decidiu vend-lo e mudar- se para o Norte,
deixando para trs a famlia, pois a tia Baba e o pai frequentavam ambos
aquelas que eram consideradas das melhores escolas missionrias
catlicas na China e ele no desejava de modo algum perturbar-lhes os
estudos. 6 Pequena embarcao chinesa usada no transporte de passageiros
ou carga. (N. da T.) 2 Dian Tie Cheng Jin Transformar ferro em ouro No
ano de 1918, quando Ye Ye se mudou para ~ ;~ Tianjin (ou trio Celeste),
o ltimo imperador da dinastia Qing havia sido destitudo e a China
dividira-se em pequenos feudos governados por senhores. Ao norte, o
Japo tinha j a Coreia sob controlo e voltava agora os olhos para a
China. Na Conferncia de Paz de Versalhes, no fim da primeira guerra
mundial, o Japo recebera autorizao da Gr-Bretanha e seus aliados
para ficar com as colnias alems na provncia de Shandong, como
recompensa por ter mantido a neutralidade. Assim encorajado, o Japo
iniciava a sua marcha em direco  Manchria. Os soldados japoneses
infiltraram-se depois no Sul, em direco a Tianjin. Situada nas longas
e frteis plancies do Nordeste, Tianjin era o segundo maior porto dos
tratados. Fora aberto ao comrcio aps a segunda derrota da China pela
Gr-Bretanha (e Frana) durante a Segunda Guerra do pio, em 1858. O
Tratado de Tianjin acrescentara dez novos portos entre a Manchria e
Taiwan. A cidade enfermava de 24 25 Veres quentes e secos e de Invernos
extremamente gelados. Em terreno plano, cruzado por diversos braos
fluviais do rio Huai, era tambm dada a inundaes. Entre Novembro e
Maro os rios estavam gelados e, ocasionalmente, havia tempestades de
areia. Enquanto a arquitectura em Xangai reflectia primordialmente as
influncias inglesa e francesa, os edifcios de Tianjin formavam um
espantoso caleidoscpio de estilos arquitectnicos, que eram em si
mesmos a imagem dos pases aliados na derrota da imperatriz Tsu Hsi
durante a Revolta Boxer, em 1903. Alm de edifcios de escritrios de
traa vitoriana e de igrejas francesas, havia tambm dachas russas, um
castelo prussiano, vilas italianas, casas de ch japonesas e chals
alemes e austro-hngaros, todos eles situados em concesses separadas,
que se sucediam umas s outras, acompanhando a curva do rio. Mais uma
vez Ye Ye voltou a escolher a sua casa na Concesso Francesa, um enclave
em forma de lngua, espartilhado entre os Japoneses ao Norte, os
Britnicos ao Sul e os Russos do outro lado do rio. A rea da concesso
estava cuidadosamente arranjada, com avenidas arborizadas, linhas de
elctricos, uma imponente igreja catlica, escolas missionrias e
alegres espaos verdes. Entretanto, nunca os negcios tinham corrido to
bem. Tanto Tianjin como Xangai prosperavam. Dinheiro britnico,
americano, europeu e japons voltava a entrar na China com o final da
primeira guerra mundial. Ao e cimento substituam as anteriores
estruturas vitorianas ao longo do rio. As fbricas surgiam nas reas
industriais para a produo txtil em l e algodo, tapetes, vidro,
cimento, ladrilhos, papel, sabo, fsforos, pasta de dentes, farinha e
outros produtos alimentares. Sob a gesto de Ye Ye, a Hwa Chong Hong
conheceu a prosperidade. E ficou mesmo encantado quando verificou que o
bnus que tradicionalmente lhe era concedido pela altura do Ano Novo
chins excedia largamente o seu salrio anual. Para celebrar a sua
prosperidade, amigos e colegas de trabalho instavam-no a tomar uma
concubina que o "servisse". At o prprio patro de Ye Ye, K. C. Li, que
estudara em Londres, se prontificou alegremente a "oferecer-lhe" algumas
raparigas juntamente com o seu bnus. De tudo isto Ye Ye deu parte 
mulher numa carta escrita com grande naturalidade, acrescentando
ternamente que era um "homem de uma s mulher". Pouco tempo depois de
ter recebido esta carta, a av e a tia Baba, ento com 15 anos,
apressaram-se a ir ter com ele a Tianjin, deixando 26 para trs o meu
pai, na altura com 13 anos, ao cuidado da minha tia-av. A tia Baba
recebeu instrues para deixar de estudar, pois os grandes estudos eram
considerados prejudiciais ao bom casamento de uma jovem. Confcio tinha
afirmado que "apenas as mulheres ignorantes eram virtuosas". O pai ficou
em Xangai e continuou a frequentar Chen Tien, uma escola catlica para
rapazes. O seu ingls era excelente e Ye Ye aconselhou-o a no deixar o
ptimo professor que tinha na poca, um missionrio irlands. O pai
viveu com a tia-av at ao final dos seus estudos secundrios, cinco
anos mais tarde. Durante esse tempo converteu-se ao catolicismo,
recebendo o nome de Joseph. Desenvolveu tambm uma estreit relao com
a tia-av, que se tornou para ele um exemplo a seguir. Quando terminou o
liceu, em 1924, o pai decidiu no ir para a universidade. Juntou-se 
famlia em Tianjin e arranjou um emprego de paquete num escritrio na
firma Hwa Chong Hong, sob a superviso de Ye Ye. Apesar de receber um
magro salrio e de ocupar um lugar sem qualquer importncia, o pai
afirmaria mais tarde ser essa a melhor educao para um adolescente
inteligente e sem qualquer experincia. Aprendeu ento na prtica tudo o
que se relacionava com o negcio de importao-exportao. Devido  sua
fluncia em ingls, K. C. Li depressa entregaria ao pai toda a
correspondncia da firma que era necessrio redigir e traduzir. O pai
comprou uma mquina de escrever em segunda mo e muitas vezes, j em
casa, a seguir ao jantar, escrevia importantes cartas de negcios, com
toda a famlia apinhada em redor da mesa de jantar na maior admirao.
Certa vez, Ye Ye perguntou em voz alta como reagiriam os chefes dessas
importantes companhias se algum dia descobrissem que documentos da maior
importncia e que valiam centenas de milhares de tais de prata estavam
a ser martelados com um s dedo por um rapaz de 18 anos acabado de sair
do liceu. A Hwa Chong Hong desenvolveu relaes lucrativas com
importantes companhias farmacuticas, incluindo a firma alem Bayer.
Grandes quantidades de uma planta chinesa chamada ma huartg' eram
adquiridas pela Hwa Chong Hong para exportao. A mesma planta fora
utilizada por ervanrios chineses durante sculos no tratamento da
Conforme o original. (N. da T.) 27 asma e do mal-estar. Provavelmente,
os cientistas ocidentais identificaram e extraram a componente-chave da
planta, a efedrina. Esta era ento reimportada pela China na sua forma
mais pura, para ser finalmente vendida nas farmcias de medicina
ocidental. Entretanto, fora das concesses estrangeiras, a presena
militar japonesa em Tianjin tornava-se cada vez mais forte. Cruis e bem
armados, os soldados japoneses eram a lei e tratavam os Chineses com
desprezo. A prosperidade da Hwa Chong Hong no passou despercebida aos
Japoneses. A sede da companhia situava-se no exterior da Concesso
Francesa e, como tal, no era protegida pela lei francesa. K C. Li era
insistentemente convidado a "colaborar". No existiam ordens formais,
apenas ameaas vagas que apontavam para a necessidade de "proteco
contra elementos criminosos". Durante uma "visita" de rotina efectuada
pelos inspectores japoneses, os empregados de K. C. foram
indiscriminadamente espancados por no mostrarem respeito suficiente
pelas fotografias do imperador do Japo existentes em jornais velhos,
que eram cortados e usados como papel higinico. K. C. apercebeu-se de
que a situao poderia explodir a qualquer momento. Em vez de ceder 
represso japonesa, decidiu abandonar Tianjin. O pai no seguiu a Hwa
Chong Hong. Em vez disso, aos 19 anos, em 1926, iniciou a sua prpria
firma dentro da Concesso Francesa de Tianjin: a Joseph Yen & Company.
Ye Ye acreditava de tal modo na oportunidade do negcio do pai que
investiu todas as suas economias - cerca de 200 000 tais de prata (o
equivalente a mais de 1 milho de dlares americanos em moeda actual) -
na firma criada pelo seu filho. Ye Ye demitiu-se da Hwa Chong Hong e
tornou-se o director financeiro da nova empresa. No houve assinatura de
contratos formais entre pai e filho. Tambm no ficou claro se o
dinheiro investido era uma oferta ou um emprstimo. Todavia, Ye Ye tinha
poder para assinar todos os cheques da companhia e conseguiu arrancar do
pai uma promessa verbal de que olharia por todos os membros da famlia e
pagaria todas as despesas, incluindo o dote da tia Baba, no caso de ela
vir a casar. Por esta altura a minha tia tinha j deixado Tianjin e
estava a viver em Xangai. O banco da tia-av, acabado de abrir,
prosperava. Havia uma necessidade urgente de empregadas de confiana e a
tia Baba foi enviada para trabalhar no banco. A companhia fundada pelo
pai prosperou desde o incio, agarrando a maioria dos negcios deixados
para trs pela Hwa Chong Hong. 28 A exportao de ma huang continuou e o
mesmo aconteceu com a de sementes de noz, chapus de palha, cera para
velas, cerda de porco e frutos secos; no ramo das importaes
contavam-se as bicicletas e os produtos farmacuticos. Numa atmosfera de
turbulncia poltica e de uma presena japonesa cada vez mais dominante,
muitos negcios surgiam no mercado a preos extremamente baixos e a
companhia do pai expandiu-se rapidamente atravs da compra de aces. Em
breve adquiria uma serrao, uma fbrica de tecelagem e uma linha de
montagem de acessrios para bicicletas. O pai conseguiu manter a
lealdade do pessoal que estava em postos-chave atravs de incentivos sob
a forma de aces das suas novas companhias. A tia-av e o seu banco
desempenharam um papel crucial no xito inicial dos negcios do pai e no
seu rpido desenvolvimento. Era ela quem tinha os contactos em Tianjin,
entre os quais o gerente da sucursal local do Banco de Xangai. Com a sua
ajuda, a Joseph Yen & Company conseguiu emitir letras de crdito no
valor de meio milho de dlares americanos garantidos pelo Women's Bank,
da tia-av. O acordo que tinham entre ambos era a diviso dos lucros
lquidos depois de deduzidas as despesas, na proporo de 70/30 a favor
do pai. Centenas de milhares de tais de prata mudavam de mos a cada
transaco efectuada. Todos os negcios davam lucro e em trs anos nunca
sofreram prejuzo. O pai comeou a ser conhecido no mundo dos negcios
como o "rapaz maravilha" que possua o dom milagroso de dian tie cheng
fin (transformar ferro em ouro). As casamenteiras movimentavam-se 
volta do jovem magnata. Contudo, com a mesma altivez que lhe trouxera
vantagens nos negcios, declarava que no havia rapariga em Tianjin que
no fosse tristonha e provinciana. Mostrava assim preferir o brilho e a
sofisticao das jovens de Xangai. 29 3 Ru ying sui xing Inseparveis
como a prpria sombra No final dos anos 20 Xangai era uma cidade
inebriante para uma jovem como a tia Baba. Enquanto no resto da China se
viajava ainda em carroas, cadeirinhas e canoagens puxadas por cavalos,
em Xangai os automveis importados corriam as avenidas pavimentadas ao
lado de elctricos e autocarros. Placares gigantes e coloridos
anunciavam cigarros britnicos, filmes de Hollywood e produtos de beleza
franceses ao longo de passeios apinhados de jovens de fato e gravata e
de raparigas de sapatos de salto alto vestidas com gipaos cheios de
estilo. O Bund, muito prximo do Women's Bank, na Rua de Nanquim,
transformara-se num cenrio de edifcios majestosos que acompanhavam a
margem do rio Huangpu. Barcos de guerra, vapores, sampanas e rebocadores
engrinaldavam as guas lamacentas. Armazns de vrios andares, como o
Sincere, Wing-On, Dai-Sun e Sun-Sun, transbordavam de peles, jias,
brinquedos, artigos de casa, ornamentos e artigos que constituam o
ltimo grito da moda parisiense. Suficientemente gran 30 des para
rivalizarem com o Selfridges, de Londres, ou o Macy's, de Nova Iorque,
estes emprios faziam saldos de fim de estao, distribuam cupes e
prmios e chegavam a realizar concertos e representaes teatrais nos
jardins dos seus terraos. A tia Baba tornou-se amiga de uma rapariga um
ano mais nova do que ela e que trabalhava no novo departamento de
contabilidade. Miss Ren Yong-ping tinha a capacidade de efectuar de
cabea complicadas converses cambiais com uma preciso e velocidade
espantosas. Mesmo quando a tia-av verificava os clculos com o baco,
chegava  concluso de que ela nunca-se enganava. Brilhante, bem-
disposta e cheia de vida, o sorriso fcil e meigo tornava-a atraente.
Miss Ren era oriunda de uma famlia da classe mdia de Xangai que lutara
para singrar na vida depois do pai, um empregado dos correios, se ter
viciado no pio e haver passado os ltimos vinte anos da vida com o
esprito nublado pela droga. nica rapariga, tinha trs irmos mais
novos, dois dos quais trabalhavam tambm nos correios, tendo chegado ao
lugar de inspectores. Ela prpria foi rapidamente promovida pela tia-av
a chefe do novo departamento de contabilidade. A trabalhar nos pisos
inferiores e passando o seu tempo livre no dormitrio, as duas raparigas
depressa se tornaram grandes amigas. A tia Baba recorda-se de uma altura
em que ela e Miss Ren almoaram sozinhas no restaurante dos armazns
Sincere, ao tempo conhecido como o "Harrod's de Xangai", porque o
edificio era muito semelhante ao dos famosos armazns londrinos. As duas
amigas chamaram riquexs que as transportaram ao longo da movimentada
Rua de Nanquim, onde os semforos eram controlados manualmente por
polcias Sikh de turbantes vermelhos, instalados em pequenas cabinas
localizadas no topo de postes, cerca de trs metros e meio acima do
cho. O restaurante era elegante, as mesas tinham toalhas brancas,
flores naturais e copos de cristal. Nos menus havia apenas pratos
ocidentais, desconhecidos de ambas. No havia comida chinesa. Um pouco
intimidadas pelo empregado de mesa de fato escuro, perguntaram a medo se
havia um prato do dia. Informada de que havia re gous (carne de co,
servida quente), a tia Baba no se atrapalhou muito. J tinha ouvido
dizer que em algumas provncias chinesas a carne de co era considerada
uma iguaria. Miss Ren, porm, estava 3 Ru Ying Sui Xing Inseparveis
como a prpria sombra a Conforme o original. (1V. da T.) 31 muito mais
hesitante, porque se lembrava do co que havia em casa da famlia. Muito
despachada, observou que o "prato do dia" significava geralmente "restos
do dia anterior". O empregado estava a ficar impaciente. Era um daqueles
chineses que tinham adoptado a arrogncia dos estrangeiros e preferia
servir  mesa quando os seus clientes eram brancos das concesses.
Naquela ocasio, as duas raparigas eram as nicas chinesas no
restaurante. Comearam a sentir-se como duas simplrias e, mais para se
verem livres do empregado do que por qualquer outro motivo, pediram a
carne de co. A tia Baba foi agradavelmente surpreendida por uma
salsicha, servida no po, e comeu-a com apetite. Para Miss Ren, contudo,
era impossvel deixar de pensar no cozinho que tinha em casa e no
conseguiu passar da primeira dentada. Riram-se com gosto quando,
finalmente, a tia-av lhes explicou que ~h ~~ re gott "carne de co,
servida quente" era, na realidade, o clssico cachorro quente americano.
Numa das inmeras viagens de negcios que o pai fazia a Xangai, ao
Women's Bank, foi apresentado a Miss Ren. ~~ r~ ~ ~, Xiao giao lirtg
loatg (pequenina, viva e interessante) foi o veredicto do pai. Comearam
a escrever-se. Cinco meses mais tarde estavam casados. Houve um enorme
banquete oferecido no Restaurante Xin Ya (Nova sia), situado na
Concesso Internacional, logo  sada da Rua de Nanquim. Alm dos
familiares directos, foram convidados parceiros comerciais do pai e da
tia-av. Corria o ano de 1930. O pai levou a noiva para Tianjin e
comprou uma casa grande no n. 40 da Rua Shandong, comodamente situada
no centro da cidade da Concesso Francesa e muito perto de um jardim
pblico. Do outro lado da rua situava-se o colgio catlico masculino de
St. Louis. Foi um casamento feliz e em quatro anos tiveram quatro
filhos. O jovem casal era ~u pi ~~s rtt yitag sui xing (inseparvel
como a prpria sombra). Primeiro nasceu uma menina. O beb era grande e
a Dr.a Mary Mei-ing Ting, obstetra, teve de usar o frceps durante um
parto difcil. Foi necessrio fazer fora e o beb (Jun-pei, a minha
irm mais velha) nasceu com o brao esquerdo parcialmente paralisado.
Nasceram depois trs filhos (Zi-jie, Zi-lin e Zi-jun). Passaram-se trs
anos antes que eu, Jun-ling, viesse ao mundo. A casa onde vivia a nossa
famlia era espaosa, tinha dois andares e ainda um grande sto, onde
os criados dormiam. Com as suas 32 janelas em arco, varandas, um
alpendre encantador e um bonito jardim, era considerada ultramoderna,
pois possua casas de banho com autoclismo, gua corrente e aquecimento
central. Este ltimo constitua o maior dos luxos: muitas casas chinesas
eram ainda aquecidas atravs de tijolos quentes, a que se dava o nome de
kangs9. O pai transformou o piso trreo em escritrios para alguns
elementos do seu pessoal. O resto da famlia vivia com Ye Ye e a av no
2. andar. Sete criados cuidavam da vida domstica. O pai comprou um
grande Bttick preto para seu uso pessoal e um riquex preto para a av
utilizar nas visitas aos amigos ou quando ia jogar mah jong. Muitas
vezes a tia Baba apanhava o comboio de Xangai para Tianjin - uma viagem
que naqueles tempos demorava dois dias - e fazia longas visitas. O pai e
a me iam busc-la  estao no Buick e os trs passavam horas a pr a
conversa em dia, tagarelando sobre as ltimas novidades de Xangai ou
sobre os ltimos triunfos comerciais da tia-av. Saam para comer fora,
ir ao cinema ou  pera chinesa. Segundo a tia Baba, foi um tempo
idlico para todos eles. Na altura em que nasceram os meus trs irmos,
a obstetra da me, a Dr.a Ting, era j quase um membro da famlia. Tal
como a tia-av, que tinha sido sua colega de escola e amiga de infncia,
tambm ela tinha sido educada em Xangai, no colgio McTyeire.
Convertera-se ao cristianismo e aos 15 anos fora rapidamente empurrada
para um casamento arranjado. O noivo provinha de uma famlia rica, mas
estava j nessa altura doente, tinha acessos de dores e era viciado no
pio. No dia do casamento, a noiva desapareceu como que por encanto. Os
pais foram processados e obrigados a pagar  famlia do noivo um elevado
nmero de tais de prata como forma de compensao pela quebra da
promessa, para alm de terem perdido a face. Com a ajuda de um tio, Mary
escapara para Hong-Kong, onde prosseguiria os estudos numa outra escola
missionria. O tio de Mary seguiu-a para Hong-Kong, cortou a trana e
enviou-a  famlia em Xangai em gesto de desafio. Tratava-se de um crime
grave que correspondia a uma declarao pblica de rebelio contra o
imperador Qing. (Depois de os Manchus terem conquistado a China, em
1644, tinham imposto o uso de testa rapada e trana a todos os chineses,
vincando assim o seu domnio). Mary e o tio foram ambos deserda '
Conforme o original. (N. da T.) 33 dos. Em Hong-Kong ele empregou-se
para pagar os estudos de Mary. Mais tarde, ela obteve uma bolsa para a
Faculdade de Medicina da Universidade de Michigan e especializou-se em
Ginecologia e Obstetrcia. De regresso  China, preferiu estabelecer-se
em Tianjin em vez de Xangai, onde a perseguiam recordaes dolorosas.
Fundou o seu Women's Hospital e tornou-se a melhor obstetra da cidade. A
minha irm e os meus trs irmos mais velhos nasceram todos no hospital
da Dr.a Ting. Quando a minha me ficou  espera de mim prpria, a
situao poltica na China tinha-se deteriorado drasticamente. Em 1928 o
senhor da guerra manchu, Chang Tso-lin, foi assassinado pelos Japoneses
enquanto viajava de comboio na sua carruagem privada. Nos anos seguintes
a Manchria seria invadida por soldados japoneses. Em 1932
estabeleceu-se um regime fantoche (Manchukuo ou Nao dos Manchus) sob o
imperador Puyi, ento uma criana. Os Estados Unidos recusaram um
envolvimento directo. A Gr-Bretanha voltou as costas e recomendou um
acordo. A Liga das Naes prometeu investigar. Chiang Kai-shek,
comandante-chefe do exrcito e chefe do Partido Nacionalista
(Kuomitang), estava totalmente ocupado no combate aos comunistas; estes,
por seu lado, tinham formado um exrcito prprio e um governo na
cidadela rural de Yan'an, na regio noroeste da China. Animado, o Japo
decidiu lanar um ataque em grande escala a Tianjin e Beijing em Julho
de 1937. Foi este o incio da Guerra SinoJaponesa, que durou oito longos
anos. Havia soldados japoneses por todo o lado, usando mscaras
cirrgicas, carregando baionetas, exigindo vnias e obedincia,
aceitando subornos e ameaando com violncia. As concesses estrangeiras
mantiveram-se neutras, pequenos parasos de independncia instvel num
vasto mar de terror japons. O restante territrio de Tianjin vivia
agora sob a enorme vaga de pavor dos Japoneses. Ao anoitecer havia
black-outs e recolher obrigatrio. Para cruzar determinados pontos
durante a noite eram necessrias autorizaes especiais, principalmente
nas ruas e pontes que ligavam as concesses s reas patrulhadas por
japoneses. A minha me entrou em trabalho de parto s 4 da manh do dia
30 de Novembro de 1937. O pai no tinha a autorizao necessria para
que ela atravessasse os postos de controlo japoneses em direco ao
Women's Hospital. No entanto, a Dr.a Ting possua um passe que lhe 34
permitia viajar livremente durante a noite. O seu Ford preto, conduzido
por um motorista e ostentando uma bandeirinha dos Estados Unidos, chegou
a casa dos meus pais uma hora mais tarde. Nasci sem novidade de maior. A
Dr.a Ting aconselhou o pai a transferir a me e o beb para o seu
hospital para um check-crp e alguns dias de descanso. O pai hesitou. O
nascimento tinha sido to suave e rpido que considerou a medida
desnecessria. Tambm rejeitou o conselho da Dr.a Ting para contratar
uma enfermeira que cuidasse da minha me. Achava que ele prprio podia
olhar por ela, com a preciosa ajuda da tia Baba, que, nessa altura,
estava de visita. Alm disso, as enfermeiras com experincia eram
dispendiosas.  cabeceira da me foi colocada uma campainha especial
para que pudesse chamar o pai sempre que precisasse. A me estava fraca
e por isso, em vez de utilizar a casa de banho do corredor, era mais
fcil colocar-lhe uma arrastadeira. Depois o pai vinha limp-la com uma
toalha, sem luvas e sem lavar previamente as mos. A me achava que o
pai sabia o que estava a fazer. O pai estava convencido de que sabia o
que estava a fazer. Trs dias depois do meu nascimento comearam as
dores de cabea e a febre. A temperatura da me subiu acima de 40C e a
ficou. Os lbios estavam ulcerados. O raciocnio turvou-se e ela
tornou-se incoerente. A Dr.a Ting fez o diagnstico: febre puerperal.
Nesse tempo, quando a penicilina ainda no existia, este diagnstico
equivalia a uma sentena de morte. A minha me deu entrada imediata no
Women's Hospital. Puseram-na a soro e, por via intravenosa,
administraram-lhe diversos medicamentos, numa tentativa desesperada para
a salvar. A temperatura subiu a 41C. Delirava, recusava todo o tipo de
alimentos e bebidas, tentou arrancar todos os tubos, proferindo
acusaes cruis cntra a Dr.a Ting, afirmando que estava a tentar
prend-la e envenen-la. A mdica compreendeu que no havia qualquer
esperana e autorizou que fosse para casa, para morrer. O seu estado
agravou-se. Os mdicos vieram, uns aps outros, mas em vo. Uma nuvem
negra pairava sobre toda a famlia. Com a aproximao do fim veio tambm
um curto perodo de lucidez. Com o pai em lgrimas  cabeceira, ela
falou aos seus sogros, observou as crianas uma por uma, chamando-as
pelo nome com saudade. Quando a tia Baba se veio despedir, a me estava
fraca, 35 mas perfeitamente lcida. Sorriu-lhe e pediu-lhe um cachorro
quente. Depois acrescentou tristemente: - O meu tempo chegou ao fim.
Quando eu me for embora, por favor, olha por esta nossa amiguinha, que
nunca conhecer a me. A minha me morreu duas semanas depois de eu ter
nascido, com cinco mdicos  cabeceira. Tinha apenas 30 anos e no sei
sequer como era o seu rosto. Nunca vi o seu retrato. 36 4 Xiu Se Ke Can
Encantos suficientemente surpreendentes para uma festa Aps a morte da
minha me, a av e o pai convenceram a tia Baba a deixar o seu emprego
no Women's Bank para ir para Tianjin tomar conta da casa. Foi assim que
foi includa na lista de pagamentos da Joseph Yen & Company, recebendo
um salrio igual ao que tinha quando trabalhava para a tia-av. A tia
Baba apressava os criados e resmungava com eles, assegurando que as
lides domsticas decorressem conforme as directivas de outrora.
Tornou-se uma me substituta, preocupada com as nossas refeies,
roupas, a escola e a sade. Assim,  volta dos seus pulsos voluntariosos
foram colocadas como que umas algemas de seda, que inviabilizaram todas
as hipteses de um casamento e da criao da sua prpria famlia. Nesse
tempo, na China, esperava-se que as mulheres sublimassem os seus desejos
ao bem-estar da sua famlia. Em troca, os homens assumiam o compromisso
de honra de as proteger e sustentar at ao fim da vida. 37 As
casamenteiras voltaram a surgir, no por causa da tia Baba, mas por
causa do seu irmo, que acabara de enviuvar. Dois padres diversos
abrangiam homens e mulheres: as raparigas que ainda estivessem solteiras
aos 30 anos deveriam permanecer como tal para o resto da vida, ao passo
que dos homens se esperava que tomassem pelo menos uma esposa,
independentemente da idade que tinham. O pai tinha acabado de fazer 30
anos e dirigia a sua prpria companhia, possua propriedades,
investimentos e os seus muitos negcios floresciam. Trabalhara
arduamente para conseguir chegar onde chegara, colocando os negcios e o
bem- estar da famlia  frente da sua realizao pessoal. Agora estava
decidido a agradar a si prprio. Um domingo  tarde, de passeio pela
vizinhana com os filhos no vistoso Buick que possua, avistou a sua
secretria, Miss Wong,  porta de um modesto complexo de apartamentos a
conversar com uma amiga. Reparou de imediato que se tratava de uma amiga
muito jovem e que possua xiu se ke can (encantos suficientemente
surpreendentes para uma festa). Jeanne Virginie Prosperi tinha 17 anos e
era filha de pai francs e me chinesa. Os seus traos eram uma
admirvel mistura de delicadeza chinesa com sensualidade francesa. Com o
rosto oval, tinha a tez de um branco-porcelana, olhos escuros, grandes e
brilhantes, completados por longas sobrancelhas. O rosto era coroado por
uma cabeleira espessa e sedosa cor de azeviche. Naquele dia, aquela
figura esguia usava uma simples blusa branca de decote quadrangular
arredondado e saia azul-escura atada por um lao  cintura. Mais tarde,
o pai viria a descobrir que Jeanne era uma costureira exmia e que
confeccionava as suas prprias roupas. No dia seguinte, no escritrio, o
pai fez algumas perguntas discretas a Miss Wong e descobriu que Jeanne
era sua colega de escola e tinha justamente comeado a trabalhar como
dactilgrafa no consulado francs. Durante a hora do almoo dirigiu-se
ao consulado sob pretexto de solicitar licenas de importao-
exportao para Frana, encontrou-a e travou conhecimento com ela. O pai
de Jeanne fora militar no exrcito francs e trabalhara na construo
dos caminhos-de-ferro na China. Desposara uma mulher da provncia de
Shandong. Tinham tido cinco filhos e pas sado tempos difceis. Ele
deixara o exrcito e arranjara trabalho como segurana numa firma da
Concesso Francesa em Tianjin. Fale cera subitamente em 1936, ao que
parece, quando tentava impedir uma rixa de bar. A viva fez o melhor que
pde. Recebia uma pequena penso de viuvez. Juntamente com uma irm
solteira, Lao Lao, dedicou-se  costura a fim de conseguir sustentar-se.
Cidados franceses, as cinco crianas receberam bolsas de estudo
especiais, atribudas pelas escolas missionrias dentro da Concesso
Francesa. Tanto Jeanne como a sua irm mais velha, Reine, receberam o
diploma da St Joseph's Catholic School for Girls, um colgio de freiras
franciscanas. Embora Jeanne no tivesse um estatuto social digno de
nota, formara-se no melhor colgio religioso de Tianjin, tendo adquirido
alguns dotes que lhe permitiam brilhar socialmente. Alm de mandarim,
falava fluentemente francs e ingls. O pai ficou encantado com a sua
beleza e o seu estilo. O facto de ter sangue europeu fazia dela um
trofu que tinha de ser conquistado, aplaudido e exibido. Durante os
anos 30, nos portos dos tratados como Tianjin e Xangai, tudo o que era
ocidental era considerado superior quilo que era chins. Uma esposa
europeia jovem, bonita e instruda representava o nvel mximo em termos
de estatuto social. Jeanne Prosperi possua, assim, um encanto
considervel. Estava sempre perfeitamente arranjada, uma caracterstica
que manteve ao longo de toda a sua vida. Ainda adolescente, mostrava
todo o encanto da modstia que lhe fora instigada no convento. Alm
disso, havia um brilho nos seus olhos, que revelava mais do que uma
vulgar rapariga acabada de sair do colgio. O pai comeou a desejar
Jeanne desesperadamente, num desejo em que a atraco sexual se
misturava com as suas aspiraes sociais. Iniciou-se um namoro em
conformidade com as leis do decoro. Todos os dias o pai a ia buscar ao
consulado francs para a levar a casa, poupando-a aos desconfortveis
apertos dos transportes pblicos de Tianjin. Frequentavam restaurantes
caros nos hotis, danavam no cottntry clttb e iam ao cinema. Tianjin
orgulhava-se de possuir trs cinemas - o Gaiety, o Empire e o Capitol -,
que exibiam filmes romnticos de Hollywood. Primeiro ele ofereceu-lhe
flores e bombons; depois prolas, jade e diamantes. O valor das jias
aumentou progressivamente. Jeanne teve certamente uma ideia bastante
clara acerca do rumo que as coisas estavam a tomar no momento em que
falou do seu desejo de possuir um casaco de zibelina russo no valor de
4000 tais de prata. Embora Ye Ye tivesse objectado na presena de
Jeanne, 38 39 referindo-se ao facto como uma "extravagncia sem
sentido", o pai efectuou a compra e mandou entregar o casaco trs dias
mais tarde. O facto de o pai ter tido uma atitude to pouco filial era
um sinal claro da sua paixo por Jeanne. Tudo comeou da mesma forma que
iria continuar: Jeanne impunha as condies e o pai concordava com elas.
Tal como dizem os Chineses: para o pai at os gases de Jeanne cheiravam
bem. O pai tambm soube tornar-se agradvel para com a famlia dela. A
casa de Jeanne ficava apenas a acerca de um quilmetro e meio da Rua
Shandong. Ciente de que a sua bonita filha estava prestes a entrar num
mundo muito mais luxuoso do que aquele que algum dia poderia
proporcionar- lhe, a Sr.~ Prosperi encorajou o namoro. O pai suspeitava
de que a Sra. Prosperi provinha de uma famlia de camponeses. No
apartamento alugado e exguo onde viviam, a conversa cingia-se aos temas
ligeiros do dia-a-dia. O mandarim que falava era colorido por um forte
sotaque de Shandong e o seu francs era apenas de nvel elementar. No
sabia ler nem escrever nenhuma das lnguas. O seu filho mais velho tinha
tido problemas com a polcia e fora enviado para um campo de trabalho em
Hani. Quanto  filha mais velha, Reine, tinha casado havia pouco com um
francs que trabalhava para as Naes Unidas. Havia ainda dois filhos
mais novos. Mais tarde, o pai acabaria por dar um lugar na sua companhia
ao rapaz mais velho, Pierre, enviando o mais novo, Jacques, para Frana,
a fim de concluir os estudos. Quando se tornaram noivos, vieram os
brincos de diamantes, uma pulseira tambm de diamantes, um colar e um
anel to espectaculares como as restantes peas. Conforme a tradio,
Jeanne no levou dote. A cerimnia do casamento teve lugar na igreja
catlica de Notre-Dame des Victoires. O pai estava nervoso no seu
smoking de bom corte. Jeanne estava espectacular num vestido que
acompanhava a forma do corpo, debruado a renda, resplandecente com todas
as suas jias. Nenhum de ns, crianas, esteve presente. O cl Prosperi
tinha muitos convidados, incluindo um bom nmero de crianas. Segundo a
tia Baba, ela, Ye Ye e a av tinham-se sentido um tanto ou quanto
desconfortveis durante a luxuosa recepo oferecida pelo pai no grande
Astor House Hotel. Ye Ye acabou por ser um dos poucos convidados
masculinos vestidos com a longa tnica chinesa a condizer com o casco de
cetim ma-gua (casaco curto), chapu ajustado  cabea e sapatos de pano.
Os restantes convidados vestiam  ocidental, de fato e gravata. Os
convidados franceses pediam brindes sucessivos, ao passo que os chineses
no estavam acostumados a beber tanto. A minha tia pensava poder ter
envergonhado Jeanne e a sua famlia, pois por mais de uma vez se tinha
retirado para vomitar. Mais tarde, Jeanne queixou-se ao pai de que,
durante o banquete nupcial, alguns dos seus parentes chineses tinham
ofendido a sua famlia francesa pelo facto de falarem muito alto,
chegando mesmo a ser estridentes. Contudo, ao dizer isto, a sua
expresso era doce e aparentava modstia. O pai estava completamente do
lado dela, ao ponto de comear a adoptar ideias ambguas acerca da sua
prpria raa. Tendo crescido nos portos dos tratados, a observar
diariamente os smbolos do poder estrangeiro, a viver dentro dos limites
de uma concesso estrangeira no seu prprio pas governado pela
extraterritorialidade, o pai, como muitos outros chineses, via os
estrangeiros como mais espertos, mais fortes, maiores e melhores. Apesar
de Jeanne ser fluente em trs lnguas, no sabia ler nem escrever em
chins, orgulhando-se deste facto, que demonstrava, uma vez mais, a sua
herana ocidental. O gosto de Jeanne era o reflexo da sua origem mista.
Usava invariavelmente roupas ocidentais e sabia us-las. Gostava de se
ver rodeada por mobilirio francs, cortinas de veludo vermelho e papel
de parede de textura rica. Ao mesmo tempo, coleccionava porcelana
antiga, quadros e cadeiras chinesas. Gostava de plantas e flores que
perfumassem a entrada de casa, a sala de estar e o seu quarto. Tal como
a av, fumava sem parar. Penso que, no incio, Jeanne foi feliz. Ye Ye e
a av acolheram bem a ideia de o pai se casar outra vez, pois no estava
certo um homem jovem no ter uma esposa. Alm disso, a tia Baba foi
parcialmente libertada das suas obrigaes domsticas e, teoricamente,
poderia ter retomado o rumo da sua vida. Sobre a forma como a minha irm
e os meus irmos reagiram ao casamento, pouco posso dizer, pois na poca
era apenas uma criana. Mas h um provrbio chins que diz: se tiveres
de ter s um dos teus pais, prefere uma me pobre a um pai imperador. O
pai comprou a casa ao lado da nossa na Rua Shandong, ofereceu-a como
prenda de casamento  sua noiva e os recm-casados mudaram-se sozinhos.
O resto da famlia e os criados permaneceram na casa antiga, local onde
o pai continuava a manter os seus escritrios. A fa 40 41 mlia
reunia-se ao jantar todas as noites. O pai e Ye Ye continuaram a
trabalhar lado a lado no piso de baixo e o negcio prosperava. Como a
minha irm e os meus irmos mais velhos ainda falavam muitas vezes da
nossa falecida m.e, a quem chamavam ~-1~ Mama, a av disse-nos que
chamssemos a Jeanne ~~ Niang, uma outra palavra que tambm significa
me. Quanto a ns, Niang deu-nos novos nomes europeus. Da noite para o
dia, a minha irm Jun-per transformou-se em Lydia e os meus trs irmos
Zi jie, Zi-lin e Zi jun passaram a chamar-se Gregory, Edgar e James; eu,
Jun-ling, recebi o nome de Adeline. As tropas japonesas, que j ocupavam
Tianjin e Beijing, movimentavam-se agora claramente em direco ao sul.
Surpreendentemente, encontraram uma forte resistncia em Nanquim e, como
forma de retaliao, empreenderam uma orgia de terror na qual se
sucederam violaes, saques e assassnios. Mais de 300 000 civis e
prisioneiros de guerra foram vtimas de tortura e morte durante a
ocupao de Nanquim em 1937 e no incio de 1938, quando a cidade foi
capturada pelos Japoneses. Xangai capitulou e Chiang Kai-shek fugiu para
o Ocidente atravs da China, ao longo do rio Yangtse, penetrando nas
profundezas montanhosas da provncia de Sichuan. Foi nesse local, na
cidade de Chongqing, que instalou o seu governo em tempo de guerra. No
 difcil imaginar-se toda a tenso e a agitao que as sublevaes
polticas do momento imprimiram na vida familiar chinesa. Em 1939,
repentinamente e sem qualquer aviso prvio, Tianjin foi apanhada por uma
grande cheia. Foi um desastre de grandes propores. Ye Ye chamou-lhe "A
tristeza da China" e dirigiu-se ao templo budista para queimar incenso e
oferecer preces de su&gio. Os jornais pr- japoneses impressos em
Tianjin atribuam as culpas da catstrofe a Chiang Kai- shek, enquanto a
imprensa afecta ao Partido Nacionalista (Kuomitang) em Chongqing acusava
os Japoneses. Os diques no rio Amarelo tinham sido deliberadamente
dinamitados, libertando as guas do rio para que travassem o avano das
tropas. A cheia atingiu trs provncias, destruindo todas as colheitas 
sua passagem. Dois milhes de pessoas ficaram sem casa. Centenas de
milhares morreram de fome e doenas. As escolas foram encerradas. Os
negcios pararam. Contudo, a serrao do pai atingiu um alto nvel de
laborao. O preo dos brocos a remos disparou de 100 para 800 yzzan",
excluindo os remos. " Unidade monetria da R. P. C. (N. da T.) 42 Devido
 cheia, o pai teve de construir uma alta plataforma de madeira que unia
as suas duas casas. A travessia era escorregadia e perigosa,
especialmente para a av, que pululava em cima dos seus pezinhos
ligados. Niang tinha acabado de dar  luz o nosso meio_irmo, Franklin,
e estava ainda em convalescena. Na verdade, todas as noites, o pai
tinha de a transportar para a "casa velha", de modo que a famlia
jantasse reunida. Niang pouco se preocupava com as dificuldades que os
criados enfrentavam. Do cozinheiro esperava-se que fosse ao mercado
todas as manhs e que regressasse a casa com todos os artigos de
mercearia, fazendo o percurso numa jangada frgil, feita de tbuas
pregadas umas s outras. Quando Ye Ye falou dos perigos inerentes a
estas idas s compras, Niang respondeu apenas que o cozinheiro nadava
bem e que no achava apropriado colocar um barco a remos  sua
disposio. Quarenta dias mais tarde, quando as guas finalmente
desceram, a av ordenou a construo de um quarto, slido e coberto, que
ligasse as duas casas. Lydia passou a chamar-lhe "a ponte", um lugar
onde costumvamos brincar s escondidas. A criana mais nova da nossa
gerao, a nossa meia-irm Susan, nasceu em Novembro de 1941. Duas
semanas mais tarde, no dia 7 de Dezembro, do outro lado do Pacfico, em
Pearl Harbor, os bombardeiros japoneses atacaram a armada americana.
Subitamente, o Japo tornou-se aliado da Alemanha e entrou em guerra
contra a Amrica e os seus aliados europeus. Nesse preciso momento (8 de
Dezembro na China), os soldados japoneses, em carros blindados,
receberam ordem de avanar contra as frgeis barricadas de arame farpado
e de tomar posse das concesses estrangeiras situadas nos portos dos
tratados na China. Ao mesmo tempo, a marinha japonesa invadia a Malsia
e bombardeava Singapura. Num s dia, o conflito sino-japons fundia-se
com a guerra na Europa, alastrava para a Malsia, envolvia a Amrica e
transformava-se na segunda guerra mundial. Em Xangai e Tianjin, os
colonos britnicos e americanos, antes poderosos e invencveis, foram
conduzidos em massa para campos de concentrao japoneses. Da noite para
o dia, as Concesses Francesas foram transformadas em fantoches
comandados pelos Japoneses. Todo o comrcio, especialmente entre a China
e o Ocidente, passou a ser controlado de perto pelos novos senhores. O
tribunal francs de Vichy, que superintendia os negcios do pai, era
agora encabeado por um 43 novo juiz da Nova Ordem na sia oriental, um
governo fantoche liderado pelo traidor Wang Jhing-wei durante a ocupao
japonesa. Os poucos homens de negcios americanos em Tianjin
apressaram-se a fugir com as suas famlias e aquilo que puderam salvar
de entre os seus haveres. Nessa altura veio para nossa casa uma robusta
camponesa de 18 anos, apresentada por um dos colegas americanos do pai.
Ela pretendia vir a ser a ama de peito de Susan e pedia um salrio trs
vezes acima do habitual, fazendo notar que tinha estado ao servio de um
casal americano e estava habituada a "padres mais elevados". O seu
objectivo era economizar 500 y~~an at  altura em que Susan fosse
desmamada, para poder comprar um boi, regressar  sua aldeia natal e
criar o seu prprio filho ao lado do marido. O facto causou um rebolio
terrvel. Niang estava decidida a contratar a rapariga; ningum mais lhe
servia. Parecia pensar que s uma mulher que amamentara uma criana
branca americana estava  altura de amamentar a sua prpria filha. O pai
acedeu aos seus desejos, embora o salrio mensal de 30 yaran que pagava
 nova criada enfurecesse todos os outros empregados. Este ordenado era
supostamente secreto, mas todo o pessoal da casa depressa se deu conta
da discrepncia. A ama de Franklin exigiu um salrio igual para ela, bem
como para todos os outros. Depois de acusar Niang cara a cara de
discriminao injusta, esta voluntariosa empregada fez as malas e
partiu. A tia Baba teve ento a tarefa adicional de cuidar de Franklin,
que tinha na altura 2 anos e meio. Relutantemente, aceitou a tarefa, mas
a av fez notar que Franklin era to seu sobrinho como ns todos. Foi
ento que o meu irmo se juntou a mim e  tia Baba no nosso quarto. Ela
costumava comprar-nos "olhos de drago", um fruto semelhante  lchia,
que tinha fama de tornar os olhos das crianas grandes e brilhantes. A
tia Baba no se poupava a amabilidades connosco e comeou a ensinar-nos
os caracteres chineses elementares. A Lydia frequentava o colgio St.
Joseph's, a mesma escola em que Niang se graduara em 1937. Eu passei
tambm a frequentar o mesmo jardim de infancia no Vero de 1941. 44 5 Yi
Chang Chun Meng Um episdio de um sonho de Vero As memrias que tenho
de Tianjin so nebulosas. Fotografias de quando era muito pequena
mostram uma menininha com ar solene e punhos cerrados, lbios apertados
e olhos srios, vestida com lindos vestidos de corte ocidental
enfeitados com fitas e laos. Eu gostava da escola e estava sempre
desejosa de l chegar. Lydia e eu ramos levadas diariamente no riquex
negro e lustroso da av e voltvamos para casa da mesma maneira. De cada
um dos lados do carrinho havia uma lanterna de lato e uma campainha
para ser tocada com os ps. Quando volteia Tianjin, em 1987, fiquei
surpreendida ao verificar que eram precisos apenas sete minutos para
fazer o caminho a p de nossa casa at St Joseph's. Lembro-me de Lydia
como uma figura altiva e que impunha bastante respeito. Entre ns
existiam trs irmos e um espao de seis anos e meio. Havia um mundo que
nos separava. Lydia gostava de exercer a sua autoridade e de exercitar
os seus msculos "espremendo-me" nos trabalhos de casa, especialmente no
catecismo. A sua pergunta preferida era: - Quem te criou?, 45 Para esta
eu sabia sempre a resposta e papagueava a frase j gasta: - Foi Deus que
me criou. E ento vinha o aperto; um brilho iluminava-lhe os olhos: -
Porque  que Deus te criou? E a esta questo eu nunca consegui
responder, porque a professora nunca foi alm da primeira pergunta. Por
essa altura Lydia dava-me um sonoro bofeto com a sua forte mo direita
e chamava-me estpida. Du- rante as nossas viagens dirias de riquex,
ela gostava de me fazer esperar e atrasava-se sempre. Das raras vezes em
que fui eu a atrasar-me na aula, ela mandava o riquex avanar, ia
sozinha para casa e depois mandava o condutor voltar para me trazer.
Mesmo em criana tinha j tendncia para ser grosseira. A deformao
fsica que tinha fazia que tivesse uma postura caracterstica, com o
brao esquerdo semiparalisado, flacidamente pendurado, e o rosto
ligeiramente repuxado para a frente e eternamente enviesado para o lado
esquerdo. Da minha perspectiva de uma criana de 4 anos, ela era a
terrvel figura da autoridade. Gregory, o meu irmo mais velho, tinha
uma personalidade mais risonha e a capacidade contagiante de transformar
acontecimentos banais em festarolas. A sua joie de vivre`~ tornou-o
querido aos olhos de muitos. Ser o filho mais velho na China significava
ser o predilecto do pai e dos avs. Lembro-me dele, cheio de maldade, a
admirar fascinado um plo longo e negro que esvoaava para fora da
narina direita de Ye Ye, que ressonava numa tarde de calor. Gregory no
conseguiu resistir  tentao. Com percia, prendeu o plo fortemente
entre o indicador e o polegar durante uma expirao. Seguiu-se uma pausa
angustiante. Ye Ye inspirou finalmente, enquanto Gregory resistia
obstinadamente. O plo foi arrancado pela raiz e Ye Ye acordou aos
gritos. Gregory foi perseguido por Ye Ye armado de um espanador, mas,
como habitualmente, conseguir escapar-se. De uma maneira geral, Gregory
ignorava-me a mim e a James, pois ramos novos de mais para o
acompanharmos em jogos interessantes. Estava sempre rodeado por amigos
da sua idade. No gostava de estu dar, mas, tal como a av, era
excelente em jogos de sorte, como o brdege. Era bom aos nmeros e, uma
vez por outra, ensinava aos mais novos truques de matemtica, largando
sonoras gargalhadas perante a sua prpria esperteza. 'z Em francs no
original. (N. da T) De todos os meus irmos, aquele que eu mais temia
era Edgar. Atentava-nos, a James e a mim, e usava-nos como se fssemos
sacos de boxe para onde atirava toda a sua frustrao. Mandava-nos fazer
recados e rapinava-nos os nossos brinquedos, rebuados, frutos secos,
sementes de melancia e ameixas salgadas. No era um aluno brilhante e
era altamente inseguro, embora possusse conhecimentos suficientes para
tirar notas positivas. O meu san ge (terceiro irmo mais velho), James,
era o meu heri e o meu nico amigo. Costumvamos brincar juntos durante
horas a fio e desenvolvemos uma proximidade teleptica, confiando um ao
outro todos os nossos sonhos e segredos. Quando ele estava por perto, eu
podia abrandar a minha vigilncia e o certo  que precisava
desesperadamente desse refgio. Ao longo da nossa infncia sentia um
enorme conforto por saber que podia sempre recorrer a ele em busca de
consolo e compreenso. Ambos ramos vtimas de Edgar, embora talvez
James sofresse ainda mais, pois durante muitos anos partilhou o quarto
com os nossos dois irmos mais velhos. Ele detestava fazer ondas. Quando
lhe davam ordens, ou aguentava os sopapos passivamente ou se escondia de
quem o atormentava. Quando via Edgar a bater-me, James escapulia-se
rapidamente, num silncio incompreensvel. Mais tarde, depois de Edgar
se ter afastado, esgueirava-se para junto de mim e tentava consolar-me,
sussurrando muitas vezes a sua frase predilecta oSuan le!" (Deixa l!)
... De entre os seus dois filhos, Niang preferia claramente Franklin.
Quanto ao seu aspecto fsico, era a cara chapada de Niang: um bonito
rapaz, de olhos arredondados e um nariz arrebitado e atrevido. Nessa
altura Susan era ainda um beb. Contudo, eles j eram especiais. No me
lembro de Edgar ou Lydia alguma vez lhes terem tocado com um dedo. James
e eu ramos os escolhidos para apanhar de toda a gente. Quando no
conseguamos ser suficientemente rpidos, recebamos muitas vezes uma
bofetada ou um empurro, especialmente de Edgar. Eu sentia-me sempre
mais  vontade junto dos meus amigos na escola do que em casa, onde era
considerada inferior e sem importncia, em parte devido  m sorte que
tinha trazido por ter sido a causa " Forma de distinguir os vrios
irmos que, consoante a ordem de nascimento, tm em chins uma
designao diferente. (N. da T.) 46 47 da morte da minha me. Lembro-me
de ver a minha irm mais velha e os meus irmos a jogarem ao toca-e-foge
ou a saltarem  corda e de, nessas alturas, ansiar por tomar parte nos
seus jogos. Embora James e eu fssemos muito prximos, ele ia atrs dos
outros e transformava-se "num dos rapazes" quando eles queriam fugir de
mim. Em St. Joseph's as notas saam todas as sextas-feiras e a aluna com
o total mais elevado recebia uma condecorao de prata, que podia usar
ao peito, presa no bolso, durante toda a semana. O pai reparava logo nas
vezes em que eu era condecorada. Eram essas as nicas alturas em que
mostrava orgulhar-se de mim. Metia-se comigo, dizendo: - H qualquer
coisa muito brilhante no teu vestido. Brilha tanto que no me deixa ver
nada! O que ser? Outras vezes dizia: - O lado esquerdo do teu peito no
est mais pesado? Vais a cair? Eu bebia as suas palavras e depressa
comecei a usar a condecorao quase todas as semanas. Na entrega de
prmios no final de 1941 o meu nome foi referido como tendo ganho a
condecorao durante mais semanas do que qualquer outra aluna da escola.
Lembro-me de como me senti orgulhosa e triunfante ao subir os degraus,
que me pareceram to altos e inclinados que tive de subir de joelhos e
de me agarrar com as mos para poder receber o prmio entregue por um
Monsenhor francs. Ouviram-se aplausos calorosos e gargalhadas
divertidas da audincia, mas nenhum dos membros da minha famlia estava
presente, nem mesmo o meu pai. No incio de 1942, os Japoneses
examinavam cada vez mais de perto a contabilidade do pai, insistiram
numa auditoria exaustiva e finalmente exigiram que os seus negcios se
fundissem com uma empresa japonesa. O pai poderia ficar nominalmente 
frente dos negcios, mas os lucros seriam repartidos igualmente. Esta
"oferta" era, na realidade, uma rdem. Uma recusa teria resultado na
confiscao de todos os bens, provavelmente numa pena de cadeia para o
pai e retaliao inimaginvel para o resto da famlia. A aceitao
significava colaborar abertamente com o inimigo, perder de imediato a
independncia e, possivelmente, enfrentar represlias da resistncia.
Depois de muitas noites em claro, agravadas pelos almoos dirios em que
os Japoneses ora lisonjeavam e seduziam, ora ameaavam, o pai tomou uma
deciso drstica. Num dia frio foi pr uma carta no correio e nunca mais
voltou. 48 Ye ye alimentou esta charada de vida ou morte durante alguns
meses. Os tempos eram caticos e os raptos, assassinatos e
desaparecimentos eram banais. Dirigiu- se de imediato  polcia local e
participou o desaparecimento. Colocou anncios nos jornais, oferecendo
uma recompensa a quem soubesse do paradeiro do pai, vivo ou morto. Foi
um golpe de mestre e o preo a pagar foi elevado, mas no final o efeito
foi o pretendido. Sem o pai ao leme, a Joseph Yen & Company debatia-se
com dificuldades. Muitos empregados foram despedidos. Os negcios
fraquejavam. Os lucros iam a pique. Os Japoneses perderam todo o
interesse. Entretanto, antes do seu desaparecimento teatral, o pai tinha
conseguido transferir parte dos seus bens e dirigiu-se para o sul em
direco a Xangai - j ocupada pelos Japoneses - usando um nome falso ~
Yen Hong. Adquiriu ento aquela que se iria tornar a casa da nossa
famlia na Avenida Joffre. Cedo mandou chamar Niang e Franklin, que
fizeram a viagem acompanhados por alguns empregados de confiana. Para o
resto da famlia, isolada em Tianjin, a vida tornou-se estranhamente
serena. A tia Baba dirigia a casa e encorajava as crianas a convidarem
os seus amigos para brincar, lanchar ou tomar dim sum'~, numa atitude
que Niang nunca teria tolerado. As refeies decorriam informalmente e,
 noite, os adultos jogavam mah-jong at altas horas. Ye Ye mantinha
apenas o pessoal essencial no escritrio. Pouco a pouco os Japoneses
deixaram-nos em paz. Contratou-se um motorista e aos domingos amos a
diversos restaurantes para provarmos diferentes tipos de comida: russa,
francesa e alem. Lembro-me de beber chocolate quente e de comer bolos
no belssimo Kiessling Restauram ao som de valsas de Strauss e passagens
de Beethoven tocadas por um trio. s vezes at nos levavam a ver filmes
prprios para a nossa idade. O pai gostava que o resto da famlia se
juntasse a ele em Xangai. Decorria o Vero de 1942; a av deixou-se
convencer a fazer-lhe uma visita que durou dois meses, mas regressou
dizendo que Tianjin era a sua nova casa. Teimosamente, recusou-se a
mudar e disse mesmo  tia Baba que o essencial da vida no era a cidade
em que cada um vivia, mas antes com quem cada um vivia. " Refeiao
chinesa composta por pequenos bolinhos - doces nu salgados - cozinhados
no vapor. (N. da T.) 49 Num dia especialmente quente, aps o jantar, a 2
de Julho de 1943, planevamos a ementa do dia seguinte com o cozinheiro.
A tia Baba sugeriu que comssemos bolinhas  moda de Tianjin em vez de
arroz. Cozinhadas na hora, com cebolinho, carne de porco picada e
cebolinhas, as bolinhas no vapor constituam um dos nossos pratos
preferidos. Estvamos todos a gritar quantas bolinhas seramos capazes
de comer, atirando nmeros altssimos. A av ficou com uma dor de cabea
de toda aquela comoo. Retirou-se para o seu quarto, acendeu um cigarro
e deitou-se. A tia Baba sentou-se ao seu lado e leu-lhe uma das
histrias da Lertda do Rei Macaco. Embora a av conhecesse diversas
histrias deste clssico chins, sentia-se descontrair ao ouvir l-las
vezes sem conta pela voz da sua prpria filha. Tirou os sapatos, as
meias e as ligaduras que prendiam os ps pequeninos e deformados antes
de os mergulhar em gua quente para aliviar a dor, que era permanente, e
soltou um suspiro de alvio. A tia Baba deixou-a e estava, tambm ela, a
tomar o seu banho quando Ye Ye bateu  porta. A av torcia os lbios, de
onde se soltava uma espcie de espuma. Chamou-se o mdico, mas era j
tarde de mais, pois ela nunca mais recuperou a conscincia. Morreu de
apoplexia. Recordo-me de acordar envolta no calor abrasador de uma manh
de Vero em Tianjin. A tia Baba estava sentada no seu penteador e
chorava. Disse-me que a av tinha deixado este mundo para no mais
voltar; a sua vida tinha-se evaporado como - yi chang chun meng (um
episdio de um sonho de Vero). Lembro-me do som estridente das cigarras
no ptio traseiro, ao mesmo tempo que o som dos badalos de madeira
anunciava a presena dos vendedores ambulantes, que, l em baixo, no
passeio, davam a conhecer os seus produtos atravs de melodiosos
preges: - Fitas quentes com carne de vaca! Requeijo com feijes!
Conservas acabadas de fazer! Perguntava a mim mesma como podia a vida
continuar exactamente na mesma se a av j no estava entre ns. O corpo
da av foi colocado num caixo, na sala. Sobre ele estava a sua
fotografia e havia uma decorao elaborada com flores, velas, fiutos e
faixas decorativas de seda branca, onde figuravam diversos 's D-se o
nome de fitas s massas chinesas ligeiramente largas e espalmadas
utilizadas na preparao de sopa ou de outros pratos. (N. da T.) dizeres
que exaltavam as suas virtudes, pintados numa caligrafia elegante. Seis
monges budistas, envoltos em longas vestes, velaram o corpo. A ns,
crianas, ordenaram-nos que dormssemos no cho, na prpria sala, para
fazermos companhia  av. Estvamos todos aterrorizados, atnitos
perante as cabeas rapadas e luzidias dos monges, que entoavam os seus
sutras  luz trmula das velas. Durante toda a noite, um sentimento de
medo alternou-se dentro de mim com o desejo de ver a av empurrar a
tampa do caixo e retomar o seu lugar no meio de ns. No dia seguinte
teve lugar um grande funeral. Os que estvamos de luto vestimo- nos de
branco e colocmos faixas brancas ou bonitas fitas em volta da cabea.
Seguimos o caixo a p at ao templo budista. Ao longo do percurso, os
participantes no cortejo atiravam ao ar notas falsas para apaziguar os
espritos. Na ausncia do pai, ainda escondido, o meu irmo Gregory
tomou o lugar de principal. Caminhava logo a seguir ao caixo, que
seguia num carro puxado por quatro homens. A cada passo caa de joelhos
e, aos gritos, desatava a lamentar a perda da av, batendo repetidamente
com a cabea no cho em sinal de obedincia. Seguamos Gregory
silenciosamente, maravilhados com a sua actuao. Finalmente chegmos. O
caixo foi colocado no centro de um altar, rodeado por arranjos de
flores brancas, mais faixas de seda branca e o jantar favorito da av.
L estavam cerca de dezasseis pratos de legumes, frutos e doces. O ar
estava pesado de incenso. Os monges entoavam preces. Tal como nos haviam
dito, fizemos kowtow'6, ajoelhando-nos e tocando repetidas vezes com a
cabea no cho. Os monges trouxeram vrios recortes de papel,
reproduzindo diversos. artigos de que ela poderia necessitar no outro
mundo. Havia muitos lingotes de "ouro" e "prata", um automvel de carto
muito elaborado que parecia o Buick do pai, um conjunto de peas de
mobilirio e utenslios diversos e at um jogo de mah- joaag. Todas
estas imitaes foram queimadas numa grande urna. Esta parte
encantou-nos e, de boa vontade, ns, crianas, ajudmos a encher a urna
lanando s chamas as imagens de papelo. E na excitao do momento
esquecemo-nos da celebrao em que estvamos e at brigmos pelo carro
de papel, que estava muito bem feito e todo forrado a folha de alumnio.
Anos mais tarde, a tia Baba contou-me que tudo (incluindo faixas,
monges, flores, msicos e '6 Teimo chins que sign~ca "ajoelhar-se e
tocar o cho com a testa". (1V. da T.) 50 51 imagens de papelo) tinha
sido preparado por uma loja da especialidade dedicada a eventos desse
gnero e que fornecia todos os adereos adequados. Lembro-me de estar a
ver as vrias imagens de papel a queimarem-se furiosamente e os rolos de
fumo a elevarem-se no ar e de acreditar que tudo se reuniria algures no
cu na forma de objectos para o uso exclusivo da av, Em seguida, os
nossos familiares e amigos acompanharam-nos a casa, onde foi servida uma
refeio longa e elaborada, posto o que s crianas foi pedido que
brincassem no jardim. Lydia arranjou uma urna de imitao. Fizemos
foges, camas e mesas de papel e demos incio ao nosso funeral da av.
Em pouco tempo a urna, que no passava de um vaso de flores em madeira,
ardia tambm. Ye Ye foi l fora, furioso, ligou a mangueira e inundou-
nos a ns e ao nosso funeral. Mandaram-nos para a cama, mas o incidente
teve o condo de nos ajudar a esquecer o pavor e a tristeza desses dois
ltimos dias; sentimos que a av seria feliz no outro mundo. L longe,
em Xangai, o pai sofria profundamente. No podia acreditar que a sua
querida me tinha morrido, acabada de fazer 55 anos. A partir de ento
passou a usar apenas gravatas pretas em sua memria. O funeral marcou o
fim de uma poca. Embora no o soubssemos, os anos despreocupados da
nossa infncia tinham chegado ao fim. 6 Jia Chou Bu Ke Wai Yang Roupa
suja lava-se em casa Num dia de Agosto de 1943, mais ou menos seis
semanas depois da morte da av, Lydia, Gregory, Edgar e eu fomos levados
 estao dos caminhos-de-ferro com as nossas malas. Numa plataforma
cuja placa indicava "Para Xangai" estava estacionada uma longa fila de
carruagens. Num compartimento de 1 classe, em cuja indicao se podia
ler "Camas Macias", encontrmos o pai, vestido de negro, sentado,
sozinho, perto de uma janela. Ficmos muito surpreendidos, pois sempre
pensmos que continuava "desaparecido" e ningum nos dissera que j
tinha voltado. Os seus olhos estavam vermelhos; tinha estado a chorar. O
pai viera de propsito para nos levar at Xangai. Ye Ye, a tia Baba e
Susan ficariam em Tianjin por mais dois meses, a fim de cumprirem o
tradicional perodo budista que determinava cem dias de luto pela morte
da av. James, que estava ainda a convalescer de sarampo, ficaria tambm
e viajaria com eles mais tarde. 52 53 A viagem de comboio de Tianjin a
Xangai demorou dois dias e uma noite. Durante o percurso parmos em
vrias estaes onde o pai comprava a merenda aos vendedores ambulantes
que se juntavam em redor. Delicimo-nos com ovos  hora do lanche, asas
de galinha assadas, peixe fumado, man toar" (po cozido no vapor) e
fruta fresca. O tempo estava extremamente quente e hmido. O pai deixava
abertas todas as janelas do nosso compartimento. Dormi numa rede por
cima da cama do pai e, durante a noite, sonhei que estava a ser sugada
pela janela. Acordei a chorar pela tia Baba; indiferente, o nosso
comboio rumava ao sul. Quando chegmos, o pai levou-nos para a casa que
tinha comprado. Situava-se num loaag taaag (complexo de casas) bem no
corao da Concesso Francesa. O nosso loaag ta~ag era constitudo por
setenta residncias de estilo semelhante, coladas umas s outras e
rodeadas por um muro comum. De cada um dos lados havia trs alamedas
estreitas que se abriam para uma avenida central, terminando na Avenida
Joffre, agora chamada Huai Hai Road. A nossa casa tinha trs pisos e
fora construda nos anos 20. Tinha as caractersticas de uma Bauhaus e
uma simplicidade que evocava as linhas simples da Art Deco. Havia um
terrao no topo e um jardinzinho  frente rodeado por um muro de pouco
mais de 2 metros. Tudo isto se encontrava devidamente arranjado com um
pequeno relvado, buxos de camlias e uma magnlia, cujos botes
cheiravam maravilhosamente. Arrumada a um dos cantos estava a casota do
co, construda em madeira, onde dormia Jackie, um feroz pastor-alemo,
propriedade do pai. Encostada  parede i~avia uma fontezinha engraada
dentro da qual, em cestos presos por cordas, se guardavam as melancias,
que eram, assim, mantidas frescas durante todo o Vero. Uns degraus de
pedra conduziam s portas de estilo francs que ofereciam passagem para
a sala, situada no rs-do-cho. Esta diviso estava mobilada de modo
formal, com sofs forrados de veludo verme lho-escuro, cortinados de
veludo a condizer e uma carpeta de Tianjin a cobrir parcialmente o
soalho em parquet de teca. O papel de parede tinha listas aveludadas a
condizer com os sofs e os cortinados. Os encostos de cabea e os braos
das cadeiras eram protegidos por coberturas de renda branca. No centro
da sala havia uma mesa de caf, imitao Louis XVI. " Conforme o
original. (N. da T.) 54  esquerda, a sala de jantar era ladeada por
amplas janelas em arco, que permitiam uma vista agradvel sobre o
jardim. Era mobilada com uma mesa de jantar oval, rodeada por cadeiras
com encosto de palhinha. Havia ainda um aparador e um frigorfico. Na
parte de trs da casa situava-se a cozinha, a casa de banho, os
aposentos dos criados e a garagem. Ns, as crianas, tnhamos de entrar
e sair de casa pela porta das traseiras, que abria para um caminho de
passagem, delimitado de um dos lados pelos muros dos jardins vizinhos.
L em cima, no 1 andar, o pai e Niang ocupavam o melhor quarto. Alm de
uma grande cama de casal, o quarto possua um penteador em madeira
trabalhada e um espelho; havia ainda uma pequena diviso que dava para o
jardim e funcionava como rea de estar. James chamaria mais tarde a este
quarto o "Santo dos Santos". Uma casa de banho separava o quarto da
"antecmara", que era o quarto de Susan e Franklin, com uma varanda de
onde Franklin atirava frequentemente comida ou brinquedos para Jackie,
que deambulava l em baixo. No incio, quando acabmos de chegar a
Tianjin, ns, os "que no tnhamos" (18) fomos relegados para o 2.
andar. Ye Ye tinha o seu prprio quarto com varanda. A tia Baba e eu
partilhvamos um quarto e os meus trs irmos partilhavam outro. Foi
tacitamente entendido que ns, cidados de segunda classe, estvamos
proibidos de pr os ps na antecmara ou no "Santo dos Santos". Contudo,
"eles," os residentes do 1. andar, invadiam os nossos aposentos sempre
que lhes apetecia. No princpio, Lydia tinha tambm um quarto no "nosso
andar". Mais tarde deram- lhe um quarto no primeiro andar, "o andar
deles", motivo pelo qual se passou, em parte, para "o lado contrrio". A
minha nova escola, ~ ~~, a escola primria Sheng Xin (Sagrado Corao),
ficava situada a cerca de 2 quilmetros e meio de casa. No primeiro dia,
o cozinheiro levou-me no guiador da sua bicicleta, pois ia a caminho do
mercado. Ye Ye e a tia Baba ainda no tinham chegado de Tianjin. Como
no estavam em casa, ningum se lembrou de me ir buscar. (18) No texto
original "the have-nots", expresso que marca a diferena clara entre os
doi grupos de irmos. (N. da T.) No final do dia de escola vi que todas
as outras meninas da 1 classe eram ansiosamente esperadas ao porto
pelas suas mes. Lembro-me de ter esperado horas a fio e de que o meu
pavor aumentava  medida que via desaparecerem as meninas da minha sala,
cada uma de mo dada com a me. Finalmente, fiquei sozinha. nvergonhada
de mais para voltar  escola, vagueei hesitante pelas ruas de Xangai.
Quanto mais andava, maior era a multido. Os passeios enchiam-se de
transeuntes, coolies' 9 transportando fardos nas extremidades de canas
de bambu, vendedores ambulantes e pedintes - alguns com as pernas
amputadas, cegos ou com outras deformaes - que batiam no cho com as
suas latinhas de esmolas, procurando obter mais algumas. Toda a gente ia
para qualquer lado; todos menos eu. Deambulei desesperadamente ao longo
de quilmetros  procura de alguma coisa que me fosse familiar. Nada a
fazer. Estava perdida e no sabia o meu endereo. Nesses tempos sem lei,
as crianas eram raptadas frequentemente e desapareciam nos meandros de
Xangai. Eram vendidas como ya tou (meninas escravas), algumas vezes a
bordis. Ao cair da noite fui atacada por medo e fome. Quando dei por
mim, estava em frente de uma loja de dim saem brilhantemente iluminada
e, com os olhos, devorava as bolinhas no vapor, as fitas, o pato assado
e as espetadas de porco que estavam na montra. A proprietria veio c
fora, mirou o meu uniforme escolar novinho em folha e perguntou: - Ests
a  espera da tua me? Assustada de mais para poder responder, s
consegui baixar a cabea. - Vem c! - disse ela. Segui-a. De repente,
pelo canto do olho, vi a minha salvao! O telefone! Eu fixara o nosso
novo nmero de telefone de Xangai: 79281. O meu irmo Gregory tinha
queda para os nmeros e na semana anterior tinha -me ensinado a brincar
com o nmero de trs para a frente e de frente para trs, para tentarmos
terminar obtendo o nmero 13. O restaurante estava cheio de gente e
barulho. Ningum reparou quando eu levantei o auscultador e marquei o
nmero. Do outro lado o pai atendeu. - Onde ests? - perguntou
calmamente. " Designao atribuda aos trabalhadores asiticos sem
qualquer formao tcnica e que iam trabalhar para fora da sua terra.
(N. da T.) 56 Ningum tinha dado pela minha falta. . Num restaurante em
qualquer stio. Estou perdida. Ao ouvir o rudo de fundo, o pai pediu
para falar com a dona. Ela deu-lhe as indicaes necessrias e ele
apareceu rapidamente no seu grande carro preto para me levar. Guiava em
silncio, perdido nos seus prprios pensamentos. Quando chegmos a casa,
deu-me umas palmadinhas na cabea e disse: - No te terias perdido se
tivesses levado um mapa e estudado cuidadosamente o local da tua casa e
da escola. Com esta experincia aprendi a contar s comigo. Percebi que,
sem a tia Baba, ningum olhava por mim. Nessa mesma noite pedi a Gregory
que me ensinasse a ler um mapa. Nunca mais me perdi. Dois meses mais
tarde, Ye Ye, a tia Baba, James e Susan chegaram de Tianjin. Eu estava
numa grande excitao. Niang estava separada da filha desde a Primavera
de 1942, altura em que Susan tinha apenas alguns meses. Quando se
reuniram novamente em Xangai, Susan tinha-se tornado uma bonita criana
que j andava, tinha olhos arredondados, bochechas gorduchas e uma farta
cabeleira negra. No dia do encontro com a me, a tia Baba tinha-a
vestido com umas bonitas calas cor-de-rosa e um casaquinho chins
almofadado a condizer. O cabelo estava penteado em duas tranas armadas.
A criana estava encantadora e corria pela sala de estar examinando os
objectos expostos; de vez em quando tirava um deles e ia mostr-lo  tia
Baba. Foi ento que Niang se aproximou e tentou pegar em Susan ao colo.
Para a minha irm de 2 anos, a me era apenas uma estranha. Susan
esquivou-se, esperneou e resistiu quanto pde. Finalmente, rompeu num
pranto e comeou aos gritos: - No te quero! No te quero! Tia Baba! Tia
Baba! Ningum se atreveu a dizer fosse o que fosse. Todos se calaram e
olharam para Susan, que dava pontaps e se debatia nos braos de Niang.
Foi ento que, horrorizada, vi Niang forar a filha a sentar-se no sof
ao seu lado e dar-lhe uma forte bofetada na cara. Susan ps-se a chorar
ainda mais alto. Irritada e sem qualquer controlo sobre a situao,
Niang deu uma srie de bofetadas  filha, na cara, nas orelhas e na
cabea. Todos nos encolhemos. Fiquei completamente atnita. No
conseguia perceber como  que o pai, Ye Ye ou mesmo a tia Baba no
tinham intervindo para pr fim quela tortura. Quis sair da sala, mas os
meus ps pareciam colados ao 57 cho. Sabia que devia estar em silncio,
mas o peso das palavras sufocava-me e eu tinha de as deitar c para
fora. Esqueci-me de quem era e de onde estava e atirei numa voz trmula:
- No lhe bata mais! Ela  s um beb! Niang voltou-se e fitou-me
ferozmente; os olhos pareciam saltar-lhe das rbitas e por um momento
pensei que se ia voltar contra mim. A tia Baba deitou-me um olhar de
aviso para que me calasse. At mesmo os soluos de Susan quase deixaram
de se ouvir. O meu protesto cortara o acesso de fria de Niang e eu
transformara-me no objecto da sua raiva. Foi nesses escassos momentos
que ns, crianas, entendemos tudo: tudo no s acerca de Niang, mas
tambm acerca do pai, de Ye Ye e da tia Baba. Tnhamos testemunhado o
outro lado do seu carcter. Com o desaparecimento da av ela assumira o
controlo total. A minha apreenso aumentava  medida que ela olhava para
mim. Uma torrente de palavras escapou-lhe dos lbios cerrados: - Sai! -
gritava ela. - Desaparece imediatamente da minha vista! Como  que te
atreves a abrir a boca? Enquanto eu corria para a porta, ela ainda teve
tempo de dizer, numa ameaa glida: - Nunca esquecerei e nunca perdoarei
a tua insolncia! Nunca! Nunca! Nunca! Esta foi a forma como decorreu a
nossa reunio de famlia no ms de Outubro de 1943, na casa que o pai
tinha na Avenida Joffre, em Xangai. Depois de mudarmos de cidade as
nossas vidas modificaram-se radicalmente. O pai mandou-nos a todos para
colgios missionrios, onde as aulas eram dadas em chins e o ingls era
ensinado como uma segunda lngua. Durante o tempo que estive em Sheng
Xin, os meus trs irmos foram inscritos em St John's Christian Boys'
School e Lydia frequentou a Aurora Catholic Middle School. O pai encetou
um programa de austeridade para nos ensinar o valor do dinheiro. No
recebamos semanada e no tnhamos outras peas de vesturio alm do
nosso uniforme escolar. Tnhamos tambm de ir e vir da escola a p todos
os dias. No caso dos rapazes, o trajecto era de quase 10 quilmetros
dirios, ida e volta. Tinham de se levantar s 6.30 da manh para
estarem na escola s 8. A escola de Lydia era ao lado da s8 minha e
distava apenas 2 quilmetros e meio de nossa casa. Os elctricos iam
quase de porta a porta. Depois de Ye Ye ter chegado de Tianjin perdemos
toda a vergonha de lhe pedir o dinheiro para o elctrico, pelo que,
todas as noites, recebamos um dinheirinho para esse fim. Duas linhas de
elctrico paralelas percorriam a parte central da Avenida Joffre e
terminavam no Bund, acompanhando a margem do rio Huangpu. A minha
paragem era mesmo  esquina da nossa rua. Nas manhs em que tinha sorte,
chegava a este local no momento exacto em que um elctrico aparecia na
direco que eu queria. O bilhete custava vinte _feia- para os adultos
e 10 para as crianas.  medida que o elctrico se aproximava, todos se
acotovelavam e se empurravam para conseguir entrar. Nunca ningum se
dava ao trabalho de fazer bicha. A primeira paragem era em Jardins Duo
Yuen. Dois anos mais tarde, quando os Japoneses perderam a guerra, o pai
e Niang apressaram-se a deslocar-se a Tianjin para reivindicarem os seus
negcios. Nessa altura Ye Ye levava-nos a mim e a James a fazermos
piqueniques nesse jardim. Tratava-se de uma prenda rara, pois, de acordo
com o regime de Niang, ns, as crianas, estvamos proibidas de sair de
casa, excepto para irmos  escola. O cozinheiro preparva-nos umas
sanduches deliciosas, em po francs fresco e estaladio, recheadas com
gordas camadas de ovos temperados com alho, cebolas e fiambre de Yunan.
Ente rvores altssimas, relvados verdejantes e bonitos canteiros de
flores, Ye Ye praticava o seu t'ai chi' logo de manhzinha, enquanto
James e eu jogvamos s escondidas ou aos teatros, fingindo ser algumas
das personagens das lendas tradicionais chinesas de que mais gostvamos.
s vezes, num pavilho do jardim, havia tambm um contador de histrias
profissional, que tinha para ns lendas maravilhosas. A segunda paragem
era no Cinema Cathay. Como eu ansiava por ver aqueles filmes
maravilhosos! Os ttulos, os grandes anncios e as fotografias das
estrelas estavam expostos nas paredes do lado de fora das salas de
cinema, que  noite estavam iluminadas como se fossem palcios. Assim
que a guerra terminou, os filmes de Hollywood varreram Xangai como se de
um fogo se tratasse. Clark Gable, Vivien z Subdiviso da unidade
monetria da China. (N. da T.) a' Variedade de ginstica chinesa. (N. da
T.) 59 Leigh, Laurence Olivier e Lana Turner tornaram-se nomes
familiares. E Tudo o Vento Levou, sabiamente traduzido num nico
carcter chins, ; Piao, um termo bastante romntico que significa
"flutuan> ou "vogar", foi um xito estrondoso em 1946. Na escola
partilhvamos revistas sobre cinema e recortvamos fotografias de
artistas americanos. Houve mesmo um dia em que uma rapariga que andava
dois anos  minha frente recebeu uma fotografia de Clark Gable que se
dizia ter vindo directamente de um estdio de cinema em Los Angeles.
Clark Gable tinha at assinado num dos cantos inferiores da fotografia!
Durante o recreio, todas as meninas se juntavam  volta dela, pois todas
queriam dar uma olhadela ao famoso actor e era como se ela prpria
tambm se tivesse tornado uma celebridade. A terceira paragem era na
esquina da rua que dava para as escolas Sheng Xin e Aurora. Pelo caminho
havia um grande nmero de lojinhas que vendiam fruta fresca, dim sum,
massa chinesa, po francs, bolos com creme e pastelaria variada. Muitas
vezes era uma tortura para mim passar  frente destes estabelecimentos
porque tinha fome constantemente e os meus bolsos estavam sempre vazios.
J iam longe os dias de Tianjin em que podamos pedir  tia Baba o que
quisssemos para o pequeno-almoo, contanto que a avisssemos com
antecedncia: ovos com bacon e fatias douradas; fitas fritas com fiambre
e vegetais; bolinhas no vapor; bolinhas de arroz adocicadas com pasta de
ssamo; chocolate quente. Agora s estvamos autorizados a ter um nico
tipo de pequeno-almoo: nas palavras de Niang, a alimentao apropriada
para crianas que estavam a crescer. Davam-nos uma espcie de canja, um
caldo feito de arroz e gua epickles de legumes. De vez em quando, aos
domingos, serviam-nos um ovo de pato cozido, salgado e completamente
ressequido. Mas a austeridade no foi apenas em relao a ns, os
enteados; incluiu tambm Ye Ye e a tia Baba. Em Tianjin o pai e Ye Ye
tinham uma conta conjunta e Ye Ye assinava todos os cheques como chefe
das operaes financeiras. Ao regressar a Xangai, em 1943, Ye Ye, com
confiana cega, transferira todos os fundos de Tianjin para as contas
bancrias do pai em Xangai, abertas dois anos antes no novo nome do pai:
Yen Hong. Bastou um simples trao de caneta e Ye Ye, tal como o Rei
Lear, assinara o fim de toda a sua fortuna. Alm do pai s havia n
Pequenos bolinhos chineses, na sua maioria cozinhados no vapor. (1V, da
T.) 60 Irais um titular da conta: Niang. Nesse altura, Ye Ye e a tia
Baba acharam-se sem um tosto e totalmente dependentes da generosidade
do pai e de Niang, mesmo para as compras mais insignificantes.
Inicialmente, Ye Ye tinha consigo algum dinheiro de bolso e dava-nos
frequentemente uma ou duas moedinhas s pelo prazer de ver a alegria
brilhar nos nossos olhos. E, at o seu dinheiro chegar ao fim, era Ye Ye
quem nos dava todos os dias o dinheiro de ida e volta para o elctrico.
Mais ou menos dois meses depois do incio das aulas, o tema dos bilhetes
do elctrico veio  baila durante o jantar. A refeio estava quase no
fim e j estvamos a descascar a fruta quando a tia Baba encetou o
assunto, dizendo que decidira voltar ao trabalho de caixa no Women's
Bank da tia-av. Pelos lbios fortemente contrados de Niang pde
perceber-se que ela estava aborrecida. - Tens aqui tudo o que necessitas
- disse o pai. - Por que razo queres ir trabalhar? Educadamente, a tia
Baba respondeu que tinha demasiado tempo livre durante o dia, uma vez
que todos ns estvamos na escola e que havia muitas empregadas que
tratavam das tarefas domsticas. Nem sequer chegou a mencionar aquilo em
que todos estvamos a pensar: que um ordenado lhe daria alguma
independncia. O pai voltou-se para Ye Ye: - Acha que  uma boa ideia? -
perguntou ele. -  que assim ela estar fora de casa a maior parte do
dia. Se ficasse em casa, far-lhe-ia mais companhia. -Deixa-a fazer o que
ela quer - disse Ye Ye. - Alm do mais, ela gosta de ganhar um
dinheirinho extra para o gastar todo numa ou noutra coisa. -Se o que
precisas  de dinheiro - disse o pai com ar magnnimo, dirigindo-se 
tia Baba -, porque no mo pedes? J disse a ambos vrias vezes que,
quando precisarem de dinheiro, basta pedirem-mo. E, mesmo quando eu
estiver no escritrio, Jeanne est sempre disponvel para vos passar um
cheque. Senti um arrepio na espinha s de pensar que algum, e sobretudo
o meu meigo Ye Ye, se ia dirigira Niang, sua nora, para lhe pedir
dinheiro. Ye Ye pigarreou. - J h algum tempo que ando para dizer isto:
as crianas precisam de um dinheirinho de bolso de vez em quando. 61 -
Um dinheirinho? - disse o pai, voltando-se para Gregory e Lydia. - Para
qu? - Bem - respondeu Lydia -, em primeiro lugar para o bilhete de ida
e volta do elctrico quando vamos para a escola. - Dinheiro do
elctrico? - perguntou Niang. - Quem  que vos deu licena para irem de
elctrico? - St. John's  to longe! - balbuciou Gregory. - Se
tivssemos de ir a p, provavelmente demorvamos a manh inteira. Mal
chegssemos l, tnhamos de iniciar o caminho de volta. Nesse caso, mais
valia no irmos  escola e, em vez disso, dvamos um longo passeio todas
as manhs para fazer exerccio! - ` ~~ ~,~~ ~! Har shuo ba dao! (No
digas disparates oito vezes seguidas!) - exclamou o pai. - Ests sempre
com exageros! Andar faz sempre bem  sade. Gregory ainda conseguiu
balbuciar: - Detesto andar a p! Especialmente de manh cedo!  uma
perda de tempo! -Atreves-te a contradizer o teu pai? - gritou Niang. - O
teu pai trabalha dia e noite para vos sustentar a todos nesta casa. Se
ele acha que vocs devem ir a p para a escola,  a p que vo. Ouviram
bem? Seguiu-se um silncio de morte. Voltmo-nos para Ye Ye  espera de
apoio. Finalmente, a Lydia falou: - H dois meses que Ye Ye tem estado a
pagar-nos os bilhetes de elctrico. Estamos habituados a ir assim para a
escola. - Como  que se atrevem a fazer coisas s escondidas do vosso
pai e a incomodarem Ye Ye por causa de dinheiro? - perguntou Niang. -
Esto proibidos de pedir dinheiro a quem quer que seja! E isto  para
todos! O vosso pai farta-se de trabalhar para que vocs possam
frequentar escolas caras e terem uma educao a srio! Com certeza no
quer que vocs cresam como crianas mimadas e sem prstimo algum!
Embora os seus comentrios fossem dirigidos a ns, todos sabamos que
pretendia atingir Ye Ye e a tia Baba. - No h ningum na minha turma
que v a p para a escola -protestou Lydia. - A maioria dos meus amigos
vo de carro com motorista. - O vosso pai deseja que vo a p para a
escola! O vosso pai e eu queremos que vocs saibam que no podem pedir
mais dinheiro a Ye 62 ye nem  tia Baba. Quando acharem que precisam de
dinheiro, peam-mo directamente a mim. O dinheiro no cai do cu. Neste
momento penso que o que devem fazer  estenderem a mo se quiserem
receber dinheiro. Vamos ensinar-vos algumas coisas da vida ... - e fez
uma pausa. - No queremos dizer que no vos vamos dar o dinheiro para o
elctrico! Mas queremos que cada um venha ter connosco individualmente.
Peam desculpa pelo vosso comportamento. Admitam que se comportaram como
crianas mimadas. Voltem a pgina. Venham falar connosco e peam-nos o
dinheiro para o elctrico e pode ser que vo-lo demos, mas tero de
aprender que o dinheiro do elctrico no  um direito adquirido. S o
recebero se se mostrarem arrependidos. Nem ousvamos rspirar. As
empregadas mantinham-se ocupadas, entregando a cada um de ns uma
toalhinha molhada para limparmos as mos e a boca. Finalmente, o jantar
chegou ao fim. Espervamos ansiosamente que Ye Ye e a tia Baba dissessem
alguma coisa, qualquer coisa. Mas seguiu-se apenas o silncio. Ser que
no podiam fazer nada? Ser que a nora de Ye Ye, a sua nora que tinha
sangue estrangeiro,  que era agora a matriarca da famlia`? Niang,
olhando directamente para Ye Ye, acrescentou ento, no seu tom mais doce
e mais lisonjeiro: - J provou estas tangerinas? So to sumarentas! V,
deixe-me descascar-lhe uma! E foi assim que a tia Baba comeou a
trabalhar no Women's Bank e que ns passmos a ir e vir da escola a p.
Ficmos furiosos por Niang ter insinuado que Ye Ye nos estragava com
mimos ao dar-nos o dinheiro para o elctrico. Todos ns percebemos que a
questo do dinheiro do elctrico representava um grande conflito dentro
da famlia. Ao irmos a p para a escola, mostrvamos a nossa lealdade a
Ye Ye, que vamos ainda como chefe da famlia, e, ao mesmo tempo,
protestvamos contra a usurpao de Niang. (Na verdade, Niang tinha
assumido o comando logo a seguir  morte da av. Anos mais tarde, quando
pedi  minha tia que me falasse da minha me, ela disse-me que, pouco
depois do funeral da av, o pai tinha mandado destruir todas as
fotografias da minha me.) Lydia foi a primeira a ceder. As aulas dela
comeavam e acabavam uma hora depois das minhas e por isso nunca amos e
vnhamos juntas. Passadas duas semanas reparei que chegava a casa apenas
quinze minutos depois de mim. Percebi logo que tinha desistido. 63 *Os
meus irmos resistiram durante dois meses. St. John's ficava mesmo muito
longe.  medida que o Inverno avanava, comearam a levantar-se ainda de
noite para conseguirem chegar a horas  escola, Todas as tardes, a
seguir ao treino de futebol ou de basquetebol, eles tinham ainda pela
frente o longo caminho de regresso a casa, s vezes j com pouca luz. Um
a um, todos se renderam. No sei bem como, mas durante todos aqueles
anos em que vivi em Xangai - de 1943 a 1948 - nunca consegui pedir a
Niang o dinheiro para o elctrico. Os dias transformaram-se em semanas.
As semanas passaram a meses. Os meses formaram anos. De vez em quando,
Ye Ye e a tia Baba tentavam convencer-me a ir l a baixo negociar. Nunca
o fiz. Era frequente aos domingos  tarde ouvirmos, de repente, o pai ou
Niang chamar: - Horas da distribuio da semanada para o elctrico! Ao
ouvir isto, sentia um espasmo de profunda agonia. A tia Baba fazia-me
ento um sinal: - V l! Vai l buscar o teu dinheiro do elctrico! Vai
l abaixo e fala com eles. Basta dizeres: "Tambm posso receber o
dinheiro para o elctrico?", e recebers a tua parte, tal como os
outros. De vez em quando, a tia Baba tinha uma reunio de negcios logo
pela manh e acordava-me um pouco mais tarde. Eu saa de casa primeiro,
percorria a nossa rua a correr e esperava pela minha tia uns metros mais
adiante, na Avenida Joffre. Ela chamava um riquex, daqueles que estavam
estacionados na nossa rua, apanhava-me e deixava-me em Sheng Xin. Nos
meses de Junho e Setembro, quando a chuva caa em catadupas e o vento
uivava pelas ruas, eu praguejava contra Niang enquanto me debatia para
conseguir percorrer a Avenida Joffre, transportando a minha pesada mala
da escola, patinhando pela gua, que s vezes me chegava aos tornozelos,
e agarrando desesperadamente um guarda-chuva empurrado pelo vento. Tive
ainda de suportar a troa das minhas colegas que atravessavam
cuidadosamente umas pranchas de madeira, as quais impediam que se
molhassem at chegarem aos carros. Entretanto cochichavam entre elas que
eu vinha diariamente para a escola no meu elctrico particular nmero
onze, querendo com isto dizer que o que me transportava eram as minhas
prprias pernas. Dia aps dia, duas vezes por dia, de manh e  tarde,
quando ia e vinha da escola, perseguia a minha sombra no passeio e,
invariavel mente, evitava as rachas no pavimento. Tambm inventava
contos de fadas e abandonava-me em terras encantadas, fruto da minha
imaginao apenas. Era uma forma de passar o tempo. Nas minhas histrias
em srie, que tinham seguimento de um dia para o outro, eu era uma
princesinha disfarada, atirada, por engano, para este meio familiar
cruel em Xangai. Se eu fosse uma menina realmente boa e se estudasse
muito, um dia a minha me viria do Cu para me libertar e levar-me- ia
com ela para vivermos no seu castelo encantado. Na verdade, deixei-me
absorver de tal maneira por estas fantasias que passeia ansiar por estas
caminhadas obrigatrias. Contei  tia Baba que, na minha cabea, tinha
uma chave que me permitia entrar num reino encantado. Em Xangai no
havia nda to misterioso e to cativante como este reino secreto que eu
podia visitar sempre que me apetecesse. L bem no alto das montanhas,
por entre as nuvens, esse lugar estava repleto de bambus, pinheiros de
troncos entrelaados, rochas de formas fantsticas, flores selvagens e
pssaros de mil cores. Mas o melhor de tudo era a minha me, que vivia
nesse lugar, e todas as crianas, que eram a bem-vindas e sempre
desejadas.  noite, quando no trazia trabalhos da escola, costumava
rabiscar tudo isto num papel, no meu quarto. De regresso  escola,
vibrava ao mostrar as minhas histrias s minhas colegas, que, aos
risinhos, passavam de carteira em carteira, s escondidas, estas minhas
tentativas de escrita criativa. Uma vez uma das meninas no gostou que
eu tivesse usado o seu apelido num dos viles. Riscou-o e substituiu-o
pelo meu prprio apelido, Yen. Indignada, voltei a colocar o nome dela,
pelo que comeou a chorar. Ao tentar explicar-lhe que se tratava apenas
de faz-de-conta, usei um nome totalmente diferente e nesse momento
comecei a perceber o terrvel poder da escrita e a sua enorme
responsabilidade. Quando ia a caminho de casa, gostava particularmente
do troo junto dos Jardins Do Yuen. Junto ao parque, do lado de fora,
havia uma grande praa onde, em dias de sol, os vendedores ambulantes
vendiam as suas mercadorias. De entre os habituais, havia um velhote,
com um aspecto instrudo, que montava a sua bancada de livros no extremo
mais distante. O quiosque assemelhava-se a um conjunto de estores de
madeira que, ao serem abertos, mostravam prateleiras e prateleiras de
romances de Kung Fu em capas de papelo, de pontas dobradas e
esfareladas, que podiam ser adquiridos ou alugados. Por SO.fen, pagos
adiantadamente pela tia Baba, eu podia alugar at cinco livros por 64 65
semana. As obras, muito do gosto dos estudantes chineses, eram impressas
a preto e branco em papel barato. Cada um dos livros contara a histria
de heris ou heronas, mestres em artes marciais, que participavam em
batalhas em defesa dos fracos e oprimidos. Muitas destas histrias eram
baseadas em lendas to importantes para a cultura chinesa como a lenda
do Rei Artur e do Robin dos Bosques para a cultura ocidental. Depois de
lutas desesperadas, o bem triunfava sobre a fora e a vitria era,
invariavelmente, dos defensores dos oprimidos. Estes livros deram-me
esperana. O programa de austeridade do pai abrangia todos os aspectos
da nossa vida diria. Nem Lydia nem eu estvamos autorizadas a usar o
cabelo comprido ou com permanente; podamos apenas usar cortes de cabelo
considerados sensatos, higinicos e tambm fora de moda. Quanto aos trs
rapazes, a situao era ainda pior: eram obrigados a ter a cabea
completamente rapada. Era assim que o pai pensava conseguir ensinar-nos
que a vida no era uma coisa que devesse ser vivida ao de leve. Os meus
irmos transformaram-se no motivo de troa da escola que frequentavam e,
quando apareciam com as cabeas rapadas de fresco, arranjaram a alcunha
de "as trs lmpadas", por causa do seu aspecto luzidio. O nosso almoo
era a refeio mais barata que arranjvamos na escola. Quando a Amrica
ganhou a guerra contra o Japo, em 1945, ns, as alunas da Sheng Xin
recebemos as raes C que sobejavam do exrcito americano e que eram
incorporadas no nosso almoo. Comamos enlatados que continham fiambre,
carne guisada, biscoitos secos, queijo e chocolate. Esta ementa durou
enquanto houve raes. Antes de cada refeio rezvamos e agradecamos
aos nossos aliados americanos por terem ganho a guerra e por nos
oferecerem raes C. O jantar era a nossa nica refeio decente e um
acontecimento digno de nota. Pontualmente s 7.30, a sineta do jantar
tocava e ns perfilvamo-nos l em baixo, na sala de jantar. A,  volta
de uma mesa oval, Sentvamo-nos no lugar que nos estava atribudo. Ye
Ye, como senhor da casa, presidia, no topo da mesa de frente para o
jardim; a tia Baba sentava-se  sua direita, o pai e Niang  sua
esquerda. Gregory e Edgar sentavam-se ao lado da tia Baba. James e eu
ramos relegados para a outra extremidade da mesa. Durante o tempo em
que vivemos em Xangai, Franklin e Susan no comiam connosco. Todas as
noites nos apresentvamos vestidos com os nossos uniformes da escola, o
cabelo penteado, a bexiga vazia e as mos lavadas. Sentvamo-nos muito
direitos nos nossos lugares, ansiosos e rgidos, esperando que ningum
reparasse em ns. Ns, os enteados, nunca falvamos durante o jantar,
nem mesmo entre ns. Sempre que chamavam por mim, eu era dominada por um
medo opressivo e o meu apetite desaparecia. Seguia-se, invariavelmente,
uma cena desagradvel. Havia sempre seis ou sete pratos apetitosos. Duas
empregadas traziam a comida: lombo de porco, galinha assada, peixe
cozinhado no vapor, caranguejo  moda de Xangai, legumes salteados e, no
final, uma terrina de sopa.a fumegar. O pai gostava realmente de ver os
seus filhos comerem  hora do jantar. ramos encorajados a comer tantas
tigelas de arroz quantas nos apetecesse. Contudo, estava fora de questo
deixar qualquer resto de comida na tigela, nem que fosse apenas um gro
de arroz. James e eu tnhamos averso a carne gordurosa. Como ramos
obrigados a com-la, cedo arranjmos maneira de esconder pedaos nos
bolsos, meias, dobras das calas ou mesmo de os colar debaixo do tampo
da mesa. s vezes corramos para a casa de banho com as bochechas cheias
de carne gordurenta, que deitvamos na sanita. Quando todos estes
mtodos falhavam, no tnhamos outro remdio seno engolir tudo. A
seguir ao jantar servia-se sempre fruta fresca. Quando o pai tinha
visitas, ns comamos as sobras. Embora houvesse menos comida,
gostvamos de comer sozinhos. Nessas alturas lembrvamo-nos dos bons
velhos tempos em Tianjin, quando no precisvamos de esconder a carne
cheia de gordura, podamos rir-nos  vontade, falar, enfim, sermos ns
prprios. Para tomar conta de Franklin e Susan contratou-se uma
governanta. Tratava-se de Miss Chien, uma senhora supostamente
instruda. Os trs tomavam as refeies separados de ns, no quarto, e
podiam pedir para a cozinha tudo o que lhes apetecesse. Aparentemente, a
austeridade parava no primeiro andar. Ao pequeno- almoo eram-lhes
servidos ovos com bacoca, torradas e cereais, morangos frescos e melo.
O cabelo de Franklin era cortado  moda pelo melhor cabeleireiro de
crianas de Xangai. Susan usava vestidos coloridos enfeitados com laos
e rendas. Muitas vezes eles acabavam por crescer antes de terem usado os
seus lindos fatos. Recebiam muitos brinquedos e brincavam na sua varanda
66 67 privativa. Todas as tardes tomavam ch com sanduches, biscoitos
de chocolate, pezinhos doces, bolos e outras guloseimas. Embora fosse
aparentemente tutora de Franklin, Miss Chien actuava tambm como espia e
informadora das actividades e conversas dos "inquilinos" do 2. andar.
Procurando agradar e mostrar-se agrade cida, Miss Chien nunca
ultrapassava, contudo, os limites que lhe haviam sido traados. Ela e
Lydia tornaram-se amigas. De ns todos, Lydia era a nica que tomava ch
com eles na antecmara do 1 andar. Ficvamos sentidos com os padres
duplos que nos eram estabelecidos. Lydia mantinha uma srie de encontros
no 2. andar. Propusemos diversas estratgias. Greve da fome? Uma
rebelio? Uma entre vista a ss com o pai? Uma carta annima dando conta
de todas as injustias? Cochichvamos, queixvamo-nos e sentamo-nos
verdadeiros conspiradores. Fizemos muitos planos. Nenhum foi posto em
prtica. Um domingo  tarde James levantou-se para ir  casa de banho a
meio de um dos nossos planos secretos; encontrou Niang a escutar atrs
da porta entreaberta. Encararam-se fixamente durante alguns segundos
terrveis. Niang levou, ento, os dedos aos lbios e fez-lhe sinal que
continuasse o seu caminho. James percebeu que tnhamos sido apanhados.
Trancou- se na casa de banho durante muito tempo, temendo as
represlias. Finalmente regressou. Niang j l no estava. Lydia ainda
fazia planos. Foi um silncio de morte quando James nos revelou a sua
descoberta. Ficmos aterrorizados. Quando a sineta do jantar tocou, a
reunio terminou abruptamente e descemos em silncio para a sala de
jantar. Mas a refeio comeou e acabou sem que o assunto fosse
mencionado. Comemos a duvidar da histria de James e de que estivesse
no seu juzo perfeito, mas foi sol de pouca dura. A nova estratgia de
Niang era dividir para reinar. Alguns dias mais tarde Lydia foi chamada
ao Santo dos Santos (o quarto do pai e de Niang) e foi informada de que
se devia mudar para um quarto que estava vago no 1. andar.
Ofereceram-lhe uma secretria s para ela, uma cmoda e uma colcha de
renda branca novinha em folha com cortinados a condizer. Tnhamos de
bater  porta antes de poder entrar nos seus domnios. Ficmos rodos de
inveja. A partir desse dia Lydia passou a ocupar os dois andares e os
dois lados das nossas vidas. Tal como Miss Chien, tambm ela levava 68
histrias aos ouvidos do pai e de Niang. Contava-lhes coisas no s
sobre os trs rapazes e sobre mim, mas tambm sobre a Ye Ye e a tia
Baba. Como recompensa recebia pequenos favores: doces, presentes,
dinheiro, roupas novas, sadas com os amigos. Com o passar do tempo
desenvolveu uns ares que a distinguiam de qualquer um de ns e que nos
recordavam permanentemente o seu "estatuto especial". por vezes, quando
descia ou subia as escadas, via Lydia  porta do quarto de Franklin e
Susan, a pedir uma fatia de bolo de castanha e natas ou uma sanduche. A
sua postura aduladora revoltava-me muito. Quase no suportava ouvir a
sua vozinha queixosa, pedinchando e tentando levar o espertalho do
Franklin a dar-lhe "uma dentadinha" das gulodices. Nessas alturas eu
passava por ela sem olhar e desejava tornar-me invisvel. James comentou
uma vez que preferia morrer de fome a ter de pedir comida a Franklin. Na
escola, Lydia era excelente em Ingls, mas fraca em Matemtica e
Cincias. O pai pediu-lhe que ajudasse Gregory nos trabalhos de casa de
Ingls. Munida da autoridade de uma professora, o seu poder crescia de
dia para dia. Sem medo, Gregory ripostava. As lies de Ingls depressa
se transformaram em sesses de gritaria. - s ignorante, preguioso e
pateta! J a semana passada te tinha dito que estudasses estes verbos de
ingls! - E tu s uma idiota! Imagine-se no saberes como se resolvem
fraces e apanhares um zero no teste de Matemtica! ~ ~Da ling data
(Ovo grande e redondo que nem um zero!).  isso que        tu s!
Furiosa, Lydia pregou a Gregory uma sonora estalada, esquecendo-se de
que Gregory era j mais alto e mais forte do que ela. Gregory
levantou-se e agarrou- a pelo brao saudvel: - Se tornas a fazer-me
isso, dou-te um soco que te deito ao cho. Sai j do meu quarto! Lydia
foi fazer queixa a Niang. Quando o pai chegou, Gregory recebeu uma
repreenso e, como castigo, foi posto num canto com a cara voltada para
a parede durante trinta minutos. Gregory resmungou que estava a fazer
mais progressos em Ingls do que ela em Matemtica. Alm disso, qualquer
pessoa podia ver que ele tinha a cara inchada da bofetada de Lydia.
Gregory queixava-se de que ela tinha uma direita to forte como o
campeo de boxe americano Joe Louis e que a fora que tinha do lado
direito compensava a fraqueza do esquerdo. 69 Depois deste incidente
acabaram-se as lies de Ingls. A Matem_ tica de Lydia no melhorava.
Quando as fichas de avaliao eram distribudas no final de cada
perodo, a sua mdia rondava perigosa mente os nveis negativos. O nico
de ns todos que conseguia ter um aproveitamento ainda mais baixo era
Franklin, mas o pai achava que o seu crebro ainda no estava
suficientemente maduro para um estudo a srio. O pai repreendeu Lydia no
Santo dos Santos e disse-lhe que se concentrasse na Matemtica. Ela saiu
de l com os olhos vermelhos e o nariz a fungar e apregoou aos quatro
ventos que fizera o melhor, mas que a Matemtica era muito mais difcil
em Aurora do que tinha sido em St. Joseph, em Tianjin. Em St. John os
rapazes aprenderam a jogar brdege com os colegas e, apesar de eu ter
apenas 7 anos, ensinaram-me a jogar, porque eram precisos quatro
elementos. Um domingo Lydia encontrou-nos a jogar brdege. Depois de ter
estado a ver o jogo durante uns momentos, ficou sentida e achou que no
lhe ligvamos nenhuma, to absorvidos estvamos no jogo. De sbito
ordenou-me que lhe desse o lugar, porque tambm queria jogar. A
pontuao dos jogadores era muito semelhante e o jogo estava aguerrido.
De longe o melhor jogador, Gregory, como um verdadeiro cavalheiro,
tinha-me escolhido como parceira de jogo. Levava o jogo de brdege muito
a srio e era capaz de gritar e de se enfurecer de cada vez que eu
jogava a carta errada ou perdia um trunfo. Embora detestasse que me
chamassem palerma e ignorante, aceitava estes insultos porque o
raciocnio de Gregory era sempre lgico e tinha elevadas capacidades.
Agora era Lydia a parceira de Gregory. O jogo estava mais complicado do
que ela tinha esperado. Clculos matemticos rpidos e avaliao de
probabilidades no eram o seu forte. Para delrio de Edgar e James, os
novos parceiros comearam a perder jogada aps jogada. Pouco disposta a
aceitar as crticas de Gregory, que surgiam num volume cada vez mais
elevado, Lydia atirou com as cartas e precipitou-se escada abaixo,
jurando que no voltaria a jogar com Gregory. Este replicou que preferia
jogar comigo, com Franklin ou mesmo com Susan, que tinha 3 anos, a ter
Lydia por companheira de jogo. Nessa mesma noite, ao jantar, o pai
repreendeu Gregory por ter faltado ao respeito  sua irm mais velha. O
tratamento especial concedido a Lydia tornava-se cada vez mais visvel.
Uma das recordaes que tenho  a de Lydia a subir as escadas num
domingo  tarde com um bonito vestido cor-de-rosa de corte ocidental,
sapatos a condizer, a cantarolar melodias do ltimo filme de Hollywood e
a fazer tilintar o dinheiro que trazia no bolso. Sem parar, com ar de
desdm, colocou em frente de cada um dos meus irmos a quantia exacta
para os bilhetes de elctrico dessa semana, evitou olhar para mim e
apressou-se escada abaixo. Em silncio, os rapazes contaram as moedas
enquanto ela cantarolava ainda Yot~ are the strttshijie ... Ela entrou
na antecmara; a porta bateu atrs dela e o silncio encheu o hall.
Finalmente, Gregory explodiu: - Exibicionista!. Indiscutivelmente, Lydia
tinha-se tornado um dos membros do mundo elitista de Niang. Em Xangai, a
tia Baba tambm atravessava momentos difceis, pois j no possua o
lugar informal, mas respeitado, que tinha em Tianjin. Niang retirara-lhe
importncia e fazia que se sentisse como uma solteirona perfeitamente
dispensvel. A tia Baba fora sempre uma me para mim. Nessa altura
aproximmo-nos ainda mais. Ela dava a maior ateno a tudo quanto me
dizia respeito: a minha aparncia, a minha sade e a minha
personalidade. Acima de tudo, preocupava-se com a minha instruo,
provavelmente porque a sua tinha sido abreviada. Todas as noites a tia
Baba verificava os meus trabalhos de casa. Nos dias em que tinha teste
acordava-me s 5 da manh, para sair para a escola com a cabea chenha
de revises de ltima hora. Estava decidida a que eu obtivesse um grau
universitrio ... o meu bilhete de partida, a passagem para a
independncia, para sucessos sem fim. Havia coisas que ela no dizia,
mas eu entendia. Ela sabia que eu era a criana menos amada por ser uma
rapariga e, alm do mais, pelo facto de a minha me ter morrido ao
dar-me  luz. Nada do que eu fazia parecia agradar ao pai, a Niang ou
mesrno a algum dos meus irmos. Contudo, nunca deixei de acreditar que,
se me esforasse o suficiente, um dia mais tarde o pai, Niang e todos os
membros da minha famlia ficariam orgulhosos de mim. Por essa razo eu
estudava a srio, no s para agradar  minha tia, mas tambm porque
eram esses os nicos momentos em que eu podia libertar-me, esquecer-me
dos meus medos e, durante algum tempo, sair daquela casa to cheia de
manobras sinistras e maquinaes obscuras. 70 71 Na escola ganhei a
alcunha de "gnio" porque era a melhor aluna em todas as matrias,
excepto em Arte. Por detrs desta perfeio escolar enervante, as minhas
colegas apercebiam-se da minha vulnera_ bilidade e do meu desejo de ser
aceite por todas. Elas devem ter percebido que havia em mim qualquer
coisa de pattico. Eu nunca falava da minha famlia, no tinha
brinquedos, ornamentos ou roupas bonitas. Nunca tinha dinheiro para
comprar doces ou para ir a passeios. Recusava todos os convites para ir
a casa das colegas e nunca convidava ningum para ir a minha casa. No
confiava em ningum, mas ia para a escola todos os dias com uma enorme
solido dentro de mim. Em casa fazia os meus trabalhos da escola,
inventava jogos nos meus momentos de solido e lia as novelas de Kmag
Fu. Deve ter sido muito esquisito para uma Niang de 23 anos admitir a
presena de cinco enteados perante os amigos do pai. Suspeitvamos que
negava frequentemente a nossa existncia e que, intencionalmente, dava a
impresso de que o pequeno Franklin e o beb Susan eram os nicos filhos
do pai. Foi por esse motivo que fomos agradavelmente surpreendidos
quando um dos colegas do pai veio visitar-nos e trouxe como presente uma
grande caixa, dentro da qual descobrimos, deliciados, sete patinhos.
Como sempre, Franklin e Susan foram os primeiros a escolher. Lydia,
Gregory, Edgar e James escolheram a seguir. Quando chegou a minha vez,
restava-me o patinho mais pequenino, o mais magrinho e o mais fraquinho,
com uma cabecita minscula e uma penugem amarela, fofa e macia.
Apaixonei-me imediatamente por ele e dei-lhe o nome de Pequeno e
Precioso Tesouro ou, abreviadamente, PPT. A PPT tornou-se, desde logo,
tudo para mim. Eu devia ter uns oito anos na altura. Depois da escola
costumava ir para casa a correr para pegar na PPT ao colo e lev-la toda
ternurenta desde o terrao at ao quarto que partilhava com a minha tia.
Fazia os trabalhos de casa com a PPT a saltitar de uma cama para a
outra. A tia Baba nunca se queixava quando me ajudava a lavar as penas
da PPT com champ ou quando tinha de fazer uma limpeza depois dos seus
pequenos descuidos. Por vezes eu explorava o jardim  procura de vermes
para o jantar da PPT. Um sbado, acho que me aproximei de mais dos
domnios de Jackie, o feroz pastor- alemo que o pai tinha. O co
disparou na minha direco, ladrou furiosamente, como era seu hbito, e
mostrou os den tes afiados. Tentei acalm-lo, estendendo a mo para lhe
fazer festinhas na cabea, mas ele ferrou os dentes no meu pulso
esquerdo. Consegui soltar-me e corri para o meu quarto. Estava a lavar o
sangue quando a tia Baba entrou. Quando a vi, desfiz-me em lgrimas. A
tia Baba pegou em mim e embalou-me, secou-me as lgrimas e entendeu o
meu desgosto. Jackie era o animal de estimao deles. Seria melhor no
dizer nada, no causar sarilhos, no chamar a ateno. Tratou da ferida
com mercrio, algodo e fez um pequeno penso. Depois confortmo-nos uma
 outra  nossa maneira habitual: a observar as minhas fichas de
avaliao desde as do jardim de infncia at outras mais recentes. A
nossa arma secreta, o nosso plano mais importante, estava nesses
registos. Ser que um dia seria uma escritora famosa? Banqueira?
Cientista`? Mdica? Bem, qualquer coisa, desde que fosse famosa. E as
duas juntas, sozinhas, divagvamos sobre este assunto. Entretanto
tnhamos de ter boas notas. A tia Baba estava extraordinariamente
orgulhosa do meu xito nos estudos. De cada vez que recebia uma folha de
informaes, observava-a com toda a ateno, visivelmente emocionada -
Oh, olhem s para isto! Um A em quatro disciplinas e um B+ em Desenho!
De certeza que este ano vamos ser as melhores da aula outra vez! A tia
Baba fez-me acreditar que eu era brilhante. O orgulho que sentia nos
meus pequenos xitos inspirava-me. Todas as folhas informativas que
recebia eram guardadas num cofre, cuja chave pendurava ao pescoo, como
se as minhas notas fossem tesouros preciosos e impossveis de
substituir. Quando a vida nos corria mal, ela retirava-as do cofre para
nos consolar e observvamo-las juntas. - Vs esta aqui? Com 6 anos e j
na 1  classe e com "As" em todas as disciplinas! Meu Deus! E
acrescentava: - Eu acho que no h ningum que queira ir para a
universidade e tenha umas notas to boas como estas. Outras vezes dizia:
- Vais ser uma banqueira de sucesso, tal como a tua tia-av, e vamos
trabalhar juntas no nosso prprio banco. Nesse sbado, enquanto
percorramos as folhas de avaliao, esqueci-me da dor que tinha no
pulso e fomos felizes ... at  hora do jantar. 72 73 Estava uma noite
de Vero quente e hmida e o pai decidira que nos refrescssemos na
relva do jardim. Jackie andava a receber treino de obedincia por um
treinador alemo, Hans Herzog. O pai queria verificar os progressos. -
Depois do jantar - anunciou o pai - vamos sentar-nos no jardim e testar
o Jackie com um daqueles patinhos que ofereceram s crianas. Nesse
momento o meu apetite desapareceu, um arrepio de horror percorreu-me o
corpo, enquanto o meu pai se virava para o meu irmo mais velho: - Vai
buscar um dos patinhos  gaiola para eu fazer o teste - ordenou. Soube
imediatamente que o meu patinho era o que estava destinado a morrer.
Gregory correu para o terrao e regressou com a PPT. Evitou encarar-me.
Mais tarde, quando estvamos sozinhos, disse-me: - O patinho sacrificado
tinha de ser o que pertencia ao dono mais fraco. No  uma questo
pessoal, percebes? O pai colocou a PPT na palma da mo e dirigiu-se ao
jardim. Senti uma nusea. A PPT parecia to frgil e cheia de vida.
Jackie saudou o dono alegremente. Estava uma noite linda. A Lua estava
cheia. As estrelas brilhavam. O pai sentou-se numa cadeira de jardim com
Niang, a tia Baba e Ye Ye a seu lado. Ns, as crianas, sentmo-nos na
relva. Eu tremia  medida que o pai colocava cuidadosamente a PPT na
relva; partiu-se-me o corao. Jackie recebeu ordem para se sentar a
cerca de 2 metros de distncia. O co arfou, resistiu, impacientou-se,
mas sentou-se. De sbito, PPT viu-me. Piou suavemente e moveu-se na
minha direco. Nesse instante Jackie saltou. Um salto preciso eJackie
tinha a perna esquerda de PPT entre as suas poderosas mandbulas. O pai
precipitou-se, zangado com a desobedincia de Jackie. Jackie largou
imediatamente o meu patinho, mas o mal j estava feito. Dei uma corrida
e apanhei o meu bichinho de estimao. A perna balouava, solta em
relao ao corpo, o seu pezito minsculo, unido pela membrana, torcido
num ngulo grotesco. Uma onda de desolao maior do que todas as outras
que tinha conhecido desceu sobre mim. Sem articular uma nica palavra,
levei-a para o meu quarto, coloquei-a sobre a cama com todo o cuidado,
embrulhei-a no meu melhor cache 74 col e deitei-me a seu lado. Nunca
consegui esquecer a noite que passei com pPT. Vivi uma tristeza
esmagadora, da qual nunca consegui falar a nenhum dos meus amigos. No
havia ningum que me pudesse ter compreendido, nem mesmo a minha tia.
ppT recusou-se a comer, a beber e morreu muito cedo, na manh seguinte.
A tia Baba deu-me uma antiga caixa de costura, que eu usei como caixo.
James e eu enterrmo-la juntos debaixo da magnlia, que nessa altura
floria em pleno. Ainda hoje no sou capaz de sentir o cheiro das
magnlias sem experimentar a mesma sensao de perda irrecupervel.
Colocmos um ramo de flores numa garrafa de leite em frente da campa e
juntmos um prato j velho com alguns gros de arroz, um pouco de gua e
as minhocas que PPT adorava. Enquanto estvamos assim, lado a lado,
lamentando aquela perda, James olhou para a minha cara manchada de
lgrimas e murmurou, procurando consolar-me: - No h-de ser sempre
assim. Vais ver que as coisas vo melhorar ... Stta~t le! Senti-me
grata, mas foi difcil agradecer-lhe. Em vez disso respondi: - Hoje 
domingo e ainda esto todos a dormir. No sei porqu, mas neste momento
parece que somos s ns dois contra o mundo todo! A ferida no meu pulso
sarou, mas a cicatriz ficou, como uma homenagem a um amigo cado,
acompanhando-me sempre, fizesse o que fizesse, fosse para onde fosse.
Quando eu tinha 10 anos, houve dois acontecimentos que ocorreram num
espao de poucos dias e que fizeram deteriorar substancialmente a minha
relao com Niang. Uma das minhas colegas convidou-me para a sua festa
de anos, que calhou num feriado catlico: um dia feriado no colgio das
freiras de Sheng Xin, mas no nas outras escolas.Embora soubesse que
estava proibida de ir a casa de qualquer uma das minhas amigas, pensei
que, se planeasse tudo com cuidado, no seria descoberta. Na manh do
dia da festa vesti o meu uniforme do colgio e peguei na pasta como se
fosse para a escola. A tia Baba tinha-me oferecido uma moeda de prata,
que eu guardara cuidadosamente. Coloquei-a no bolso para, depois do
almoo, comprar uma prenda de anos  minha amiga. Encontrmo-nos na casa
dela, que ficava a curta distncia da 75 minha, e passmos uma manh
maravilhosa a brincar com a sua enorme coleco de bonecas. O meio-dia
chegou rapidamente. (Por essa altura, as raes C dos Americanos j se
tinham esgotado e eu era esperada em casa  hora do almoo. Davam-me
dinheiro para o elctrico, mas apenas para a viagem de ida e volta 
hora do almoo.) Disse s minhas colegas que tinha de ir a casa fazer um
recado, mas que voltava da a uma hora. Pediram-me o meu nmero de
telefone e eu dei-o, sem pensar. Corri at casa, muito bem disposta, e
dirigi-me ao meu quarto. A, inesperadamente, dei de caras com Niang.
Nunca descobri o que estava ela l a fazer. Ela foi apanhada de surpresa
e, tal como eu, sobressaltou-se. - Porque j ests em casa to cedo? -
perguntou ela. - Bem, sa um pouco mais cedo - menti eu e,
estupidamente, acrescentei -, sa da escola,  claro! - Vem c! -
ordenou ela, desconfiada. Lembro-me de sentir o corao aos saltos, 
medida que me aproximava dela. Niang estava irrepreensivelmente
penteada, impecavelmente vestida: uma pantera pronta a saltar sobre a
sua presa. Revistou-me e encontrou o dlar de prata que a tia Baba me
tinha oferecido. - De onde  que isto veio? - perguntou. Eu menti,
tentei fugir  questo, senti-me como um verme. Eu no ia, no podia
implicar a tia Baba no assunto. O interrogatrio continuou. Ela
esbofeteou-me com fora. Uma, duas, trs vezes. O interrogatrio
prolongou- se, parecia no ter fim. - A quem  que roubaste isto? No
houve resposta. - Vendeste alguma coisa de c de casa? - perguntou ela.
Eu estava mesmo a pensar em confessar um roubo como soluo para aquele
assunto, quando ambas reparmos na nova empregada que estava de p,
timidamente,  entrada da porta. - Desculpe interromp-la, ,~ ~ ~, Yen
tai tai (Sr.a Yen) - disse a rapariga -, h uma chamada telefnica para
ela ... - e apontou para mim. Lembrei-me de repente de que tinha as
amigas  minha espera para . continuarmos a brincadeira. Deviam ter-se
cansado de esperar e telefo 76 naram-me. Niang correu ao telefone, que
estava ao fundo das escadas. Conseguia ouvir-lhe a voz, num tom melado,
revoltante. . A Adeline agora est ocupada. Fala a me. Quem est ao
telefone, por favor? Seguiu-se uma curta pausa ... -Mas no tm de ir
hoje  escola?... Ah, sim, estou a ver. Porqu? Um feriado? Que bom! E o
que  que esto todas a fazer? - Seguiu-se o inevitvel. - A Adeline no
poder voltar a vossa casa esta tarde. Eu digo-lhe que telefonaram, mas
no esperem mais por ela. Regressou e olhou-me nos olhos: - No s s
uma ladra; s tambm uma mentirosa e calculista. O problema  teres ~ o
sangue ruim da tua me. Nunca sers nada na vida! Quanto a mim, nem
sequer mereces viver e ser alimentada nesta casa. O teu lugar  num
orfanato! Enquanto o mundo se desmoronava  minha volta, ela ainda
acrescentou: - Ficas no teu quarto at o teu pai chegar a casa! No tens
direito a comer seja o que for enquanto este assunto no estiver
resolvido! Sentia-me assustada e na maior das misrias. Sozinha,
sentei-me no meu quarto, no 2. andar, e pus-me a olhar para Jackie, que
andava inquieto pelo jardim: para a frente e para trs, para a frente e
para trs. O barulho da loua e risos fez-se ouvir na antecmara do 1..
andar, onde o ch era servido. Pouco depois Franklin surgiu na varanda
com um prato de bolinhos. Indiferente, vi-o cuspir bolo de castanhas,
rolinhos de salsicha e sanduches de galinha para Jackie, que saltava
deliciado e deitava as garras a estas maravilhas. Lembro-me ainda de
desejar ardentemente poder transformar-me em Jackie, nem que fosse
apenas por umas horas: sem ralaes, sempre alegre e bem alimentado.
Mais tarde, o pai veio ter comigo ao quarto, sombrio e trazendo consigo
o chicote que Hans, o treinador do co, lhe tinha oferecido no ltimo
Natal. Quando me perguntou sobre o dlar de prata, no consegui mentir.
Ordenou-me que me deitasse na cama de barriga para baixo e deu-me com o
chicote no rabo e nas pernas. Enquanto ali estava a tremer de dor e de
vergonha vi um rato atravessar o soalho, as orelhas alerta e uma longa
cauda movimentando-se de um lado para o outro. Quis gritar de pnico,
mas permaneci em silncio enquanto durou a sova. 77 Ento, o pai enrolou
o chicote no brao e declarou que a tia Baba era uma m influncia para
mim e que teramos de ser separadas. S de pensar em tal possibilidade
me sentia apavorada. Dois dias mais tarde, estava eu ainda dentro de uma
espcie de nuvem, desabou a segunda catstrofe. Por ter sido sempre a
melhor aluna durante quatro anos consecutivos, fui eleita chefe de
turma. Na mesma tarde em que celebrava o meu triunfo fui a p para casa,
eufrica, esquecendo-me, por momentos, das minhas desditas. Um grande
grupo de colegas lideradaspela minha chefe de campanha- deviam ser umas
doze ao todo - tinha decidido seguir-me em segredo at minha casa para
me oferecer uma festa- surpresa. Cinco minutos depois de eu ter entrado
em casa a campainha tocou. A empregada foi abrir e descobriu um grupo de
rapariguinhas risonhas e bem dispostas vestidas com o mesmo uniforme,
todas elas gritando que queriam ver-me. Ciente do regime que vigorava em
minha casa e da desgraa em que eu prpria me encontrava, ela hesitou;
depois pediu que entrassem para a sala de estar e subiu as escadas
calmamente at ao 2. andar. J no me lembro do nome da empregada, mas
lembro-me perfeitamente da expresso alarmada do seu rosto ao dizer-me
quase em segredo; - Um grupo de rapariguinhas l da sua escola veio
visit-la. Perguntam por si. Empalideci de preocupao: - Niang est em
casa? - Receio bem que sim. E o seu pai tambm. Esto no quarto. -
Importa-se de dizer s minhas amigas que no estou em casa? - perguntei
j em desespero de causa. - Receio bem que no. Tentei dizer algo de
semelhante quando fui abrir a porta, mas parece que a seguiram at aqui
e que a viram entrar em casa. Querem fazer- lhe uma festa-surpresa por
ter ganho as eleies para chefe de turma. A inteno  boa. - Eu sei.
No tive outro remdio seno descer e ir cumprimentar as minhas amigas.
Enquanto percorria vagarosamente as escadas atrs da criada, j se ouvia
a euforia incontrolvel de uma dzia de meninas de 10 anos a ecoar por
toda a casa. 78 Os dez minutos seguintes formam um conjunto difuso e
sombrio na minha memria. As minhas colegas estavam demasiado excitadas
e felizes para se aperceberem do silncio inexpressivo da minha cara.
Juntaram-se  minha volta, gritando-me os parabns, cheias de alegria e
rindo-se s gargalhadas. O meu estmago contorcia- se. "Eu s tenho 10
anos", dizia eu de mim para mim, "no pedi a ningum para c vir. De
certeza que Niang no me vai matar por isto." Nesse preciso momento a
criada reapareceu  porta: -A sua me quer v-la.j. Com esforo, fiz
qualquer coisa parecida com um sorriso. - Desculpem - disse eu. E
acrescentei com um encolher de ombros: - O que querer ela agora?
Deslizei escada acima e plantei-me em frente da porta fechada do quarto
deles, o Santo dos Santos. No conseguia pensar em nada e tinha os olhos
rasos de gua quando bati  porta. Estavam  minha espera.
Encontravam-se sentados lado a lado na pequena alcova que dava para o
jardim. Atravs das brilhantes vidraas panormicas avistei Jackie, que
saltitava entre os arbustos atrs de um passarinho. Assim que entrei
percebi logo que ia ser pavoroso. Quando tentei fechar a porta atrs de
mim, Niang anunciou com uma doura grotesca: - Deixa a porta aberta. Em
nossa casa no h segredos. Fiquei de p em frente dos meus pais. -Em
silncio, o nico barulho que ouvamos eram os risos de contentamento
que voavam escada acima. - Quem so esses selvagens que esto l em
baixo na sala de estar? - perguntou Niang em voz alta, fumegando raiva.
- So minhas amigas. Serrei os punhos e senti as unhas cravarem-se na
palma das mos, mas estava decidida a no chorar. - Quem  que as
convidou? -Ningum. Foram elas que decidiram vir para comemorar a minha
vitria como chefe de turma. - Esta festa  ideia tua? - No, Niang. No
tenho nada a ver com isso. - Vem c! - gritou ela. Devagar,
relutantemente, aproximei-me da cadeira onde estava sentada. Deu-me uma
bofetada com tanta fora que prdi o equilbrio. 79 - Ests a mentir! -
continuou ela - Planeaste tudo, no foi, para mostrares a tua casa s
tuas amigas que no tm um tosto. Pensaste que ns no estvamos em
casa. - No, Niang, no foi assim. J no conseguia segurar as lgrimas
quentes que me corriam pela cara abaixo. - O vosso pai trabalha tanto
por vocs todos e no fim vem para casa para dormir a sesta e no
consegue ter um minuto de sossego. Isto no pode ser! Sabes muito bem
que no podes convidar as tuas amigas para virem c a casa. Como  que
te atreves a convid-las para a sala de estar? - J disse que no as
convidei! As minhas amigas sabem que eu no posso ir a casa delas depois
da escola e acho que foi por isso que decidiram vir at aqui. Elas no
sabiam que era proibido. Ela deu-me outra bofetada, desta vez com as
costas da mo. - Mentirosa! Planeaste isto tudo s para te armares!
Hei-de ensinar-te que no se fazem as coisas s escondidas! Vai j l
abaixo e diz quele bando de selvagens que se vo embora imediatamente.
E diz-lhes tambm que nunca mais c voltem. Nunca mais! Nunca mais!
Nunca mais! Elas no so bem-vindas! Sa do quarto e arrastei-me
penosamente pela escada abaixo para enfrentar as minhas amigas. Um
silncio constrangedor tinha j substitudo a alegria anterior. Limpei o
nariz e os olhos  manga e vi uma mancha de sangue. Horrorizada e
envergonhada, descobri que as bofetadas de Niang me tinham posto o nariz
a sangrar e que a minha cara estava marcada com uma mistura de lgrimas
ensanguentadas. Quando regressei  sala de estar para enfrentar as
apoiastes da minha campanha, devia estar numa bela figura. Despida de
quaisquer defesas, obviamente mal amada e indesejada pelos meus prprios
pais, no fui capaz de olhar para elas olhos nos olhos e elas tambm no
conseguiram olhar para mim. Sabiam que eu sabia que elas tinham ouvido
tudo. As minhas amigas no faziam a mnima ideia de como era a minha
situao familiar. Perante o mundo exterior eu fazia um esforo
desmedido para dar a ideia de que fazia parte de uma famlia
encantadora. Agora, a mscara que eu to cuidadosamente tinha preservado
fora arrancada, deixando transparecer uma realidade pattica. Tentei
arranjar um pouco de dignidade e disse para a geral: - Desculpem, o meu
pai precisa de dormir. Eles pedem-me que vos diga que se vo embora. A
minha chefe de campanha, Wu Chun-mei, uma rapariga alta e atltica, cujo
pai era um mdico formado na Amrica, tirou o leno e deu-mo~ Enervada
com esta atitude, procurei agradecer-lhe com um sorriso, mas, no sei
como, no fui capaz quando vi a compaixo estampada nos seus olhos
vermelhos. Ento, com as lgrimas a correr, disse-lhes: - Obrigada por
terem vindo. Nunca me esquecerei da vossa lealdade. Saram umas atrs
das outras, deixando ficar os presentes que tinham trazido. Wu Chun-mei
foi a ltima a sair. Quando passou pelas escadas, gritou subitamente l
para cima: - Isto  injusto! Vocs so brbaros e cruis! Vou dizer ao
meu pai! Agarrei nos meus presentes e subi as escadas. A porta do quarto
deles estava escancarada. O pai chamou-me e ordenou-me que fechasse a
porta. Ficmos os trs sozinhos. - A tua Niang e eu - comeou o pai -
estamos muito preocupados com o teu comportamento e a tua atitude.
Convidaste as tuas amiguinhas para c virem a casa hoje  tarde, no
foi? Em silncio, abanei a cabea, negando. O pai olhou para o meu monte
de presentes, alguns embrulhados em bonitos papis coloridos e com
laos. - Pe-os em cima da cama -ordenou - e abre-os. Apressei-me a
obedecer. Ficmos a olhar para uma variedade de coisas: uma novela de
Kung Fu, alguns livros de banda desenhada, um jogo de damas chinesas,
pacotinhos de coisas boas: carne seca, ameixas em conserva, sementes de
melo, tirinhas de gengibre adocicado, limas com sal, amendoins~3, uma
folha de papel de caligrafia com a palavra "vitria" pintada numa letra
grande e infantil, uma corda de saltar. - Pega em tudo e deita no cesto
dos papis. Obedeci o mais depressa que pude. - Porque se lembraram as
tuas amigas de c vir e de te oferecer prendas? - perguntou Niang. -
Acho que foi por causa de eu ter ganho as eleies hoje. Agora eu sou
chefe de turma. Esforcei-me muito por isso ... z' Conjunto de aperitivos
muito apreciados pelos Chineses, que conjugam frequentemente os sabores
doce e salgado. (N. da T.) 81 - Deixa-te de histrias! - gritou Niang. -
Com  que te atreves? No me interessa nada do que dizes ser na escola;
aqui no s nada sem o teu pai. Nada! Nada! Nada! O pai falou
calmamente: - Atua Niang e eu estamos especialmente preocupados com o
facto de teres tentado virar as tuas amigas contra ns e de teres pla_
neado traz-las c a casa para nos insultarem. - Mas eu no fiz nada
disso. - No contradigas o teu pai! Estas a tornar-te uma menina muito
orgulhosa! O que pensas que s`? Alguma princesa a quem as tuas colegas
devam prestar vassalagem? - Wu mei! (Quinta filha mais nova!) -
acrescentou o pai tristemente. - Na verdade, no nos resta outra
soluo. Jia chou bu ke wai yang (As mazelas da famlia nunca devem ser
mostradas em pblico). Quebraste a confiana que depositvamos em ti
quando pediste s tuas amigas que nos insultassem. - O que  que me vai
acontecer? - perguntei a medo. - Ainda no sabemos - foi a resposta
cruel que recebi do pai. - J que no s feliz c em casa, ters de ir
para outro lugar. - Mas para onde  que eu posso ir`? - perguntei eu. E
j me via vagueando sem destino pelas ruas de Xangai. J tinha visto
bebs abandonados embrulhados em jornais deixados  beira da estrada e
crianas andrajosas  procura de restos de comida nos caixo tes de lixo.
Havia alguns pobres nas redondezas da nossa casa, a elegante Avenida
Joffre, todavia reduzidos s cascas dos pltanos que ladeavam a rua.
Fiquei aterrorizada. Ca de joelhos em frente deles, esperando comover o
pai e amolecer Niang. Em vez disso ele afirmou: - Nos tempos difceis
que atravessamos devias era estar agradecida por teres uma casa que te
recebe e arroz na tua tigela todas as noites. - E estou, pai. - Pede
desculpa  tua Niang. - Desculpe, Niang. - No sabes a sorte que tens -
disse ela. - Vais sair do quarto da tia Baba. Na verdade, no devias
sequer voltar a falar com ela. Ela  uma m influncia para ti.
Estragou-te com mimos, alimentou a tua arrogncia e ainda te ensinou a
mentir e a enganar os outros, dando-te 82 dinheiro sem ns sabermos.
Entretanto vamos procurar um orfanato para ti at teres idade suficiente
para ires trabalhar e ganhares o teu sustento. O teu pai j tem
preocupaes suficientes para ainda ter de se preocupar com gente da tua
laia.  tudo. - Obrigada, pai. Obrigada, Niang. Levantei-me, lancei um
olhar demorado ao cesto dos papis e fui para o quarto que partilhava
com a tia Baba, talvez pela ltima vez. Os meus olhos foram cair sobre
os livros que tinha deixado em cima da minha secretria, antes de a
criada me ter chamado. Havia composies, trabalhos de histria,
matemtica, ingls e caligrafia  espera de serem feitos. Com grande
determinao, deitei-me ao trabalho ... e iniciei a minha fuga para o
meu mundo escolar, onde as regras eram simples, justas e imutveis, um
mundo de que Niang no fazia parte e onde a sua autoridade sobre mim no
existia. A minha angstia desaparecia  medida que ia escrevendo. O meu
nariz parou de sangrar. A cara j no me doa. S via nmeros e letras
negras em folhas de papel muito branco. Os problemas eram um desafio e
chamavam por mim. As solues compensavam-me e gratificavam-me. Eu
controlava o meu destino.  medida que ia terminando cada uma das
tarefas, havia um vazio que se preenchia dentro de mim. Nessa noite,
depois de um jantar cheio de pressentimentos e durante o qual nem o pai
nem Niang olharam para mim ou me dirigiram a palavra, fui direita para o
meu quarto. A tia Baba tinha sado para jogar ntah jottg. Com os
trabalhos de casa acabados, no conseguia arranjar mais nada para fazer.
O desespero chegou a pouco e pouco. Niang estava  beira de me arrancar
a nica pessoa que me amava. Uma aps outra, as horas foram passando.
No conseguia dormir. Escorreguei para fora da cama e sentei-me, s
escuras, no cimo das escadas,  espera de ouvir os passos da tia Baba.
J passava das 11. Ela devia estar a chegar. Pensei em fugir, em apanhar
um comboio para a longnqua provncia de Sichuan, na fronteira com o
Tibete. Atravs das minhas novelas de Kung Fu tinha conhecido mosteiros
budistas situados nas lendrias montanhas E May, onde os monges rezavam
e praticavam artes marciais. Talvez algum deles me aceitasse como
novia. J me via como was pessoa experiente nas artes de wu-chu, judo e
carat, saltando agilmente sobre telhados, vingando o mal feito aos que
tm esperana ... No escuro, devo ter passado pelas brasas, encostada ao
corrimo. Acordei com uma dor. A luz do hall estava acesa. A figura
grosseira 83 de Edgar elevava-se com uma torre. No caminho para a casa
de banho tinha tropeado no meu corpo adormecido e estava furioso. - O
que ests aqui a fazer a meio da noite? - perguntou. - Quaso me fizeste
cair! Idiota! Atravessas-te sempre no meu caminho! Ensonada, esfreguei
os olhos. Achei que era mais seguro ficar calada - Responde, minha
estpida! Eu continuava muda. Comecei a levantar-me devagar. Por pura
maldade, ele dobrou- se, agarrou-me no brao e torceu-o com fora, Mordi
os lbios para no chorar. Olhei para ele com ar de desafio, decidida a
no dar um pio. - Responde! - repetiu ele, torcendo-me o brao ainda com
mais fora. Nesse preciso momento James saiu do quarto. Em silncio,
olhando em frente, como se nada visse nem ouvisse, passou por ns
apressadamente, em direco  casa de banho. Aliviou-se sem fechar a
porta completamente e voltou para a cama. Edgar deitou-me ao cho e
comeou a dar-me pontaps, uns atrs dos outros. Depois desta amostra de
valentia corri para a casa de banho e tranquei a porta. Um dos pontaps
acertara-me em cheio no nariz, que estava a sangrar muito. Fiquei a
olhar para o espelho, para a minha cara pisada e ensanguentada e, de
repente, rompi num choro incontrolvel, tentando, ao mesmo tempo, abafar
desesperadamente os meus soluos, para que Edgar no tivesse o prazer de
saber que me fizera chorar. A pouco e pouco, a noo de injustia de
tudo aquilo tornou-se mais clara e uma fria terrvel foi-se apoderando
de mim. Finalmente ouvi os passos da tia Baba. Era quase 1 da madrugada.
Bastou-lhe olhar para mim para perceber tudo o que se tinha passado.
Enquanto contava as minhas mgoas, vi-lhe no rosto que a noite tambm
no tinha sido fcil para ela. Estava ligeiramente deprimida, um estado
de esprito resultante de perdas considerveis  mesa do mah jo~ig.
Contei-lhe que estava a pensar apanhar o comboio para a provncia de
Sichuan e pedi-lhe dinheiro emprestado para a viagem. - Mas que grande
mistura de ideias boas e disparatadas! s vezes at me esqueo de
quantos anos tens! Eu estava mesmo a falar a srio. - Confie em mim! -
disse-lhe eu - No vou desperdiar o seu dinheiro! Vou aprender tudo,
regresso e ponho tudo nos seus devidos lugares. Vou tomar conta de si e
de Ye Ye. 84 Deixa-te de lirismos! Andas a ler novelas a mais. Se
apanhares esse comboio, o mais certo  seres raptada e vendida como ya
tou (rapariga escrava). Ye Ye e eu nunca mais conseguiremos
encontrar-te. Mesmo aqui, dentro de Xangai, a polcia encontrou uma vez
trinta crianas desaparecidas acorrentadas  parede de uma fbrica de
conservas, cheias de fome e espancadas quase at  morte. Aquelas que
conseguissem viver para alm da infncia seriam vendidas para bordis.
wu mei (Quinta filha), tens que saber distinguir entre o sonho e a
realidade. Concentra-te naquilo que sabes fazer bem. Agarra a instruo
que te  dada o melhor que puderes. Esquece os mestres de Kung Fu, as
artes marciais e todos esses disparates. Quanto a Niang, vai ter com ela
amanh e engole a tua amargura. Bate-lhe  porta; pede-lhe perdo.
Diz-lhe tudo aquilo que ela gosta de ouvir. Sabes to bem quanto eu
aquilo que deves dizer. Que mais podemos ns fazer?  ela q que tem o
dinheiro e o poder. Se for necessrio, ajoelha-te e bate com a cabea no
cho. Com humildade, pede-lhe o dinheiro para os bilhetes do elctrico.
Se fizeres isso, tudo h-de correr bem, vais ver. Agora deita-te e
dorme, que amanh  dia de escola. Deitei-me, mas no consegui dormir.
No podia sequer pensar na ideia de me render. Depressa ouvi a tia Baba
a ressonar suavemente.  medida que a noite ia passando, eu ficava cada
vez mais decidida a no me render, independentemente da crueldade da
tortura que me fosse infligida. Sem outras defesas que no a minha
determinao, a nica coisa de que eu tinha a certeza era de que tinha
de agir assim, na esperana de que Niang no tivesse poder para me
derrotar. 85 7 Yuan um qiu yu Subir s rvores para pescar Aos 65 anos
de idade, Ye Ye viu-se sem um nico tosto em seu nome. O pai deixou
claro que tanto Ye Ye como a tia Baba tinham de negociar o seu subsdio
com Niang. Nunca tal se tinha ouvido, especialmente numa cultura onde os
sogros raramente se dignam dirigir a palavra s respectivas noras,
quanto mais pedir-lhes dinheiro. Alm disso, ao quebrar o lao
confuciano de piedade filial, o pai estava a destruir o respeito prprio
de Ye Ye. Gentil, mas com firmeza, Ye Ye recusou, dizendo  tia Baba que
no tinha qualquer inteno de *,~. ~, yzzaza mu gizz yu (subir a uma
rvore para pescar). Em vez disso, pai e filha foram visitar a tia-av
ao Women's Bank e a tia Baba pediu-lhe que a voltasse a admitir. Na
cerimoniosa sala de jantar da tia-av, no seu apartamento do 6. andar,
foram recebidos com um delicioso jantar, que inclua as iguarias
preferidas de Ye Ye: os pratos tpicos de Ningpo. Serviu-se caranguejo
no vapor e fitas amarelas com aroma de peixe, barbatana de tubaro e
camares frescos com ervilhas, tenros rebentos de bambu e porco com
anis. A tudo isto 86 se juntaram trs sobremesas bem ao gosto dos
convidados: bolinhas de arroz com glten acompanhadas com pasta de
ssamo, pudim das oito delcias e n:ozzsse de mas silvestres. Com a
voz amaciada pelo vinho de an'oz servido quente, os dois irmos acabaram
por cantar em conjunto algumas reas das suas peras preferidas. Desde a
sua fuga de Tianjin vinte meses antes, o pai escondia-se dos Japoneses
no apartamento da tia-av durante o horrio normal de trabalho. Muitas
das suas operaes financeiras eram executadas atravs do banco dela.
Ela sabia melhor do que ningum o dinheiro que o pai estava a ganhar.
Agora elogiava o seu sucesso a Ye Ye e  tia Baba. Receando perder a
face, Baba acabou por no mencionar a verdadeira razo do seu pedido.
Com o objectivo de proteger o seu filho das censuras dos outros, Ye Ye
tinha pedido  tia Baba que nunca dissesse a verdade. Entre pai e filho
os assuntos relacionados com dinheiro no voltaram a ser discutidos. A
tia Baba voltou ao trabalho. No dia de pagamento, ela trazia o seu
salrio em dinheiro e depositava metade das notas na gavetinha de cima
do lado esquerdo da secretria de Ye Ye. Era este o nico dinheiro que
Ye Ye tinha ao seu dispor para as parcas compras de que necessitava:
rebuados, tabaco e ervas chinesas, idas ao mdico ou ao barbeiro,
almoos num restaurante ou, de vez em quando, um brinquedo para os seus
netos. Viviam num ambiente de inquietao constante. Niang deixou bem
claro que a sua presena era penosa. Para salvar as aparncias,
sorria-lhes sempre, mas eles sentiam o desprezo por detrs da mscara.
Longe de poder desfrutar de uma reforma digna e calma, Ye Ye recebeu um
telhado onde se abrigar, trs refeies dirias e nada mais. O pai nunca
visitava o 2. andar. Quando Niang recebia visitas em casa, esperava que
Ye Ye e a tia Baba permanecessem l em cima, nos seus quartos, tal como
ns todos, os enteados. Os criados, esses, reagiam consoante a patroa:
os que eram protegidos de Niang tornaram-se atrevidos e insolentes. Para
Ye Ye a vida tornou-se cada vez mais solitria e, embora no estivesse
proibido de receber a visita dos seus amigos, Niang conseguiu que
deixassem de se sentir  vontade por detrs de toda aquela aparncia de
delicadeza. A pouco e pouco deixaram de aparecer. Ye Ye passava todo o
seu tempo a ler e a praticar caligrafia. Certa vez escreveu um carcter
~? rezt (suportar). Disse  tia Baba que estudasse a palavra. 87 -
Divide ~? ren (suportar) nos seus dois componentes, superior e inferior.
O componente superior, Tj dao, significa "faca"; contudo possui uma
espcie de bainha no centro da espada ~J. O componente inferior, L:
xin, significa. "corao". A combinao de ambos forma uma palavra e
essa palavra conta-nos uma histria. Embora o meu filho esteja a ferir o
meu corao, eu vou embainhar essa dor e vou sobreviver. Para mim, a
palavra ,~ rera,  o emblema da civilizao chinesa. Quando a tia Baba
olhou para a palavra, pde ver nitidamente toda a dor e a raiva
evidenciadas em cada uma das pinceladas. Ye Ye no expunha os seus belos
trabalhos de caligrafia na parede com medo de ofender Niang. Lydia, a
minha irm mais velha, no era brilhante na escola. Com o brao esquerdo
defeituoso, o seu futuro no se afigurava prometedor. Niang e o pai
receavam por ela. Decidiram, por isso, arranjar-lhe um casamento o mais
cedo possvel. Logo na visita seguinte que fizeram a Tianjin levaram
Lydia com eles e apresentaram-na a Samuel Sung. Samuel era o filho mais
novo do mdico da nossa famlia em Tianjin. Tinha-se formado em
Engenharia pela Universidade desta cidade. Fora professor durante alguns
anos, tendo obtido o grau de mestre pela Universidade de Purdue,
Indiana. Em 1948 regressara da Amrica e andava  procura de esposa.
Tinha j 31 anos; era, portanto, trs anos mais velho de que Niang.
Media cerca de 1,60 m, a sua cabea era grande e estava quase careca,
tinha os olhos pequenos e astutos e as sobrancelhas inclinadas para cima
davam-lhe um aspecto sinistro. Enviesados para um lado, os lbios
pareciam estar sempre a querer abrir-se num sorriso estranho. Embora no
fosse exactamente uma estampa, falava calmamente e tinha boas maneiras.
Recordo-me de Lydia a falar alegremente do seu casamento_ j prximo com
Samuel e de andar a rabiscar vezes sem conta o seu futuro nome de Sr.a
Samuel Sung, em ingls e chins. Muitos anos mais tarde foi a prpria
Lydia quem deu uma verso dos acontecimentos que levaram ao seu
casamento, pintando um quadro completamente diferente. "Quando eu tinha
17 anos, o pai chamou-me ao seu quarto para uma longa conversa.
Disseram-me que me pusesse em frente do espelho e que observasse a
imagem. Como eu no estava a perceber onde  que 88 queriam chegar
(porque todos os dias me via ao espelho e no descobria nada de
especial), pediram-me que olhasse com ateno para a minha mo esquerda,
que tinha um defeito devido  paralisia de Erb, mas de que eu nunca
pensara ter a culpa. O pai disse: . Ests a chegar  idade do casamento
e encontrmos um homem muito bom para ti.  para teu bem, para o bem do
teu futuro, porque tens agora uma boa oportunidade. Se no te casas
enquanto s jovem, acabas por te tornar mais uma solteirona na famlia e
ns no vamos deixar que isso acontea. A nossa deciso est tomada. As
suas palavras caram como uma bomba e eu senti-me aterrorizada,
miservel. No sabia o que fazer ou o que pensar, pois nunca me tinha
passado pela cabea casar-me aos 17 anos. Em vez disso, sentia admirao
por algumas das minhas colegas que iriam prosseguir os seus estudos no
estrangeiro. Eu tinha boas hipteses neste campo, pois o meu ingls era
bom. Nunca ningum me tinha falado sobre sexo ou sobre amor. Todavia,
tinha de fazer o que me mandavam, pois, de contrrio, iria para um
convento e seria freira at ao fim dos meus dias. Ainda hoje consigo
ouvir a voz de Niang: -No vou ter de certeza mais outra solteirona c
em casa! De que  que estas  espera? Vais de certeza para um convento
se no fizeres o que te mandamos. Se obedeceres, seremos bons para ti!
Com isto percebi que estava realmente a mais e que no era desejada.
Quando olhei para o espelho, vi que realmente no era muito bonita e que
tinha uma mo defeituosa. Embora nessa altura eu no tivesse conscincia
de que cada criana tem os seus direitos (que incluem o direito 
educao e  escolha do seu esposo), eu sentia, mesmo assim, um impulso
irreprimvel de me rebelar contra aquela tirania egosta. Fui ter com Ye
Ye e com a tia Baba em busca de ajuda. Eles disseram-me que no podiam
fazer nada, porque, em primeiro lugar, o meu pai era o meu pai e, em
segundo lugar, eles prprios dependiam do pai para viver. Aos 17 anos eu
era ingnua e pueril e confiava inteiramente no pai; pensava que as suas
decises eram as melhores para o meu futuro. S mais tarde quando ele
enviou todos os meus irmos para Inglaterra, a fim de prosseguirem os
seus estudos,  que percebi que tinha sido uma palerma. Senti-me
desgraada e deprimida por me ter submetido a um plano to baixo, que
consistia apenas em transferirem um fardo para as 89 mos de outra
pessoa. Odiei-os pela discriminao que fizeram, quando eu tinha
confiado completamente no pai. Agora, ao olhar para trs penso que o pai
defendia o conceito feudal da supremacia masculina,>, Segundo Lydia,
Niang tinha-a praticamente forado a casar com Samuel, recordando-lhe
que o pai tinha sete filhos para sustentar e que ela era a mais velha.
Uma vez que seria difcil para ela arranjar um emprego com o brao
esquerdo deformado, era intil gastar dinheiro enviando-a para a
universidade. - Se te casares com Samuel - disse-lhe Niang -, o pai
d-te um dote. Pressionada desta forma, Lydia cedeu. Em 1948 tiveram uma
grande festa de casamento com mais de 500 convidados, todos eles
chineses. Como mestres de cerimnias, foram contratados dois conhecidos
comediantes da rdio. Nos meses que prece deram o casamento, os
presentes comearam a chegar a nossa casa e foram cuidadosamente
escolhidos. Os melhores ficaram para Niang. Os meus trs irmos
receberam ordens para raparem cuidadosamente a cabea para a ocasio.
Vestiram-se com os tradicionais fatos chineses, longos e escuros. Quanto
a Franklin, vestiu um fato ao estilo ocidental, de bom corte e feito por
medida, o cabelo ondulado, bem  moda. Susan usou um vestido de cetim,
cheio de rendas e franzidos. Durante a cerimnia e nos dias
subsequentes, os meus irmos, "as trs lmpadas", foram cruelmente
gozados pelos seus pares. Os amigos do pai fizeram notar o tratamento
desigual conferido aos dois grupos de crianas pelas suas duas mulheres.
Conforme o prometido, Lydia recebeu um dote de 20 000 dlares
americanos, uma soma enorme naquela poca. Ela e Samuel mudaram-se
directamente para Tianjin, para casa dos pais de Samuel. No os voltei a
ver durante os trinta e um anos que se seguiram. Depois de o Japo ter
perdido a guerra, o pai reivindicou os seus negcios e as suas
propriedades em Tianjin. Acompanhado por Niang, viajava frequentemente
para l. Os rapazes tornavam-se cada vez mais independentes durante a
ausncia dos pais. Lembro-me de os ver a namoriscarem umas raparigas que
moravam atrs da nossa rua, utilizando elsticos para enviarem cartas
"por via area" contendo rebuados, que atiravam a partir da janela de
trs do seu quarto. Gregory cansou-se do pequeno-almoo dirio, que
consistia em canja e vegetais de conserva. Numa manh de domingo, em que
o pai e Niang no estavam em casa, dirigiu-se propositadamente 
cozinha. Como shao ye (patro mais novo) da casa, exigiu ovos ao
pequeno-almoo. O cozinheiro objectou, replicando no haver ovos
suficientes em casa. Nesse momento, um Gregory mais determinado,
dirigiu-se  despensa. Encontrou ento dezasseis ovos, que partiu
sistematicamente, uns atrs dos outros, para uma grande tigela. Fez ele
prprio uma omeleta gigante com os dezasseis ovos e regalou-se com cada
garfada at esvaziar tudo o que tinha no prato. Uma tarde, quando andava
 procura de uma bola perdida enquanto os meus irmos ainda estavam na
escola, fui espreitar debaixo da cama de Gregory e deparou-se- me com
uma caixa sem tampa contendo material escolar, tinta e um selo. Mais
tarde James contou-me que Gregory tinha resolvido os seus problemas de
dinheiro fabricando facturas falsas com pequenas somas para a papelaria
da escola. Gregory tinha feito amizade com um dos funcionrios da
contabilidade, que fazia "reembolsos" em dinheiro de pagamentos a mais.
Assegurava deste modo a sua semanada e uma vida feliz. Entretanto Ye Ye
comeou a reparar que de tempos a tempos lhe desapareciam notas da
gavetinha do lado esquerdo da sua secretria, o lugar onde a tia Baba
colocava regularmente metade do seu ordenado do ms. Ye Ye suspeitava de
um de ns, mas no mencionou o assunto. Discordava do programa de
austeridade do pai e simpatizava com a nossa luta; nunca fez qualquer
denncia sobre os desaparecimentos peridicos de dinheiro. Era uma
situao estranha, pois nem aprovava o roubo nem as circunstncias que o
motivavam. As coisas atingiram o ponto mximo num dia de 1948. A
inflao era galopante e o dinheiro chins valia cada vez menos. Sendo
uma boa funcionria, a tia Baba recebia em dlares americanos e em
dlares de prata (estes eram chamados as grandes cabeas, pois eram
cunhados com uma imagem de perfil de Yuan Shih-kai, um general da
dinastia Qing que se tinha autoproclamado imperador da China durante
oitenta e trs dias em 1916). Como de costume, ela colocou metade do seu
salrio na secretria de Ye Ye. A moeda chinesa desvalorizava-se to
rapidamente que o banco central em Xangai no era capaz de imprimir
dinheiro com a rapidez necessria. Depressa o dlar americano passou a
ser trocado por 2 90 91 milhes de yuans chineses. Em cada compra
simples eram utilizados enormes maos de notas. O ladro, que por acaso
era Edgar, tinha tirado alguns dlares americanos da gaveta de Ye Ye e
tinha-os trocado no mercado negro. Em virtude desta operao recebera um
grande saco cheio de moeda local. Encontrou-se ento no terrvel dilema
de ter tanto dinheiro que no era possvel escond-lo. Na verdade, as
notas eram demasiadas para serem escondidas debaixo do colcho e, alm
do mais, os trs rapazes partilhavam o mesmo quarto. Edgar cavou um
grande buraco no quintal e enterrou todo o dinheiro. Julgou ter
conseguido pr o segredo a salvo, mas tinha-se esquecido de Jackie, o
co do pai. No dia seguinte, enquanto estvamos na escola, Jackie
escavou a terra com as patas e descobriu todo o dinheiro. Rapidamente
passou a haver notas a voar por todos os cantos do ptio. Entretanto as
criadas encontraram um recibo de cmbios no bolso das calas de Edgar,
no cesto da roupa suja. Niang disse aos criados que apanhassem todas as
notas e colocassem o jardim em ordem. No se ouviu uma nica palavra
sobre o assunto at o jantar estar terminado. Nessa altura, em vez da
habitual taa de fruta, as criadas trouxeram um grande prato cheio de
notas manchadas de terra, um autntico monte de moeda local. To
surpreendido como os restantes, o pai lanou-se numa tirada terrvel.
Depois de vrios improprios e ameaas interminveis, Niang revelou o
que j sabia: que Edgar era o culpado. Seguiu-se um dos discursos
crticos do pai sobre desonestidade, ausncia de confiana, o sangue
ruim da nossa me e um futuro amaldioado para todos ns, especialmente
para Edgar, que nada traria seno vergonha o nome da famlia Yen.
Insinuou ainda que tanto Ye Ye como Baba nos tinham mimado tanto, que
agora no servamos para mais nada. Finalmente, levou Edgar para cima e
espancou-o com o chicote de Jackie. Ns, os residentes de segunda,
juntmo-nos no quarto de Ye Ye. A conseguamos ouvir o zumbido das
vergastadas e os soluos de Edgar. Ye Ye, Baba, Gregory e eu
estremecamos a cada chicotada, mas James limitou-se a encolher os
ombros e a sugerir um jogo de brdege para "passar o tempo". Durante
toda a nossa infncia, James foi o nico que escapou sem ser castigado.
Sobreviveu, pois conseguiu isolar-se emocionalmente. ramos muito
prximos um do outro e partilhvamos muitas confidncias, mas ele nunca
saiu em minha defesa. Uma vez deu-me este conselho: No confies em
ningum. Tens de ser um peixe frio. Eu no magoo ningum e ningum me
consegue magoar. Franklin e Susan eram os mimados: o filho e a filha da
imperatriz eram favorecidos e privilegiados. Para ns, os habitantes do
2. andar, a antecmara parecia o paraso. Contudo, o paraso no era
seno o Jardim do den de Franklin. Ele implicava com Susan, tirava-lhe
os brinquedos, puxava-lhe os cabelos, dava- lhe bofetadas e torcia-lhe
os braos. Niang ignorava tudo isto. Todas as noites se dirigia ao
quarto de Franklin para lhe dar um beijo de boa-noite. Sentava-se na
borda da cama dele e falava-lhe baixinho, brincava ou conversava com ele
sem sequer notar a presena de Susan. Nas noites em que Franklin estava
com os primos franceses ou com os amigos, Niang nem se dava ao trabalho
de ir ao quarto deles. Ye Ye e o pai no podiam estar mais contentes com
o fim da ocupao japonesa, depois de a Amrica ter lanado as bombas
atmicas, em 1945. Todavia, a guerra civil recomeou quase
imediatamente, envolvendo os nacionalistas (Kuomintang) e os comunistas.
Nos trs anos que se seguiram, o seu receio foi aumentando  medida que
verificaram que o poder pendia cada vez mais para a esquerda. Mao
Zedong, o lder comunista, e os seus exrcitos empreendiam uma marcha
inexorvel. Nessa poca os jornais estavam repletos de histrias de
atrocidades cometidas pelos comunistas contra os comerciantes e os
proprietrios de terras. Havia notcias dirias de novas barbaridades e
selvajaria atroz. A ideia que predominava, e que era alimentada por
Chiang Kaishek (que governava a China desde a morte de Sun Yat-sen, em
1925) e pela imprensa afecta ao Kuomitang, era a de que, se Xangai
viesse a cair nas mos dos comunistas, haveria um banho de sangue. Em
1948, um vento frio veio afectar o clima de negcios dos homens como o
meu pai. Num ltimo esforo para estabilizar a moeda, o governo
nacionalista acabava de anunciar a emisso de nova forma monetria a que
chamou "Certificado Yuan Dourado". A medida era necessria, dado que o
povo tinha perdido toda a confiana na antiga 93 moeda, a chamada Fa Bi
ou moeda corrente. A inflao galopante tinha atingido um ponto em que o
dlar americano era trocado por 11 milhes de ytra~a chineses: mais
ainda do que Edgar tinha obtido em troca dos seus dlares roubados.
Comunicados oficiais apelavam a todos os chineses para que entregassem
as suas notas antigas, numerrio em ouro ou prata e moeda estrangeira
at 30 de Setembro de 1948. Os certificados Yuan Dourados seriam
distribudos em troca, estavam supostamente garantidos por ouro e cada
grupo de quatro valia 1 dlar americano. Houve de imediato uma corrida
ao ouro, pois muitos depositantes particulares correram a levantar os
seus metais preciosos e moeda estrangeira dos bancos locais. Ningum no
seu juzo perfeito ia alguma vez acreditar que houvesse ouro suficiente
para apoiar os referidos certificados. Os grandes capitalistas, como o
meu pai, conseguiram passar as fortunas para Hong-Kong, os Estados
Unidos e a Europa. Os que auferiam baixos salrios, como a tia Baba,
foram obrigados a obedecer s instrues do governo. O valor dos
Certificados Dourados caiu a cada vitria comunista, at chegarem a um
ponto em que no tinham qualquer valor, tal como a antiga moeda que
tinham vindo substituir. Ao obedecer s ordens de Chiang Kai-shek, a tia
Baba perdeu todas as suas economias. O pai fazia toda a espcie de
planos para qualquer eventualidade e foi s uma questo de tempo at dar
o seu passo. Penso que foi no domingo imediatamente a seguir  visita
desastrosa das minhas colegas; o pai surgiu de repente, sozinho,  porta
do quarto de Ye Ye. Chamou a tia Baba e ordenou-me que fosse brincar
para o terrao. Parecia preocupado, mas procurou um ar de respeito
perante o seu prprio pai e a sua irm. A tia Baba reparou com tristeza
que era a primeira vez que conversavam os trs sozinhos desde que a
famlia se mudara para Xangai, cinco anos antes. Por momentos
conseguiram reviver uma espcie de intimidade. O pai comeou a falar da
guerra civil e da possibilidade de Xangai vir a ser ocupada pelos
comunistas. Ele e Niang tinham decidido mudar-se para Hong-Kong. Ye Ye e
a tia Baba estariam dispostos a ir com eles? Era claro para a tia Baba
que, para alm de deixar os seus amigos, teria que abandonar tambm o
seu lugar no banco da tia-av e voltar  situao de solteirona a viver
de caridade e sob o olhar crtico de Niang. Perguntava a si prpria se a
vida sob o regime comunista seria, na verdade, pior. do que a vida sob a
alada de Niang. Decidiu ficar em Xangai. 94 Entretanto, gotas de suor
surgiram na fronte de Ye Ye e ele empalideceu de medo. Timidamente,
aceitou o convite do filho para se mudarem para Hong-Kong e arriscarem
juntos as suas hipteses sob o domnio britnico. . De certeza que no
teremos de partir imediatamente! - aventou. - Talvez o velho Chiang
(Kai-shek) consiga travar as coisas com o auxlio dos Americanos. -
Claro que no teremos de ir j! - replicou o pai. - Temos ainda alguns
meses, pelo menos. Jeanne e eu planeamos voar para Tianjin na prxima
semana para tentarmos vender tanto quanto possvel. Ao que parece,
Beijing e Tianjin vo cair antes de Xangai. Vou cambiar os meus fundos
em dlares de Hong-Kong e lev- los comigo para Hong-Kong. O pai pediu
ento a Ye Ye que lhe mostrasse onde guardava o dinheiro, sublinhando
que devia estar sempre fechado  chave. Distraidamente,por meias
palavras, acabou por dizer que no estava certo que as crianas
estivessem sujeitas a tentaes e depois virou-se para a minha tia e
acusou-a de me favorecer em relao aos meus irmos. A tia Baba desfez
essa ideia, acrescentando que tambm teria dado 1 dlar de prata s
outras crianas caso tivessem sido as melhores da turma. Lembrou-lhe
ainda que as crianas precisavam de ser recompensadas quando o seu
desempenho era excelente. O pai comeou a desfiar o rosrio das minhas
deficincias: era baixa e magra; tinha pouco apetite, sem dvida devido
a lanches entre as refeies proporcionados pela tia Baba; era arrogante
e desinteressada. Exigiu que a tia Baba apontasse num papel todos os
centavos que me tinha oferecido ao longo do ltimo ano e ps um ar
cptico quando a minha tia reafirmou que o dlar de prata era a nica
coisa que eu tinha recebido. Empurrou-a para o seu quarto e ordenou que
abrisse a sua caixinha de aperitivos, que ela estava habituada a
guardar. De seguida fez uma lista dos mesmos: Ameixas de conserva
salgadas: 2 pacotes Carne de porco seca (doce): 1 pacote Carne de vaca
seca (picante): 2 pacotes Amendoins torrados: 1 pacote de 100 g
Rebuados de amendoim: 1 frasco de 200 g Pevides de melo: 1 pacote 95
Ye Ye e a tia Baba observavam atnitos enquanto ele fazia este
inventrio. O pai iniciou ento um sermo sobre a minha falta de
prstimo para qualquer coisa, falta de princpios morais, consumo
excessivo de aperitivos e o meu comportamento monstruoso. A tia Baba
tentou defender-me, dizendo-lhe que eu era apenas uma menininha que nem
sequer conhecera a me, mas o pai no quis saber destes protestos. A tia
Baba perguntou se o pai tinha planos para os seus filhos. Lydia vivia em
Tianjin com Samuel e os sogros. Quanto aos rapazes, o pai gostaria que
terminassem o liceu em Xangai e depois pensava mand-los para a
universidade em Inglaterra. Franklin e Susan iriam para Hong-Kong com os
pais. Houve uma curta pausa. - E .~ ~ wcc mei (quinta filha mais nova)?
- perguntou Ye Ye. - Que pensas fazer com ela? O pai pegou na lista da
comida e examinou-a. - Ultimamente ela tem sido muito rebelde. O seu bom
desempenho na escola fez que passasse a ter uma elevada opinio de si
prpria. Vocs estragaram-na porque a elogiaram de mais. Ns decidimos
disciplin-la. Ye Ye sobressaltou-se. - Mas o que foi que ela fez para
merecer isto`? - perguntou ele. - Ela  apenas uma menina da escola
primria. Porque  que a castigas? - Pois a  que est o problema! -
retorquiu o pai. - Vocs so demasiadamente protectores. A questo no 
o que ela fez ou no fez. Ela tem de aprender a ser obediente e modesta.
Devia saber qual  o seu lugar e perceber que as suas opinies e desejos
no contam. Na verdade, sem o seu pai e sem Niang ela no  nada.
Decidimos retir-la deste ninho de permissividade. Quando formos para
Tianjin, na prxima semana, levamo-la connosco. A nossa ideia 
intern-la em St Joseph's. Ela vai l ficar sozinha. Esto proibidos de
lhe escrever ou de lhe enviar pacotinhos de comida iguais a estes! Nesse
momento comeou a abanar a lista  frente da cara da tia Baba. - Ela
estar proibida de enviar ou receber cartas. As freiras recebero
instrues para a deixarem fechada atrs dos portes at acabar o liceu.
- E os comunistas? Ento e os comunistas? - perguntou a tia Baba. - Os
jornais do conta de combates acesos na Manchria. 96 centenas de
milhares de refugiados esto a chegar a Tianjin. No te lembras de ter
lido notcias sobre os estudantes universitrios que fogem para o sul?
Estavam a fazer manifestaes em Tianjin exigindo comida e abrigo,
quando foram atingidos pelas tropas do Kuomitang. Ser que  seguro para
ela ir l frequentar a escola? - Isto tem de parar j! - gritou o pai,
brandindo a lista. - Ela tem de ser separada de vocs os dois. E, ainda
agarrando na lista, saiu do quarto da tia Baba, batendo com a porta. -
Mas o que  isto? - perguntou a tia Baba a Ye Ye com a voz trmula. - A
criana no fez nada. Ele comporta-se como se quisesse destru-la. Ele
sabe que vai shang xin (destroar-lhe o corao) ir para longe de ns.
Consegue perceber alguma coisa disto tudo? Ye Ye sabia. - Esta criana
no fez nada de mal. Mas, cada dia que passa, a sua presena  como um
espinho para eles: ela aborrece-os simplesmente porque existe. Mandam-na
embora porque querem ver-se livres dela. Foram tempos de incerteza.
Todas as famlias com propriedades, ligaes ao Kuomitang ou mesmo
formao profissional ocidental desesperavam sobre qual a deciso a
tomar: partir ou ficar. Para os homens de negcios j estabelecidos, com
casas, escritrios, famlias, amigos eguanxi (influncias), a escolha
era particularmente difcil. O tempo passava. O exrcito de Chiang
Kai-shek perdia cidade atrs de cidade. Ser que os comunistas eram to
maus como se dizia? Algum podia ter a certeza de como as coisas iriam
evoluir no novo regime? Muitos houve que no ficaram para ver. Todos os
dias comboios, avies e barcos partiam cheios de refugiados rumo a
Taiwan e Hong-Kong. Anos mais tarde, o pai contaria a histria do
destino de um amigo que hesitara no ltimo momento. Dirigia-se ao
aeroporto de Xangai com a mulher e o filho. No conseguia acreditar que
tinha importncia a ponto de vir a ser perseguido. Parou na casa de um
primo. Trocaram de lugares. O primo voou com a mulher e a filha para uma
vida prspera em Nova Iorque. O amigo do pai ficou e foi desapossado de
tudo quanto tinha. O filho foi preso por criticar Jiang Qing, a mulher
de Mao. A esposa suicidou-se durante a Revoluo Cultural. O pai, Niang,
Franklin e Susan partiram para Hong-Kong em Dezembro de 1948. A tia-av
no conseguiu deixar o seu banco. Decidiu 97 ficar e tentar a sua sorte
com os novos governantes. A partida de ye Ye foi de cortar o corao.
Ele adorava a sua cidade natal e duvidava poder algum dia voltar a
v-la. Os anncios, os cheiros, os sons e ~ memrias de Xangai eram
insubstituveis. Receava a vida que se estendia a seus ps em Hong-Kong,
mas sabia que tinha de partir. At ao ltimo minuto tentou fazer a tia
Baba mudar de ideias, mas isso ela no podia fazer. Trinta anos mais
tarde, a minha tia foi incapaz de descrever a sua separao definitiva
sem angstia. Uma aps outra, as cidades foram caindo: Luoyang, Kaifeng,
Jinzhou, Chanchun, Mukden. Em Dezembro de 1948, as tropas comunistas
montaram cerco  cidade de Beijing. Em Janeiro de 1949 os dados estavam
lanados, no momento em que a batalha de Huai Hai foi finalmente ganha
pelos comunistas. Mais de 300 000 soldados do Kuomitang foram feitos
prisioneiros. Em Janeiro de 1949, Chiang Kaishek renunciou ao cargo de
presidente da Repblica. O Exrcito de Libertao do Povo atravessou o
rio Yangtse no ms de Abril. Em menos de um ms tomaram Nanquim, Soochow
e Hangchow. O Exrcito Vermelho fez uma entrada triunfal em Xangai no
dia 25 de Maio de 1949. Jovens, zelosas e disciplinadas, as tropas do
ELP puderam ser observadas a marchar, subindo e descendo a Rua de
Nanquim. Numa atitude amigvel, ajudaram os residentes e os comerciantes
a limparem os sacos de areia e outros materiais reunidos pelos
nacionalistas. Os soldados eram bem-educados e estavam bem alimentados.
No houve saque. Para a minha tia seguiu-se um perodo de paz e
felicidade como nunca tinha visto. O banco da tia-av reabriu no espao
de dias. Os comunistas fizeram um grande esforo para manterem a lei e a
ordem. Lojas e restau rantes retomaram o seu movimento habitual. A
inflao foi finalmente travada. Os Certificados Yuan Dourados foram
trocados por Jen Min Pi, a nova moeda da Repblica Popular. O preo dos
bens estabilizou e os fornecimentos voltaram a estar disponveis no
mercado. Os servios pblicos, tais como transportes, entrega de correio
e limpeza de ruas pareciam melhores do que anteriormente. O novo regime
assegurava repetidamente  populao, atravs dos jornais e da rdio,
que as propriedades e os negcios dos comerciantes chineses e
estrangeiros seriam sempre protegidos e as suas religies respeitadas. A
tia Baba ficou encarregue do foro domstico, com a superviso dos meus
trs irmos, que frequentavam ainda a escola em Xangai. 98 O ordenado
que recebia do banco gastava-o nas suas necessidades pessoais; o
dinheiro que lhe advinha das propriedades do pai utilizava-o para o
governo da casa. Reduziu o pessoal domstico a duas criadas e a Miss
Chinn. Comoveu-se profundamente quando ouviu o presidente Mao, numa
emisso de rdio, a partir de Beijing, no dia 1 de Outubro de 1949,
proclamar o nascimento da Repblica Popular da China. Todas as suas
colegas de trabalho se juntaram  volta de um rdio para ouvir o
comunicado de Mao: "O Povo Chins ps-se de p." Os seus dias decorriam
de uma forma calma e ordeira. Aps o pequeno-almoo enviava os rapazes
para a escola, antes de ela prpria partir para o trabalho. Jantavam
juntos s 7.30, como de costume, e os rapazes eram encorajados a levar
os amigos a casa. Cada um passou a receber uma semanada justa, para
poder sair de vez em quando. A intei~erncia comunista no foi alm do
registo obrigatrio do agregado familiar, que inclua a governanta de
Franklin, Miss Chien. Formou- se um hu kou (comit de residentes) com
fins administrativos. Mais tarde, estes comits transformaram-se em
instrumentos de controlo do governo, dando conta de todos os movimentos
de cada habitante de Xangai. Miss Chien era solteira e andava pela casa
dos 30. Depois da partida de Franklin e Susan, as suas funes em casa
deixaram, obviamente, de existir e ela comeou a recear que a
despedissem. A sua instruo parara aos 14 anos, pelo que j no poderia
ensinar qualquer disciplina aos rapazes. Procurou ento ganhar os
favores da tia Baba, confeccionando iguarias regionais da sua cidade
natal. No Inverno, quando as temperaturas desceram, ela aquecia a cama
da tia Baba com botijas de gua quente e chegou mesmo a comprar garrafas
trmicas para a gua quente do banho que a tia Baba tomava  noite.
Passava os dias na leitura de jornais,  conversa com as duas criadas, a
escrever cartas e a fazer tric. A tia Baba estava admirada com o
fornecimento inesgotvel de l de boa qualidade, que comeava a
tornar-se difcil de encontrar nas lojas da vizinhana. Muitos dos bens
importados chegavam em Pequenas quantidades, uma vez que os estrangeiros
partiam aos magotes e muitas companhias tambm estrangeiras fechavam as
suas Portas. Generosamente, Miss Chien oferecia muitos dos casacos que
tricotava  tia Baba e aos rapazes. Gregory terminou o liceu em 1950. De
acordo com as ordens do pai, ele e Edgar seguiram de comboio para
Tianjin, onde mandaram fazer 99 uns fatos de corte ocidental no alfaiate
do Tio Pierre. Nessa altura ainda se podia viajar facilmente e 
vontade. Deixaram Tianjin de barco, rumo a Hong- Kong, equipados de
roupa nova. Trs anos depois partiriam para Inglaterra, a fim de
prosseguirem os estudos. James continuou a frequentar a escola por mais
um ano, durante o qual a tia Baba se dedicou inteiramente ao seu
cuidado. As criadas receberam instrues no sentido de cozinharem os
seus pratos preferidos. James foi inscrito em dispendiosas lies de
equitao, recebia os seus amigos em casa e fazia excurses s cidades
vizinhas. Galante e espirituoso, acabou por ser uma grande companhia
para a minha tia. Muitas vezes liam em conjunto as cartas de Ye Ye e
James era instado a escrever semanalmente ao pai e, por vezes, tambm a
Ye Ye. Gozava de uma liberdade considervel em Xangai; tanta que,
quando, em 1951, recebeu ordens do pai para partir rumo a Hong-Kong,
mostrou relutncia em faz- lo. A tia Baba procurou a interferncia de
Ye Ye para o caso de James, mas foi em vo. Como resposta, Ye Ye disse
apenas que os dois deviam ter perdido o juzo. Acrescentava ainda que
no era sequer conveniente mostrar aquela carta ao pai. Na altura em que
James partiu, em Julho de 1951, as restries de viagem eram mais
apertadas. Acompanhado pelo seu terceiro tio, Frederick (o irmo mais
novo da nossa me, j falecida), viajou de comboio at Canto. A era
necessrio obter um documento especial para atravessar a fronteira para
Hong-Kong, documento que no possuam. Passaram ento a salto, num
barquito pouco seguro, pela calada da noite. A sorte acompanhou-os e
entraram em paz no porto de HongKong. Para trs, em Xangai, ficava a tia
Baba, agora sozinha com duas criadas e Miss Chien. 100 8 Yi Shi Tong Ren
Tratamento igual para todos sem excepo O pai e Niang levaram-me ao
Norte, a Tianjin, em Setembro de 1948, no auge da Guerra Civil. Umas
atrs das outras, as provncias foram caindo nas mos do Exrcito
Vermelho. A maior parte das pessoas fugia na direco oposta quela que
ns seguamos. A seguir ao desmembramento do exrcito do Kuomitang, na
Manchria, os refugiados chegavam  mdia de 600 por dia, arrastando
consigo peste e misria. A populao de Tianjin aumentou cerca de 10 %
num espao de meses. Os servios da cidade, j extremamente desgastados,
deixaram de satisfazer as necessidades. Pouco tempo depois, os
refugiados foram impedidos de entrar atravs do uso da fora e abrigados
em campos com condies primitivas. A disenteria grassava. Mesmo com
este panorama, Niang internou-me em St. Joseph's. Restavam apenas cerca
de 100 alunas. Eu era uma das 4 internas; todas as outras eram alunas
externas. Esporadicamente, havia aulas, mas o nmero daquelas que as
frequentavam variava. Durante as semanas seguintes, o nmero de
raparigas diminuiu. Em breve fomos reunidas numa nica sala de aula, que
inclua alunas dos 7 aos 18 anos. No se falava chins durante o horrio
lectivo. Na realidade, na poca em qu eu frequentei esta escola no se
ensinava chins. ramos obrigadas a comunicar em ingls ou francs.
Senti-me amargurada. O chins tinha sido a minha lngua de estudos
durante a instruo primria em Xangai. O ingls era a segunda lngua;
nunca aprendi francs. Sentia-me muito s e ansiava por voltar para
junto da tia Baba, de James e dos meus amigos em Xangai. Extravasava o
meu desespero em longas cartas, pedindo apenas que me enviassem de casa
algumas palavras simpticas. Dia aps dia esperei ouvir o meu nome
aquando da distribuio do correio. Nunca recebi nenhuma carta.
Desconhecia as instrues que os meus pais tinham dado s freiras: no
poderia receber visitas, telefonemas ou correio. Enclausurada num mundo
hermtico por detrs das grades de um convento, desconhecia .por
completo que, entretanto, os comunistas, aps a captura da Manchria,
estavam a atravessar a Grande Muralha, dirigindo-se determinadamente a
Beijing e Tianjin. As tropas do Kuomitang e as tropas comunistas
travaram acesas batalhas pelo controlo do Norte da China. Muitas
estudantes e respectivas famlias fugiram para Taiwan e Hong-Kong. As
aulas normais deixaram de existir. Passmos a ler livros em lngua
inglesa que ns prprias escolhamos. Mergulhei no dicionrio de
ingls-chins. Um dia, durante uma aula informal de conversao, a nossa
professora pediu a cada uma de ns que dissesse o nome do seu livro
preferido. Toda a gente se riu quando eu disse que o meu era o
dicionrio. E se eu pudesse satisfazer um desejo, qual seria? Receber
uma carta. S uma. De qualquer pessoa.  medida que o exrcito comunista
se aproximava, havia um nmero cada vez maior de alunas que deixavam a
escola. Em St. Joseph's deixou de haver festas de despedida. As meninas
deixavam simples mente de ir s aulas. As freiras tinham um aspecto
triste e preocupado. Comeavam a ser aconselhadas pelas suas superioras
em Frana a abandonar Tianjin, a fim de escaparem a perseguies.
Passava todos os domingos e feriados entregue a mim mesma, incluindo
Natal e Ano Novo. Todas as outras internas regressavam a casa, 
companhia dos seus familiares. Eu no estava autorizada a 102 aceitar
qualquer convite das minhas amigas. As freiras no sabiam o que fazer
comigo. Como um fantasma, cirandava de aula em aula e passava a maior
parte do meu tempo na biblioteca a ler contos de fadas. A minha
recordao desse Natal  estar sentada sozinha num refeitrio enorme a
comer presunto, batatas e pudim de ameixa, a fingir que no tinha uma
nica preocupao no mundo. L fora ouvia-se no ar o refro ~ Noite
Feliz, enquanto eu, estoicamente, evitava os olhares solcitos da
bondosa irm Hlne, que saa e entrava enquanto eu jantava sozinha no
dia de Natal. A 31 de Janeiro de 1949, as tropas comunistas, vitoriosas,
entraram em Seijing sem dispararem um s tiro. No dia seguinte, Fu
Tso-I, o general nacionalista, rendeu-se com todos os seus exrcitos e
ricos aprovisionamentos. Pelo feito foi recompensado com o posto de
ministro da Conservao da gua da Repblica Popular. Tianjin foi
tomada, pela mesma altura, pelo general comunista Lin Biao. Lydia, a
minha irm mais velha, estava a viver em Tianjin com o marido, Samuel, e
os sogros na poca em que eu estive fechada no convento. Nunca me foram
visitar nem quiseram saber notcias minhas. Quando fugiram dos
comunistas e foram para Taiwan, em Janeiro de 1949, deixaram-me para
trs sem terem sequer tentado um contacto. Os dias corriam uns atrs dos
outros e eu passava-os sentada na biblioteca a pensar no que seria de
mim. A minha rotina escolar desaparecera. No havia aulas e todos os
dias eram dias "livres". As minhas professoras pareciam no saber como
educar uma nica criana que falava apenas um pouco de ingls e francs.
O ambiente no convento era de pnico controlado a muito custo e era
apenas aliviado pelos rituais catlicos romanos. Uma manh,
inesperadamente, a irm mais velha de Niang, a tia Reine, apareceu na
portaria da escola. Fiquei doida de alegria, pois, desde que entrara no
colgio, no recebera uma nica visita. Embora mal nos conhecssemos,
chorei quando a vi. Ela preparava-se para deixar Tianjin com o marido e
os dois filhos e tinha-se lembrado de que eu estava presa em St.
Joseph's. De sua prpria iniciativa e sem consultar ningum, retirou-me
da escola. Tianjin tinha acabado de ser libertada. Nas ruas viam-se
soldados comunistas, vestidos de uniformes de Inverno acolchoados,
usando bons de pala. Tinham por tarefa remover os sacos de areia,
trincheiras ou fortificaes construdas pelos nacionalistas para
impedir a passa 103 gem de veculos e tropas inimigas. Mais tarde a neve
derretida tinha transformado os sacos de areia em montes de lama. As
ruas estavam estranhamente calmas. O trnsito era quase inexistente.
Percorremos a p a curta distncia que nos separava das duas casas do
pai, na Rua Shandong. Nesse dia tudo me pareceu estranho e
incompreensvel e, mais do que tudo, voltar a uma casa onde eu tinha
armazenado uma srie de memrias muito queridas. A fui encontrar o tio
Jean Schilling (que trabalhava para as Naes Unidas) e os seus dois
filhos, Victor e Claudine. Sentia-me envergonhada, mas todos foram
simpticos e pro_ curaram fazer que eu me sentisse  vontade. Victor,
que era da minha idade, convidou-me para brincar no seu quarto. Fizemos
avies de papel e andmos a atir-los por toda a casa. A tia Reine, que
tinha reparado no meu nervoso lacnico, passou o brao em volta dos meus
ombros e segredou-me: - No te preocupes, eu vou dar yi shi tond ren (um
tratamento igual a todos sem excepo) aos trs. J  mesa do jantar, o
tio Jean explicou que os meus pais se encontravam em Hong-Kong e que ns
iramos ter com eles logo que fosse possvel. No dia anterior, os
soldados comunistas tinham tentado entrar e tomar posse das duas casas
do pai, a fim de as utilizarem como aquartelamento temporrio do general
Lin Biao. O tio Jean iara a bandeira das Naes Unidas para proteger as
casas e impedir que fossem ocupadas pela fora. Nessa altura todos os
familiares de Niang viviam nas casas que o pai possua em Tianjin. A me
tinha morrido. Lao Lao, a tia chinesa de Niang que era solteira, vivia
com o irmo mais velho de Niang, Pierre, na casa "velha", juntamente com
um nmero mnimo de empregados. Pierre era ainda o administrador dos
negcios do pai em Tianjin, mas fugiria em breve para Marrocos. Reine e
a famlia viviam na casa "nova". O pai tinha enviado Jacques, o irmo
mais novo, para Paris e pagava os seus estudos na Sorbonne. Alguns dias
mais tarde a famlia Schilling e eu embarcmos num navio em direco a
Hong-Kong. A ilha de Hong-Kong (~;~ Porto Fragrante) fora cedida para
sempre aos Britnicos depois da derrota da China na Primeira Guerra do
pio, em 1842. No final da Segunda Guerra do pio (1858-60), a Gr 104
Bretanha "recebeu" a ponta da pennsula de Kowloon, ao sul de Boundary
Street, como possesso permanente. Em 1898, a Gr-Bretanha fez novas
exigncias e obteve o arrendamento do resto da pennsula de gowloon (a
norte de Boundary Street) por 99 anos. Essa rea ficou conhecida como
"Novos Territrios" e deveria ser restituda  China a 1 de Julho de
1997. A tia Reine tinha conseguido fazer passar os diamantes de Niang
para fora de Tianjin, forrando as pedras de tecido e cozendo-as ao seu
casaco de Inverno como se fossem botes. A forma como tudo isto nos foi
revelado foi de uma intensidade dramtica: cada uma das pedras preciosas
saltava das tesouras de Reine para cima da mesa do caf, cheia de um
brilho magnfico.  medida que cada uma delas ia surgindo, Niang
mostrava-se to satisfeita, que o seu humor se modificou de forma
notria e nem mesmo a minha presena inesperada lhe causou a fria
imediata que eu antecipara. O pai, Niang, Ye Ye, Franklin e Susan viviam
num apartamento alugado em Boundary Street, Kowloon, mesmo em frente ao
colgio de freiras Maryknoll. Em 1949 esta colnia britnica era apenas
uma imagem distante do bulcio fervilhante de Xangai; faltavam-lhe
tambm a tradio e a cultura de Tianjin. Era uma cidadezinha pacata e
arrumada, uma cidade de provncia, com ruas limpas, autocarros vermelhos
de dois andares, trnsito ordeiro e um porto magnfico. A lngua falada
era maioritariamente o cantonense. O ingls era apenas falado em hotis
de 1a classe, como o Pennsula. Todos os dias Niang levava a famlia
Schilling a visitar a cidade no seu carro com motorista. Eu ficava em
casa com Ye Ye e os criados. Polidamente, Niang perguntava a Ye Ye se
gostaria de os acompanhar. Ele recusava sempre. Quanto a mim, nunca fui
convidada. Estava automaticamente esclarecido que estes passeios no me
incluam. No fundo, isso alegrava-me. Era maravilhoso estar com o meu Ye
Ye. Acompanhava-o em pequenos passeios a p e, como a vista j lhe ia
faltando lia-lhe os jornais todas as manhs. Jogvamos s damas chinesas
e,~generosamente, ele trocava muitas vezes um cavalo (cavaleiro) por um
carro (torre). Estes jogos eram competitivos e ele parecia apreci-los,
pois analisava o resultado final, independentemente de quem ganhava ou
perdia. Contava-me histrias retiradas das Lendas dos Trs Reinos e
acompanhava estas narrativas com excertos de pera chinesa, quando
estava de bom humor. Ensinou-me a magia e o mis 105 trio escondidos em
muitos caracteres chineses, ilustrando estas explicaes com exemplos
brilhantes que me encantavam. Uma vez fez-me notar que as palavras ~ ~
(negcio) continham o segredo para todas as riquezas do mundo. - `~
significa "comprar", ~ significa "vender" - disse ele. ._ As duas
palavras so idnticas, excepto no smbolo ~, que significa "lama" ou
"terra" e est colocado no topo de "vender". A essncia de ~ ~ (negcio)
 comprar-vender; e o seu ingrediente mais importante  ~ isto , lama
ou terra. Nunca te esqueas disto. Muitas vezes sentvamo-nos apenas em
silncio, contentando-nos com a companhia um do outro, enquanto Ye Ye
fumava calmamente o seu cachimbo. Num domingo, ao pequeno-almoo, Niang
sugeriu que almossemos todos no luxuoso Repulse Bay Hotel, na ilha de
Hong-Kong. Amontomo-nos no grande carro do pai. Foi um verdadeiro
aperto. Eu fui a nica a ficar, triste, de p, no passeio, com os
criados. Foi Victor quem falou: -No  justo, mam. - disse ele em
francs  tia Reine - Porque  que a Adeline nunca vai connosco a lado
nenhum? J impaciente com a partida, e como no percebia francs, o pai
perguntou a Victor em ingls: - Precisas de ir  casa de banho? Niang
interrompeu em francs: - A Adeline no vai porque o carro j est muito
cheio. No h mais espao. - Ento e ontem? E no dia anterior? -
perguntou Victor em francs. - Entra no carro, Victor! - ordenou a tia
Reine - Ests a atrasar tudo! Bem vs que hoje no h mais espao no
carro. - No  justo! - insistiu Victor - Porque  que tem de ser sempre
ela a ficar para trs? - Porque  assim mesmo! - exclamou Niang,
rispidamente, em francs. - Ou vens agora connosco ou ficas com ela. -
Nesse caso, fico a fazer companhia a Adeline. Victor desceu do carro e
ficou comigo enquanto todos se afastavam. Nunca esquecerei esta
gentileza. O tio Jean e a famlia partiram em breve para Genebra, local
onde tinha sido colocado pelas Naes Unidas. 106 O pai tinha alugado um
escritrio em Ice House Street, o centro de negcios do lado de
Hong-Kong, conhecido por Central. Todos os dias o motorista o levava ao
terminal do Star Ferry` para a travessia - de sete minutos - do porto de
Victoria entre Kowloon e Hong-Kong. Uma vez do lado de Hong-Kong, uma
pequena caminhada a p levava-o at ao escritrio. O pai adaptou-se
rapidamente  vida dos negcios na colnia britnica. Comeou por montar
uma prometedora empresa de importao-exportao. Mais tarde passou
astutamente a negociar em aces, bens e moeda estrangeira. Lanou uma
empresa imobiliria, a Mazman, mais tarde incorporada na bolsa de
Hong-Kong. A Mazman comprava terras escolhidas nos leiles do governo e
construa prdios para habitao e indstria. O pai adquiriu o direito
exclusivo de dispor do cascalho, pedras e terra aquando do alargamento
da Stubbs Road, no corao dos Mid- levels~s, em Hong-Kong, a meio
caminho entre o porto e o Peak26. Criou uma pedreira temporria e vendia
o produto das escavaes a pedreiros desejosos de adquiri-lo. Tornou-se
membro dos mais prestigiosos clubes em Hong-Kong e era conhecido como um
empresrio de sucesso de Xangai. Niang e o pai atingiram uma posio de
destaque dentro do pequeno crculo ocidentalizado da alta sociedade de
Hong-Kong. Nessa poca havia poucos empresrios chineses a falarem
ingls e muito menos a poderem sentir-se  vontade entre ocidentais.
Niang e o pai, pelo contrrio, sentiam-se confortveis em ambos os
mundos. Elegante e fotognica, Niang surgia nas colunas sociais dos
jornais e revistas locais. Contratou um cozinheiro analfabeto, oriundo
do Park Hotel, em Xangai, e que sabia todas as receitas de cabea e
tinha fama de conhecer cem maneiras diferentes de cozinhar galinha. Em
casa davam-se jantares espectaculares. Os convites eram encarecidamente
recebidos, devido  qualidade da comida e  lista exclusiva de
convidados de Niang. Durante estas festas, o nome de Ye Ye e o nosso, o
dos 4 A empresa Star Ferry faz ainda hoje as carreiras de ligao por
mar entre a ilha de Hong-gong e Kowloon, atravessando o porto em cerca
de sete minutos. (N. da T.) n Zona situada a meia encosta na colina de
Honk Kong, hoje palco de luxuosos prdios residenciais e dispondo de
vista soberba sobre o mar. (N. da T.) Z6 o ponto mais alto da ilha de
Hong-Kong, com acesso por estrada ou elevador, ~spondo de um passeio
para pees, com diversos miradouros, de onde se podem apreciar diversas
vistas do porto de Victoria. (N. da T.) 107 enteados (quando estvamos
em casa), nunca era mencionado e em ocasio alguma fomos apresentados.
Subentendia-se que devamos manter-nos escondidos nos nossos quartos e
nunca envergonhar ningum com a nossa presena, especialmente quando
havia convidados ocidentais. Dois dias depois da partida da famlia
Schilling, Niang ordenou-me que fizesse as malas. Eu estava de partida.
Lembro-me desse sbado  tarde como se fosse hoje. O pai estava no
escritrio. Susan estava numa festa de anos. Ye Ye estava a dormir a
sesta. Niang, Franklin e eu sentmo-nos lado a lado no Studebaker, no
banco de trs. O carro estava inundado do perfume caro de Niang e eu j
estava tonta s de pensar no que me ia acontecer. Para meu espanto, o
carro parou em frente do elegante Hotel Pennsula. Parecia que Franklin
queria lanchar. No fresco restaurante de tectos altos, no lobby do
hotel, decorado com palmeiras em vasos, mobilirio de verga e ventoinhas
no tecto, sentei-me numa grande cadeira de bambu. A orquestra tocava o
"Danbio Azul". Franklin queria um gelado e Niang pediu sanduches,
enquanto eu ainda percorria nervosamente o longo menu. Senti-me enjoada.
Queria fugir rapidamente para a casa de banho, mas fiquei colada 
cadeira, a pensar se era agora que ela ia pr em prtica a ameaa de me
deixar num orfanato. Seria aquela a minha ltima refeio antes do golpe
de misericrdia? Os meus negros pensamentos foram bruscamente
interrompidos pela voz aguda de Niang: - Adeline - disse ela j
impaciente -, podes pedir aquilo que quiseres, percebes? Tens  de te
despachar! 108 9 Ren Jie Di Ling Uma aluna brilhante numa terra
maravilhosa A Sacred Heart Convent School and Orphanage pertencia 
Ordem das Canossianas de Itlia e situava-se em Caine Road, na ilha de
HongKong, nos Mid-levels, frente ao mar. Depois de atravessar o porto de
,ferry, nessa mesma tarde, o nosso carro percorreu a movimentada zona de
Central, onde o pai tinha o seu escritrio, e dirigiu-se ao elevador
para o Peak. Logo por debaixo dos Jardins Botnicos, voltmos  direita,
na direco do palcio do governador, guardado por sentinelas fardadas
de branco e rodeado por um vioso relvado verde; seguimos para oeste
durante cerca de meio quilmetro, para nos determos nos estreitos
portes do colgio, mais a norte. Uma escadaria ngreme de pedra
conduzia  portaria, onde, aps uma curta espera, fomos saudados pela
Irm Mary e pela Irm Louisa. Em 1949, o Sagrado Corao era um dos
poucos colgios de HongKong que aceitavam internas e rfs. Estes dois
grupos usavam uniformes diferentes e o convvio entre eles era proibido.
As rfs no frequentavam as aulas normais; eram-lhes ensinadas
"actividades pr 109 ticas", tais como costura, limpeza de roupa,
cozinha e passagem a ferro. Durante a missa sentavam-se num lugar a elas
reservado. Depois da escola, enquanto as internas jogavam, recebiam
aulas particulares de Arte ou Msica, ou liam na biblioteca, as rfs
ajudavam na lavagem da roupa, na cozinha ou no jardim. Esperava-se que
deixassem o colgio aos 16 anos e que arranjassem um emprego como
empregadas de mesa, criadas ou funcionrias de lojas. As raparigas eram
um bem barato na China. As filhas no desejadas eram vendidas como
escravas, s vezes por intermedirios, a famlias desconhecidas. Uma vez
vendida, o destino de uma rapariga ficava completamente  merc do seu
comprador. Ela no tinha documentos nem direitos. Algumas, embora muito
poucas, poderiam eventualmente ter a sorte de serem adoptadas pelos seus
compradores. A maior parte era sujeita a maus tratos e outros abusos. A
prostituio e at mesmo a morte eram o destino de algumas crianas
escravas. Eu no sabia quais eram as intenes de Niang, mas o meu
futuro estava nas mos dela. Acompanhada por Franklin, conferenciou com
as duas freiras numa salinha privada durante o que me pareceu uma
eternidade. Eu, entretanto, esperei l fora, percorrendo todos os
folhetos que descreviam a escola e o orfanato. Fiquei a saber que a
grande maioria das 1200 alunas do Sagrado Corao era constituda por
externas, que entravam s 8 da manh e saam s 3.30. Foi uma espera
horrvel. Fiquei sentada, a tremer, lembrando-me das ameaas de Niang,
trs anos antes, em Xangai ... Finalmente, todos voltaram a aparecer.
Para minha grande surpresa, Niang sorriu e fez-me festinhas na cabea em
frente das freiras. Foi esta a primeira e ltima vez que ela me tocou
durante a minha infncia, se exceptuarmos as bofetadas. - V bem a sorte
que tens! - exclamou ela. - A Irm Mary aceitou a tua admisso no
internato a meio do ano lectivo! Quando entrei, havia 36 internas.
Durante os anos que l passei nunca superei realmente o medo que tinha
de ser transferida para a seco do orfanato, onde no custaria um nico
tosto ao meu pai. Ao ser admitida como interna, cada criana recebia um
nmero de identificao. A partir de ento, todos os nossos haveres eram
carimbados com esse nmero. O nosso dia comeava s 5.45, altura em que
ramos acordadas por uma sonora campainha. A missa diria era obri
gatria. A minha amiga Mary Suen, que no gostava de se levantar cedo,
costumava queixar-se de que aquilo era exactamente como se fssems
freiras, quer quisssemos ser santas quer no. A nica desculpa
aceitvel para escapar  missa era uma doena grave, verdadeira ou no.
Durante esta celebrao, muitas de ns tnhamos apenas um pensamento:
sair da capela o mais rapidamente possvel e correr para a sala de
jantar para tomarmos o pequeno-almoo. Os lugares eram fixos e no
podiam ser alterados; ramos sentadas por idades. Mary sentava-se ao meu
lado esquerdo. A cada uma de ns era atribudo um cacifo no grande
louceiro da sala. As internas arrumavam no seu espao prprio e numerado
as provises que traziam de casa. A abundncia ou escassez da comida de
cada aluna era claramente visvel por todas as outras, o que constitua
tambm o barmetro do grau de afecto que a respectiva famlia tinha por
cada uma. Durante todo o tempo que passei no Sagrado Corao, o meu
cacifo esteve eternamente vazio. Os ovos tinham um significado especial.
Tinham de ser trazidos de casa e eram arrumados no frigorfico da
cozinha. Antes de os entregar, cada uma das internas tinha de pintar o
seu nnero a tinta-da-china em todas as cascas. Ao pequeno-almoo, cada
uma de ns recebia duas fatias de po, uma poro de manteiga e de doce.
Aquelas que tinham sorte e cujos pais pagavam mais 15 dlares por ms
bebiam leite quente ao qual podiam juntar o seu prprio chocolate ou
Ovaltine, que guardavam no seu cacifo do louceiro. Algumas meninas
chegavam a trazer pasta de anchovas, Marmite, pasta de fgado ou atum
enlatado para pr no po. Depois a Irm Mary trazia um recipiente enorme
cheio de ovos quentinhos, acabados de cozer. Ela costumava tirar os ovos
um a um e coloc-los em recipientes individuais, lendo os nmeros 
medida que os distribua. Quando algum ouvia o seu nmero, dirigia-se a
ela para ir buscar o seu ovo. Esses ovos tornaram-se smbolos de um raro
privilgio. Eram baratos e vendiam-se em qualquer mercado, mas, quando
algum ouvia a Irm Mary chamar o seu nmero, isso significava que a
famlia a amava o suficiente para lhe enviar ovos e, por conseguinte,
para lhe proporcionar um pequeno-almoo bem nutritivo. O facto de uma
famlia ser rica no significava que uma pessoa recebia automaticamente
um ovo. Os ovos no eram debitados na conta como o leite ou as lies de
Piano. O ovo do pequeno-almoo, mais do que tudo o resto, dividia, -nos
em dois grupos perfeitamente distintos: as que eram amadas e aquelas que
no o eram. Escusado ser dizer que eu nunca tive ovos durante todo o
tempo que passei no Sagrado Corao. A seguir ao pequeno-almoo
corramos a buscar os nossos livros  sala de estudo e amos ter com as
externas ao ptio. As aulas comeavam s 8. As lies eram dadas em
ingls, mas falvamos umas com as outras em cantonense. Com grande
surpresa, descobri que os meses passados em St. Joseph me tinham dado a
preparao suficiente para acompanhar os estudos. Ao meio-dia o colgio
parava para o almoo. Uma campainha chamava as internas para a sala de
jantar, onde amos encontrar um prato de esparguete com bolas de carne,
ou macarro com queijo. Nos dias melhores tnhamos costeletas de porco
com arroz e legumes salteados com pur de batata. - E chamam a isto
comida ocidental! - resmungava Mary por entre dentes. - Uma taa da
mesma sopa todos os dias!  tarde, as aulas iam da 1.30 s 3.30. s 4
servia-se o ch na sala de jantar. Era a nica refeio que s tomvamos
se quisssemos. Era esta a refeio onde aquelas "que tinham" podiam
realmente brilhar perante as "que no tinham". Alm do po, da manteiga
e do doce, como era habitual, l apareciam as guloseimas trazidas
durante as visitas dos domingos: chocolates, biscoitos, rebuados, carne
seca, fruta cristalizada, nozes. No dia dos anos, a aniversariante era
autorizada a trocar o seu uniforme por um vestido bonito. Vestida de
bonitas rendas, laos e tufos, exibia a sua largueza, desfilando ao lado
da Irm Mary atrs de um enorme bolo de aniversrio com as respectivas
velas acesas. Todas cantvamos os "Parabns a voc!". O bolo era partido
e colocado numa travessa. Ento a Irm Mary e a aniversariante iam de
lugar em lugar, servindo - ou no - uma fatia, conforme os desejos da
menina dos anos. Depois deste joguinho discriminatrio, a aniversariante
abria os seus presentes, enquanto ns amos soltando "ahs" ou "ohs". Eu
costumava ir para o lanche um pouco mais tarde, devorava o meu po com
doce e manteiga to depressa quanto podia e depois escapava-me. Sabia
muito bem que nunca teria uma festa de aniversrio e que nunca poderia
retribuir nem comprar a ningum qualquer presente. A minha amiga Mary e
eu nunca falvamos uma  outra nestes assuntos, mas eu encontrava muitas
vezes pequenas surpresas que ela deixava no meu prato: rebuados de
coco, um pacote de ameixas cristalizadas, um pedao de fruta. A iviary
no era o que se pudesse considerar uma boa aluna. Tinha dificuldades em
Matemtica e pedia-me ajuda muitas vezes. Costumava sentar-se ao meu
lado enquanto eu a ajudava nos trabalhos e dizia: - Agora parece to
evidente. Como  que eu no pensei nisso antes? Eu desfrutava da
admirao dela e tentava ser ainda melhor. Noutros aspectos, Mary era
madura para a idade que tinha. Quando Daisy Chen entrou no colgio como
interna, apercebi-me de que tinha sotaque de Xangai e tive curiosidade
em conhecer a sua histria. Fiz certamente perguntas de mais; Daisy
tornou-se esquiva e evasiva. Mais tarde Mary disse-me: - No lhe faas
tantas perguntas! As raparigas como ns, que acabam em colgios como
este, vm geralmente de famlias infelizes.  melhor no perguntares
mais nada! De qualquer modo, vamos sempre acabar por saber a sua
histria. Recriminei-me por ser to insensvel e to maadora. Depois do
ch havia uma hora de recreio. Podamos brincar com as nossas bonecas,
ler, saltar  corda, treinar no piano, andar de patins, jogar basebol ou
basquetebol. Geralmente eu ia para a biblioteca. Era uma grande sala
rectangular, encaixada num canto da ala das internas. As suas
prateleiras repletas de livros elevavam-se at ao tecto. A maioria das
obras era em ingls, algumas em italiano ou latim. No havia livros em
chins.  quanta magia entrar e ver todo aquele tesouro, onde a palavra
escrita era senhora e rainha! As janelas eram pequenas. As luzes eram
fracas. Por estes motivos, a sala era escura e pouco cativante. No
havia bibliotecria. Muitos dos volumes eram usuais ou revistas, que no
podiam ser retirados. Tudo o resto era uma amlgama de assuntos jazendo
ao sol. Estvamos autorizadas a levar quantos livros quisssemos. A Irm
Louisa era quem estava encarregada de fechar as portas pontualmente s 5
horas. Dado que o lanche decorria das 4 s 5, eu era geralmente a nica
a frequentar a biblioteca. Muitas vezes,  sada, com os braos
carregados das ltimas leituras, cruzava-me com a Irm Louisa. Tornei-me
uma figura to habitual que, geralmente antes de fechar a porta, ela ia
ver onde  que eu estava. - O sbio j saiu da sua toca - brincava ela,
enquanto abanava o molho de chaves - ou ser que vai a passar a noite?
Tinha-me dado essa alcunha por causa de um problema de Matemtica que eu
tinha ajudado Mary a resolver e cuja soluo acabou por ser mais
correcta do que aquela que estava no seu prprio livro. Provavel mente
fora apenas um erro de impresso, mas esta histria acabou por correr o
colgio e chegou aos ouvidos das outras internas. Muitas vinham ter
comigo quando tinham problemas com os seus trabalhos de casa. Deixaram
de reparar no meu nico vestido de domingo, que j estava demasiadamente
curto e apertado para mim, nos meus sapatos j gastos e com buracos nas
solas, no meu cacifo permanentemente vazio e na ausncia dos ovos. Os
domingos eram os dias de visita. Entre as 10 e o meio-dia, ns, as
internas, vestamos as nossas roupas mais bonitas e, de cabelo penteado
e sapatos engraxados, espervamos pelos nossos pais na recepo. Havia
cadeiras dispostas em grupos para as reunies de famlia. No nos
misturvamos com os familiares das nossas colegas. No princpio eu ainda
era apanhada pela excitao da visita dos domingos e preparava-me para
receber a minha famlia com tanta animao como todas as outras.
Todavia, invariavelmente, no tinha visitas. Tornou-se difcil ignorar
os comentrios mordazes e os olhares de pena domingo aps domingo. Entre
todas as internas, eu era claramente a filha indesejada. Finalmente,
resolvi a questo retirando-me de cena. Aos domingos de manh, quando
todas as raparigas se aprontavam ao espelho, eu agarrava numa pilha de
livros e, despercebidamente, escapava-me para a casa de banho. E a
ficava at ouvir o rudo das conversas e das gargalhadas quando as
minhas amigas voltavam a subir, carregadas de alimentos e presentes,
fazendo comparaes entre elas, trocando comida e experimentando roupa e
sapatos novos. Assim que percebia que tinham voltado todas, enfiava os
livros debaixo do uniforme e saltava c para fora com um ar de
indiferena. Com um certo tacto, ningum falava das minhas desaparies
aos domingos. Muitas vezes, j tarde, quando toda a gente j tinha
adormecido, eu estava ainda acordada, muito ansiosa, cheia de
pensamentos cinzentos acerca do meu futuro. No Inverno, quando o tempo
realmente arrefecia, enrolava_me debaixo das cobertas e lia os meus
livros preferidos  luz da lanterna, para que as freiras no vissem
qualquer reflexo a danar no tecto. Como sempre, as minhas agitaes
interiores desapareciam com as dificuldades e atribulaes das minhas
personagens e eu acabava por adormecer. Entre Abril e Setembro, o tempo
era desesperadamente quente e hmido. Durante as aborrecidas frias de
Vero eu estava entre as poucas internas que permaneciam no colgio; por
vezes era mesmo a nica. Acabei por desenvolver a tcnica de a meio da
noite rebolar em silncio por debaixo das camas vazias at chegar ao
outro lado, onde as janelas se abriam para uma varanda que dava para o
porto. A eu costumava trepar para cima da fresca balaustrada e, sob um
cu estrelado e azul-escuro, observava os enormes navios que salpicavam
as guas da baa. Adorava sentar-me, agarrada aos joelhos, observando a
paisagem l em baixo, com os meus prprios sonhos a pairarem a
quilmetros e quilmetros de distncia. s vezes, um dos navios apitava,
num sinal de partida. Quanta magia, ao ouvir aquele som cheio de
lembranas! Cheios de desejo, os meus olhos seguiam o navio at ele
mergulhar calmamente na escurido. Imaginava-me a mim prpria na sua
proa, a deslizar por entre as guas calmas e escuras, de partida para
uma viagem fascinante para temas fabulosas: ~ l~l Ying Gt~o (Pas de
Heris) e ~ ~ Mei Gtro (Pas Maravilhoso)! Estas palavras, que
significam Inglaterra e Amrica, representavam ediflcios de colgios
relvados, cidadelas de saber em forma de castelos senhoriais e de
sagradas catedrais. Tal como  descrito pelo poeta Wang Bo, da dinastia
Tang, eram esses os lugares msticos que eu tanto desejava visitar para
me poder transformar numa ~4~f~~ ren jie di lir:g (aluna brilhante numa
terra maravilhosa). A partir de ento, sempre que ouo uma buzina de
nevoeiro que apita a meio da noite, sinto ainda a dor acutilante dessas
horas tardias, num som que me persegue, como um orculo que atravessa o
oceano dos tempos, convidando-me para uma terra de sonhos. 115 10 Du Ri
Ru Nian Cada dia como um ano As longas vestes chinesas de Ye Ye, os seus
casacos bordados e a sua cabea rapada pareciam ainda mais fora de moda
em Hong-Kong do que antes, em Xangai. Ye Ye permanecia um budista
convicto. No falava ingls nem cantonense e sentia-se um estrangeiro
completo nessa cidade do Sul. No tinha amigos e mal conseguia comunicar
com as criadas. Os nicos prazeres que tinha eram as refeies dirias,
o charuto que fumava depois do jantar e as cartas que escrevia e recebia
da tia Baba. Dos netos que lhe restavam, Franklin era insolente e Susan
era pequena de mais para lhe despertar interesse. Por essa razo,
voltou-se cada vez mais para James e para mim. Nas trs ocasies em que
fui autorizada a ir a casa (duas vezes no Ano Novo chins e uma em que
estive a convalescer de uma pneumonia) dormi numa cama colocada no
quarto que Ye Ye partilhava com James. Quando queria fazer pequenas
compras, como cigarrilhas ou selos, tinha de pedir dinheiro ao pai.
Lembro-me de Ye Ye, envelhecido e triste, a ler calmamente os seus
jornais da manh na sala de estar. Nos ltimos anos de vida, Ye Ye
sofria de diabetes. Era guloso, pelo que lhe era muito difcil ver-se
privado de um dos seus parcos prazeres. Era o pai quem, diariamente, lhe
dava as injeces de insulina. De vez em quando Ye Ye comia um chocolate
ou um biscoito, pequenas infraces que Niang conseguia sempre
descobrir. Quando o pai regressava a casa, havia sempre uma sesso de
gritaria. Ye Ye ficava ento reduzido a um velhote encolhido e
confessava que sim, que tinha comido o chocolate. Sim, sim, ele sabia
que estava proibido e que lhe fazia mal  sade. No, no queria morrer.
E geralmente tudo terminava de uma forma humilhante, com o pai a dar-lhe
uma injeco de insulina. O pai decidiu alterar a dieta de Ye Ye.
Eliminou o vinho de arroz, a carne de porco assada, o peixe frito em
molho agridoce, os legumes salteados, o leite fermentado. Sob a
recomendao de um qualquer mdico ocidental, Ye Ye passou a comer um
nico prato, em que cada um dos componentes era cuidadosamente pesado
pelas criadas. Havia algumas cenouras, um pouco de peixe cozido, uma
pilha de batatas cozidas e um monte de arroz cozido no vapor. Esta mesma
refeio era-lhe servida trs vezes ao dia, sete dias por semana. Deixou
de comer connosco. Este repasto era-lhe servido pontualmente s 8, ao
meio-dia e s 6. Nos intervalos estava proibido de comer o que quer que
fosse. Quando Ye Ye protestou, explicaram-lhe que eram "ordens do
mdico". Durante as minhas raras visitas a casa, lembro-me de que me ia
sentar ao p dele enquanto comia. At doa ver a sua expresso de
angstia ao engolir esta dieta montona, odiando cada dentada. O pai
acreditava, provavelmente, que este tipo de privao era para bem de Ye
Ye. De outro modo, como poderia ter aguentado a atitude desesperada de
Ye Ye durante aquelas refeies horrveis? Anos mais tarde, Lydia
contou-me que Ye Ye se tinha rebelado e que tinha exigido sair e ir
morar sozinho. Certo dia anunciou que tinha decidido voltar a casar e
que ia consultar uma casamenteira. A recusa foi categrica. No havia
nada que lhe fosse permitido fazer. Uma depresso profunda instalou-se.
Escreveu  tia Baba, dizendo-lhe que queria voltar a Xangai e passar os
ltimos anos da sua vida com ela (sabia, contudo, que, pelo seu passado
capitalista, esse era um desejo impossvel). Contou-lhe ainda que em
Hong-Kong a vida era to infeliz que no havia mais nada a fazer seno
suicidar-se. A tia Baba mostrou estas cartas a Lydia antes de serem
destrudas pelos Guardas Vermelhos durante a Revoluo Cultural. No
Vero de 1951 apanhei uma pneumonia e dei entrada no hospi_ tal. Jaines,
que tinha vindo h pouco tempo de Xangai, lembrava_se de como Ye Ye
ficara extremamente preocupado ao saber da notcia e decidira ir
visitar-me. Niang tinha ficado com o carro para ir ao jogo semanal de
brdege. Foi ela que lhe disse que no fosse, porque era incmodo e
desnecessrio; eu j estava a ser tratada pelos "melhores mdicos que o
dinheiro podia pagan>. Mas Ye Ye insistiu. Pediu a James que o
acompanhasse, porque no conhecia bem as ruas, os autocarros ou os
.frries de Kowloon para Hong-Kong. Ye Ye vestiu ento o seu melhor fato
chins. A chuva comeou a cair. No podia usar os seus confortveis
sapatos de pano de Xangai e nem conseguia encontrar os sapatos de sola.
Finalmente, depois de muito procurar, Franklin encontrou-os. Parece que
sempre tinham estado no armrio do corredor, embora James e Ye Ye j l
tivessem ido procua-los. Saram de casa sob chuva intensa; James
segurava o guarda-chuva e Ye Ye apoiava-se pesadamente no seu brao. Os
passeios estavam molhados e escorregadios. Quando saram, James
disse-lhe: - Niang disse-lhe que no fosse. No atire as culpas para
cima de mim se escorregar e cair com esta chuvada! Ye Ye caiu
pesadamente, mesmo antes de virarem a esquina de Boundary Street para
Waterloo Road, ondeiam apanhar o autocarro. Tiveram de desistir da
viagem. Ye Ye escorregava a cada passo. Quando iam a chegar ao
apartamento, Ye Ye viu Franklin empoleirado na varanda a gesticular 
chuva. Gritava e ria na maior excitao: - V, eu no lhe disse que ia
cair? Eu  que tinha razo! Eu  que tinha razo! Niang bem lhe disse
que no fosse! Ela disse-lhe que no fosse! Foi o prprio Ye Ye quem me
contou todo o episdio, quando tive alta do hospital e estive em casa a
convalescer durante alguns dias ... F-lo calmamente, tristemente,
pedindo desculpa por no ter ido visitar-me enquanto estivera doente. -
O mais assustador - dizia Ye Ye - foi a completa ausncia de piedade
filial da parte de Franklin. Quando ca, perdi o sapato. Apanhei-o da
sarjeta e percebi que a sola estava engordurada. Quando voltei a casa,
examinei os sapatos. As solas estavam cobertas com uma substncia
gordurosa que cheirava a pasta de dentes Darkie. (Tratava-. -se de uma
conhecida marca de pasta de dentes fabricada em Hong gong. Os donos da
companhia eram os nossos vizinhos de baixo no apartamento de Boundary
Street e muitas vezes tinham a gentileza de nos oferecer amostras.) ye
Ye era bom de mais para acusar Franklin directamente, mas apercebia-se
da minha tristeza e da minha raiva. - Tens a vida toda pela frente. Tens
de ser esperta. Estuda com vontade e torna- te independente. Receio bem
que tenhas muito poucas hipteses que receber um dote. Aquiesci com a
cabea. - No acabes casada como Lydia. Tens de confiar em ti mesma.
Mesmo que te roubem tudo, nunca sero capazes de te tirar os teus
conhecimentos. O mundo est a mudar. Tens de construir a tua vida fora
desta casa. No final do ano de 1951, o pai mudou-se com a famlia para
uma moradia isolada em Stubbs Road, nos Mid-levels, na ilha de HongKong.
Stubbs Road era uma rua principal, com carros que a percorriam a grande
velocidade. No havia comrcio nas proximidades e andar a p era
perigoso. Para a mais pequena compra era necessrio usar o carro. As
cartas de Ye Ye para a tia Baba tornaram-se cada vez mais desesperadas.
- Todos ns nos agarramos  vida com tanta fora - escrevia Ye Ye -,mas
h destinos que so piores do que a morte: solido, apatia, insnia, dor
fsica. Trabalhei arduamente toda a vida e economizei todos os tostes.
Agora pergunto a mim prprio de que me serviu tudo isso. A agonia e o
medo da morte so certamente piores do que a prpria morte. A ausncia
de respeito  minha volta. A inexistncia de esperana. Nesta casa onde
eu no valho nada, du ri ru nian (cada dia  como um ano). Achas que a
morte poder ser pior? Diz-me, minha filha, o que posso eu esperar? Ye
Ye morreu no dia 27 de Maro de 1952, com complicaes advindas da
diabetes de que sofria. Nos ltimos trs meses de vida escreveu  tia
Baba falando-lhe sobretudo do passado. Falava-lhe das refeies festivas
com dez pratos que o seu prprio pai preparava na altura do Ano Novo
chins, na casa de ch que possuam na velha cidade murada de Nantao;
dos passeios a cavalo com a tia-av quando era rapaz, em Xangai, quando
a maior parte de Xangai era ainda zona rural; de observar as sampanas
enquanto desciam o rio Huangpu; dos dias felizes que passara com a av
quando o pai e a tia Baba ainda eram pequeninos. Pedia tambm desculpa
por nunca ter arranjado um casamento adequado para a tia Baba. - Se eu
errei, errei por me preocupar demasiado - dizia ele na sua carta. - No
sei como, mas sempre achei que no havia ningum  tua altura. Sempre
pensei que precisavas de algum especial, que tomasse conta de ti.
Talvez essa pessoa no exista seno nos meus pensamentos. Quando Ye Ye
morreu, o pai estava demasiado ocupado para poder informar a tia Baba.
Em vez disso, ela recebeu a notcia por outras vias: atravs de uma
carta enviada por um dos empregados do pai. 11 Zi Chu Ji Zhu Ideias
originais para composies literrias Quando estive doente em 1951, foi
durante as frias de Vero. A maior parte das meninas j tinha ido para
casa. Comecei a tossir sangue, a minha febre subiu a 40C e tinha
dificuldade em respirar. Dois dias mais tarde dei entrada no hospital.
No incio os mdicos pensaram que eu ia morrer e informaram a minha
famlia. Sentia-me sozinha e assustada. Da minha casa no chegava
ningum. Mary, a minha melhor amiga do colgio interno, era a minha
nica visita. O pai de Mary tinha uma concubina. Ela vivia com a me
numa outra casa situada a pouca distncia do hospital. Dizia-me que no
tinha outras coisas importantes para fazer. Estava- lhe profundamente
grata por aquela ateno, quaisquer que fossem as razes que ela tivesse
para ma dispensar.  medida que ia melhorando, ela trazia-me alguns
presentes: mangas doces e frescas, amendoins torrados, gelados ~ Dairy
Farm2' e diospiros secos. Jogvamos s cartas, pintvamos, n Marca de
lacticnios produzida em Hong-Kong. (N. da T.) 120 fazamos prrzzles e
comamos juntas a comida que trazia. A febre baixou. A tosse foi
diminuindo. Certo dia, pela hora do almoo, o pai apareceu de repente.
Mary tinha ido para casa almoar. Sem se fazer anunciar, entrou
bruscamente no meu quarto, admiravelmente vestido num fato azul-escuro.
Ficou  beira da minha cama com uma expresso preocupada. - Como te
sentes? - perguntou ele. Quando lhe respondi, queria descans-lo: -
Sinto-me bem, pai. J estou muito melhor. Uma mistura de alegria, medo e
surpresa fez-me perder a fala e no consegui dizer mais nada. Quanto a
ele, parecia que tambm no conseguiria articular uma palavra.
Observou-me por minutos, at que o nosso silncio se tornou incmodo.
Tocou-me ao de leve na fronte para ver se eu tinha febre e sussurrou: -
Cuida de ti. E saiu. Nesse momento Mary entrou no quarto acompanhada de
uma enfermeira. - Quem era aquele? - perguntou a enfermeira. Respondi
com orgulho: - Era o meu pai. Ps um ar de espanto e disse: - Mas
pensvamos que era rf! - Quase rf, mas no exactamente. Olhei para
Mary, como que a perguntar se j tinha falado de mais. - Eu tambm fao
parte da mesma categoria geral - disse Mary  enfermeira. - Na verdade -
disse eu com ar entendido -, no Sagrado Corao somos cerca de cinquenta
nesta categoria geral. - Mas s entre as internas - atirou Mary e
desatamo-nos a rir descontroladamente. A enfermeira saiu. Nesse momento
senti-me muito prxima da minha amiga de escola. De repente veio-me 
cabea que, dia aps dia, tinha ansiado pela visita da minha famlia e,
contudo, quando o meu pai viera finalmente, no tnhamos nada para dizer
um ao outro. Por que razo havia de forar a relao com os meus pais
quando tinha amigos leais? 122 Mary e eu comemos a fazer planos para
fugir de Hong-Kong e ir viver para alojamentos de estudantes em
universidades bem longe dali: Londres; Tquio ou Paris. Quando regressei
ao colgio, depois de uma semana de convalescena em casa, apercebi-me
de que era a nica interna, pois as frias ainda no tinham acabado. No
havia ningum com quem pudesse conversar nem nada que pudesse fazer.
Passava muito tempo na biblioteca, folheando livros e revistas. Numa
dessas ocasies tropecei no anncio de um concurso de peas de teatro,
aberto a todas as crianas que falassem ingls, dos 10 aos 19 anos.
Encafuada na biblioteca e com todo o tempo do mundo, deitei-me ao
trabalho. A minha pea chamava-se Para Longe com os Gc!fnhotos'8. O
enredo girava  volta da devastao que tais insectos causavam em
frica. O tempo corria rapidamente e fiquei triste quando cheguei ao
final da pea. Enviei o meu trabalho e no pensei mais no assunto. A
escola recomeou e as meninas voltaram. Numa segunda-feira, meses mais
tarde, estava eu a jogar basquetebol no recreio do almoo, quando a Irm
Valentine (a quem chamvamos Cara de Cavalo) se aproximou e interrompeu
o nosso jogo para me dizer que o motorista da minha famlia estava 
minha espera. Ye Ye tinha morrido e o funeral era nesse dia. Levaram-me
directamente ao templo budista, vestida com o uniforme do colgio, e foi
a que eu vi a fotografia de Ye Ye colocada em cima do seu caixo.
Desatei a chorar e no conseguia conter as lgrimas, embora visse que
ningum mais estava a chorar. O pai, Niang, James, Franklin e Susan
estavam sentados em frente dos empregados, do cozinheiro e do motorista,
de rostos brancos, sem deixarem transparecer uma emoo. No havia
outras pessoas presentes. Chorei durante toda a cerimnia, inundada de
uma terrvel sensao de perda. Quando sa do templo, ainda soluava,
sem me aperceber de que as minhas lgrimas irritavam Niang cada vez
mais. - Porque  que estas a chorar? - murmurou ela furiosa. Cheia de
tristeza, olhei para ela com os olhos vermelhos de chorar, o nariz a
correr, habilitando-me a algum comentrio mais spero. E foi o que
aconteceu. Ela voltou-se para o pai: - Acho que a Adeline, quanto mais
cresce e quanto mais velha est, mais feia se est a tornar! ~ No
original Gone with the Locusts. (N. da T.) 123 Regressmos a casa depois
do funeral e Niang chamou-me  sala de estar. Vestia um elegante fato
preto e tinha as longas unhas pintadas de vermelho. O forte cheiro a
perfume incomodava-me e senti que estava prestes a perder os sentidos.
Ela ficou a olhar para o meu uniforme do colgio j muito surrado, para
o meu cabelo escorrido, sem permanente, e para as unhas rodas das
minhas mos. Senti-me minscula, feia; senti que no prestava para nada.
- Senta-te, Adeline! - disse ela em ingls. - Queres um sumo de laranja?
- No, muito obrigada. -Reparei que estavas a chorar ainda agora, no
funeral - disse ela. - Ests a ficar crescida. Devias gastar algum tempo
a cuidar de ti. Torna-te uma pessoa apresentvel. No h homem nenhum
que queira uma noiva feia. Movi a cabea em sinal de assentimento e
repeti para mim prpria que no era aquela a verdadeira razo pela qual
me tinha chamado. Cerrei os punhos e esperei. - O teu pai - disse ela -
tem sete filhos para sustentar. Graas a Deus que Lydia j est casada e
em segurana. Contudo, restam ainda seis. J no  demasiado cedo para
pensarmos no teu futuro. Quais so os teus planos? Pensei na minha ficha
de avaliao carregada de "As" e naquela presena ameaadora  minha
frente. Eu sabia muitssimo bem que, caso dependesse dela, eu no teria
qualquer futuro pela frente. Aterrorizada, de olhos fixos nos meus
prprios ps, murmurei qualquer coisa sobre ir estudar para uma
universidade, como os meus irmos, de preferncia em Inglaterra. Fui
logo interrompida: - O dinheiro do teu pai no  inesgotvel. J
decidimos que vais aprender estenografia e dactilografia para arranjares
um emprego. Eu tinha na altura 14 anos e Ye Ye tinha acabado de morrer.
Nesse mesmo Vero James ia para Londres para continuar os 'seus estudos.
As minhas professoras tinham-me dito que as melhores universidades eram
na Europa e na Amrica. Quando voltei ao colgio, escrevi cartas e mais
cartas ao pai e a Niang, pedindo-lhes que me deixassem ir para Londres
com James e juntei as minhas fichas de avaliao repletas de
recomendaes e de prmios. Nunca obtive resposta. Considerei seriamente
a hiptese de fugir para Xangai e ir ter com a tia 124 Baba para
continuar os meus estudos. Estava decidida e ir para a universidade. Um
ms depois, num sbado  tarde, a Irm Valentine veio novamente ter
comigo para me dizer que o carro da minha famlia estava l fora 
espera. Perguntei a mim prpria quem  que teria morrido daquela vez. O
motorista assegurou-me que estavam todos bem de sade. Perguntei-me logo
a seguir o que teria eu feito de errado. Senti-me apavorada durante todo
o percurso at casa. Finalmente, a minha sorte tinha mudado. Eu no
sabia, mas tinha ganho o 1 prmio no concurso de peas de teatro em que
me tinha inscrito sete meses atrs. O jri tinha comunicado os
resultados por escrito ao departamento de educao de Hong-Kong, que,
por sua vez, tinha feito o comunicado  imprensa. A notcia merecera
grande destaque, com direito a um espao na primeira pgina. Mencionavam
o meu nome, idade e escola, bem como o facto de o concurso ser aberto
aos estudantes dos territrios de expresso inglesa. O pai ia a subir no
elevador para o seu escritrio numa manh de sbado, quando um conhecido
lhe fez sinal e lhe mostrou o artigo de jornal. - Por acaso a vencedora,
Adeline Junling Yen,  da sua famlia? - perguntou ele. -  que tm o
mesmo apelido fora do vulgar. O pai, cheio de orgulho, leu e releu o
artigo. Nessa mesma tarde mandou-me chamar. Quando cheguei a casa,
ordenaram-me que fosse imediatamente ao Santo dos Santos, um quarto onde
eu nunca tinha entrado. Niang tinha sado e o pai estava sozinho.
Percebi logo que estava de bom humor. Mostrou-me o artigo do jornal. Eu
nem queria acreditar! Tinha ganho! O pai queria conversar comigo sobre o
meu futuro. O meu corao comeou a bater com toda a fora. - Pai, por
favor, deixe-me ir estudar para Inglaterra. Deixe-me ir para a
universidade. - Bem, acho que tens potencial - replicou ele - e talvez
at tenhas zi chu ji zhu (ideias originais para composies literrias).
Quais so os teus planos para o futuro? O que pretendes estudar? Fiquei
em silncio durante longos momentos. No fazia a menor ideia do que
queria estudar. Ir para Inglaterra era tudo o que eu sempre tinha
sonhado. Era como ir para o Paraso. Tinha alguma importncia aquilo que
uma pessoa fazia depois de entrar no Paraso? 125 O pai estava  espera
de uma resposta. Cheia de emoes com o meu ltimo triunfo, atrevi-me a
dizer: - Acho que vou estudar Literatura. Vou ser escritora. -
Escritora! - zombou ele. - Que espcie de escritora? E em que lngua 
que vais escrever? O teu chins  muito elementar. E quanto ao teu
ingls, no achas que os Ingleses ho-de escrever melhor do que tu?
Concordei logo. Seguiu-se outro daqueles silncios incmodos. - J
estive a pensar no assunto - anunciou o pai. - Vou dizer-te qual  a
melhor profisso para ti. Senti um certo alvio. Faria o que ele me
aconselhasse. - Vais para Inglaterra com James para estudar Medicina.
Quando acabares o curso especializas-te em Obstetrcia, tal como a
melhor amiga da tia-av, a Dr.`' Mary Ting. As mulheres tm bebs e
algum tem de os ajudar a nascer. E neste caso as mulheres que do  luz
preferem mdicas. Nessa noite fui autorizada a dormir em casa. James e
eu ficmos a conversar at tarde. Estvamos cheios de planos. O futuro
parecia-nos sem limites. Pouco depois comecei a preocupar-me. E se os
Ingleses exercessem qualquer tipo de discriminao contra ns? E se ns
fssemos os nicos chineses nas nossas escolas inglesas e eles nos
achassem esquisitos?  meia-noite ainda andvamos  volta com o
dicionrio, com James a proclamar que, se os Ingleses gostassem de ns,
nos chamariam "raros", se isso no acontecesse, usariam a palavra
"esquisitos". Nesse preciso momento a porta abriu-se e Niang entrou. O
pai e Niang tinham ido jantar fora. Ela vestia um vestido preto de
lantejoulas, diamantes em volta do pescoo e brincos e anis a condizer.
As suas longas unhas estavam pintadas de preto. No parecia muito
contente. - O que  que ainda esto a fazer, a rir a estas horas da
noite e a gastar electricidade? - inquiriu. - No  j suficiente no
fazerem mais nada seno comerem e dormirem durante o dia, quanto mais
ainda andarem a desperdiar o dinheiro do vosso pai na brincadeira at
altas horas da noite! E foi deste modo que nos apagou a luz e saiu do
quarto, batendo com a porta. Calmamente, metemo-nos nas nossas camas.
Tentei consolar James: - Pelo menos no nos proibiu de irmos para
Inglaterra - disse-lhe. - Por muito mau que seja em Inglaterra -
declarou James -,por muita discriminao que haja, por muitos nomes que
nos chamem, no pode, de certeza, ser pior do que isto! 126 12 Tong
Chuang Yi Meng Na mesma cama com sonhos diferentes Em Janeiro de 1949
Lydia fugira de Tianjin para Taiwan com o marido Samuel e os pais deste.
O pai de Samuel, o mdico da nossa famlia em Tianjin, depressa abriu
novo consultrio em Taip. Iniciou ainda nova ligao com uma mulher
mais jovem e transformou-a despudoradamente em sua concubina. Para a me
de Samuel a situao tornou-se intolervel. Depois de uma amarga
contenda, esta voltou a partir e regressou a Tianjin em 1950. Nos anos
40 Taiwan era uma ilha semitropical com uma economia baseada na
agricultura e na pesca. A indstria era quase inexistente. Havia poucos
empregos e as condies de vida eram primitivas. Samuel no conseguiu
obter.um lugar adequado s suas qualificaes. Aps o nascimento de uma
filha decidiram seguir a me de Samuel e regressaram a Tianjin. O pai
procurou convenc-los a no regressarem  China, avisando-os repetidas
vezes das dificuldades e da tirania do domnio comunista. 127 Meses
depois do seu regresso, em 1950, Samuel foi preso e acusado de ser um
contra-revolucionrio. O tio de Samuel tinha sido uma figura poltica de
destaque no governo do Kuomitang, um membro bem co nhecido da "classe
exploradora". Muito embora esse tio se tivesse voltado para o lado dos
comunistas em 1949, o passado de Samuel era considerado sujo e requeria
um exame mais aprofundado. Durante o tempo em que o marido esteve preso,
Lydia e a filha, Tai-ling, viveram com a me de Samuel. As duas mulheres
no se davam bem. Seis meses mais tarde, quando Samuel foi posto em
liberdade, a me informou-o de que teriam de arranjar outro lugar para
viver. Foi nessa ocasio que marido e mulher se lembraram das duas casas
que o pai tinha na Rua Shandong. Das duas residncias, uma estava
ocupada pelos empregados do pai e a outra por Lao Lao, tia de Niang.
Lydia e o marido decidiram ir viver com ela. Quando Niang descobriu que
l viviam, ficou furiosa e disse ao pai que lhes escrevesse e os
ameaasse com despejo, caso no sassem de imediato. Samuel e Lydia
contra-atacaram. Avisaram o pai de que tinham provas de que os seus
empregados negociavam ilegalmente em moeda estrangeira e metais
preciosos desde os ltimos anos da dcada de 40 e mesmo depois da
libertao. Se o pai tentasse p-los fora de casa, denunci-lo-iam s
autoridades, bem como aos seus empregados. Exigiram tambm uma quantia
em dinheiro, que lhes foi entregue. Continuaram a viver na casa do pai,
mas ele nunca lhes perdoou. Para Lydia, os anos que passou sob o regime
comunista foram ainda mais rduos pela distncia que a separava da sua
famlia. Tornou-se cada vez mais amarga, atribuindo ao marido todas as
culpas do seu infortnio. Comeou a odi-lo e, embora continuassem a
partilhar a mesma cama, no tinham com toda a certeza sonhos comuns: fel
1* ~ ~~~ tong chuang yi meng (na mesma cama com sonhos diferentes). Mais
tarde, depois da nossa partida para Inglaterra, Franklin passou a ser o
senhor da casa. Niang satisfazia todos os seus desejos e dava-lhe
grandes semanadas, ao passo que Susan no via um nico tosto. Um dia,
tinha ele 13 anos e regressava a casa vindo de uma festa de anos, quando
passaram por uma plantao de morangos. Franklin avistou ento uma pilha
de caixas com a fruta acabada de apanhar Mandou parar o carro e comprou
duas grandes caixas. A caminho de casa comeu todos os morangos, sem
deixar um nico. 128 Dias mais tarde apareceu com a garganta inflamada e
febre. O pai estava a habalhar e Niang participava num qualquer evento
social. Colocou os patins e saiu para a rua sob o sol quente da tarde.
Meia hora depois entrava em casa queixando-se de uma forte dor de
cabea. Pediu a Susan que lhe fosse buscar um copo de gua e meteu-se na
cama. Quando Susan voltou com a gua, bebeu um golo, queixou-se de que
no estava suficientemente fria e atirou-lhe com o copo. Susan apanhou-o
e saiu do quarto. Trs horas mais tarde, quando Niang regressou,
Franklin delirava e emitia estranhos sons guturais. Numa ambulncia deu
entrada no Hospital Queen Mary. Consultou-se o professor McFadden (Lo
Mac ou o velho Mac para os alunos). Nessa altura Franklin j no
conseguia engolir. Pedia gua constantemente, mas, quando tentava
engoli-la, esta saa-lhe pelas narinas. Lo Mac chamou os meus pais e
fez-lhes o diagnstico. Franklin tinha poliomielite bulhar: tratava-se
de uma perigosa manifestao desta doena que afectava a base do
crebro. Provavelmente apanhara o vrus atravs dos morangos que comera
sem lavar. Os agricultores chineses fertilizavam os campos com dejectos
humanos, um meio bem conhecido de transmisso do vrus da polio. Lo Mac
afirmou que no havia tratamento especfico para a doena, podiam apenas
tomar algumas medidas de apoio. Assim, fizeram-lhe um oriflcio na
traqueia e colocaram-no num ventilador. O seu estado ora melhorava ora
piorava. O pai visitava-o todos os dias; Niang vivia praticamente no
quarto do hospital. Susan ficou fechada em casa para no apanhar a
doena. A pouco e pouco Franklin parecia melhorar. John Keswick, o
taipanz9 da Jardine Matheson, dava um baile que era, na realidade, o
evento social da poca. Niang fazia grande questo de ir e consultou Lo
Mac. Este disse-lhe que no devia parar a sua vida social por causa de
Franklin. Alm de tudo o mais, o estado do filho parecia estacionrio.
Era de facto uma ocasio proeminente. Niang tinha passado a noite a
danar num vestido de seda verde com brincos de jade a condizer, quando
recebeu uma chamada urgente. Era o prprio professor McFadden. A sua voz
soou cansada e abatida. Disse a Niang que se sentira no dever de lhe dar
pessoalmente a notcia: o estado de Franklin piorara de repente e ele
morrera. z' Termo utilizado em Hong-Kong para designar o chefe mximo de
uma organizao. iN. da T.) 129 Niang nunca conseguiu ultrapassar a
morte de Franklin. O pouco amor que ela era ainda capaz de dar morrera
com Franklin. Depois disso no se voltou para o pai nem para a sua nica
filha. O pai tambm ficou arrasado com a perda do seu filho preferido.
Embrenhou-se no trabalho e no se queixou, embora fosse cada vez mais
evidente que era mais feliz no escritrio do que em casa. Susan
tornava-se cada vez mais bonita, alta e graciosa, com um cabelo negro e
espesso, olhos escuros de longas pestanas e dentes alvos. Era obstinada,
franca e inteligente. O pai adorava-a. Niang no apreciava o prazer que
eles tinham na companhia um do outro. Sentiu-se ultrapassada pela sua
prpria filha. O pai e Niang comearam a afastar-se. De cada vez que
tinham divergncias, Niang amuava e no se levantava da cama. O pai
tinha de dormir no quarto de hspedes. Voltava do escritrio e procurava
animar e acalmar Niang, que uma das vezes ficou dois meses na cama. O
pai comeou a levar Susan com ele para todo o lado, claramente orgulhoso
da sua bonita filha. A proximidade entre os dois ainda agravava o estado
de Niang. 130 13 You He Bu Ke? Haver algo impossvel? Em Agosto de 1952
James e eu partimos para Inglaterra no grande paquete da P&O SS Canton.
Eu mal conseguia acreditar na sorte que tinha ao lembrar-me das noites
passadas na varanda do meu colgio interno a sonhar com uma viagem
daquelas. Durante a travessia martima de um ms senti-me inundada de
felicidade. Finalmente ali estvamos ns, numa maravilhosa viagem de
descoberta e independncia. A vida pulsava de esperana. James
relembrou-me uns versos bem conhecidos Ja Ts, rk ~ , ~ SeT x "7 shan
gao shui chang/ you he bu ke? (as montanhas so altas e os rios so
longos/ haver algo impossvel?). Fizemos amizade com o pequeno grupo de
chineses a bordo. Passaram a chamar-nos Joo e Maria, pois ramos
inseparveis. Depois de aportarmos a Southampton, um agente do servio
de viagens do pai estava  nossa espera para nos transferir para um
comboio que partia para Londres. Tinha estudado fotografias de Londres
na biblioteca do colgio, mas no estava preparada para o frio cinzento
da 131 capital de Inglaterra, ainda marcada pela destruio da segunda
guerra mundial. Havia crateras de bombas em lugares bem conhecidos da
cidade. J em Londres, encontrmos Gregory e Edgar e pusemos a conversa
em dia. No incio Gregory sentira-se muito triste: era o nico aluno
chins na escola, odiava aquele clima terrvel e a comida sensaborona;
carneiro quase todos os dias, cheio de nervos e malcheiroso. Quando
reparou que os seus colegas judeus comiam feijo estufado ou ovos de
cada vez que o pequeno- almoo era ovos com bacon, pensou num plano e
foi ter com o reitor. - Senhor reitor, estive a pensar no conceito de
tolerncia religiosa em Inglaterra. Aplica-se a todas as religies? -
Mas  claro! No fazemos qualquer tipo de discriminao! - Acho isso
admirvel. Quem me dera que tivssemos tolerncia religiosa na China.
Infelizmente s temos intolerncia brbara. Sinto muito ter que
incomodar o pessoal da cozinha, mas a minha religio probe-me de comer
certos alimentos. -  meu caro rapaz, temos de rectificar esta situao!
E que alimentos so esses? - Bem, o principal  carneiro, carneiro
cozinhado de qualquer maneira. - Sinto muito, vou informar a cozinha
imediatamente. E, de acordo com a sua religio, o que  que poderia
comer quando os outros rapazes comerem carneiro? - Para ser mais fcil
na cozinha, ovos com bacon estar muito bem! - Com certeza, com certeza!
A propsito, qual  o nome da sua religio? Gregory tinha pensado em
tudo: -  uma seita muito rara e de que pouco se ouve falar, oriunda da
regio entre o Tibete e a Monglia - disse ele, murmurando algumas
palavras em chins, cujo significado era "Associao contra os Que Se
Alimentam de Carneiro". Tal como Somerset Maugham,. Gregory acreditava
que, para se alimentar bem em Inglaterra, tinha de tomar trs
pequenos-almoos por dia. Gregory e Edgar chegaram  concluso de que a
escola que frequentavam no lhes oferecia muitos cursos na rea das
Cincias e, passado um ano, inscreveram-se, em Londres, numa escola
tutorial que prepa 132 rava alunos para os exames. Na altura em que ns
chegmos viviam em quartos alugados em Earl's Court. Gregory entrou no
Imperial College para estudar Engenharia Mecnica e Edgar tornar-se-ia
meu companheiro na Faculdade de Medicina. Enquanto andou a estudar, o
principal interesse de Gregory foi o bridege. Tornou-se capito da
equipa de brdege e chegou o dia em que pensou que seria muito mais
interessante dedicar o resto da sua vida a este jogo do que 
engenharia. Foi ento que escreveu uma carta de seis pginas aos nossos
pais, pedindo licena para trocar os estudos pelo brdege. Estava
convencido de que seria mais feliz como jogador de brdege profissional
do que cmo engenheiro. O objectivo final era ou no ser feliz? A
resposta do pai veio atravs de um telegrama sucinto: EM vEz DISSO
PORQtiE NO TE TORNAS LiM CHULO? Gregory fez o curso at ao fim. O pai
tinha-me inscrito num colgio interno catlico, mas laico, em Oxford,
chamado Rye St Anthony. Durante a minha viagem de um ms no SS Cafitora
tornei- me amiga da viva de um missionrio metodista americano, que
insistiu em que eu visitasse a cunhada inglesa que vivia ento em
Oxford, depois de ter passado muitos anos em Xangai. Na devida altura
telefonei a Lady Ternan e, depois de conversarmos um pouco sobre a
cunhada, fui convidada para tomar ch. Lady Ternan tambm era viva e
vivia sozinha numa imponente propriedade eduardina. Fui recebida por uma
criada fardada e pareceu-me que era a nica convidada. Serviu-se o ch.
- Quer mais ch e bolo? - perguntou ela num sotaque esquisito. Ao
princpio pensei que fosse uma brincadeira. Ao telefone ela tinha falado
num ingls normal. Do outro lado da mesa, as minhas feies chinesas
devem ter accionado uma espcie de antigo reflexo condicionado, h muito
esquecido. Senti uma tremenda vontade de rir. Para lhe agradar respondi
na minha prpria verso de ingls crioulo, inventada naquele momento. 
medida que ia falando, comecei a aperceber-me de que este dialecto me
colocava no meu "devido lugar". Ao falar em crioulo ela reafirmava a sua
prpria superioridade e, atravs de cada vogal arredondada e de cada
consoante encurtada, fazia notar que no ramos iguais. Escusado ser
dizer que nunca mais nos encontrmos. 133 Embora tivesse sido
recomendada aos meus pais como uma boa escola de raparigas com elevada
reputao acadmica, Rye St Anthony era na realidade uma escola
terminal. No eram oferecidos quaisquer cursos da rea de Cincias. Em
vez de Fsica, Qumica e Biologia, aprendamos a apreciar msica, a
danar e a montar. Acabei por me transferir para a escola Our Lady of
Sion, situada em Notting Hill Gate, frequentei um curso tutorial durante
as frias de Vero e consegui preencher os requisitos necessrios para
entrar na Faculdade de Medicina. Aos 17 anos dei entrada em University
College, Bloomsbury, onde o meu irmo Edgar tambm andava. Dos meus trs
irmos mais velhos, Edgar era o menos favorecido do ponto de vista do
seu aspecto fsico. Tinha uma cabea quadrada e uma testa proeminente,
que era ainda realada por grandes entradas. Os seus olhos eram pequenos
e muito juntos. Os lbios, finos, estavam permanentemente premidos um
contra o outro, dando-lhe um ar de determinao perspicaz. Edgar no
tinha o encanto de Gregory nem a boa aparncia ou a inteligncia de
James. Estava entalado no meio e no era o favorito de ningum. Quando
todos ramos crianas, ele descarregava toda a sua frustrao em mim, o
membro mais insignificante da famlia. Irritava-o sobremaneira ver o
orgulho que o pai tinha nos meus sucessos acadmicos. No incio, ele
andava um ano  minha frente na Faculdade de Medicina. Contudo, acabou
por falhar o segundo exame MB3 e acabmos por ter algumas aulas juntos.
Ele tomou o facto como um insulto pessoal. A pouco e pouco, este
ressentimento foi-se transformando num dio patolgico. Na Faculdade
recusava-se a admitir que ramos irmos ou at familiares; dizia aos
nossos colegas que no me conhecia. O pai e Niang tinham perfeita
conscincia do nosso antagonismo, embora nenhum deles tivesse feito
qualquer esforo para pr fim s nossas divergncias. Niang, muito pelo
contrrio, parecia contente com a nossa animosidade recproca e
alimentava as nossas querelas. Chegava mesmo a ser extremamente
simptica para mim quando queria magoar Edgar, cavando ainda mais o
fosso entre ns. ' Bachelor ofMedicine, sendo este grau o primeiro a
ser concedido pela Universidade. (N. da T.) 134 Nos anos 50, os
preconceitos raciais estavam muito em evidncia em Inglaterra. Os
estudantes chineses eram poucos e dispersos e havia uma certa distncia
entre os meus colegas de turma ingleses e eu. Muitos deles nunca tinham
estado to prximos de um chins. Alguns sentiam-se desconfortveis
perto de mim. Um pequeno grupo mal conseguia disfarar o desprezo.
Outros, ainda, mostravam-se protectores, aparentando uma aceitao
liberal. Condescendiam em fazer referncias  China, ou a Xangai, ou aos
pauzinhos - normalmente a propsito de um assunto em que ressaltavam
diferenas evidentes. Todos tomavam como base a superioridade ocidental.
Descobri que nem todas as palavras inglesas transmitiam o que
aparentemente representavam. Num contexto social, palavras como
"extico" ou "interessante" escondiam uma discriminao subtil.
"Extico" significava "possivelmente decorativo na China, mas realmente
muito estranho e com certeza fora do grupo dos meus favoritos".
"Interessante" significava "deixa-me dar-te a minha preciosa ateno por
agora, enquanto passo os olhos pela sala para ver se encontro algum que
valha a pena". A liberalidade e a magnanimidade britnicas eram postas
em evidncia nas funes escolares para as quais os meus professores me
seleccionavam, a fim de demonstrarem que at aceitavam alunas asiticas
na Faculdade de Medicina. Enquanto se davam uns aos outros palmadinhas
nas costas, eu era deixada de lado, como um trofu, mantendo a todo o
custo um sorriso amistoso, merecedor, claro est, da ateno deles. As
alunas de Medicina constituam menos de 20 por cento da turma. ramos,
bem de longe, um grupo estudioso e honesto. Os rapazes ressentiam-se
constantemente com o nosso esforo constante e as boas notas que
obtnhamos. Chamavam-nos MEM (malditas elevadoras de mdias). Alguns
diziam bastante abertamente que todas as estudantes de Medicina eram
feias. Outros proclamavam que, por capricho, "roubvamos" aos estudantes
masculinos o nmero de entradas na Faculdade de Medicina e que as que
tinham bolsas ou subsdios no estavam seno a "desperdian> os fundos
governamentais para a educao. Por vezes era difcil ignorar o desdm
racial e sexual que encontrvamos ao longo de percurso. Era frequente eu
sentar-me e almoar sozinha na cafetaria da Universidade, enquanto os
meus colegas se 135 reuniam uns com os outros nos bares das redondezas.
Certa vez, quando arranjei coragem suficiente para me juntar e levar o
tabuleiro do almoo para a mesa deles, apareceu logo um rapaz que se
sentou no ltimo lugar disponvel. Fiz de propsito e fui arranjar outra
cadeira. Fez-se silncio  minha volta. Todos devoraram a comida a uma
velocidade recorde e saram. Dei por mim sozinha, rodeada de pratos
sujos e de cadeiras vazias. A minha companheira de dissecao, Joan
Katz, e eu tnhamos o costume de ir para o laboratrio de Anatomia em
alguns fins-de-se_ mana, a fim de trabalharmos no corpo masculino de 81
anos que nos era destinado. Pusemos-lhe a alcunha de Rupert. Ao que
parece, o nosso zelo provocou uma onda de descontentamento entre os
nossos pares masculinos. Um sbado de manh descemos entusiasmadas para
o laboratrio escuro e terrvel, a fim de iniciar a dissecao. Por
detrs das portas pesadas, a sala estava escura como breu e cheirava
fortemente a aldedo frmico. Joan estendeu a mo para puxar o fio que
acendia a luz e deu um grito lancinante. A luz acendeu-se. Ouviram-se
uma srie de gargalhadas desabridas e estridentes, produzidas por um
grupo de rapazes escondidos no escuro. Tinham cortado o pnis a Rupert
para o colocarem no fio da lmpada. Ouviu-se o disparo de algumas
mquinas fotogrficas e Joan foi apanhada com a mo no ar, segurando um
pnis, com uma expresso incrdula na cara. Os rapazes fizeram circular
a fotografia entre eles com a seguinte legenda: "Primeiro prmio em
anatomia humana". Apesar destes problemas, foi uma poca maravilhosa na
minha vida. O mundo da cincia abria-se para mim. Mal conseguia esperar
que as aulas comeassem todas as manhs. Fisiologia, Biofsica, Farmcia
e Bioqumica eram como peas de um pttzzle gigante ilustrando o mistrio
daprpria vida. As experincias faziam-me lembrar jogos de xadrez
complicados. O meu adversrio era o grande "desconhecido", prestes a ser
desmascarado. Pelo caminho ia encontrando pistas deliciosas. De forma
consistente, estudei e dei o meu melhor. Sonhava regressar a Hong-Kong
com as mais altas qualificaes acadmicas, fazer um nome na cidade onde
o meu pai vivia, para que ele pudesse ter orgulho em mim. Muitos dos
meus amigos da Faculdade que no eram chineses, eram judeus. Tratavam-me
como igual, convidavam-me para casa e nunca 136 faziam comentrios
estereotipados. Discutamos os nossos estudos, jogvamos xadrez e
comamos em restaurantes chineses. Sentia que, finalmente, a vida tinha
comeado. Nunca sofri os momentos de depresso que por vezes afectavam
os meus colegas. Chamavam-me pollyanna, mas eu no me importava. Como
podiam alguma vez perceber a alegria que eu sentia por me ver finalmente
fora do alcance da sombra eminente de Niang? Morava em Campbell Hall,
uma residncia a dois quarteires da Universidade. A Associao dos
Estudantes Chineses era em Gordon Square, ali pertinho. A Associao dos
Estudantes da Universidade de Londres era do outro lado da rua. Mais
tarde, a Casa de Hong-Kong ficou situada em Lancaster Gate, a uns 5
quilmetros dali. O pai enviava-me a quantia anual de 500 libras, menos
100 libras do que aos meus irmos por eu ser rapariga. Esperava que
gerssemos o nosso dinheiro, que deveria durar todo o ano. A minha vida
girava em torno da Universidade e das associaes de estudantes.
Juntei-me  equipa de pingue- pongue e jogava xadrez pela minha
Universidade. James entrara em Cambridge, em Engenharia Civil.
Visitava-o frequentemente aos domingos. Passvamos tardes muito
agradveis a tomar caf e a conversar, nos seus aposentos medievais em
Trinity College, inebriados pela nossa recente liberdade. Sentia-me
radiante por poder passear pela calada ao lado do meu bonito irmo mais
velho, vestido com o seu fato da Universidade e o seu leno de
Cambridge, enquanto  nossa volta se ouvia o repicar dos sinos a chamar
para as oraes da tarde. A carapaa que me protegia das feridas dos
preconceitos e injustias tambm me servia de esconderijo secreto para
onde me podia retirar: Permitiu-me formar e desenvolver uma amizade que
teria espantado todos os meus pares e deixado preocupados alguns deles,
caso tivessem sabido do que se estava a passar. Karl Decker era um dos
meus assistentes. Para os meus olhos de rapariga de 17 anos, ele era o
homem ideal: inteligente, sensvel, alto e bonito. Apaixonado pelo seu
trabalho, passava longas horas no laboratrio. Era um alemo de 34 anos,
gaguejava e tinha um forte sotaque. Inserida no grupo de que ele era
tutor, comecei a reparar em Karl por causa da sua honestidade. Ele
costumava anotar longas correces nas margens dos meus ensaios e eu
ficava sensibilizada com o trabalho que ele tinha com as minhas tarefas.
s vezes reparava que as anotaes 137 tinham sido apagadas e que as
tinha voltado a escrever laboriosamente com uma letrinha meticulosa.
Comeou a comentar as minhas roupas e a minha aparncia, - Que blusa to
bonita! - notava ele, assim que eu entrava na aula, Nesse momento
tornava-me muda e pouco natural. Durante meses e meses recusei admitir,
mesmo para mim prpria que o Dr. Decker era meu admirador. Custava-me a
acreditar que aquele brilhante cientista pudesse estar seriamente
interessado numa adolescente chinesa, estudante de Medicina, acabadinha
de sair de um colgio interno. Ele passava horas a discutir as suas
experincias comigo, dando_se ao trabalho de me mostrar todos os artigos
importantes sobre o tema, Nos dias mais frios ensinou-me a aquecer caf
num bico de Bunsen no seu laboratrio e depois bebiamo-lo juntos por
duas grandes.provetas. Mas, sobretudo, escrevia-me. As notas rabiscadas
nas margens dos meus ensaios foram sendo substitudas por longas pginas
cheias de revelaes pessoais. Li sobre a morte da sua me quando ele
tinha 10 anos, o novo casamento de um pai severo e autoritrio, as
memrias tnues e dispersas e de uma adolescncia emocionalmente
agitada. Escreveu-me acerca de uma doena misteriosa chamada
esquizgfrenia, que o afectara quando ainda era um jovem estudante de
Medicina em Praga; falou-me de vozes sombrias, convices estranhas,
tormentos terrveis. Ingnua e inexperiente, envaidecida e sensibilizada
por estas revelaes extraordinrias, envolvi-me sem me aperceber de que
trilhava um caminho perigoso. Cheio de medos, dvidas e restries, ele
era para mim a imagem de uma educada sensibilidade temperada de uma
gentil melancolia, que encantava a minha imaginao. Uma parte desta
admirao baseava-se certamente na minha enraizada reverncia chinesa
pelo saber, pela idade e pela sabedoria. As suas cartas comearam a
desempenhar um papel central na nossa vida emocional. Ele escrevia sobre
poesia, msica e filosofia; os seus pensamentos, humores e receios; a
sua solido e nsia de me ver. A tudo isto estava subjacente todo o
abandono de uma existncia sombria e o tabu de um romance inter-racial
que despontava entre um professor e a sua aluna Karl tinha
auto-suficincia e autocontrolo. No tinha amigos. Vivia para o seu
trabalho, passando rotineiramente os seus dias de 14 horas no
laboratrio, inclusivamente aos sbados e domingos. Tomava todas 138 ~
refeies na cafetaria da Universidade e praticamente no sabia nem se
importava com o que comia. Tinha uma vida austera, asctica, vazia de
entusiasmos ou indulgncias. Raramente saamos juntos para qualquer
lado. Nenhum de ns desejava ser visto em pblico. Os casais de raas
diferentes eram ainda raros nessa poca. Alm disso, fazamos um par
estranho. Aos olhos dos outros no tnhamos sido feitos um para o outro.
Ele no queria que os colegas soubessem que andava a sair com uma das
suas alunas, muito menos com uma rapariga chinesa. Eu tambm no queria
que os meus amigos chineses descobrissem, para que nenhum rumor chegasse
aos ouvidos da minha famlia. Por estas razes, os nossos encontros eram
totalmente privados. O laboratrio de Karl na faculdade transformou-se
no nosso paraso. Era um dos poucos lugares onde ningum olhava para ns
com olhos inquisidores e onde nos sentamos completamente seguros. Para
mim, desajeitada e com pouca inclinao para a vida social, era muito
estranho ver o meu querido professor, um homem com o dobro da minha
idade, to tmido e inseguro  minha frente. Quando estvamos sozinhos,
os seus modos desastrados, a sua gaguez envergonhada e as suas grandes
saudades varriam todas as minhas defesas. Um dos meus amigos chineses,
Yu Chun-yee, um pianista de Singapura, dava um recital em Wigmore Hall.
Sabendo que eu desejava apoi-lo, Karl comprou 11 bilhetes e dividiu-os
em dois grupos, um de 8 e um de 3. Deu-me os 8 bilhetes para que pudesse
convidar os meus amigos chineses. Ele tambm foi ao concerto com o seu
colega doutorado e a mulher. Nenhum dos meus amigos chineses sabia que
tinha sido Karl quem tinha arranjado tudo, mas, durante todo o
espectculo, senti a sua presena atrs de mim. Era uma situao
impossvel e, todavia, prolongava-se. ramos to diferentes, mas a
afinidade entre ns era imensa. Eu sentia simultaneamente atraco e
repulsa pela dedicao fantica que ele tinha ao trabalho, excluindo
tudo o resto. Disse-me que precisava de preencher o seu tempo com
cincia para poder derrotar os demnios. Vezes havia em que a sua
instabilidade emocional me espantava e at me assustava. -  tudo to
triste e to difcil - dizia ele. E acrescentava quando se apercebia do
meu ar espantado: - Claro que no devias gastar tanto tempo comigo. Tu,
tu que s cheia de vida e de esperana! 139 Nunca roubou tempo
suficiente s suas experincias para poder perceber os valores culturais
chineses que moldavam a minha personalidade. Nunca conseguiu compreender
aquilo que considerava ser a minha obsesso pela comida e dizia que a
minha busca permanente pelo "restaurante chins ideal nas redondezas"
era uma busca v do Santo Gral. Nunca conseguiu aperceber-se de quo
essencial  a par- tilha da comida nas festividades chinesas. E, acima
de tudo, no conseguia entender a minha recusa permanente de consumar a
nossa relao. Para alm da minha juventude e educao catlicas, eu
estava impregnada da crena confuciana de que, para uma mulher, a perda
da virgindade fora do casamento era um destino pior do que a morte, Um
ano, no dia do seu aniversrio, passei uma semana inteira a preparar um
jantar especial, fazendo inmeros planos e compras,  procura dos
ingredientes mais frescos na poca, arranjando flores e frutos frescos,
limpando o seu apartamento pouco mobilado e cheio de p. Ele comeu a
refeio de seis pratos em quarenta e cinco minutos sem fazer qualquer
comentrio: sopa de brcolos frescos, ganso estufado com alho-porro,
couve-flor salteada com gengibre, galinha picante, ervilhas com
cogumelos e arroz cozido no vapor. Olhava repetidamente para o relgio,
desejoso de voltar a alguma das suas experincias no laboratrio. Lavei
os pratos depois de ele sair a comer, dizendo para comigo que fora um
esforo em vo. Havia algumas noites - raras, contudo - em que as
experincias de Karl estavam acabadas, os tubos de ensaio lavados e
secos, os sapos alimentados e os meus trabalhos de casa j feitos.
Nessas noites, empoleirados nas cadeiras do laboratrio, conversvamos
at altas horas. Houve momentos em que atingimos uma intimidade
profunda, uma compreenso mtua, tudo o que algum pode esperar que
acontea entre um homem e uma mulher. Karl insistia que no era pessoa
para mim e que eu devia permitir que alguns dos rapazes da Associao de
Estudantes Chineses me fizessem a corte. Para coroar a confuso
emocional em que me encontrava, tais sadas eram sempre precedidas ou
seguidas de uma longa carta de Karl, plena de angstia e arrependimento.
Essas cartas deixavam-me desfeita. Os meus amigos chineses eram uma
parte importante da minha vida. Quando estava com eles, podia abandonar
as minhas defesas e ser eu prpria. Eu precisava de falar a minha
prpria lngua de me descontrair entre o meu povo, que se ria das mesmas
coisas que 140 eu. De vez em quando trovamos de algumas das grandes
personalidades do pas que nos recebia. Havia alunos chineses que vinham
no s da China e Hong-Kong, mas tambm de Singapura, Malsia,
Indonsia, Maurcias e de outros lugares, dando uma dimenso
internacional ao mundo chins. Os avs ou os pais de muitos destes
estudantes chineses do Sudeste asitico tinham emigrado das provncias
chinesas costeiras de Fujian ou Guangdong, em virtude das dificuldades
existentes na sua terra. Embora Yu Chun-yee, o meu amigo de Singapura,
nunca tivesse posto um p na China, tinha lido os mesmos romances
chineses, adorava os pratos picantes de Sichuan,, e tinha muitos dos
mesmos valores culturais. Sob muitos aspectos, ele era mais chins do
que um chins. Trs das minhas colegas da residncia que eram de
Hong-Kong tambm frequentavam a Universidade em Londres. Todos soframos
a influncia de C. S. Tang, presidente da Associao de Estudantes
Chineses. C. S. vinha de Xangai. A famlia negociava no ramo da
navegao. Era muito bonito e fazia o doutoramento no Imperial College.
C. S. tinha ideias esquerdistas. Ao contrrio de ns todos, tencionava
regressar a casa para servir o povo da me-ptria. Era o nosso irmo
mais velho. Aos fins-de-semana, C. S. organizava excurses de barco na
Serpentina em Hyde Park ou de patinagem no gelo em Queensway. Organizava
bailes e jantares em que havia sorteios e em que os pratos estavam
repletos de pimentas e alho. Alugava filmes chineses que retratavam
comunistas em luta pela liberdade, vencendo oficiais corruptos do
Kuomitang e senhores da terra. Ao v-los, sentamo-nos muito
progressistas e idealistas e sonhvamos voltar um dia  China para, com
as nossas capacidades, podermos contribuir para a glria da nossa
me-ptria. C. S. no sentia nada seno desprezo pelos estudantes
chineses que saam com ocidentais. - Traidor! - resmungava entre dentes.
- Afazer amizades com o inimigo! Uma vez, num restaurante chins perto
de Leicester Square, o nosso grupo pediu uma das especialidades da casa:
pato  Beijing servido com cebolinhas, molho de ameixa e panquecas muito
fininhas. O empregado de mesa disse-nos que o ltimo pato j estava no
forno e prestes a ser servido a um branco sentado com uma rapariga
chines algumas mesas mais adiante. C. S. colocou um brao  volta do
empregado de mesa, um cantonense muito baixinho, oriundo de Hong_Kong~
chamado Little Chang, e disse-lhe que durante muitos anos a China o
nosso grande pas, tinha sido maltratado pelos brbaros. Repetiu a
histria do aviso no parque de Xangai que proibia a entrada a ces e a
chineses. - O que a tens  um brbaro que vai partilhar o ltimo pato
com uma bonita rapariga chinesa. No podes permitir que isso acontea!
Os brbaros nem conhecem a comida chinesa! No conseguem distingui um
pato de uma galinha quando esto vivos, quanto mais quando esto mortos
ou assados. Porque no lhes ds qualquer coisa saborosa? Deitas-lhe um
pouco de molho de ameixa e chamas-lhe pato  Beijing! No deve ser muito
difcil enganar um brbaro. E foi assim que eu e os outros comemos o
pato. Contudo, senti-me pouco  vontade com o ataque de C. S. ao
"brbaro". Mais para o final da refeio atirei-lhe: - Quando falas em
enganar os brbaros, isso no  uma espcie de racismo ao contrrio? C.
S. moveu a cabea e ps-se a pensar. Passou os dedos pelo cabelo espesso
e brilhante, como se fosse um rapazinho. Dirigiu-se a mim, chamando-me
pelo meu nome chins: - Junling, tu fazes-me perguntas dificlimas! Como
 que eu te hei-de responder sem parecer um idiota? Acho que a questo 
esta: na vida de todos ns existem prioridades. As minhas so estas e
por esta ordem: o meu pas, o meu lder - o oresidente Mao -, a minha
famlia, os meus pais, os meus irmos, os meus amigos chineses. O meu
professor, os meus colegas e outros amigos brbaros. E depois as outras
pessoas. No posso deixar de sentir uma certa proximidade pelos do meu
povo, como o Little Chang. Little Chang parece sentir o mesmo por ns.
Durante esse perodo passado em Inglaterra, mais ou menos entre 1955 e
1963, a maior parte de ns sentia-se orgulhoso do modo como a China se
tinha elevado aos olhos do mundo. Contudo, no tnhamos todos as mesmas
esperanas relativamente ao futuro da nossa nao. Alguns desejavam que
a China se transformasse numa brilhante sociedade capitalista como a
Amrica do Norte. Outros esperavam Que ~ polticas revolucionrias de
Mao sobre o colectivismo e o socialismo 142 se enraizassem de modo mais
firme. Uns poucos eram to evanglicos como C. S., divulgando panfletos
e filmes de propaganda que mostravam criancinhas de faces rosadas,
trabalhadores felizes, fbricas enormes e nmeros de produo incrveis
e sempre crescentes: a China estava a mudar. Acho que a maior parte de
ns, numa altura ou noutra, se chegou a ver como um grupo de licenciados
cheios de capacidades, treinados nas reas mais desenvolvidas da
tecnologia. ocidental, sonhando regressar a casa, servir a nossa
me-ptria e corrigir os erros de outros tempos. No laboratrio tentei
transmitir a Karl o orgulho e o entusiasmo da vida que levava na
Associao de Estudantes Chineses, mas ele deitava abaixo o meu zelo
excessivo. - J passei por esses disparates patriticos no meu prprio
pas durante a segunda guerra mundial. Acredita, a realidade  bem
diferente. Ento agora pensas que todos na China eram anjos s porque
Mao Zedong libertou o pas! De um dia para o outro j ningum pensa em
si prprio! J no h inveja, dio ou maldade! S existe bondade, amor e
justia universal! Acreditas realmente nisso, minha tontinha? 143 14 Yi
Qin Yi He Um s canto, uma s gara H. H. Tien era estudante de
ps-graduao em Matemticas Aplicadas no Imperial College. Era de
estatura mdia, magro, usava culos muito graduados e, embora no fosse
considerado bonito, tinha um certo charme e afabilidade.
Excepcionalmente bom e generoso, H. H. era um lder natural e parecia
possuir tudo o que mais se esperava para o futuro da China.
Admirvamo-lo, no por causa dos seus argumentos lgicos ou persuasivos,
mas devido ao seu magnetismo e personalidade. O pai era um banqueiro
rico que tinha casado por amor, desprezando amantes e concubinas, um
comportamento pouco comum entre os Chineses. Nos anos 30 o Sr. Tien
tinha sido um membro activo da Associao de Boicote Antijaponesa e
tinha lutado com o Exrcito da 19.a Estrada pela defesa de Xangai contra
os Japoneses antes de se juntar ao Partido Comunista na clandestinidade.
Alegrara-se com a libertao de Xangai, em 1949, e enviara ao seu filho
H. H., em Londres, uma carta de oito pginas, proclamando o amanhecer de
uma nova China. Contudo, para se proteger, e de uma forma muito
pragmatica, abriu outro banco em Hong-Kong e mudou-se para l em 1951
144 Uma noite, pouco depois da sublevao hngara, em 1956, fui com H.
H. a um concerto em Albert Hall. No incio dessa semana, Karl tinha
andado preocupado pelas notcias que ouvira na BBC, segundo as quais a
Rssia tinha enviado tropas para Budapeste. H. H. e eu tivramos uma
acesa discusso, durante a qual eu papagueei muitas das suspeitas de
Karl. H. g. descrevia os actos da Rssia como o abrao protector de um
irmo mais velho que tentava evitar o caos dentro da mesma famlia
poltica. - Como podes ter a certeza de que a China se tornar um grande
pas - argumentei. - J que houve tanta ganncia e corrupo no tempo de
Chiang Kai- shek, porque havia um novo governo de alterar a natureza dos
Chineses? Tnhamos chegado  entrada da minha residncia em Tavistock
Square. Como no nos apetecia acabar ali a noite, caminhmos  volta de
Campbell Hall. Subitamente, H. H. deu uma gargalhada: - Sabes o que eles
dizem de Chiang Kai-shek? - perguntou ele em ingls. - Levanta o meu
cheque, Chiang Kai-shek! E voltou ao dialecto de Xangai, que usvamos
habitualmente nas nossas conversas: - Agora a srio: quando a liderana
 corrupta e inapta, essas caractersticas geralmente vm a impregnar as
massas. Sob o regime comunista, a China entrou numa nova era de reforma
radical. Mao e os seus generais fizeram grandes progressos e trouxeram a
China para a arena mundial. Em vez de se curvarem ao general MacArthur,
foraram a Amrica a um cessar fogo com a Coreia. Tal como disse o
presidente Mao, "A China finalmente ps-se de p". Sob a fraca luz dos
candeeiros da rua, os seus olhos brilhavam de fervor e de esperana.
Como eu o admirava! Comeou a chover. Levantei a gola do casaco para me
proteger do frio cortante. H. H. tirou o seu cachecol da Universidade e
enrolou-o  volta do meu pescoo. Senti-me to segura e confortvel na
sua companhia. Aos poucos tinha-lhe confiado partes da minha infancia
dolorosa, uma informao que eu raramente dava. - Sou quase 8 anos mais
velho do que tu - disse H. H. - s vezes desejava que fosses mais velha.
H tanta coisa que te quero dizer. passaste tempos to difceis com a
tua madrasta. Precisas de algum como eu para te defender e cuidar de ti
para o resto da vida. - Agora tenho de entrar - disse eu, subitamente
inquieta e confusa. - O meu irmo Gregory disse que quando um rapaz e
uma 145 rapariga se juntam,  como apanhar um autocarro. Apanhas um
autocarro porque o nmero certo passa na hora certa. Desde a nunca mais
deixei de pensar nisto. Abri a porta da frente e devolvi a H. H. o seu
cachecol. Observei-o enquanto seguia o seu caminho, tentando desviar-se
das poas, antes de virar a esquina acenou-me e gritou: - Achas que eu
sou o nmero certo? Ests pronta para entrar no autocarro? E
desapareceu. L dentro estava escuro e morno. Quando ia a subir, reparei
que havia uma carta na minha caixa do correio. Era de Karl. Seria muito
bom, talvez at mais do que isso, se nos pudssemos encontrar depois da
tua sesso tutorial na quarta-feira. Mas concordo contigo que no
devemos misturar as coisas.  natural que, por causa da tua juventude,
as tuas preocupaes te paream mais importantes quando comparadas com
as minhas: pais, notas, a face, amigos chineses, o teu futuro e a China
(agora a Grande Questo). Limito-me apenas a tentar identificar outro
problema biofisico e estou a tentar resolv-lo.  claro que no haver
compensaes, talvez nem um papel no fim; e, contudo, a tarefa parece-me
bem importante. Ser que conseguia manter o meu lugar na Universidade se
os meus sentimentos por ti se tornassem conhecidos de todos? Seria to
bom ter-te permanentemente na minha equipa, mas isso est totalmente
fora de questo e tu s tens 18 anos. Por isso no tenho esperana de te
ver a ss nos tempos mais prximos. Se, no entanto, vires que h alguma
possibilidade, lembra-te de que eu estou livre quarta-feira quase todo o
dia. Talvez tenhamos alguma coisa importante a dizer um ao outro; ou
talvez possamos apenas estar felizes juntos, como aconteceu durante os
ltimos meses, algumas vezes ... No te deixes seduzir pela retrica. O
comunismo cativa os homens e as mulheres que buscam a utopia. No vai
dar certo. O conflito, a inveja e a maldade estaro sempre no corao do
homem, qualquer que seja o governo.  bvio! No te sintas tentada a
abraar uma determinada religio s porque gostas do padre. Minha
pequenina! Minha femme fatale"! Disse muito pouco daquilo que tinha
pensado dizer. Pensar em ti enche-me de emoes inquietantes "Em francs
no original. (N. da T.y 146 Querida Adeline, que eu hesito em
transcrever. Basta dizer-te que apagaste do meu corao uma tristeza que
me sinto feliz por ter abandonado. Embora saiba que me devia afastar,
por favor, lembra-te de que, para onde quer que vs, eu esperarei sempre
por ti no meu laboratrio. Karl p, a doce melodia das palavras! Nunca
mais sa com H. H. A Guerra Fria atingiu o auge durante os anos 50 e 60.
Alguns dos meus contemporneos mais idealistas foram convidados pelo
departamento de imigrao a deixar a Gr-Bretanha em 1961, por serem
pessoas "indesejveis". Tinha-se divulgado recentemente que Kim Philby
era o nmero trs a seguir a Burges e McClean: um crculo de espies
ingleses que floresceu durante os anos 30, enquanto faziam a
universidade em Cambridge. As autoridades britnicas acusavam Beijing de
infiltrar agentes secretos atravs dos crculos estudantis em Londres,
transformando-nos em imberbes comunistas. C. S. casou com uma rapariga
chinesa de Singapura. Regressou com ela a Xangai para ensinar e
trabalhar como investigador na Academia das Cincias de Beijing. Vieram
a sofrer bastante durante a Revoluo Cultural. Na altura em que volteia
v-lo e  sua mulher, em 1980, C. S. tinha perdido o cabelo e o
patriotismo. J no falava de reconstruir a China, mas perguntou-me, em
vez disso, se eu podia ajud-lo a obter uma bolsa de ps-graduao nos
Estados Unidos. O que mais o preocupava eram os planos que tinha para a
educao dos filhos e um stio agradvel onde pudesse gozar a sua
reforma com a mulher. No se queixou uma nica vez da sua deciso de
regressar  China. Continuava a ser afvel, generoso, honesto e bom.
Outros tiveram menos sorte. H. H. tinha 33 anos e era ainda solteiro
quando foi convidado a sair. Regressou  China em 1962, contra o
conselho dos pais. Os meses passaram e no mais tivemos notcias dele.
Alguns de ns escrevemos para a morada que nos tinha dado antes de
partir. Nunca tivemos resposta. Evaporara-se nas entranhas da China,
engolido por 800 milhes de chineses. O seu "desaparecimento"
preocupou-nos e deixou-nos perplexos. Tnhamos a certeza de que havia
alguma coisa de errado naquilo tudo e suspeitvamos que as coisas no
lhe tivessem corrido bem. No meu 147 caso pessoal, o seu silncio abalou
todas as fantasias de uma me-pria gloriosa e nunca mais pus seriamente
a hiptese de regressar e trabalhar na terra onde tinha nascido. Anos
mais tarde ouvimos dizer que H. H. tinha sido perseguido e preso durante
a Revoluo Cultural. Os que o prenderam recusaram_se a acreditar que um
jovem cientista de elevada craveira acadmica pudesse recusar viver com
a sua famlia rica em Hong-Kong, num estilo de vida ocidental e
confortvel, e uma carreira promissora para servir o seu pas.
Insistiram em como teria com certeza outro motivo e procuraram
convenc-lo a confessar. H. H. recusou e suicidou-se em 1967, deixando
uma mensagem com quatro caracteres chineses -~-.._ Yf qin yi he (um s
canto, uma s gara), querendo com isto dizer que era incorruptvel e
recto at  morte. Tinha 38 anos. Outros dos que foram convidados a sair
da Gr-Bretanha na purga de estudantes esquerdistas chineses tiveram uma
sorte diversa. S. T. Sun (Little Sun), formado em Arquitectura,
enamorou-se de Rachel Yu, uma das minhas colegas do tempo do Colgio do
Sagrado Corao. Quando Little Sun foi convidado a sair, o namoro era j
uma coisa sria. Regressou a Hong-Kong quando a construo civil estava
em franco desenvolvimento, o que se veio a prolongar por trinta anos e
ainda hoje continua. Rapidamente abriu a sua prpria firma de
arquitectura e embrenhou-se no milagre econmico que fez passar
Hong-Kong de um entreposto adormecido no Sul da China  metrpole
vertical em que hoje se transformou. Todos os pensamentos sobre a
terra-me se desvaneceram com o advento dos cheques de pagamento de seis
dgitos. Longe de Londres e de Raquel, voltou ao amor da sua infncia.
Mais tarde toda a famlia abraou a cidadania canadiana, vivendo hoje
entre Hong-Kong e Vancouver. Os anos foram passando. Fui a muitos
casamentos e cada vez me sentia mais vazia e esquecida. Dos meus amigos,
aqueles que ainda no se tinham casado pareciam prestes a faz-lo, ao
passo que eu conti nuava a navegar numa relao que no conduzia a parte
alguma. Embora tivesse conseguido manter a minha ligao emocional a
Karl como um segredo, de um modo geral tinha ficado a perder, pois era
incapaz de, simultaneamente, me ligar emocionalmente a qualquer outra
pessoa. A base neurtica do nosso relacionamento alimentava-se de si
prpria. Ao acreditar que os nossos sentimentos mtuos eram 148
insubstituveis, Karl acreditava tambm que, para ns, o casamento seria
um desastre. Insistia em encorajar-me a sair com rapazes chineses, s
vezes ele vinha tambm para examinar os meus acompanhantes. Uma noite,
estava eu sentada entre um possvel apaixonado e Karl numa escura sala
de cinema, ele acariciou-me a mo. Depois de ter acabado o curso e de
ter trabalhado como interna, passei dois anos a trabalhar e a estudar
numa ps-graduao em Edimburgo possivelmente tentando fugir de Karl.
Passei os exames em Medicina Interna e tornei-me MRCP em Londres e
Edimburgo. Nessa cidade tristonha, hmida, fria e ventosa, aceitei
finalmente que tinha de deixar a Inglaterra. Tantas_ e tantas vezes eu
tinha tentado libertar-me desse envolvimento impossvel. Nenhum dos
conflitos alguma vez se resolveria. J no final, num dos raros dias em
que Karl tinha sido especialmente carinhoso, disse-me que estava to
feliz que lhe apetecia morrer. Depois acrescentou tristemente: -No
fomos feitos um para o outro.  mais fcil morrer por ti do que viver
contigo. Quando o dia da separao chegou, foi particularmente difcil.
De certo modo, nunca consegui ultrapass-lo. Karl foi o meu professor, o
meu mentor, o meu primeiro amor, o grande pai que nunca tive. Mas,
qualquer que fosse a maneira de colocar racionalmente a questo, ele
rejeitou-me e o nosso relacionamento falhou. Num momento de angstia
desesperada, rasguei todas as suas cartas. Pouco tempo depois, em 1963,
deixei a Inglaterra, rumo a HongKong. '' Member of the Royal College of
Physicians (Membro do Real Colgio dos Mdicos). (N da T,) 149 Algumas
semanas antes de deixar Londres escrevi ao professor McFadden, Lo Mac,
da Faculdade de Medicina da Universidade de Hong-Kong. Recebeu com
agrado a minha candidatura a professora assistente no seu departamento,
felicitou-me pelas minhas notas altas, comunicou-me o salrio e
acrescentou que tinha direito a alojamento. Portanto, foi confiante, mas
tambm com pena, que voei para HongKong em 1963. Gregory e James foram
esperar-me ao aeroporto de Kai Tak no Mercedes do pai, conduzido pelo
motorista. Ambos estavam a trabalhar para o pai j h um ano. James foi
o primeiro a voltar, depois de ter concludo os seus estudos em
Cambridge. O salrio que recebia era to baixo que s lhe chegava para
viver no YMCA33. A vida tornou-se-lhe mais fcil quando Gregory voltou
de Montreal, onde tinha estado a fazer o mestrado na McGill University.
O pai pagava a cada um deles " Young Men's Christian Association. (N. da
T.). 149 15 Fu Zhong You Yu Um peixe a nadar num caldeiro um ordenado
mensal de 2000 dlares de Hong-Kong, o equivalente a Z50 dlares
americanos. Conseguiram alugar um pequeno estdio em conjunto, que se
situava por cima de um clube nocturno em Nathan Road, Kowloon. Hong-Kong
j no era a cidadezinha parada que eu tinha deixado onze anos atrs. As
ruas estreitas, pequenas, iluminadas pelos nons, formigavam agora de
pees e trnsito, mesmo depois das 9 da noite. Havia um grande nmero de
edifcios novos, alguns deles ainda em construo e com os andaimes de
bambu. Anncios coloridos e iluminados piscavam. A vitalidade saltava 
vista. - Esta no  a Hong-Kong que eu deixei. - disse eu aos meus
irmos - Esta  uma reencarnao de Xangai! - Exceptuando o facto de
serem ainda maiores, melhores e mais modernas - replicou James -,
Kowloon e Hong-Kong so como uma grande Rua de Nanquim. - Ainda bem que
voltaste - disse Gregory com afabilidade. - Este  o lugar certo no
tempo certo. A cidade vai explodir. O espertalhao do Velhote est a
fazer uma razia. - O pai ainda continua no negcio da
importao-exportao? -Importao- exportao! -troou Gregory, que mal
podia acreditar na minha ignorncia. - Ser possvel no teres ouvido
falar da Guerra da Coreia? No soubeste que os aliados fizeram un
bloqueio econmico  China quando Mao Zedong apoiou a Coreia do Norte?
Os mercados onde o pai negociava fecharam as portas da noite para o dia.
Este contratempo fez que o pai diversificasse os negcios para o ramo da
manufactura e indstria ligeira. Abriu trs fbricas: de flores
artificiais, luvas de cabedal e produtos lacados e agora diz que  um
industrial. Contaram-me ento que a fbrica de produtos lacados era
especialmente lucrativa, produzindo utenslios de cozinha coloridos,
objectos para campismo e toda uma variedade de loua inquebrvel.
Recentemente o governo nigeriano tinha entrado em contacto com o pai
para que construsse uma sucursal da fbrica em Port Harcourt. As
condies eram extremamente favorveis e o governo nigeriano oferecia
subsdios, incentivos fiscais e terrenos a baixo preo. Os meus dois
irmos estavam envolvidos no projecto. Tnhamos chegado ao ferry de
Yaomati, tambm para automveis e na poca o nico meio de transporte
entre Kowloon e Hong-Kong. Depois de embarcarmos, samos os trs do
carro e ficmos na amurada durante a travessia. Em frente de ns estava
a ilha de Hong_Kong, brilhante como uma jia, com milhares de luzes que
faiscavam na noite. Os meus dois irmos vestiam fatos azis, camisas
brancas e gravatas conservadoras. Parecia que iam os dois para uma
reunio de negcios. Olharam com desdm para o meu velho vestido do
Marks and Spencer, demasiado grande para mim, e Gregory comentou: - Se
realmente decidires estabelecer-te e exercer medicina em Hong-Kong, tens
de prestar mais ateno ao que vestes. As pessoas de Hong-Kong do
grande importncia  moda e o que trazes vestido no  suficientemente
bom. - Nunca fui nenhuma beldade - balbuciei  defesa - e, alm de tudo
o mais, acabo de sair de um avio. - Ela parece-me muito bem - disse
James gentilmente com um sorriso caloroso, enquanto me passava o brao
pelo ombro. - No conheo ningum que parea o ltimo grito da moda
depois de estar fechado num avio durante horas e horas. - Como  o
apartamento deles agora? - perguntei eu, desviando o assunto da
conversa. Depois da morte de Franklin, em 1953, o pai convencera-se de
que o.feng shui (vento e gua ou geomancia) da vivenda de Stubbs Road
era mau. Lembrou-se tambm de que Ye Ye tinha morrido em 1952, quando
tambm vivia na mesma casa. Puseram fim ao contrato de aluguer e
alugaram um novo apartamento no Peak. -  um apartamento de dois
quartos, bonito e luxuoso - respondeu Gregory. - J l vivem h dez
anos. - Nmero 115, Plunket Road, no Peak - disse eu. - H hoje alguma
discriminao contra os chineses que vivem no Peak? - Durante o sculo
XIX, os Chineses no estavam autorizados a viver l, mas penso que isso
acabou em 1904. E Gregory continuou a explicar que, nos dias que
corriam, o dinheiro era o rei e que ns, os Chineses, podamos viver em
qualquer lado, desde que tivssemos dinheiro. Contudo, era ainda
desproporcionado o enorme nmero de brancos que vivia na zona do Peak.
Acrescentou que o pai tinha comprado h pouco tempo um novo apartamento
nos Mid-levels, nas Magnolia Mansions, com vista para o porto. Tinha
quatro quartos e o pai tinha mesmo dito que havia espao  vontade para
eu poder l ficar. 152 Que simptico da parte deles! - exclamei eu,
rejubilando de alegria. No deites foguetes antes da festa! - disse
James de forma um pouco sombria. - A Velhota ops-se. Disse vrias vezes
que o apart~nento no era suficientemente grande. Penso que a ideia do
Velhote ficou arrumada, pelo menos por algum tempo. Entretanto, o carro
subia j as ruas cheias de curvas da encosta ngl'eme, rumo ao topo da
ilha de Hong-Kong, onde a vista era espectacular e o ar era fresco e sem
poluio. Doam-me os ouvidos devido  altitude e tinha o estmago
revolvido por causa do cansao e das curvas. Enquanto espervmos pelo
elevador na entrada pavimentada a mrmore e granito fui invadida pela
mesma sensao de insegurana que me dominava sempre que tinha de
enfrentar os meus pais. Embora tivesse estado em Inglaterra durante onze
anos e fosse agora mdica, naquele momento no me sentia nada diferente
da rapariguinha de escola que partira em 1952. Fui cumprimentada
formalmente com sorrisos e apertos de mo. O pai estava pouco mais ou
menos na mesma, mas a silhueta graciosa de Niang tornava-se mais
volumosa e as suas feies tinham endurecido. O apartamento estava
mobilado de forma elegante, mas impessoal, com cadeiras chinesas
antigas, de espaldar recto e de madeira, sofs ao estilo ocidental, com
cobertas nos braos, e um tapete de Tianjin. Para baixo, uma vista
panormica da cidade de Hong-Kong e do porto de Vitria. Bastante
tensos, sentmo-nos em volta de uma mesa de jantar de pau-rosa, a comer
fitas que nos eram trazidas por uma criada que eu j no conhecia. Por
uma qualquer razo, a conversa fazia-se em ingls. Depois do meu
regresso de Londres nunca mais me voltaram a falarem chins, o que veio
a aprofundar o meu sentimento de excluso; era como se eu fosse um
empregado que tinha de justificar o seu ordenado. Contei-lhes que o
professor McFadden me tinha oferecido um lugar de assistente no seu
Departamento de Medicina Interna. - Tenho andado a pensar nisso -
comeou o pai lenta e propositadamente, como se tivesse ensaiado o
discurso - e penso que no  um bom passo. Em vez disso devias pensar na
obstetrcia e na ginecologia. Lembras-te da Dr. Mary Ting, que vos viu
nascer a todos!  uma das melhores mdicas que eu conheo. A medicina
interna no  uma boa rea para mulheres. Os mdicos no vos indicaro
aos pacientes deles. 153 Tinha-me esquecido completamente de que o pai
j traara a aninha carreira onze anos atrs, mesmo antes de eu partir
para Inglaterra, No consegui dizer nada. Era uma deciso sria que
envolvia o meu futuro mas, do ponto de vista do pai, a deciso era dele,
e no minha. Acrescentou que a professora Daphne Chun, uma amiga dele do
Departamento de Obstetrcia e Ginecologia da Universidade de Hong-Kong,
estava disposta a dar-me um lugar como interna especial. O salrio que
ele mencionou era insultuosamente baixo e o lugar era-me oferecido
apenas por eu ser filha de quem era. A professora Chun tinha-lhe dado
muita "face". J sabia que se tratava de um fait accompli. O pai
perderia a face se eu me recusasse a aceitar este "favor". Mesmo assim,
tentei protestar, lembrando-lhe que j tinha trabalhado como interna em
Londres dois anos antes. A oferta do professor McFadden de um lugar de
assistente significava que eu iria ocupar uma posio inusitadamente
elevada para uma jovem mdica de 26 anos. O pai ignorou completamente as
minhas explicaes. - Porque no tentas o lugar oferecido pela
professora Chun? Se no gostares, poders sempre mudar mais tarde. Vais
ver que no te vais arrepender. Alm do mais, ainda no te comprometeste
com o professor McFadden, pois no? Portanto, no tens nenhuma
obrigao. Eu s estou a pensar no teu bem-estar - continuou ele. -
Achas que o teu pai te indicaria o caminho errado? Lembra-te de que
ainda s muito jovem, acabadinha de sair da universidade. Se tomares a
deciso errada agora, irs arrepender-te daqui a dez anos, e ento j
ser tarde de mais. Lembrou-me de Lydia e Samuel 13 anos antes, quando
tinham insistido em voltar a Tianjin, ao contrrio do que to bem lhes
aconselhara. - Olha para a confuso em que se meteram! E s por culpa
deles. Ho-de apodrecer por l at ao fim da vida! - disse ele,
proferindo aquelas palavras com um certo gosto, quase feliz, porque as
suas profecias de desgraa se tinham vindo a realizar como uma vingana.
Enquanto ouvia, as minhas decises anteriores foram-se desvanecendo. S
sabia que, acima de tudo, queria agradar ao meu pai. E tanto, tanto!
Queria ser aceite por ele, ser amada, nem que fosse s por uma vez na
vida. ~ Em francs no original. (N. da T.) 154 Muito bem, Adeline!
Estamos orgulhosos de ti!  claro que, ter-me a trabalhar com um dos
seus conhecimentos, Significava muito para ele. Recusar a oferta do
lugar de assistente do professor McFadden (com alojamento) e troc-la
pela promessa de um posto de interna junto da Dr.a Chun era dar ao pai
uma grande quantidade de "face". E certamente que isso me faria subir
alguns pontos na sua considerao. Mais uma vez me traa mim prpria e
acedi aos desejos do pai. Quando nos recolhemos, eu j estava
praticamente a agradecer-lhe pelo trabalho que tinha tido por minha
causa. No quarto dia aps o meu regresso de Hong-Kong, Niang disse-me
que fizesse as malas. Nesse dia o pai estava fora, a jogar golfe com um
parceiro de negcios. Estava uma tarde de domingo cheia de sol quando Ah
Mo, o motorista, nos levou, a Niang e a mim prpria, ao Hospital Tsan
Yuk, onde trabalhava a Dr.a Chun. O lugar parecia deserto. Ficmos de
p,  entrada, a falar a uma telefonista extremamente atarefada, que
tratava das ligaes telefnicas e era simultaneamente recepcionista.
Por fim, l percebeu que eu era a nova interna extra acabada de chegar
da Universidade de Londres, contratada pela professora Chun para comear
a trabalhar na segunda-feira. Disse-nos que, j que a professora no
estava e nem nenhum dos outros mdicos para nos mostrar as instalaes,
deveramos voltar na segunda-feira de manh. Niang, todavia, no se
deixava intimidar facilmente. Mandou chamar o interno que estava de
servio. No momento em que uma jovem mdica chegou, Niang, ordenou, em
ingls, que ela me fosse mostrar o local onde eu iria dormir. Embora eu
fosse na altura uma mulher adulta e mdica, Niang ignorou-me como se eu
fosse ainda uma criana. Foi informada que no havia alojamento para
internos. - Ento onde  que voc dorme? - perguntou Niang
insolentemente, enquanto eu me encolhia de vergonha. - Durmo na sala dos
que esto de servio - replicou a interna, a Dr.a Chow, deitando-me um
olhar breve e desviando rapidamente os olhos, percebendo a minha
atrapalhao. - Quantas camas  que h e quantas esto ocupadas? -
insistiu Niang, - H quatro camas e hoje duas esto ocupadas, uma por
mim e outra pela pediatra interna que est de servio. 155 - Estou a
perceber - disse Niang, raciocinando rapidamente, - Ento h duas camas
nesse quarto que no esto ocupadas. - Sim, mas s esto desocupadas at
amanh, quando o esquema rotativo de servio  anunciado. - Ento est
muito bem! - disse Niang com o seu sorriso encantador. - Leve-nos, por
favor,  sala dos que esto de servio, O seu tom era autoritrio e a
sua presena imperativa. Quando a Dr.a Chow hesitou em satisfazer aquele
pedido perfeitamente inusitado, Niang fez rodar o anel de diamantes de
seis quilates  volta do dedo. A jia vistosa reflectiu a luz, emitindo
uma mensagem de dinheiro e poder. Foi ento que Niang acrescentou: - A
professora Chun  uma grande amiga minha. Nessa altura a Dr.a Chow
estava j completamente intimidada e indicava o caminho, seguida por
Niang, por mim e por Ah Mo, que levava as minhas duas malas com todos os
meus haveres. Entrmos num grande quarto vazio com quatro camas, uma a
cada canto. No havia guarda- fatos. As nicas peas de mobilirio eram
as mesas de cabeceira que ladeavam cada uma das camas e em cada uma
delas havia um telefone. A roupa de cada um dos mdicos de servio
pendia em cabides de parede colocados junto das camas. Niang caminhou
at  janela sem cortinas, os vidros opacos de poeira. Olhou l para
fora e abaixo de ns podia ver-se o porto de Vitria em todo o seu
esplendor. O Sol brilhava, o ar estava leve, o mar tinha um azul
resplandecente e as embarcaes eram coloridas. Ela ordenou a Ah Mo que
colocasse as minhas malas junto de uma das camas desocupadas. Voltou-se
para mim e sorriu: -  Adeline, que vista maravilhosa aqui do teu
quarto! Que sorte tu tens! Enquanto eu olhava para ela embasbacada, muda
de assombro e vergonha, ela acrescentou: - Infelizmente, o pai e eu
estaremos ocupados durante toda a prxima semana, mas talvez possamos
almoar todos juntos no domingo que vem. Telefona-me na quinta- feira,
est bem? - E acrescentou, voltando-se para Ah Mo - Agora leva-me  Sr.a
Ning! - ordenou ela. - J estou atrasada para o ch! Ah Mo apressou-se
atrs dela, seguido pela Dr.a Chow, que disse qualquer coisa relacionada
com ter de ir ver um doente. Fiquei sozinha. 156 permaneci junto da
janela suja, a olhar para a "vista maravilhosa" durante muito tempo.
Todo o meu ser estava inundado de solido e de um sentimento que eu
conhecia demasiadamente bem: rejeio total. E perguntei a mim prpria
porque me tinha dado ao trabalho de voltar para casa. No incio dos anos
60, Hong-Kong era um lugar extraordinrio. No ponto de viragem para um
destino brilhante, tinha substitudo Xangai no seu papel de porta para o
Ocidente. Tudo estava em marcha. A vida girava  volta de passaportes e
dinheiro. As pessoas entravam ou saam. Noventa e nove por cento da
populao era chinesa. A maioria era oriunda da vizinha provncia de
Guangdong (Canto). Depois de 1949, um grande nmero de chineses tinha
chegado de Xangai e de outras partes da China.  medida que o tempo foi
passando, tornou-se cada vez mais perigoso entrar em Hong-Kong atravs
do canal que separava a cidade da China. Mais tarde, o exrcito
britnico erigiu uma vedao de arame farpado com cerca de 38
quilmetros de comprimento ao longo da fronteira com a China, que era
patrulhada por batalhes de Gurkhas (soldados mercenrios nepaleses) e
ces, que afastavam todos aqueles que tentavam entrar ilegalmente na
colnia superpovoada. Os que eram bem sucedidos possuam a forte
determinao de construir uma vida melhor para sie para os seus filhos.
Vim a encontrar cidados de diversos ramos que trabalhavam 14 a 16 horas
por dia em troca de magros salrios: taxistas, cabeleireiros, empregadas
de mesa, enfermeiras, telefonistas. Em comparao com Londres, tudo era
barato, excepto o alojamento. Foi durante este perodo que Hong-Kong
ficou conhecida como armazm de pechinchas e Meca de compras do mundo.
Talento e oportunismo eram as Pedras de toque da economia. Hong-Kong
tornou-se o admirvel mundo novo para os oprimidos da China. Abundavam
as histrias de trabalhadores com salrios banais, alguns mesmo
analfabetos, que, atravs de trabalho rduo e persistente e da economia
de todos os tostes, conseguiam comprar um pequeno aPartarnento ou
mandar os seus filhos estudarem para o estrangeiro. Criadas e motoristas
comearam a investir no imobilirio e a especular na bolsa de Hong-Kong.
157 O meu trabalho em Tsan Yuk era fisicamente puxado, mas no
apresentava grandes desafios intelectuais. Durante o tempo que l estive
no se fez qualquer trabalho de investigao mdica. A discri. minao
sexual era grande e flagrante. Os mdicos ganhavam mais 25 % do que as
mdicas da mesma categoria, embora executssemos trabalhos idnticos e
atendssemos igual nmero de chamadas nocturnas. Eu no era de modo
algum popular. Os meus colegas internos ressentiam-se por causa de eu
ter instalao permanente na sala dos mdicos de servio. Por fim
atriburam-me um quarto particular no hospital, pelo qual eu pagava uma
renda altssima. A administradora do hospital deu-me os parabns pela
sorte que tivera em conseguir aquele quarto. A professora Chun tinha-lhe
dito que a minha famlia era extremamente rica e que eu prpria tinha
uma boa independncia financeira. No tinha para onde ir ao fim do dia e
aos fins-de-semana. Tomava a maioria das minhas refeies no hospital.
Gastava a maior parte do meu magro salrio na renda, alimentao, livros
e (num esforo ilusrio para ganhar o seu afecto) em presentes caros
para os meus pais,. como caixinhas de prata ou camisolas de caxemira. Os
meus colegas no gostavam de mim porque eu no era cantonense e a minha
licenciatura fora tirada em Londres, e no em HongKong. As minhas duas
especializaes em Medicina Interna no eram referentes ao Departamento
de Obstetrcia e Ginecologia. O modo como eu falava ingls era
considerado "no- chins", diferente, incompreensvel e irritante.
Puseram-me a alcunha de Loy Lo Fu, ou seja "mercadoria importada".
Quando, por fim, entrei em contacto com o professor McFadden, ele
confirmou a sua oferta do lugar de assistente no Departamento de
Medicina Interna, com alojamento gratuito. Senti-me fortemente ten tada
a aceitar, mas no podia deixar que o pai perdesse a "face". Mais tarde
vim a descobrir que era forte a rivalidade entre departamentos e que era
um pequeno sucesso para a professora Chun eu ter escolhido trabalhar
como interna em vez de ter aceite a promessa de um lugar como assistente
junto do professor McFadden, especialmente quando eu j possua um MRCP
obtido em Londres e outro em Edimburgo Havia ainda outra razo para que
eu no aceitasse: nessa altura eu Ja sabia que tinha de sair de Hong-
Kong e fazer a minha vida noutro 158 stio. A posio oferecida pelo
professor McFadden teria sido permanente. E ele tinha sido mais do que
generoso, mantendo o lugar em aberto ao longo de um ano. Todos os
domingos  noite ramos esperados para o jantar no novo apartamento que
o pai e Niang tinham comprado recentemente nos Mid-leveis. Esses
jantares eram verdadeiras provas. Niang parecia saber de tudo: da conta
bancria de Gregory com um saldo Ironicamente negativo, das suas multas
numerosas em Kowloon e Hong- Kong (na opinio do pai, dignas do
Gttitatess Book); do consumo de usque que James fazia; das minhas
tentativas para alugar um apartamento maior para mim e para os meus dois
irmos, a fim de podermos ter qualquer coisa que se parecesse com uma
vida de famlia; da correspondncia que Susan mantinha com um amigo
americano. Com o tempo fiquei a odiar os pontos de vista que exprimiam
nesses jantares de domingo, onde eu permanecia invariavelmente calada,
como se fosse um ~ ~ ~~ ~,/it zhottgyott ytt (um peixe a nadar num
caldeiro), cheia de um descontentamento frustrante. Regularmente, os
meus pais acusavam e condenavam os cantonenses de Hong-Kong pela sua
avareza, materialismo excessivo e carcter ostensivamente pouco
refinado. Contudo, eu no podia deixar de reparar na obsesso que eles
prprios sentiam pelo dinheiro. Por outro lado, os preconceitos que
tinham eram grandes e catlicos. Alm dos Cantonenses, criticavam tambm
os Judeus, os Indianos e os Japoneses. Quanto aos potenciais parceiros
comerciais nigerianos, Niang considerava-os sub-humanos e nem sequer
merecedores de qualquer sentimento de desprezo. Em 1963 toda uma gerao
de jovens chineses bilingues fazia parte da fora de trabalho de
Hong-Kong. J nessa altura alguns dos mais ricos de Hong-Kong eram ricos
para alm do que se pode imaginar. Os seus filhos e filhas regressavam
das melhores universidades da Inglaterra e da Amrica, transformados em
pessoas impecavelmente vestidas, com fatos escuros de marca feitos em
Paris ou em Londres, que usavam mesmo no pino do Vero. Falavam um
ingls perfeito. Os filhos tinham por vezes .fart gzti nui (mulheres
estrangeiras "diabos") entre os braos. Os melhores clubes de Hong-Kong,
os clubes de lite, J no excluam membros chineses. O novo critrio j
no era a raa, mas sim o dinheiro. Nessa nova Hong-Kong dos anos 60
havia muitos milionrios cantonenses que eram muito mais ricos do que
Niang e o 159 pai. Dado que os meus pais estavam convencidos da sua
superioridade inata em relao aos cantonenses, estas ideias eram
difceis de digerir. A nica defesa que tinham era considerar todos os
cantonenses como esquisitos, embora no fundo invejassem aqueles que
subiam mais depressa nessa nova sociedade. Com uma fina ironia, Niang
comentava ocasionalmente que achava deplorveis os casamentos
inter-raciais e dizia que os filhos no seriam carne nem peixe. A minha
tia-av tambm era conhecida por Gong Gong (tio-av) por causa do
respeito que lhe tinham como presidente do Banco das Mulheres de Xangai,
fundado por ela em 1924. Parte de uma gerao de trs irmos, recusou-se
a ter os ps ligados. Frequentou uma escola missionria fundada por
metodistas americanos e usava o ingls fluen temente. O seu banco, no n
 480 de Nanjing Lu, em Xangai, est ainda em actividade. Os meus irmos
e irms. Na ltima fila a partir da esquerda: Gregory, James, Edgar. Na
fila da frente, da esquerda para a direita: Lydia com a meia-irm ainda
beb, Susan, e Adeline. A fotografia foi tirada em Tianjin em 1942,
antes da morte da nossa av. Todos vestamos roupas ocidentais bem 
moda e usvamos os cabelos muito bem cortados Nos dias em que era uma
regio em desenvolvimento, Tianjin ofereceu oportunidades econmicas a
Ye Ye, o meu av ( direita); o filho, o meu pai,  esquerda, e K. C.
Li, ao centro. K. C. foi um dos primeiros chineses a licenciarem-se pela
Escola de Economia de Londres e fundou a Hwa Chong Hong, uma empresa bem
sucedida no ramo da importao-exportao. Tanto o meu av como o meu
pai trabalhavam para ele Os meus irmos e irms alguns anos mais tarde.
Atrs, da esquerda para a direita: Susan, Franklin, Adeline e o co,
Jackie. A fotografia foi tirada em 1946, pela altura em que nos
ofereceram os patinhos de estimao A minha madrasta, Niang ("me"), e o
meu pai com Ye Ye (no meio) nos anos 40. Ye Ye era um budista devoto.
Rapava sempre a cabea, usava um chapelinho redondo no Inverno e vestia
roupas chinesas Niang, Franklin e o meu pai no incio da dcada de 40.
Franklin, o meu meio- irmo, era o filho predilecto. Niang comprava-lhe
a roupa nas melho res lojas de roupa infantil na Avenida Joffre e
mandava cortar-lhe o cabelo em grande estilo nos cabeleireiros de
criana mais  moda Ye Ye e a minha meia-irm, Susan. A fotografia foi
tirada logo a seguir  sua chegada a Xangai, quando vieram de Tianjin,
em Outubro de 1943 Jeanne Prosperi tinha 17 anos quando conheceu o meu
pai, que tinha acabado de enviuvar. Depois de se casar com o meu pai,
passmos a chamar Niang ("me")  nossa madrasta. Filha de pai francs e
de me chinesa, era uma mulher de uma beleza espantosa. Embora falasse
fluentemente ingls, francs, mandarim e o dialecto de Xangai, nunca
aprendeu a ler ou a escrever em chins e nunca falou cantonense A tia Ba
Ba cuidou sempre de mim enquanto era criana, elogiando os meus xitos
na escola, verificando os meus trabalhos de casa e dando-me boleias de
riquex. Nunca casou e dependeu financeiramente do meu pai e da minha
madrasta durante toda a vida. Era meiga, paciente e cheia de sabedoria.
Amei-a muito Os meus dois meios-irmos, Franklin e Susan, com a sua ama
e tutora, Miss Chien. Havia dois sistemas na nossa famlia: ns, os
enteados, ramos cidados de segunda classe; Franklin e Susan receberam
tratamento preferencial desde o dia em que nasceram Franklin ao lado de
Jackie, o co de estimao do meu pai. O pai contratou um treinador
alemo para ensinar Jackie a ser obediente apenas ao pai, a Niang e a
Franklin. Eu tinha muito medo de Jackie, que costumava ladrar-me Niang e
o meu pai gozavam de um confortvel estilo de vida. Formavam um bonito
par, que brilhou nas dcadas de 40 e 50, ocupando uma elevada posio
social em Xangai e Hong-Kong 16 Pi Ma Dan Qiang Um cavalo, uma s lana
Sete meses depois de eu ter iniciado o meu perodo como interna entrou
um estudante de Medicina de vinte e cinco anos, de ascendncia chinesa e
americana. Martin Ching vinha inserido num programa de intercmbio da
Faculdade de Medicina da Universidade de Nova Iorque para o ms de
Julho. Era filho nico de pais da classe trabalhadora, que tinham
emigrado de Guangdong para a Amrica nos anos 30. O pai, trabalhador
rduo numa lavandaria, e a me, empregada de mesa, esperavam tudo de
Martin e tinham poupado todos os tostes para que ele pudesse ir para a
universidade estudar Medicina e para comprar uma casa em Queens, a %m de
Martin poder viver fora da Chinatown de Nova Iorque enquanto andasse na
universidade. Quanto a eles, continuaram a viver por cima da loja que
tinham, enquanto Martin alugava quartos a outros estudantes para ajudar
a pagar a hipoteca. Era um bom rapaz, estudioso e responsvel. Por
vezes,  noite, depois do trabalho, Martin e eu sentvamo-nos 
conversa. Estvamos ambos num beco sem sada e no tnhamos para onde
ir. Ele mal sabia falar cantonense. Os mdicos e as enfermeira achavam
muito maador terem de traduzir tudo para ingls sempre que ele estava
presente. Alm de tudo o mais, Martin era "apenas" um estudante de
Medicina. - Nunca tinha sentido tanta discriminao como a que estou a
sentir aqui em Hong-Kong - disse-me Martin. - As pessoas daqui so
distantes. Mantm sempre uma atitude defensiva e olham para mim com
desprezo porque eu tenho o aspecto de um chins, mas no falo nem
escrevo chins fluentemente. Pensam que sou um palerma. Nesse Vero de
1964 o tempo estava extremamente mau. Parecia que as chuvas nunca mais
tinham fim. Um dia o departamento de meteorologia fez iar os sinais de
tufo. A todos os trabalhadores, excepto aos que estavam em servios de
emergncia, foi dito que deveriam permanecer em csa. Aulas marcadas
foram canceladas. Martin e eu ficmos no hospital, porque no tnhamos
mais lugar nenhum para onde ir. L fora a chuva intensa era empurrada
por um vento forte, transformando as guas azuis do oceano em ondinhas
brancas, batidas, zangadas. O servio do Star Ferry foi suspenso: foram
canceladas todas as travessias entre Hong-Kong e Kowloon at ordem em
contrrio. O trnsito desapareceu. Ficmos isolados no Hospital Tsan
Yuk, rodeados por troves, relmpagos, chuvas torrenciais e rajadas de
vento devido ao tufo. Em frente das vidraas foram montados tapumes de
madeira que as protegiam. quelas que estavam menos expostas foram
aplicadas tiras de fita-cola larga. Hong-Kong era uma cidade cercada
pelas foras da natureza. Martin e eu sentmo-nos numa das extremidades
de uma longa mesa de conferncias rectanglar que existia na biblioteca
e ali ficmos a observar a fria da tempestade l fora. A violncia das
chuvas torrenciais criava a ideia de conforto e segurana ali dentro. -
Ests aqui a desperdiar o teu tempo e os teus talentos - disse Martin.
-Aqui at podias fazer o teu trabalho de olhos fechados e, no entanto,
ainda tens de perfazer as horas e fazer as viglias. Porque no vais ter
com o professor McFadden e aceitas o trabalho que ele te ofereceu? - Eu
no posso ir ter com Lo Mac! - repliquei. - Eu preciso  de sair de
Hong- Kong. - Ento volta para Londres! Consegues arranjar facilmente um
lugar acadmico com os dois MRCP que tens. 162 _        ~ No, no,
Londres est fora de questo! No volto para l! - Nesse momento pensava
em Karl e at senti uma dor. Eu nunca mais poderia voltar quilo. - Alm
disso, no ia a lado nenhum. As cartas so contra mim: chinesa, mulher.
O racismo e o sexismo so por demais evidentes em Inglaterra. - E ento,
qual  a novidade? - perguntou Martin retoricamente. ,r Racismo e
sexismo h-os por todo o lado, at na Amrica. - Como  que  crescer na
Amrica? - O que tu queres saber  o que  crescer na Amrica branca com
uma cara asitica, no ? E contou-me como era frequentar uma escola na
Chinatown de Nova Iorque e identificar-se apenas com a Amrica dos
Brancos. Odiava a escola chinesa, porque no queria ser diferente dos
seus colegas brancos. A pouco e pouco compreendeu que, embora pensasse
em si prprio como um americano, seria sempre um estrangeiro, um chins,
aos olhos dos seus pares de raa branca. Martin sentia- se encurralado
entre dois mundos. Convencera-se de que o preconceito era inerente 
natureza humana e de que estava presente em todas as sociedades,
,incluindo a sua prpria casa. Os seus pais tinham mostrado grande
desagrado quando, certa vez, sara com uma rapariga indiana,
chamando-lhe see yct gui nc~i (diabo estrangeiro, molho de soja em forma
de mulher). Concluiu finalmente que, quando comparada com qualquer outro
lugar, a Amrica era ainda o pas mais tolerante e de esprito mais
iluminado. Considerou que tinha sorte em ter nascido nos Estados Unidos
da Amrica. Martin especializara-se em Histria pela Universidade de
Colmbia antes de ingressar na Faculdade de Medicina. Dividia a
emigrao chinesa em trs grandes ondas: antes da Guerra do pio -
movimento constitudo por artesos, artfices e comerciantes,
provenientes das provncias costeiras do Sul em direco aos pases
vizinhos (Tailndia, Vietname, Malsia e Filipinas); cerca de setenta
anos depois da Guerra do pio, camponeses analfabetos (os abandonados e
os mais pobres) rumaram  Amrica na esperana de uma vida melhor, at 
data em que as leis de excluso fizeram diminuir estes nmeros. Depois
da segunda guerra mundial, influentes homens de negcios chineses em
Taiwan e Hong-Kong comearam a enviar os seus filhos para universidades
no estrangeiro, especialmente na Amrica. As recentes reformas na rea
da imigrao haviam facilitado esta nova vaga de "imigra- o
intelectual". Muitas vezes, estes estudantes acabavam por ficar na
Amrica e nunca mais regressavam  sua terra de origem. - Conheo dois
rapazes de Taiwan que alugaram quartos em minha casa - continuou Martin.
- Nenhum deles tem inteno de regressar. Um deles est a tirar a
especialidade de Patologia e o outro  engenheiro, Uma vez que no s
feliz em Hong-Kong, porque no vens para a Amrica? Um diploma de
Medicina da Universidade de Londres  bem visto em Nova Iorque. E, a
propsito, h uma srie de professores na Universidade de Nova Iorque
que se formaram em Inglaterra. Subitamente, uma nova perspectiva se
abria aos meus olhos. A Amrica! ;~ ~ Mei Guo (Pas Maravilhoso)! Fiquei
de p, junto  janela a observar a devastao da tempestade l fora,
esperando de alguma forma ver um arco-ris surgir no horizonte. -
Obrigada pela tua generosidade. J me animaste mais do que podes supor.
As tuas palavras encheram-me de optimismo. Tudo  possvel, no achas? -
Ouve, regresso a Nova Iorque na prxima semana. Eu ajudo-te a encontrar
um trabalho. No fiques com esse ar preocupado! No vais ter problemas.
Vers. Quando Martin deixou Tsan Yuk, era j o final do ms de Julho. O
meu contrato com a professora Chun terminava da a trs meses. Ansiosa
por deixar Hong-Kong, candidatei-me a todos os hospitais indicados por
Martin. A maioria das respostas sugeriam a data de 1 de Julho do ano
seguinte para incio dos trabalhos. Contudo, o Presbyterian Hospital, em
Filadlfia, aceitava-me imediatamente para iniciar uma especialidade em
obstetrcia. Mais tarde vim a saber que estavam desejosos que eu
ocupasse o lugar, pois no tinham conseguido preencher todas as vagas
para especialidades e corriam o risco de ver cancelado todo o programa
de formao. Nessa altura havia falta de mdicos na Amrica. Aceitei
imediatamente o trabalho que me ofereciam. O salrio era de 450 dlares
por ms, alm do alojamento e alimentao. Havia apenas um problema: eu
no tinha dinheiro suficiente para pagar o bilhete de avio de Hong-Kong
para Filadlfia e perguntei a mm prpria se o pai e Niang no me fariam
um emprstimo. No jantar de domingo l consegui arranjar coragem para
anunciar que tinha decidido emigrar para a Amrica. A notcia foi
acolhida por um silncio sepulcral. O pai sabia que eu no estava feliz
em Tsan Yul~ 164 Tambm tinha conscincia de que a oferta do professor
McFadden para o Departamento de Medicina Interna ainda estava de p.
Contudo, o meu plano de ir para a Amrica era novidade para eles. Dei a
entender os meus parcos recursos e perguntei em voz alta se os bancos
no me fariam um emprstimo para comprar a passagem area. Niang falou:
- Bem, Adeline, nunca hs-de saber se no fizeres o pedido, pois no? E
se o banco recusar, pacincia, no ? Com esta resposta, percebi que as
hipteses de que eles me emprestassem o dinheiro eram nulas. Nessa mesma
noite despedi-me cedo, pois tinha uma cirurgia marcada para a manh
seguinte. Por volta da meia-noite, Gregory telefonou-me. - Falaram de ti
quando saste. O meu corao quase parou: - O que  que eles disseram? -
Disseram que tinham feito todo o possvel para te ajudarem em Hong-Kong,
mas, j que isso no te basta, ficas entregue a ti prpria daqui por
diante. No querem sequer saber o que fars daqui para frente. Londres,
Nova Iorque, Tquio ou Filadlfia, -lhes indiferente. Mas no penses
que te vo oferecer o bilhete, porque no vo. Ficmos em silncio por
momentos. - Bem, obrigada, Gregory - disse eu, por fim. - Vou pensar
numa maneira de resolver o problema. Depois do telefonema de Gregory j
no consegui dormir. Desatei a chorar e pensei que era muito baixo da
parte deles regatearem o preo de um bilhete para Filadlfia - uma
ninharia para eles - e nem sequer ficarem tristes por saberem que eu ia
deixar Hong-Kong.  que nem sequer tinham dito umas palavrinhas, como
"Vamos ter saudades tuas" ou "Escreve-nos muitas vezes, sim?". A minha
partida iminente no lhes interessava nada, a no ser na possvel
despesa que iam ter com um bilhete de avio. Levantei-me, vesti a minha
roupa j muito usada e fui para a biblioteca do hospital. Estava
deserta. Disse para mim prpria: - Teres pena de ti prpria e pores-te a
chorar no te vai resolver o problema do bilhete de avio. Sentei-me e
escrevi uma longa carta  secretria do Departamento de Ensino de
Medicina do Presbyterian Hospital, em Filadlfia. 165 Confessei a esta
estranha a minha triste histria. Era solteira, mulher e chinesa. Toda a
minha vida tinha sonhado poder montar um consultrio em Hong- Kong,
junto do meu pai. Quando finalmente tinha re gressado a casa, ao fim de
onze anos, no encontrara nada seno desencanto. Tinha decidido emigrar
para a Amrica, aceitando a oferta do Presbyterian Hospital. Contei-lhe
de seguida que no tinha dinheiro para a passagem area e perguntei se
me podiam conceder um emprstimo a descontar futuramente no meu
ordenado. E nessa carta eu escrevia ainda: "No sei qual  a sua origem
nem qual  o seu passado, mas talvez algum dia algum lhe tenha dado
tambm a mo e a tenha ajudado a realizar o seu sonho americano.
Peo-lhe humildemente que agora faa o mesmo por mim." O Presbyteriam
Hospital no me deixou ficar mal. Duas semanas mais tarde eu recebia a
resposta. Ao que parecia, o meu pedido no era indito. A poltica do
hospital era conceder um adiantamento para despesas de viagem a mdicos
estrangeiros que tivessem passado o ECFMG, um exame especial para
mdicos estrangeiros. O preo do bilhete de avio mais o valor dos juros
eram mensalmente deduzidos do ordenado: Enviavam-me um impresso para eu
assinar. A carta trazia ainda uma nota manuscrita da secretria do
Departamento de Ensino de Medicina: "Fiquei comovida com a sua carta.
Gostaria apenas de lhe transmitir que a porta da nossa casa estar
sempre aberta para si, caso venha a precisar de alguma ajuda quando
estiver em Filadlfia." Foi esta a minha estreia como estrangeira na
Amrica. Ela mostrou-se mais bondosa para comigo do que os meus prprios
pais. Pouco tempo depois deixei Hong-Kong. Gregory e James foram ao
aeroporto despedir-se. Niang foi ao seu jogo habitual de brdege.
Enquanto Gregory estacionava o carro, James enfiou-me na mala uma nota
j muito gasta de 20 dlares. Este gesto comoveu-me at s lgrimas,
pois eu sabia que aquela era uma soma muito para alm das suas
possibilidades. Meia hora antes da partida, o pai surgiu a correr para
se despedir. Juntmo-nos junto  porta de embarque e, quando chegou a
hora de nos separarmos, dissemos adeus com um aperto de mo. Quis dizer
ao pai que tinha feito tudo o que pudera para ficar contente comigo;
porm, 166 as palavras ficaram presas. Depois de um silncio doloroso, o
pai disse fnalmente: Bela, agora  que ests mesmo sozinha. In !~ :~ ~~
Pi ma dan giajlo (Um cavalo, uma s lana, querendo significar que eu
estava s num combate contra a vida). Vamos ver o que s capaz de fazer.
167 17 Jia Ji Shui Ji Casa com uma galinha e seguirs uma galinha Martin
foi esperar-me ao aeroporto. Para poupar dinheiro, eu tinha comprado o
bilhete mais barato que havia e o resultado fora uma viagem de quase
quarenta e oito horas. Durante o voo os nervos no me tinham deixado
dormir e naquele momento, enquanto Martin ia a conduzir de La Guardia
at Queens contra os faris de um trnsito intenso e rpido, j no
conseguia pensar em mais nada seno no sono que me atormentava. Os olhos
fechavam-se-me  medida que ele ia falando animadamente acerca de me
apresentar aos amigos, de ir jogar bowling ou danar. Adormeci
rapidamente. Ele teve que me abanar para eu conseguir acordar quando
chegmos  sua casa de trs pisos com varandas, situada numa zona calma
dos subrbios. Na sala de estar, mal iluminada, reparei, ainda ensonada,
que o sof de vinil e a mesinha de caf em plstico estavam limpos e
arrumados. Havia luz na cozinha e ouvia-se o barulho de algum que mexia
em pratos e tachos. 168 17 Depois de trazer as minhas duas malas, Martin
fez-me uma festa nos cabelos. Bem-vinda  Amrica, dorminhoca! -
exclamou ele animadamente. - Aqui  que  o meu poiso! O que  que
achas? Atrs de ns algum tossiu. Voltei-me e vi um jovem alto e
elegante, de cabelo cortado  marinheiro. Mesmo cansada como estava,
ainda consegui reparar que era um rapaz extremamente bonito. Ele
avanou, estendendo a mo direita. - Ol, sou o Byron Bai-lun Soon. Vivo
aqui em casa do Martin - disse ele com o forte sotaque dos chineses do
Norte. De forma possessiva, Martin passou o brao em volta dos meus
ombros, enquanto fazia as apresentaes. Afastei-me instintivamente e
sentei-me pesadamente no sof. - Aqui ests em segurana -.disse Martin.
- Vamos tomar os trs uma cerveja antes de eu te levar a jantar. - Para
mim no - respondeu Byron. - As raparigas chinesas no bebem cerveja. Do
que ela est a precisar numa noite fria como esta  de uma boa caneca de
gua quente. E a seguir uma tigela de sopa de fitas cheia de molho de
carne com sabor a pimenta. Vou j tratar disso. - gua quente! -
exclamou Martin, torcendo o nariz. - Olha que ela no  uma velhota da
chinatown como a minha me! Ela precisa  de uma boa cerveja gelada e
no quer nenhumas fitas. Acabei de te dizer que vamos sair para jantar.
Passado pouco tempo eu estava com a gua quente e a cerveja gelada 
minha frente, bebendo ora um golfinho de uma ora um golfinho de outra.
Martin levou-me a um restaurante japons das redondezas, embora eu
tivesse gostado mais da ideia de Byron da sopa de fitas e de uma
almofada fofa. Passo aps passo l fui comendo alguns camares
ternparra, enquanto Martin discursava com entusiasmo sobre Nova Iorque.
Por essa altura eu praticamente j dormia em p. Como um zombi, disse
que estava pronta s 9 da manh para irmos visitar a Faculdade de
Medicina onde ele andava e onde fazia as rondas de sbado. Na manh
seguinte no acordei com o meu despertador nem com Martin a bater-me 
porta com toda a fora. Um sol brilhante atravessava os cortinados,
quando eu acordei sobressaltada  1 da tarde. Sabia que tinha deixado
Martin ficar mal. Vesti-me  pressa e corri 169 escada abaixo. Encontrei
Byron na sala sozinho, a ler calmamente um livro de engenharia. - Estava
mesmo a perguntar a mim prprio quando tu irias descer - disse ele a
sorrir. Vestia uma camisa branca, nova, e camisola azul. Assim,  luz do
dia, parecia-me ainda mais espantoso. Agora, que estvamos sozinhos,
falava-me num mandarim fluente, claramente mais  vontade na sua
lngua-me. Timidamente, entregou-me um bilhete que Martin tinha deixado
na mesa do caf. Num tom ligeiramente recriminatrio, Martin rabiscara:
"Tentei acordar-te, mas no consegui. Quase fiquei sem mo, mas no
serviu de nada. Deves estar mesmo estoirada! Estarei em casa por volta
das 5.30. At logo. Vamos ao bowlifag logo  noite!" - Ainda bem que
adormeceste - declarou Byron -,porque assim tenho-te s para mim durante
algumas horas. Vamos almoar? J est tudo preparado. Sentmo-nos  mesa
da cozinha e comemos as fitas com molhos de carne de sabor a pimenta que
Byron tinha preparado. Ele tinha nascido em 193 8, na provncia de
Hunan, onde o pai era general no exrcito do Kuomintang. Depois da
tomada do poder pelos comunistas, os pais separaram-se. A me
permanecera na China com uma irm mais nova e o pai fugira para
Hong-Kong com Byron e Arnold, o irmo mais velho. Os dois rapazes haviam
completado o liceu em Hong-Kong antes de terem ingressado na
Universidade de Taiwan. Depois de se terem formado, ambos tinham
resolvido viajar para a Amrica, a fim de fazerem as respectivas
ps-graduaes. Arnold tinha casado com a sua namorada dos tempos da
universidade e estava a fazer o doutoramento em Matemticas pela
Universidade da Pensilvnia. Byron tinha arranjado um trabalho nocturno
numa firma de engenharia e estava a tirar o mestrado no Instituto
Politcnico de Brooklyn. J possua um carto verde e o seu desejo era
tornar-se cidado americano. Alugava o quarto a Martin h nove meses. -
Ontem pensei em ti durante toda a noite! - confessou Byron. - Quando li
o recado de Martin, decidi no ir s aulas. Este vai ser o meu dia de
sorte! O meu dia passado contigo ao sol. E sozinhos! Os olhos
brilhavam-lhe de excitao. Agarrou-me a mo: - Nunca senti isto antes:
Diz-me, quais so as minhas hipteses? Eu estava boquiaberta. Esfreguei
os olhos, mas ele ainda l estava: o meu heri das novelas de Kung Fu,
confessando-me toda a sua 170 devoo No retirei a minha mo da sua e,
 medida que a tarde ia avanando, fiquei cada vez mais encantada por
ele. Finalmente, ele levantou-se para sair. Acariciou-me a mo com
meiguice: . Este  o dia mais feliz da minha vida. Vou at fazer uma
previso, Antes do final de 1964 vais ser minha mulher. Nessa noite
encontrei uma carta de Byron na minha almofada; estava escrita em
chins. Era curta, mas com bonitas frases e temperada com citaes dos
poemas T'ang, que eu lhe tinha dito que adorava. Anotei a hora a que
pretendia partir e passei a carta por debaixo da porta dele, conforme me
tinha pedido. Na manh seguinte apanhmos os trs um txi para a estao
de Pensilvnia, Martin e Byron a competirem abertamente para chamar a
minha ateno. Martin foi ficando cada vez mais irritado. Sentia-me
lisonjeada, mas era uma situao muito estranha e fiquei aliviada quando
por fim me pude meter no comboio para Filadlfia. Casei-me com Byron na
City Ha1135 de Nova Iorque, apenas seis semanas depois de ter chegado 
Amrica e antes do final de 1964, tal como Byron tinha previsto. Martin
pediu a Byron que abandonasse imediatamente a casa, pois os pais
proibiam-no de alugar quartos a casais. Nenhum de ns voltou a falar a
Martin ou a v-lo sequer. Num dos raros momentos que tive para pensar,
j depois da cerimnia do casamento, fiz um clculo e descobri que se
somasse todo o tempo que Byron e eu tnhamos passado juntos a ss no
chegava a dez horas. Enviei um telegrama ao pai e a Niang, informando-os
de que me tinha casado. Um ms depois recebi deles uma carta de parabns
com um cheque de 600 dlares, a sua prenda de casamento. Tentei
racionalizar o meu casamento, dizendo a mim mesma que muitos dos
casamentos arranjados na China comeavam da mesma maneira. No fundo,
todos os casamentos eram um jogo e viver diariamente com algum tinha de
implicar cedncias de parte a parte. O meu contrato com a Presbyterian
era por sete meses, isto , at Junho de 1965. Para conseguir ver Byron
aos fins-de-semana endividei-me ainda mais e comprei um Volkswagen em
segunda mo. Duas semanas depois do meu casamento, quando lavava a roupa
dele, encontrei no bolso de umas calas uma carta do Chase Manhattan
Bank a cancelar-lhe a conta devido ao saldo negativo. 's Modo de
desnignao da cmara municipal das cidades americanas. (1V. da T.).
Quando lhe telefonei para a firma de engenharia onde dizia que
trabalhava, fui informada de que ele l ia apenas de vez em quando e em
regime de part-time. Mais tarde recebi uma chamada de algum com um
forte sotaque cantonense. Pela mensagem era mais do que bvio que o
principal trabalho de Byron era como empregado de mesa num restaurante
chins. Algo alarmada, decidi confront-lo. Tnhamos ido ver o filme My
Fair Lady em Queens. Enquanto espervamos pelo incio da sesso comecei
por lhe dizer que estava magoada por ter descoberto que ele no me tinha
dito toda a verdade. -No h nada a discutir! - atirou ele irritado. -
E, alm do mais, eu casei-me contigo, no foi? Que mais  que queres? -
Quero compreender-te, tal como espero que tentes compreender-me. - Agora
no me apetece falar. Quero ver o filme e divertir-me. - Podemos falar
depois do filme? - No. V se percebes que, quando eu digo no,  no!
No h mais nada a discutir. - Mas o que  isto? Uma ditadura? Somos
marido e mulher ou escrava e senhor? Porque no podemos falar das coisas
com calma e com lgica? - `~~k~~f I~i~" ~+k~~7 i~~~7 Jia ji shui ji,
jia you shui you (Casa com uma galinha e seguirs uma galinha; casa com
um co e seguirs um co). - Mas que disparate! - exclamei,
acrescentando algo sarcasticamente: - Foi isso que aprendeste com a tua
leitura extensiva dos grandes clssicos chineses? A tua paixo pelos
poemas T'ang transformou-se nesta mostra profunda de sabedoria?  luz
fosca fui-me apercebendo da sua irritao crescente. Sem qualquer
palavra, levantou-se e saiu. Com a pressa deixou o casaco de Inverno e
as luvas no assento. . Comecei a ficar preocupada, a pensar que andava
pelas ruas geladas de Nova Iorque s com uma camisola e umas calas de
polyester. E comecei a recriminar-me pelos meus comentrios cortantes.
Fiquei desiludida ao descobrir que as leituras do meu marido se
limitavam afinal a jornais e livros de engenharia. A sua pretensa paixo
pela poesia T'ang no passava de um desejo de impressionar a rapariga
que amava. 172 O filme passava e eu no me atrevia a ir-me embora com
receio de que ele voltasse e j no me encontrasse. Quando acabou,
encaminhei-me para a sada, como toda a gente, com alguma esperana de o
encontrar  porta. No estava l. A neve passava em revoadas por ruas
que eu no conhecia. Fiz sinal a um txi e pedi que me levasse ao
apartamento, embora no tivesse a chave. J passava das 11. Byron ainda
no tinha chegado a casa. Fiquei encolhida  porta, como uma velhinha
sem abrigo, cheia de medo s de pensar que poderia aparecer algum bbedo
que me agarrasse na escurido. "Casa com uma galinha e seguirs uma
galinha; casa com um co e seguirs um co." Talvez eu devesse anim-lo
e fazer o papel da esposa chinesa submissa. A nica alternativa era a
separao, o divrcio. Afastei logo a ideia. Nunca poderia admitir o meu
fracasso perante Niang e o pai. Decidi salvar o meu casamento, custasse
o que custasse. Finalmente, Byron voltou; eram quase 2 da manh. Vinha
maldisposto e irritado. Tinha ido ao restaurante chins onde normalmente
trabalhava, pedira um grande jantar e depois tinha ficado a ajudar at
ao fecho. Foi direito  casa de banho sem me dizer uma palavra e eu fui
para a cozinha preparar umas fitas. Quando a comida ficou pronta,
arranjei duas tigelas e chamei-o. Estava a dormir profundamente; parecia
um anjo. Comi ambas as tigelas sozinha. Na manh seguinte Byron
comportou-se como se nada se tivesse passado. Exuberante, mostrou-me uma
carta do advogado de imigrao, informando-o de que tinha "boas
hipteses" de conseguir um carto verde, esquecendo-se totalmente de que
no nosso primeiro encontro me tinha dito que j tinha um carto verde.
Mordi a lngua e no disse nada. Ficmos por ali, sentados a tomar o
caf com doughnuts e a ler a edio de domingo do New York Times. Andava
 procura de um emprego permanente na rea da engenharia junto de uma
grande companhia no Sul. Na ltima pgina demos com um anncio de pgina
inteira: "Engenheiros! Convidamo-lo a vir para a fantstica Califrnia
do Sul, onde o Sol brilha todos os dias! Venha trabalhar com a Douglas
Aircraft em Long Beach! Precisamos de si!" Algures no fundo da minha
mente lembrei-me daquela maravilhosa fotografia de Clark Gable que tinha
sido autografada e enviada de Hollywood a uma das minhas colegas de
Xangai muitos anos atrs. Como eu a tinha invejado! E basicamente foram
estas as razes pelas 173 quais acabmos na Califrnia do Sul: um
anncio no New York Times e a magia de Clark Gable. A Douglas Aircraft
contratou-o por 800 dlares por ms. Para conseguir obter uma licena
para exercer medicina na Califrnia tive de fazer um exame especial e
completar um perodo como interna num hospital da Califrnia devidamente
reconhecido. E foi assim que no dia 1 de Julho de 1965 recomecei pela
terceira vez a trabalhar como interna no St Mary's Hospital em Long
Beach. Pagavam-me apenas 300 dlares por ms, mas podia utilizar um
bungalow situado junto ao hospital. Apesar da boa figura e do bom
aspecto fisico de Byron, continuei a sentir por ele uma profunda indife
rena. Do ponto de vista emocional, era para mim um estranho. De cada
vez que me tocava, parecia ter o condo de me transformar numa pedra.
Simultaneamente, sentia-me cheia de culpa pela minha falta de reaco.
Tinha casado com ele por razes prticas: companhia, filhos, segurana
emocional e aceitao social. Ingenuamente, acreditara que, se tentasse
com todas as minhas foras, o amor viria. Isso nunca aconteceu. Byron e
eu mantnhamos as distncias. Era assim que ele queria o casamento. As
conversas de corao aberto deixavam-no desconfortvel. Citava
frequentemente o provrbio chins ~ -~. ~q ;i~-~u ~ _f t qi xiangjing
rtt bitt (marido e mulher devem respeitar-se um ao outro tal como se
respeitam os convidados de honra). Com isto queria ele dizer que eu
devia abster-me de quaisquer crticas, comentrios negativos ou
conversas ntimas. Eu evitava tocar em temas controversos e tentava
animar-me. No havia conversa; logo no existia intimidade. A televiso
era a sua companhia permanente. Ligava-a assim que chegava a casa e
sentava-se em frente do aparelho durante horas, mudando de canal de
cinco em cinco minutos. Levantava-se com relutncia quando eu o chamava
para o jantar e voltava a sentar-se logo a seguir, enquanto eu lavava a
loia. Tomvamos as refeies em silncio. Byron lia o Los Angeles Times
e eu lia os meus livros.  noite deitvamo-nos ao lado um do outro, dois
seres obrigados a partilharem a mesma cama. Apesar de tudo, em Outubro
de 1965, eu fiquei grvida. Byron parecia estar contente com a
perspectiva de vir a ser pai. Com um beb a caminho, eu limitei as
minhas escolhas em termos de carreira ao campo da anestesia, uma
especialidade com base no hospital. A prtica da anestesiologia tinha-me
sido descrita como horas de aborrecimento interrompidas por momentos de
pnico. A responsabilidade era grande. 174 Habitualmente, os pacientes
eram deixados inconscientes por processos de rotina, ficando suspensos
entre a vida e a morte. Os honorrios eram proporcionalmente elevados.
Concorri e fui aceite para uma especializa em anestesiologia no
Orange County General Hospital, na Universidade da Califrnia, Irvine. O
beb devia nascer no incio do ms de Junho. Byron e eu juntmos os
nossos ordenados e preparmo-nos para deixar o bungalow. Demos o sinal
para uma nova casa em Fountain Valley, a cerca de 16 quilmetros de
distncia. Estvamos ambos radiantes com a compra da nova casa, que
vinha de encontro aos nossos desejos de criarmos razes na Amrica.
Nessa noite, depois de assinarmos o contrato, eu cozinhei uma refeio
para comemorarmos. Descontrados pela comida, comemos a discutir o
estatuto dos nossos vistos. Byron tinha recebido o seu carto verde e
era j residente permanente, mas eu tinha ainda um carto de "estudante
em programa de intercmbio". - Devias consultar um advogado
especializado em assuntos de imigrao e mudares o teu estatuto o mais
depressa possvel. - disse Byron. - Se tivesses dado incio ao processo
quando nos conhecemos, j terias o teu carto verde. - Quando nos
conhecemos, tu tambm ainda tinhas um visto de estudante - disse eu
irreflectidamente. A sua expresso mudou: -Ests a chamar-me mentiroso?
Se eu no tivesse casado contigo, nunca conseguirias arranjar um carto
verde. - Vamos primeiro ao que  importante! Sabes muito bem que no
tinhas nenhum carto verde quando nos encontrmos em casa de Martin
Ching -insisti. Subitamente enfureceu-se. Levantou-se e comeou a
gritar: - Se desejas secretamente voltar a ver o Martin, porque  que
no vais atrs dele para Nova Iorque? Para meu grande alvio, o telefone
tocou nesse momento. A telefonista do hospital no conseguia localizar o
interno de servio. Ser que eu podia ir imediatamente para atender a
dois doentes que tinham acabado de dar entrada depois de um acidente de
carro? Balbuciei qualquer coisa acerca de uma emergncia e sa a correr.
Regressei quatro horas mais tarde. Por essa altura eu estava exausta. A
minha grande barriga pesava como um saco de pedras, j abaixo do 175 que
antes tinha sido a minha cintura. Tinha os tornozelos to inchados que
at tinha dificuldade em tirar os sapatos antes de acender a luz. Foi
ento que os meus olhos encontraram um cenrio inacreditavelmente
catico. Num acesso de fria, Byron tinha puxado as gavetas e atirado
para o cho da sala todo o seu contedo. Por todo o lado havia roupa,
lenis, utenslios de cozinha, livros, artigos de toilette e comida. Na
cozinha, os pratos sujos tinham sido atirados para cima da mesa e para o
lava-loua. De Byron, nem rasto. Depois de ter limpo a cozinha, fiz uma
chvena de ch. De seguida comecei a arrumar a desordem da sala,
colocando mecanicamente cada coisa no seu lugar. "Bem, quando acontece
alguma tragdia", disse eu para mim prpria, "todos nos sentimos melhor
se fizermos algo de positivo. Podia ter sido bem pior. Pelo menos, no
pegou fogo  casa." Pelas 6 da manh, quando a limpeza j ia a meio,
ouviu-se uma chave na porta e Byron entrou. Nessa altura eu estava de
gatas. Deve ter havido alguma coisa na minha estranha posio que o fez
pensar, porque no me tocou. Passou para o quarto, preparou uma maleta e
saiu novamente a correr e sem dizer palavra. Desapareceu durante cinco
dias. Acreditei que o meu casamento tinha chegado ao fim. O beb deveria
nascer dentro de duas semanas. Refugiei-me no meu trabalho dirio,
criando a iluso de ordem e normalidade. Era reconfortante sentir que os
meus pacientes precisavam de mim, embora o meu prprio mundo estivesse a
cair aos bocados. Foi ento que, inesperadamente, ele voltou. Uma tarde,
quando regressei do hospital por volta das 6 horas, encontrei-o a ver
televiso e a mudar de canais, como se nunca tivesse sado dali.
Cozinhei o jantar e comemos em silncio, enquanto ele lia o Los Angeles
Times. As dores de parto comearam s 6 da manh do dia 8 de Junho de
1966. Byron mostrou-se solcito. Levou-me ao hospital, tirou o dia e
sentou-se ao meu lado na sala de partos. Roger, o nosso filho, nasceu
nessa noite. Era lindo e saudvel. Centrei toda a minha ternura no nosso
beb. Corria para casa depois do trabalho para lhe dar banho e o
alimentar. Sentia-me uma mulher cheia de sorte por poder dar-lhe todo o
amor que me tinha faltado durante a infancia. Embora o meu casamento
fosse um desastre, por fora transmitamos a imagem de uma perfeita
famlia sino-americana. 176 18 Zhong Gua De Gua Colhers o que semeares
O South Coast Plaza era um centro comercial regional ultramoderno que
tinha acabado de abrir as portas em Costa Mesa, a cerca de 24
quilmetros dali. Byron e eu estvamos desejosos de l ir. Fomos juntos
no dia de Ano Novo de 1967 e pretendamos comprar um fato novo para
Byron.  tradio na China que, no dia de Ano Novo, a roupa nova
simboliza um novo comeo. Nessa mesma noite Byron tinha convidado quatro
colegas da Universidade de Taiwan e respectivas esposas para jantar.
Estava uma manh encantadora, soalheira, com uma pequena brisa e sem
nvoa.  medida que avanvamos para sul no novo troo da auto-estrada
de S. Diego, amos observando as montanhas com o topo coberto de neve
estampadas num cu sem nuvens. O ar era limpo e fresco. No rdio amos
ouvindo uma msica ligeira. Estvamos ambos com um humor estupendo.
Byron arrumou o carro num grande parque de estacionamento, fechou-o e
deu-me as chaves para as guardar na minha bolsa. Ele estava belssimo,
vestindo uma camisola de l grossa sobre a camisa. 177 Dirigimo-nos 
seco masculina da Sears Roebuck. Enquanto ele escolhia o fato, dei um
pulo  seco de bebs para escolher um brinquedo. Quando voltei, o
vendedor ajudava Byron a provar um casaco. - Penso que devia despir a
camisola grossa antes de experimentar os casacos - dizia o vendedor. - 
j o quarto casaco que experimenta e no lhe vai assentar bem porque no
 este o seu tamanho. As mangas esto demasiadamente compridas, claro,
porque o tamanho  grande de mais. Byron estava a olhar para o espelho e
ajustava as mangas compridas. Ignorando o vendedor, voltou-se para mim:
- Gostas da cor? O que  que achas? Nessa altura o vendedor voltou-se
para mim: - Est a ver, minha senhora, aqui .., at o colarinho assenta
mal.  que este  o nmero 44 e o nmero do senhor  o 40, 42 no mximo.
Sem pensar, eu disse a Byron: - Acho que este senhor tem razo. Porque
no tiras a camisola, como ele sugeriu, e experimentas um 40? Fixou-me.
Depois, sem uma nica palavra, despiu o casaco, virou-se bruscamente e
abandonou a sala. Fiquei pendurada, a fazer figura de pateta at que
decidi ir para o carro e l esperei durante duas horas. Telefonei  Sr.a
Hsu, a ama de Roger, mas ela disse- me que Byron ainda no tinha
regressado. Era quase 1 hora. Voltei para casa. A Sr.a Hsu ajudou-me a
decorar a casa e a preparar alguns pratos. 3 horas e nem sinal de Byron.
Comecei a ficar preocupada. Mal sabia os nomes dos seus amigos de
Taiwan, quanto mais das suas mulheres. O que  que eu havia de fazer se
chegassem todos e Byron ainda no estivesse em casa? Por fim, no
consegui aguentar mais. Telefonei aos convidados, um por um, disse-lhes
que Byron tivera uma intoxicao alimentar e cancelei o jantar. Na sala
devo ter passado pelas brasas, quando ouvi Byron meter a chave  porta.
Tinha vindo a p do centro comercial. Caminhara trs horas e meia. -
Onde esto os meus convidados? - perguntou ele, deitando um olhar 
comida que tnhamos preparado e que continuava na mesa da cozinha. Olhei
para o meu relgio; j passava das 6. - Como no sabia que vinhas a
caminho de casa - respondi eu, ensonada e esfregando os olhos -,
cancelei o jantar. 178 Quem  que te autorizou a fazer isso? Eles so
meus convidados! E era a minha festa! - explodiu ele. Tio respondi, com
medo de o provocar ainda mais. Levantei-me do sof e fui para a casa de
banho. No minuto seguinte ouvi o estrondo de uma porta a ser empurrada 
fora, moblia a partir-se e o pranto aterrorizado do meu beb. Corri
para o seu quarto e vi Byron com as mos na cintura debruado sobre o
meu beb de 6 meses, que gritava no bero cado. Fui tomada de um acesso
de fria assassina. Levantei o meu filho, que chorava, fui para o nosso
quarto e tranquei a porta. O que ouvi a seguir foi um estrondo enorme
que vinha da cozinha. Depois a porta da frente bateu e Byron partiu. O
beb no parava de chorar. Examinei-o com cuidado e verifiquei com
alvio que no havia mazelas graves. Na cozinha encontrei uma Sr.a Hsu
muito alarmada, a observar um monte de cacos e de comida espalhada por
todo o lado. Byron tinha simplesmente pegado numa ponta da mesa cheia de
pratos, virando tudo. A Sr.a Hsu era uma viva educada, oriunda da
Pequim, na altura com cerca de 70 anos. Eu tinha-me afeioado a ela e
sentia-me profundamente envergonhada por ela ter presenciado uma cena
daquelas. Em silncio, limpmos toda a confuso. Depois comemos as fitas
habituais que tnhamos preparado para saudar o novo ano. - Na China h
muitos homens como o seu marido - disse a Sr.a Hsu. - Nos dias de
antigamente, os homens tinham por hbito maltratar as suas mulheres e
agora ele faz-lhe o mesmo a si. Quanto mais aturar, mais violento ele se
h-de tornar. Se no tivesse outro arroz para comer, tinha de engolir
esta amargura. Mas o seu caso  diferente, a senhora tem a sua
profisso. Byron no apareceu durante uma semana. No regresso colocou o
cheque do ordenado em cima da mesa depois do jantar, num gesto de paz.
Fiquei comovida, mas no conseguia afastar a repulsa que sentia. Com
pouca vontade de o enfrentar, escrevi-lhe um bilhete: "Por agora, por
favor dorme l em cima no quarto de hspedes. Vou deixar o teu cheque em
cima da mesa. Compreendo perfeitamente se quiseres gast-lo
separadamente." Quando Byron percebeu que dessa vez eu no iria tentar
uma reconciliao, tornou-se mais agressivo. Para minha grande vergonha,
mui 179 tas vezes ele descarregava a sua frustrao sob a forma de
violncia fsica em mim e no beb. Sentia-me culpada e humilhada de cada
vez que tinha de mentir aos colegas acerca dos meus olhos negros ou de
marcas na cara, no querendo trazer os meus problemas domsticos a
pblico. Suportei os seus golpes porque no podia sequer pensar na
vergonha que era o divrcio e na subsequente desonra que traria  minha
famlia. Trabalhei mais do que nunca, fazendo turnos na sala de
urgncias sempre que havia oportunidade. Byron e eu deixmos de fazer
uma vida social comum. Aos fins-de-semana ele jantava com os colegas ou
os engenheiros da Universidade de Taiwan e eu ia com o beb e a Sr.a Hsu
a parques ou a restaurantes chineses. Depois de a Sr. Hsu se ter
reformado, tive imensa sorte em encontrar uma viva caucasiana com cerca
de 50 anos, Ginger Morris, que passou a ser a ama de Roger. Ginger veio
para nossa casa em 1968 e ficou durante onze anos. Completei o perodo
de especializao em Junho de 1968 e foi tambm por essa altura que
consegui obter o meu carto verde. Havia muitos empregos. Ao fazer
muitas substituies e oferecer-me para noites extra e chamadas de
fim-de- semana, adquiri rapidamente uma experincia enorme. S o meu
ordenado do ms de Julho fora igual ao ordenado de um ano inteiro
enquanto estivera a tirar a especialidade. Byron e eu tnhamos vidas
separadas, mas mantnhamos uma conta conjunta, cujo saldo crescia a
olhos vistos. No final de 1968, Byron decidiu comprar um restaurante
chins em Costa Mesa. Uma noite chegou a casa cedo com alguns papis
para eu assinar. Mostrou-se encantador: - Provavelmente no sabes -
disse ele -, mas eu costumava trabalhar que nem um escravo em vrios
restaurantes chineses de Nova Iorque. Agora que posso comprar um, quero
orient-lo  minha maneira. Encolhi os ombros e assinei. Aps a abertura
do restaurante reparei que a nossa conta conjunta ia diminuindo
rapidamente, a fim de suportar o novo empreendimento. Contratou um jovem
como gerente, Lee Ming. Todos os dias, depois do trabalho, Byron ia
directamente para o restaurante, tomava l todas as refeies e s
voltava a casa depois das 11. Os fins-de-semana eram particularmente
movimentados e ele estava fora das 10 da manh  meia-noite. O meu
prprio horrio de trabalho estava cada vez mais apertado. Eram os
tempos ureos da prtica da medicina privada na Amrica. A legislao
sobre a Medicare3 tinha acabado de ser implementada. Apesar das
apreenses dos meus colegas, acabou por ser o caminho aberto para o
fornecimento de fundos governamentais inesgotveis destinados ao
tratamento dos idosos americanos nos quinze anos que se seguiram. Manter
um restaurante acabou por ser mais difcil do que Byron tinha imaginado.
No passou muito tempo sem que estivesse metido num sem-nmero de
desavenas com o pessoal. Numa sexta-feira  noite o restaurante ficou
sem ovos. Byron correu ao mercado local e comprou dez embalagens.
Durante a sua ausncia, Lee Ming ficou a orientar. Com a chegada de um
grande grupo de clientes, Lee Ming conseguiu sentar a maioria e pediu
aos restantes que esperassem. Quando Byron voltou, deu com uma sala
cheia e meia dzia de casais  espera. Foi ento que comeou a andar de
mesa em mesa, dizendo agressivamente queles que ainda estavam na
sobremesa e no caf que se despachassem. Ignorando os protestos de Lee,
foi ao armazm, trouxe algumas mesas e cadeiras e conseguiu sentar toda
a gente. Os dois homens tiveram uma discusso violenta. Lee sabia que o
restaurante no se poderia manter sem ele e por isso fez uma oferta a
Byron para o comprar. A maioria do pessoal tinha vindo com Lee do
restaurante anterior e era-lhe leal. Entraram ento numa campanha
deliberada para sabotar Byron. O cozinheiro entrava de baixa em dias
crticos e com a casa cheia. Os pratos eram salpicados com sal ou com
molho picante, o que os tornava impossveis de comer. Encomendas-chave
no eram entregues nas alturas devidas. As mesas no eram levantadas e
os pratos no eram lavados. Um dia, em Junho de 1969, Byron deixou um
recado na minha almofada. Dizia-me que planeava vender o restaurante a
um homem que tinha conhecido numa festa na noite anterior e
perguntava-me o que  que eu achava da ideia. Respondi "sim" por baixo
da mensagem e coloquei-a em cima da cama dele l em cima, concluindo
tristemente que a nossa comunicao se reduzia a recados escritos por
detrs de velhos envelopes. Para meu grande espanto, o comprador que
Byron tinha arranjado era uma pessoa sria e o negcio fez-se realmente
por 36 Esquema de assistncia mdica proporcionado pelo governo dos
Estados Unidos, e~clalmente aos idosos. (N. da T.) 180 venda a dinheiro
pouco tempo depois. Segundo Byron, recuperamos a maior parte do nosso
investimento por causa das dedues nos impostos. Lee e a sua equipa
concordaram em ficar e mais tarde vim a saber que o negcio prosperara e
fora vendido por um preo alto alguns anos mais tarde. Tnhamos nessa
altura 20 000 dlares na nossa conta conjunta. Pela primeira vez na vida
eu tinha tanto dinheiro que no sabia o que havia de fazer com ele. Uma
tarde, no ms de Agosto, depois de ministrar sete anestesias, fui a um
stand de automveis, comprei um Mercedes branco novinho em folha e
registei-o em nome de ambos. Voltei para casa e coloquei os papis do
registo em cima da cama de Byron para ele assinar. Assinou-os sem
qualquer comentrio, mas da em diante nunca mais contribuiu com nada
para as despesas da casa. No final de 1969 partiu de repente para um
emprego em HongKong, deixando uma nota de despedida no meu travesseiro,
onde dizia que voltaria dentro de um ano. Li aquela mensagem com alvio,
feliz por poder canalizar toda a minha energia para o meu filho e a
minha carreira. Durante a sua estada em Hong-Kong, Byron e o pai foram
fazer uma visita de cortesia aos meus pais no Ano Novo chins, que 
tradicionalmente a poca da reunio das famlias. A visita no foi um
xito. Levaram como presente um cesto de fruta e chegaram quinze minutos
antes da hora combinada. Niang queixou-se de que "chegar cedo, como
chegar atrasado, era um sinal de m educao. Em ambos os casos os
convidados incomodavam os anfitries." Niang insistiu em falar ingls e
mais tarde comentou "o seu fraco domnio da lngua e o , sotaque
terrvel". Quando os meus pais tiraram o celofane que envolvia o cesto
de fruta, descobriram que muitos dos frutos estavam podres, pelo que
Niang concluiu que o cesto estava largamente fora do prazo de validade e
fora uma compra barata. Byron regressou de Hong-Kong aps uma ausncia
de sete meses. Retomou o trabalho na Douglas Aircraft e voltmos a viver
as nossas vidas separadamente sob o mesmo tecto. Em Outubro desse ano de
1970, o pai e Niang faziam uma viagem  volta do mundo e decidiram
fazer-nos uma visita. Nos ltimos seis " Oferta habitual na poca do Ano
Novo chins. (1V. da T.) 182 anos eu tinha-lhes escondido toda a verdade
acerca do meu casamento infeliz. As minhas cartas limitavam-se a relatar
acontecimentos importantes, xitos conseguidos e comentrios sobre o
clima da Califrnia. No dia em que chegaram, Byron e eu fomos com Roger
esper-los ao aeroporto Niang insistiu em ficar em Universal City, a
cerca de 80 quilmetros de distncia da nossa casa, num hotel que
pertencia a uns amigos ricos americanos, os Jules Stein. A bagagem de
ambos era composta por seis malas. Durante a longa viagem do aeroporto
at ao hotel tentei desesperadamente manter a conversa. Niang ainda
usava o seu perfume de sempre, um aroma que me era familiar desde a
infncia. Eu sabia que Byron no conhecia o labirinto complicado de
auto-estradas na zona Enquanto tentava decifrar o mapa de estradas  luz
difusa do automvel, estava aterrorizada s de pensar que poderia dar a
Byron as indicaes erradas e causar-lhe um acesso de mau humor. Quando,
por fim, chegmos, corri para a casa de banho e vomitei. Dois dias mais
tarde tirei uma folga para os levar a nossa casa para uma visita de
fim-de-semana. No trio do hotel, o pai e Niang tiveram uma discusso. O
pai tinha dado ordens na portaria para que lhes fizessem as malas e
colocassem toda a bagagem no depsito das malas at ao seu regresso. Ao
que parece, no tinha falado com Niang sobre o assunto. Ela contrariou
estas ordens: - No h necessidade nenhuma de se fazer isso. A nossa
roupa deve ficar pendurada no guarda-fatos, em vez de ficar a
amarrotar-se dentro das malas. Deixa-a onde est! Pagamos o quarto
enquanto estivermos fora. O pai nada disse. No havia qualquer dvida
sobre quem dava as ordens. Enquanto percorremos silenciosamente os 80
quilmetros, o pai adormeceu. Parecia infeliz e oprimido. Observei-o
atravs do espelho retrovisor. Os ombros descados, a cabea pendente,
as mos cruzadas lembrava outros tempos, outros lugares. Subitamente
lembrei-me. Oh sim, o pai comeara a parecer-se com Ye Ye nos seus
ltimos anos. Levei-os at ao hospital onde trabalhava, apresentei-os
aos meus colegas e visitmos um complexo de apartamentos que eu estava a
pensar em adquirir. Eu estava a investir pela primeira vez em
propriedades rentveis e fiquei encantada quando percebi que o pai
gostaria de participar no empreendimento. Niang estava muito longe de se
mostrar 183 satisfeita e conseguiu fazer que eu e o pai no tivssemos
qualquer momento a ss. Durante a visita ficaram no meu quarto. Byron
continuou a dormir l em cima e eu fiquei no sof da sala. Eles devem
ter-se apercebido de que tnhamos problemas no nosso casamento. Byron,
entre_ tanto, estava irrepreensvel. Marcou um grande jantar em honra
dos meus pais num conhecido restaurante, o Delaney's, e apresentou_ -os
aos colegas, esquecendo-se de que tambm eu nunca os tinha visto na
vida. O pai, Niang e eu estvamos sozinhos quando eu os levei de volta
ao seu hotel. Uma parte de mim prpria ansiava poder contar-lhes a
triste histria do meu desastroso casamento. Outra parte, contudo
desejava manter a fachada de uma filha cheia de sucesso em todos os
campos da sua vida: carreira, vida domstica, sade, dinheiro, um filho
encantador, um bonito marido. Senti repulsa de mim mesma por alimentar
esta mentira. Durante algum tempo tagarelmos acerca de assuntos sem
importncia, at que o pai perguntou inesperadamente: - Diz-me, Adeline,
quem  que pagou ontem  noite o jantar no Delaney's? Esta pergunta
simples, totalmente fora de contexto, apanhou-me de surpresa. Ser que
Byron tinha usado o dinheiro da nossa conta conjunta ou da sua conta
pessoal? No fazia a mnima ideia. Entretanto, o pai continuava  espera
de uma resposta. De certo modo na defensiva, respondi: - Na verdade no
sei. Mas acha que tem importncia'? - Por vezes - aconselhou - 
necessrio prestar ateno ao dinheiro. Neste momento a tua carreira
est a comear a desenvolver-se. s jovem e saudvel; tens o mundo a
teus ps. Se tiveres cuidado, tens a oportunidade de fazer uma grande
fortuna. Mas no ser assim para sempre. Um dia ficars velha e sem
foras. Certifica-te de que ests preparada quando esse dia chegar. Tens
de arranjar as coisas de maneira que possas controlar o teu prprio
dinheiro. No confies em ningum. As pessoas mudam e os seus sentimentos
tambm. Niang assentiu com a cabea. - O teu marido - perguntou ela de
repente - est bem? O que eu quero dizer  se ele no estar um pouco
apanhado da cabea 184 Fiquei atnita. Quantas vezes eu tambm j me
tinha interrogado sobre a sanidade mental de Byron. Sem querer dizer
demasiado, respondi com outra pergunta: E ns, no somos tambm um pouco
doidos? Ele, por exemplo, deve pensar que eu sou a tonta da famlia. - E
quanto ao bloco de apartamentos que nos foste mostrar h dois dias -
disse o pai -,aquele que ests a pensar comprar, em que nome  que vai
ficar o ttulo de propriedade? Quem  que vai ficar como proprietrio
legal? - Dei o nome de ambos como compradores, pai - respondi eu sem
mentir. -  assim que se costuma fazer na Amrica. Quando comprmos a
nossa casa, tambm ficou registada em nome dos dois. - O que ests a
fazer no  sensato e vai trazer-te complicaes - avisou o pai. - ~ ~ ~
;~ 1~ Zhorag gua de gua (Colhers o que semeares). Quando Byron esteve
em Hong-Kong, ele e o pai disseram-nos que tinham comprado uma
propriedade em Kowloon. O teu nome tambm figura no ttulo de
propriedade? Gaguejei, chocada: - Penso que no, pai. Byron nunca me
pediu que assinasse papis nenhuns. Dolorosamente, a conversa ia-se
transformando numa sesso sobre o estado do meu casamento. - Ento
porque colocas o nome dele nos teus apartamentos quando ele no
contribuiu com um nico centavo para os comprar? No sejas ingnua,
Adeline! No penses que podes pairar acima destes assuntos de dinheiro,
porque no podes. Vai consultar um bom advogado e certifica-te de que a
propriedade fica s no teu nome. Percebeste bem? Senti um n na garganta
e os olhos encheram-se-me de lgrimas. Apesar do meu fingimento, tinham
visto tudo. As directivas rgidas do pai eram apenas a expresso do seu
cuidado e preocupao. Estava a tentar proteger a filha. Acenei com a
cabea e engoli as mgoas. Quando j estvamos perto do hotel, Niang
acrescentou: - H qualquer coisa no teu marido que no est bem. Nunca
te esqueas: acontea o que acontecer, os teus pais sero sempre os teus
pais. Ouve o teu pai e faz o que ele te disse. Foram estas as palavras
mais amveis que ela me dirigiu em toda a minha vida. 185 Durante o
longo caminho de regresso reflecti sobre os conselhos que me tinham
dado. Apesar de no o terem feito explicitamente indirectamente
tinham-me dado a perceber que eu deveria divorciar_ -me. Decidi agir e
fui imediatamente consultar um advogado. Eles tinham-me dado permisso
para o fazer. Alguns dias mais tarde, munida de um documento legal
preparado por um advogado especializado em casos de divrcio, esperei
que Byron chegasse a casa. Depois do jantar e de ter deitado Roger, fui
para a sala e sentei-me no sof ao lado dele. Juntos, assistimos a um
jogo de boxe. Por fim arranjei coragem para lhe entregar o documento,
explicar o seu contedo e inform-lo de que era necessrio assinar.
Byron deitou um olhar maldisposto ao papel e voltou ao jogo de boxe; eu
sustinha a respirao. Finalmente perguntou-me por que  que eu queria o
divrcio e se havia mais algum na minha vida. Havia algo de desolador
no timbre da sua voz que tocou no meu corao. Comecei a chorar: - No,
no h mais ningum.  que eu acredito sinceramente que esta' a melhor
soluo para ns os trs. Pela primeira vez na vida vi-lhe a angstia
nos olhos. Para o aliviar daquela dor, acrescentei: - Lamento
profundamente. Apostmos ambos e perdemos ambos. Passaram-se algumas
semanas e Byron assinou, tal como lhe fora pedido. Depois disso
fechou-se no andar de cima e s descia  hora das refeies, que decidiu
tomar sozinho. Tinha tomado uma deciso, sentia-me estranhamente em paz
e tinha esperana de que a separao fosse amigvel. Nesse Natal
comprei-lhe um relgio de ouro embrulhado num bonito papel e
coloquei-lho em cima do travesseiro. No dia seguinte Ginger fez-me sinal
para que a seguisse at s traseiras da casa. No caixote do lixo estava
o meu presente ainda embrulhado e com o laarote. No dia a seguir ao de
Natal, Byron foi transferido para Oceanside. O meu advogado levou-lhe os
papis do divrcio antes de ele partir novamente para Hong-Kong, em
1971. Ele disse que no entraria em litgio se eu lhe desse a minha
parte da casa de Fountain Valley e se eu desistisse do pedido de penso
e sustento da criana. Concordei imediatamente e mudei-me para outra
casa. Depois do divrcio, Byron jamais escreveu ou voltou a ver o seu
filho. 186 19 Xin Ru Si Hui Coraes reduzidos a cinzas Em 1965, no auge
da Guerra do Vietname, o pai transferiu a fbrica de loua para Port
Harcourt, na Nigria, obtendo a ajuda do governo nigeriano na forma de
um generoso subsdio e entrando tambm em parceria com o seu gerente, o
Sr. Fong. Era um empreendimento de monta, que inclua o transporte de
inmeras peas de maquinaria e de centenas de trabalhadores
especializados de Hong-Kong. Em Port Harcourt construiu-se alojamento
para o pessoal chins, juntamente com os edifcios administrativos e
novos blocos da seco fabril. Nesse mesmo ano Gregory desposara
Matilda, uma rapariga chinesa, cujos pais tinham feito parte da onda de
gente de talento que se deslocara de Xangai para o sul em 1949. Pareciam
radiantes com a perspectiva de verem a filha casar-se na nossa famlia.
Na altura o pai era considerado um dos homens mais ricos de Hong- Kong e
Gregory era, aparentemente, o seu herdeiro. ~ pai fez de Gregory o
gerente da nova fbrica na Nigria. Pouco tempo depois do casamento, os
noivos mudaram-se para um bungalow 19 187 situado nas proximidades da
fbrica em Port Harcourt. Longe da famlia e dos amigos, privados de
acontecimentos sociais e culturais, sem sequer se poderem valer de uma
mercearia decente, Gregory e Matilda encontraram uma vida difcil e
cheia de solido. James continuou a trabalhar para o pai em Hong-Kong.
Em Outubro desse mesmo ano, a empresa Star Ferry decidiu aumen_ tar o
preo dos bilhetes da travessia de sete minutos atravs do Porto de
Vitria, nessa altura o nico meio de ligao entre Hong-Kong e Kowloon.
Apesar de ser um bilhete barato e de nunca ter sofrido qualquer aumento
desde 1946, o facto deu origem a ocupaes, manifestaes e
insurreies, que resultaram num morto, alm de vrios feridos. Uma
movimentao violenta abalou a colnia. De repente todos os residentes
de Hong-Kong comearam a perguntar a si prprios o que aconteceria se os
comunistas marchassem sobre a cidade. Para onde iriam sem um passaporte
vlido? Quem os aceitaria? Na nossa famlia, o pai tinha obtido a
cidadania britnica em 1955. Niang era cidad francesa desde que
nascera. Lydia permanecia em Tianjin e, na opinio do pai, "fora vencida
pelos comunistas por sua livre vontade". Susan e eu tnhamos tido
direito  cidadania britnica quando o pai se naturalizara, dado que na
altura tnhamos ambas menos de 21 anos. Porm, os meus trs irmos
continuavam a ser cidados chineses, o que constitua para eles motivo
de preocupao. Por essa altura, em Port Harcourt, Matilda ficou grvida
e Gregory escreveu ao pai dizendo-lhe que eles talvez devessem voltar ao
Canad, onde tinham estudado, e tentar obter a cidadania canadiana. Alm
disso, seria melhor se o beb j l nascesse. Durante a sua ausncia,
Gregory sugeria que James assumisse a direco dos negcios na Nigria.
Alguns dias mais tarde, Gregory reconsiderou. Hesitante entre o dio que
tinha pelo estilo de vida que levava na Nigria, o seu medo de no
pertencer a pas nenhum e a sua preocupao de que James pudesse usurpar
o seu lugar, escreveu nova carta pedindo, afinal, para permanecer na
Nigria. O pai escreveu-lhe a dizer que decidira substitu-lo por James.
E a carta prosseguia: "Os Fong chamaram-me a ateno para  modo como
tens andado a esbanjar o dinheiro da companhia." Gregory 188 e Matilda
eram acusados de gastarem dinheiro de mais em comida e bebidas e de
dormirem a sesta a seguir ao almoo, para fugirem ao calor atroz das
tardes da frica ocidental. O pai terminava a sua carta exigindo uma
explicao satisfatria para aquelas extravagncias. No havia na
missiva uma nica palavra de agradecimento por tudo o que Gregory tinha
conseguido, mas to-somente um julgamento sem jri, o despedimento e o
afastamento de todas as empresas do pai. Gregory fez o que lhe haviam
mandado. A injustia, porm, tornou-o amargo e foi James quem se
transformou no alvo de todas as suas frustraes. Em Abril de 1966, uma
querela industrial em Hong-Kong conduziu a confrontaes entre os qu
aderiram  greve e aqueles que no o fizeram. Decorriam os meses que
precederam a Revoluo Cultural, que em breve iria agitar a China. O
caos neste pas alastrou a HongKong e ao territrio portugus de Macau.
Ncleos de esquerda organizaram insurreies contra a polcia. Slogans
anticolonialistas liam-se por todo o lado. Altifalantes apregoavam
propaganda pr-comunista. Foram encontradas bombas nas ruas. Aos
estrangeiros atiraram-se pedras e insultos. Em Macau, as tropas
portuguesas abriram fogo, matando oito pessoas. Os residentes de
Hong-Kong foram tomados de pnico quando lhes chegaram aos ouvidos
notcias sobre as aces dos Guardas Vermelhos e o seu reinado de terror
na China. A maior parte das pessoas convenceu-se de que a China estava
prestes a tomar Hong-Kong, expulsando os Britnicos. Toda a gente queria
vender; j ningum comprava nada. As propriedades vendiam-se ao
desbarato. Houve uma corrida  bolsa e os preos caram drasticamente.
Tal como aconteceu a muitos milhares dos mais influentes residentes de
Hong- Kong, os meus pais fugiram. Foram para Monte Carlo e a compraram
um apartamento com vista para o Mediterrneo. O pai optou por esperar e
ver o que aconteceria e transferiu a maioria da sua liquidez para bancos
na Sua; conservou, todavia, as suas propriedades em Hong-Kong.
Regressaram no incio de 1967, depois da oferta do governador portugus
para entregar Macau ter sido dramaticamente recusada pela China. Este
gesto deixou bem claro que tanto HongKong como Macau permaneceriam, por
enquanto, colnias administradas pelo Ocidente. Os preos continuaram em
baixa e a retoma s se iniciou no final do ano de 1968. 189 No final da
minha permanncia em Hong-Kong, em 1964, James saa com Louise Lam tendo
em vista um compromisso srio. A sua boa figura, o passado da sua
famlia e a sua formao em Cambridge faziam de James um partido
apetecvel, muito cobiado pelas mes com filhas em idade de casar.
Suspeitei logo desde o incio que Louise era especial para James, pois a
prpria Louise tivera Niang por casamenteira. Beverly, a me de Louise,
era amiga de Niang. Tratava-se de uma amizade desigual, pois era Niang
quem dominava a amiga. Beverly era bonita, sabia estar e sabia
apagar-se. Com cinco filhas e um marido difcil, a vida era-lhe pesada.
Assim que Louise crescera o suficiente, Beverly delegara as suas
responsabilidades na filha mais velha. Enquanto Beverly se divertia com
as amigas, Louise organizava a vida diria das irms, preparava-lhes os
almoos, resolvia as questes entre elas e supervisionava os seus
estudos. Niang encorajara este romance, pois, para ela, melhor era que
James casasse numa famlia que no fosse demasiadamente pobre, para os
Yens no perderem a face, nem demasiadamente rica, para que Niang no
perdesse o poder e o controlo. Regularmente, uma vez por semana (nem
mais nem menos), James saa com Louise. Era sempre galante e gentil, mas
nunca ntimo. Gregory contou certa vez em ar de graa que na noite
anterior tinha visto Louise a danar com um belo acompanhante num
conhecido clube nocturno da cidade. James limitou-se a encolher os
ombros. Gregory acusou-o de indiferena fingida, mas o que eu penso 
que ele no queria tomar um compromisso antes de receber aprovao
superior. Tenho a certeza de que, se os nossos pais tivesse levantado
quaisquer objeces, Louise teria sido afastada num segundo. Segundo as
instrues de Niang, James e Louise tiveram um casamento simples, na
Amrica, em 1966, bem longe dos amigos e dos parceiros comerciais do
pai, eles prprios,  data, no limiar da bancarrota. Segundo Niang, a
cerimnia seria "muito mais ntima e muito mais romntica". Casaram-se
em Maryland, em casa de uns tios de Louise. James recebeu ordens para
no convidar e nem sequer informar nenhum dos seus irmos. Antes do
casamento, o pai deu ordens a James para que comprasse um dos
apartamentos que acabara de construir em Happy Valley, independemente da
instabilidade da situao poltica e da baixa do mercado imobilirio.
Durante dois anos, depois de ter sido autorizado 190 a casar com Louise,
James economizara o seu magro salrio, dlar a dlar, a fim de ter uma
reserva quando assentasse na vida. Foi nesse momento que recebeu a ordem
de enterrar todas as suas economias num dos apartamentos do pai, a um
preo especulativo e que, na altura, ningum estava interessado em
pagar. Contra a sua prpria vontade, obedeceu. Quando Louise protestou
que os Guardas Vermelhos estavam praticamente s portas de Hong-Kong e
que todo o dinheiro que possuam poderia ser confiscado de um momento
para o outro, James respondeu oSuatt le!" (Deixa l!). Dos vinte e
quatro apartamentos que o pai tinha construdo nesse ano, mais nenhum se
vendeu. Depois de Gregory e Matilda terem partido para o Canad, James
tornou-se o brao direito do pai. Durante os primeiros dez anos do seu
casamento trabalhou em Port Harcourt, na Nigria. Louise permaneceu em
Hong-Kong com os trs filhos do casal. James era apenas autorizado a
visitar a famlia duas vezes por ano: seis semanas, do Natal ao Ano Novo
chins e oito semanas no Vero, para substituir o pai, quando este e
Niang iam para Monte Carlo para fugir ao calor hmido de Hong-Kong.
Quase imediatamente a seguir ao casamento de James e Louise, Beverly e
Niang tiveram um desentendimento. A partir do momento em que viu a filha
casada e em segurana, Beverly tornou-se mais agressiva e deixou bem
claro que desejava nunca mais ser a dama de companhia de Niang. A
amizade entre ambas deteriorou-se rapidamente: passaram de um aceno de
cabea em eventos sociais para uma fase de no reconhecimento mtuo.
Depois do despedimento de Gregory, James foi nomeado director-geral da
fbrica na Nigria. Gregory recebeu 60 000 dlares americanos para se
estabelecer no Canad. Com Matilda comprou uma casa em Vancouver e
tiveram dois filhos. Matilda adquiriu experincia no ramo da farmcia e
Gregory conseguiu um lugar estvel ao servio do governo canadiano como
engenheiro ambiental. Contudo, sonhava ainda poder voltar ao lar,
acreditando erradamente que o pai o chamaria a Hong-Kong. De tempos a
tempos queixava-se de "usurpao" por parte de James ou de "sabotagem"
por parte de Niang. Os seus pedidos de emprstimos para negcios eram
invariavelmente recusados. Embora o pai tivesse um fraquinho pelo seu
filho mais velho e muito ansiasse pelas suas cartas e visitas, estava
convencido de que Gregory era fraco e incapaz. Niang chamava-lhe hrr trr
(cabea baralhada), preguioso e extravagante.  medida que os anos
foram passando, os sonhos de Gregory de montar o seu prprio negcio
foram-se desvanecendo, Tornou-se cada vez mais econmico, colocando
todas as suas esperanas nos seus dois filhos e limitando as suas
ambies a uma parte da herana que lhe caberia em sorte. Aps a
Faculdade de Medicina, Edgar e eu no tivemos qualquer contacto durante
muitos anos. Edgar especializou-se em Cirurgia Geral. Na Gr-Bretanha
era difcil para os asiticos arranjarem clientela. Em 1969, depois de
tirar o FRCS3g, Edgar comeou por ir viver para o Canad. Os trabalhos
bem pagos no abundavam e as oportunidades eram limitadas. Decidiu ento
ir ter comigo  Califrnia. Em Outubro de 1970, durante a estada do pai
e de Niang em Fountain Valley, recebemos uma carta de Edgar,
surpreendentemente educada, segundo a qual ele tinha esperana de que eu
lhe arranjasse um emprego no hospital onde eu estava a trabalhar. A
minha primeira reaco foi de prazer e satisfao. Estava to sequiosa
do afecto da minha famlia que at esta espcie de oferta de paz era bem
vinda. Mostrei ao pai a carta de Edgar. - Deixa-me fazer-te esta
pergunta - disse ele -, ests feliz no teu trabalho? Ds-te bem com os
teus colegas e achas que podes ter um futuro brilhante  tua frente? -
Claro! Adoro o meu trabalho e consigo imaginar-me a fazer o mesmo at ao
fim dos meus dias. - Nesse caso, Adeline - continuou o pai -,
aconselho-te vivamente a no responderes a esta carta. Todos sabemos o
que Edgar sente por ti. Nada de bom te pode vir da. Quanto mais sucesso
tiveres, mais cimes ele sentir por ti. Tens subido sozinha numa
excelente carreira. Vai em frente. A Amrica  um grande pas. No h
necessidade nenhuma de Edgar se vir enroscar no teu canto. Tem o resto
da Amrica para construir o seu prprio ninho. Olhei para Niang. Ela
assentiu com um gesto de cabea. - Ouve sempre o teu pai, Adeline -
disse ela. - Ele conhece-vos a todos como a palma das suas mos. 'g
Abreviatura de Fellow of the Royal College of Surgeons (Membro do Real
Colgio de Curgies). (N. da T.) Segui o conselho do pai e no respondi
 carta de Edgar. No ia certamente desobedecer ao meu pai s para
agradar a Edgar. O meu silncio foi interpretado como um insulto
deliberado e ele nunca mais me perdoou. Edgar continuou a sua formao
em St Louis, no Missuri, e casou-se com uma rapariga americana de
ascendncia alem, vinte anos mais nova do que ele. Depois andou de
cidade em cidade, na Califrnia, em busca do local ideal para abrir o
seu consultrio. Durante uns tempos viveram na pequena cidade de San
Joaquin Valley. A maior parte da populao era nascida e criada ali
mesmo e eles acabaram por achar a vida insuportvel. Alguns anos mais
tarde, Edgar vendeu o consultrio e mudou-se para Hong-Kong, enquanto a
mulher acabava a faculdade na Amrica. Deste casamento infeliz no
nasceram filhos. Em Hong-Kong, Edgar trabalhava num hospital privado
pertencente a missionrios. Embora fosse trabalhador e consciencioso,
no possua o talento nem a elegncia para ingressar nas fileiras dos
"cirurgies de sociedade". Alm do mais, no falava cantonense. A sua
fluncia em mandarim e ingls no lhe foi de grande utilidade em
Hong-Kong. As enfermeiras cochichavam nas suas costas que Edgar era na
verdade um dai luk yee san (um mdico da China). Tambm era difcil
entrar no crculo apertado dos mdicos locais, a maioria dos quais
formada na Universidade de Hong-Kong e com padres de referncia j
desde os tempos de faculdade. Os mdicos vindos de fora eram vistos como
competio indesejvel. Dois anos mais tarde, Edgar regressou aos
Estados Unidos e comprou outro consultrio noutra pequena cidade de San
Joaquin Valley. A sua jovem mulher concluiu o curso e divorciaram-se. Em
1986, Edgar casou com a enfermeira do seu prprio consultrio,
divorciada, branca, me de dois filhos. Tiveram trs filhas e pareciam
estar bem um para o outro. Em 1964 Susan concluiu o curso na Amrica e
regressou a HongKong. Trabalhava como professora em Maryknoll Convent
School e vivia em casa dos meus pais. A presso para que casasse
depressa se fez sentir. Susan era muito bonita e tinha uma mo-cheia de
admiradores. Niang fazia-lhe perguntas sobre cada passo, cada carta,
cada telefonema. Susan saa com um dentista havia cerca de trs meses.
Niang perguntava constantemente se ele j a tinha pedido em casamento.
193 Susan no gostava deste tipo de interferncia e no dizia nada, o
que deixava a me furiosa. Niang decidiu ento averiguar por si prpria,
Assim que o dentista voltou a ligar, Niang interceptou a chamada, Depois
de lhe fazer ver que saa com Susan havia trs meses, Niang indagou
educadamente quais eram as suas intenes. Ao ouvir do dentista que
ainda no tinha a certeza, Niang respondeu arrogantemente que Susan
tinha muitos pretendentes e que no podia "perder mais tempo" enquanto
ele continuava sem tomar qualquer deciso. Em suma, pediu-lhe que no
telefonasse mais vez nenhuma antes de ter as ideias perfeitamente
claras. Dizendo isto, desligou. Face  perspectiva de uma sogra daquela
envergadura, o dentista no voltou a ligar. Susan, que tinha ouvido a
conversa, ficou lvida. Seguiu-se uma terrvel discusso entre me e
filha. Susan fez as malas e ameaou sair de casa. Niang meteu-se na cama
e o pai corria de uma para a outra, tentando acalm-las. Uma noite,
quinze dias mais tarde, Susan acordou com o barulho dos passos do pai,
que, sem conseguir dormir, andava na sala de um lado para o outro. Na
manh seguinte, ao observar o rosto enrugado e ansioso do pai, Susan
vergou e pediu desculpa a Niang. Esta aproximao foi apenas temporria,
pois ambas sabiam que era s uma questo de tempo at surgir um novo
conflito. Pouco tempo depois Susan foi apresentada por Gregory a Tony
Liang, licenciado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts e filho
de um prestigiado homem de negcios de Xangai que tinha prosperado em
Hong-Kong. Decidiram casar-se. Por insistncia de Niang, o casamento
teve lugar em Honolulu, numa cerimnia pequena e ntima. Nem o pai nem
Niang estiveram presentes e, quanto a ns, nem sequer fomos convidados.
Susan no recebeu qualquer dote. Transformou-se na Sr.a Tony Liang e
levou consigo apenas duas malas de roupa usada. Tambm no levou
qualquerjia. A me de Tony, uma senhora antiga e bondosa, ficou atnita
ao ver os escassos pertences de Susan. Passou os braos em volta de
Susan e perguntou amavelmente: - Tem a certeza de que  a filha da Sr.a
Joseph Yen e no a sua enteada? E com isto tirou os anis, as pulseiras
e os colares e ofereceu-os a Susan. Tony herdou no s os negcios do
pai, como tambm a sua argcia empresarial. O jovem casal Liang subiu 
ribalta da alta sociedade de 194 xong_Kong e o nome e a fotografia de
Susan surgiam frequentemente no South Chiraa Morning Post e no Hong-Kong
Standard. Em pblico, Niang era constantemente ultrapassada pela filha.
Niang tornou-se uma crtica acrrima de Susan: as jias que usava eram
demasiado exuberantes, os vestidos demasiado decotados, a maquilhagem
reles, o gosto tremendo. Susan era uma demonstrao de egosmo e no
tinha qualquer lealdade para com os pais. No Dia da Me, Susan
comprou-lhe uma caixa de bombons. A caixa era pequena de mais e os
chocolates baratos de mais. Susan comeou a odiar as visitas a Niang.
Tinha um casamento feliz e a famlia do marido tinha orgulho nela. As
visitas a casa tornaram-se cada vez mais raras, at ficarem reduzidas
aos jantares obrigatrios dos domingos  noite. Como eu e Edgar
estvamos na Amrica, Gregory no Canad e James na Nigria, Susan
tinha-se transformado no nico bode expiatrio de Niang. Shirley Gam,
uma amiga de infncia de Susan, veio de Nova Iorque a Hong-Kong numa
visita relmpago. A nica altura em que ambas tinham disponibilidade
para se encontrarem era num domingo  noite. Susan telefonou a Niang a
pedir desculpa por no poder ir ao jantar de domingo. Todavia, a
conversa no correu bem. Susan mudou de planos e ofereceu, em vez disso,
um almoo de domingo a Shirley e s colegas de escola. Nessa noite,
pontualmente s 7, apareceu como sempre em Magnolia Mansions. Durante
todo o jantar, Niang mostrou-se fria e cruel. Acusou Susan de ser
ingrata, desleal para com os pais, indigna de confiana e desfiou o
rosrio de cada transgresso cometida pela filha desde a sua infncia.
Chamou-lhe orgulhosa e leviana. Comeou a chorar, lamentando a morte de
Franklin, e desejou que tivesse sido Susan a morrer. Ultrapassou muito o
limite daquilo que Susan podia suportar e ela explodiu: - Franklin era
um monstro sdico e ainda bem que morreu! Mesmo sendo minha me, eu
acho-a m e vingativa. A me no gosta de ningum a no ser de si mesma.
 bvio que no gosta de mim, nem nunca gostou! Niang foi completamente
apanhada de surpresa. Branca de fria, esbofeteou Susan. - Como  que te
atreves a falar-me desse modo? Gastei rios de dinheiro contigo,
mandei-te estudar nas melhores escolas, at nos Estados Unidos! Susan,
tu no s nada! No serias nada se no fosse eu! Como  que me podes
dizer tais coisas quando me deves tudo?! 195 Esbofeteou Susan outra vez,
desta feita com quanta fora tinha. Calmamente, Susan pegou na carteira
e tirou o livro de cheques. - Quanto  que lhe devo? - perguntou ela. -
Qualquer que seja a soma, deixe-me passar-lhe um cheque. Lembre-se de
que agora eu sou uma mulher casada e de que eu prpria tenho uma filha.
Trate-me como uma pessoa adulta, no como uma escrava que lhe deve tudo.
Niang ps-se a gritar: - Sai, sai daqui e nunca mais c voltes! Para mim
ests morta! Morta! O pai correu atrs de Susan pela porta da frente.
Tinha um aspecto abatido e cansado. No trio, enquanto esperavam pelo
elevador, disse tristemente: - Susan, no era preciso teres feito uma
cena daquelas. A tua me estava apenas ofendida por no a teres
convidado para o almoo com Shirley. Porque no o fizeste? Ela sentiu-se
excluda. As lgrimas corriam pelo rosto inchado de Susan. - O paizinho
no compreende.  bom de mais para ela. A porta do elevador fechava-se;
Susan disse ainda: - paizinho, eu telefono-lhe para a semana, para irmos
almoar. Encontraram-se para almoar na sala principal do elegante
Hong-Kong Club, situado a curta distncia do escritrio do pai em Swire
House (chamada nessa poca Union House). Sentaram-se num canto calmo,
longe de um conjunto que tocava msicas dos Beatles. Instalaram-se em
cadeiras baixas, de braos, em frente um do outro e pediram as bebidas.
O pai tinha um aspecto horrvel. Tinha o olhar vazio e as feies sem
vivacidade alguma. Um dos lados do rosto estava ligeiramente descado
devido a um ataque de paralisia de Bell, o que se notava mais em pocas
de maior stress. Quando pestanejava, apenas movia o olho so, parecendo
uma mscara. - Como tm corrido as coisas, paizinho? - perguntou Susan.
- Niang voltou a meter-se na cama? Foi como se no tivesse ouvido nada.
Como um autmato, levou a mo ao bolso do casaco e tirou uma folha de
papel de avio. Susan pde distinguir a letra de Niang, quase igual 
sua prpria caligrafia, atravs do papel transparente e cor-de-rosa. O
pai colocou os culos e leu uma lista de regras e condies s quais
Susan tinha que aderir se quisesse continuar a ser um membro da famlia
Yen. Lentamente, abanou a cabea. 196 O pai tirou os culos. Numa voz
cava e trmula de emoo, o pai perguntou-lhe se a sua escolha era no
mais voltar a ver os seus pais e ser por eles deserdada. . No me resta
outra alternativa, paizinho. Tenha d! O pai deixou algum dinheiro em
cima da mesa e levantou-se para sair. . paizinho, ainda no tocou no
sumo e nem comeu nada. No vai ficar com fome? Olhando em frente, com um
olhar vazio, o pai disse: - Darei o teu recado  tua me. Pestanejou
nervosamente, num gesto espasmdico que partia o corao de Susan.
Enquanto se apressava escada abaixo, passando por todas as pessoas que
esperavam por uma mesa, pelos paquetes vestidos de branco e pelo
respectivo chefe de chapu pontiagudo, abrindo atempadamente a porta de
vidro irrepreensivelmente brilhante, a banda tocou a popular cano dos
Beatles Let it be. Foi deste modo que a minha irm Susan foi deserdada
em 1973. Ns, os quatro que estvamos a viver no estrangeiro, recebemos
a seguinte mensagem por correio registado. Caros Gregory, Edgar, James e
Adeline,  nosso desejo informar os quatro de que Susan deixou de fazer
parte da famlia Yen. No mais devero falar-Ihe, escrever-Ihe ou de
qualquer forma associar-se a ela. Se desobedecerem s nossas instrues,
tambm vocs sero deserdados. Afectuosamente, Pai e Me Esta carta no
inclua Lydia, pois tambm ela tinha sido deserdada em 1951. James
comentou a propsito que parecia ter sido escrita por pais com .~ -~~
~,,t~ xin rtr si fiai (coraes reduzidos a cinzas), completamente
desprovidos de qualquer sentimento de humanidade. Nenhum de ns enviou
qualquer resposta. Cada um lidou com a situao  sua maneira. Gregory e
eu continumos a ver Susan nas nossas visitas a Hong-Kong. Edgar
ignorou-a da em diante. 197 Quando James regressou a casa para gozar a
sua licena de Vero Susan voltou-se para ele e para Louise em busca de
consolo. As duas mulheres eram aproximadamente da mesma idade e tinham
muitos interesses em comum. James encontrou-se ento numa situao em
que ningum desejava encontrar-se. No podia dar-se ao luxo de cortar
totalmente com os pais. Achava que Susan tinha sido injustamente
tratada, mas confessou que tanto ele como Louise eram obrigados pelo
menos a dar mostras de obedincia s ordens de Niang. Ela tinha
categoricamente proibido James e Louise de se associarem a Susan. Em
breve cessariam todos os contactos. Mesmo naquelas alturas em que Niang
se encontrava em Monte Carlo, os convites de Susan eram recusados, os
seus telefonemas e cartas ficavam sem resposta. Se os dois casais se
cruzavam por acaso em qualquer evento social, James e Louise praticavam
"viso seleccionada" ou "no visualizao", uma prtica corrente na alta
sociedade de Hong-Kong. A nica vez em que entraram em contacto com
Susan foi quando a filha mais velha se candidatou a Maryknoll nove anos
mais tarde, pois necessitavam de uma recomendao de Susan, na qualidade
de membro da direco desta escola. Gregory escondeu de James os seus
encontros com Susan. Certa vez James avistou- o, quando ia no Mercedes
de Susan conduzido pelo motorista em Queen's Road Central. Mais tarde,
num encontro com Gregory, perguntou-lhe por Susan. Todavia, Gregory
negou ter estado com ela, temendo, sem dvida, que James contasse a
histria a Niang. - Aquilo magoou-me muito - queixou-se-me James muito
indignado. - Gregory no confia em mim! O que me interessa a mim se ele
v ou no v Susan? Isso so coisas que s lhe dizem respeito a ele.
Achar ele realmente que eu desceria to baixo, ao ponto de ir contar
histrias nas suas costas s para obter os favores de Niang? A opinio
que Gregory faz a meu respeito ser realmente to baixa? A verdade  que
Gregory j no confiava em James. De tempos a tempos dizia-me: -Tanto
Susan como eu sentimos que James est diferente. Passou-se inteiramente
para o lado de Niang. Por instinto, eu saltava de imediato em defesa do
meu ? "~- San ge (Terceiro Irmo Mais Velho): - Acho que no, Gregory.
Ele tem to bom corao.  outro Ye Ye. 198 No confies tanto nele. No
confies tanto em ningum. Vais magoar-te. Eu ria-me e abanava a cabea.
. Um dia, quando Niang tiver desaparecido - dizia eu a Gregory - hs-de
ver o verdadeiro James, - .~ ~ yi chun bu ran (sem estar contaminado por
um nico gro de poeira). Puro como a mais pula ptala do lrio. Muitos
dos amigos dos tempos da universidade de James tinham regressado a Hong-
Kong. A oferta de emprego abrangia principalmente engenheiros civis e
arquitectos, pois os arranha-cus germinavam, ocupando cada centmetro
de espao livre na cidade. Os moradores de prdios situados nas encostas
sobre o porto sentiram o desconsolo de verem a excelente vista sobre a
baa tapada por estruturas mais novas e mais altas, construdas mais
abaixo na encosta. Torres de escritrios estavam a ser construdas em
novos aterros. Abundavam os empregos, especialmente para homens
bilingues formados em universidades de prestgio no Ocidente. Hong-Kong
foi-se desenvolvendo gradualmente, transformando-se num dos maiores
centros do comrcio mundial com a mais elevada densidade populacional da
histria da humanidade: o nmero colossal de 1E5 000 pessoas por
quilmetro quadrado. Muitos dos nossos colegas que tinham estudado
connosco em Inglaterra fundaram companhias que deram emprego a centenas,
por vezes a milhares de trabalhadores. Era espantoso poder ver a rpida
expanso que as suas empresas ganhavam. Produtos com a etiqueta "Made in
HongKong" eram exportados para os quatro cantos do mundo. E,  medida
que tudo isto acontecia, parecia inacreditvel que James, um brilhante
engenheiro civil formado em Cambridge, continuasse a agir como um
fantoche, executando cegamente as ordens dos seus pais. Niang interferia
em todos os aspectos das suas vidas. Punha objeces s lies de piano
das crianas, ordenou a Louise que deixasse as aulas de pintura,
criticava a sua maneira de vestir e chegava a ralhar com ela por gastar
tempo de mais em visitas  sua prpria me. Como Louise no ousava fazer
frente a Niang, conseguia apenas arranjar pequenas desculpas, por vezes
com a conivncia dos seus prprios filhos. Niang aborrecia-se muitas
vezes com Louise e chegava a ignor-la meses a fio. Nos jantares de
domingo amesquinhava-a  frente de James, que parecia ficar
imperturbvel perante os insultos sistemticos 199  sua prpria mulher.
O pai mantinha-se geralmente  parte e coibia-se de dar opinio, excepto
em assuntos financeiros. James nunca recusava a comida oferecida por
Niang, independen_ temente do que j tivesse comido ou de gostar ou no
do prato. Tornou-se o smbolo da sua subservincia; era como um cesto do
lixo, onde ia parar tudo o que Niang despejava. Bastava que ela deitasse
um olhar aos restos que ficavam nos pratos das crianas, para que James
os metesse na boca. As crianas, normalmente vivas e bem-dispostas,
ficavam encolhidas num silncio tmido. Niang odiava crianas
barulhentas. Estas, por sua vez, detestavam ir a casa da "Vov", onde
no lhes era permitido serem elas prprias. Quando o pai adoeceu pela
primeira vez, em 1976, James, ento com 42 anos, foi finalmente
autorizado por Niang a deixar a Nigria e a fixar a sua residncia em
Hong-Kong durante todo o ano. Porm, todas as grandes decises estavam
sujeitas  aprovao de Niang, que colhia os crditos de cada sucesso e
culpava James por cada fracasso. Durante as minhas visitas frequentes a
Hong-Kong, James e Louise contavam-me as histrias da sua existncia
infeliz. Louise chegou a contar-me que j no suportava os insultos e a
interferncia constante de Niang. Esta, por seu lado, queixava-se
amargamente de Louise, concluindo invariavelmente que era, ela prpria,
infelizmente, a responsvel pelo casamento dos dois. Muitas vezes, ao
longo dos anos, aconselhei James a levar a famlia para os Estados
Unidos e fazer l a sua vida. Para mim era bem claro que a nica
hiptese que tinham de ser felizes era fugirem da teia de Niang. -
Venham viver connosco para Huntington Beach - insistia eu. - Tu s to
esperto, James. s talvez o membro mais esperto da nossa famlia. Podes
fazer qualquer coisa. Podamos divertir-nos e entrar num negcio juntos;
tudo dividido a meias. L fora no  assim to mau. No h nada que seja
to mau na vida como estar debaixo do p de Niang. Ests farto de saber
isso, James! - Aqui  como se fssemos prisioneiros - lamentava-se
Louise. - Sinto-me como se estivesse dentro de um colete-de-foras! Nem
consigo respirar! Vamos embora com ela, James. Estou pronta a fazer seja
o que for, a viver seja onde for. No preciso de muita coisa. - Bem sei
- respondia James, baixando a cabea e servindo-se uma vez mais de
usque -, mas ainda no chegou a hora. 200 20 Fu Zhong Lin Jia Escamas e
conchas dentro da barriga Em Xangai, a tia Baba continuava a trabalhar
no Women's Bank. Morava ainda na casa da Avenida Joffre com Miss Chien e
duas criadas. Miss Chien, a ama de Franklin, tinha medo de ser despedida
e fazia tudo para agradar  minha tia. Levantava-se de madrugada para
encerar o cho de parquet e bater as carpetas. Convenceu a minha tia a
dispensar uma das criadas e tomou a seu cargo as tarefas menos
agradveis, tais como lavar as casas de banho e esfregar o fogo. Lavava
e engomava toda a roupa da minha tia e tratava da limpeza dos
cortinados. Todas as noites, quando a minha tia voltava do trabalho, a
casa brilhava e vinha tambm encontrar uma saborosa refeio preparada
por Miss Chien.  medida que o Inverno se aproximava, ela tricotava
casacos de malha, grossos e coloridos, para a minha tia. Depois de o pai
ter vendido o Buick, em 1948, a garagem fora transformada num armazm.
Corriam tempos de incerteza e por isso a minha tia ia mantendo uma
reserva de artigos de primeira necessidade: sacos de arroz, garrafas de
leo, vegetais secos, peixe salgado, molho de soja. Alm 201 da comida,
a garagem aramazenava ainda muitas caixas de paina e de l australiana.
Dezenas de anos antes, Ye Ye tinha comprado umas aces numa fbrica de
seda de Xangai. Os anos passaram e essa fbrica, bem gerida, prosperou,
exportando paina e importando l australiana. Em vez de receberem os
dividendos em dinheiro, os accionistas recebiam do excedente que havia
em rolos de paina e em meadas de l. O algodo era da melhor qualidade,
muito leve e fofo, prprio para ser utilizado no enchimento de cobertas,
agasalhos, robes e casacos. Porm, em finais de 1951, o dono da fbrica
fora perseguido durante _=_ ~~ _~ F~ as campadas Sara , faa - waa , fn
(Os Trs Antis - Os Cinco Antis). A fbrica foi reorganizada e no houve
mais distribuio de dividendos. A paina tornou-se rara e valiosa. ~~
~,~ _fi t,~ As campanhas San _ fan - wu . fan (Os Trs Antis - Os Cinco
Antis) foram dois movimentos paralelos lanados pelo governo comunista
em 1951. Os Trs Antis eram contra a corrupo, o desper dcio e a
burocracia entre os prprios membros do Partido Comunista. Os cinco
antis eram dirigidos a elementos fora do Partido que tinham tirado
proventos atravs de suborno, fraude, roubo, fuga aos impostos e
obteno de informao por meio de corrupo. Os dois grupos tinham
frequentemente ligaes um com o outro. Foi por esta altura que a minha
tia foi transferida para uma dependncia do banco perto do Cinema
Cathay, apenas a duas paragens d~ elctrico da poaia de casa. Muitos dos
clientes eram residentes da zona que a conheciam pessoalmente, sendo um
deles um alfaiate chamado Yeh. Este alfaiate era dono de uma pequena
loja mesmo ao lado do banco e muitas vezes, quando o movimento era
fraco, aparecia para trocar dois dedos de conversa. Um dia pediu  tia
Baba para entregar um casaco acolchoado a algum que vivia na mesma rua.
A cliente era Miss Chien. Assim que olhou para o casaco, a minha tia
percebeu logo que Miss Chien estava a ser desonesta e que tinha tZ~ ~ ,
`~. fu zhong lin, jia (escamas e conchas dentro da baariga). Como era
seu costume, o alfaiate Yeh tinha colocado dentro de um saco de papel,
juntamente como o casaco, todo o algodo que no chegara a utilizar, bem
como outro material que lhe tinha sobejado. Paina de qualidade to boa
como aquela no estava  venda em lado nenhum em Xangai. Miss Chien fora
roub-la  garagem. Nessa mesma tarde, a tia Baba pediu-lhe que
devolvesse as chaves da casa e descobriu que a antiga ama tinha tambm
andado a surripiar comida e l. Comunicou o roubo ao pai e pediu-lhe que
a despedisse, 202 acrescentando que no mais podia partilhar a mesma
casa com uma pessoa to indigna de confiana. As ordens do pai
fizeram-na retroceder: Miss Chien no deveria, sob pretexto algum, ser
demitida. Pelo contrr io, continuaria a viver na mesma casa com a minha
tia, recebendo o seu salrio e a gratificao habitual por altura do Ano
Novo chins. A minha tia no precisava de se preocupar com os artigos
"desaparecidos". A famlia Yen podia dar-se ao luxo de arcar com a
perda. O pai tinha obviamente uma agenda secreta. A tia Baba e Miss
Chien deixaram de se falar. Miss Chien continuou a tricotar com a l que
tinha acumulado, vendendo camisolas descaradamente e chegando mesmo a
aceitar encomendas. O fornecimento abundante de l importada era o alvo
das invejas de toda a vizinhana.  noite, durante as reunies
infindveis para se discutir as campanhas dos Trs Antis e dos Cinco
Antis, havia muitos olhos na sua hu kou (unidade residencial) que se
fixaram nas agulhas imparveis de Miss Chien, enquanto os defensores do
Partido discursavam sobre corrupo e suborno. Ela nunca mais se dirigiu
 minha tia como Miss Yen, mas falava dela como "essa personagem do
andar de cima". Comeou a receber os membros da sua prpria famlia na
sala do rs-do-cho e a combinar a ementa com a criada, Ah Song.
Tagarelava com os vizinhos e cochichava que os seus senhores em
Hong-Kong a tinham encarregado de "guardar e de lhes enviar relatrios"
sobre a minha tia, dando a entender a existncia de um desequilbrio
mental, uma relao imoral ou pior ainda. Para a tia Baba o ambiente em
casa tornou-se insuportvel. Ah Song comeou tambm a ter laivos das
atitudes insolentes de Miss Chien. Uma manh em que Ah Song estava a ser
particularmente impertinente, a tia Baba despediu-a ali mesmo, num
acesso de fria. A criada foi chorar para junto de Miss Chien, mas no
havia nada que pudessem fazer. A tia Baba contratou uma nova criada, Ah
Yee, que passou a trabalhar s para ela. Montou uma cozinha no quarto
livre do 2. andar e passou a tomar as suas refeies em privado. O
despedimento de Ah Song pareceu, de alguma forma, desencorajar a
arrogncia de Miss Chien. Seguiu-se um perodo de trguas tacitamente
aceites. A anterior hostilidade declarada de Miss Chien foi substituda
por uma fria atitude de cortesia. Continuou a enviar os seus "relatrios
secretos de evoluo semanal" ao pai. No Inverno de 1951, durante uma
auditoria de rotina ao Women's Bank da tia-av, foi feito um inventrio
de todos os bens guardados no depsito 203 gigantesco que o banco
possua. No decorrer deste processo, a tia Baba recebeu uma carta
proveniente da Autoridade de Auditoria Bancria dirigida a Wang Jie-
xiang, a minha av, falecida em Tianjin, em 1943, Nos anos 40, por
diversas razes, o pai comprava frequentemente artigos e propriedades,
colocando-os no nome de solteira de sua me entretanto falecida, Wang
Jie-xiang. No incio deve ter sentido necessidade de usar este nome,
pois era perseguido pelos Japoneses. No entanto, o pai depressa
descobriu que havia vantagens em registar um "fantasma" como dono dos
seus bens tangveis. Era impossvel processar, contactar, ameaar,
subornar ou raptar um fantasma. Esta prtica era comum durante os anos
40, tempos sem lei. O terceiro tio, o terceiro e tambm o irmo mais
novo da minha falecida me, tinha sido aprendiz do meu pai durante a
adolescncia. O pai deu-lhe o nome ingls de Frederick e deixou-o como
encarregado . dos seus negcios em Xangai aps a sua partida para
Hong-Kong. Inicialmente, depois da entrada do governo comunista, os
negcios decorreram sem alteraes. Durante o ano de 1949, provavelmente
seguindo ordens do pai, que previa um aumento do preo de certos bens, o
tio Frederick adquiriu algumas centenas de caixas de cera branca de
abelhas em nome de Wang Jie-xiang a armazenou-as no depsito do banco da
tia-av. Todavia, o preo da cera continuou a baixar. Resolvido a no
vender enquanto o preo estivesse em baixa, decidiu esperar. Dois anos
mais tarde, com a deteriorao do ambiente poltico, o meu tio
acompanhou o meu irmo James a Hong-Kong, transportando consigo a cera
de abelhas que ainda no tinha vendido. Dois meses depois de ter
recebido o aviso da Autoridade de Auditoria Bancria, a tia Baba foi
chamada pelo administrador da sua dan wei (unidade de trabalho). O
registo numa dan wei era absolutamente obrigatrio. A esmagadora maioria
dos trabalhadores permanecia na mesma dan wei durante toda a sua vida,
pois a transferncia para uma outra dmt wei era extremamente difcil.
Durante a reunio, a minha tia ficou surpreendida, visto que o chefe da
sua hu kou (unidade residencial) tambm se encontrava presente. As htt
kous foram inicialmente formadas dentro do esprito dos comits de
vizinhos, ou seja, associaes onde se faziam reunies e se veiculavam
as queixas existentes. Contudo, por volta de 1951, estas associaes
tornaram-se poderosos instrumentos do controlo governamental. Com o
passar do tempo, o registo numa hu kott tornou-se tambm obrigatrio e,
quando o racio- , namento foi institudo, apenas os residentes
registados tinham direito a cupes de alimentos. Entre a dan wei e a hu
kott no havia habitante da cidade de Xangai que no estivesse
registado. Os dois comits interferiam em todos os aspectos da vida
privada dos cidados. Nada passava despercebido. Perguntaram  minha tia
quem era Wang Jie-xiang e onde podia ser contactada. Quiseram ainda
saber por que razo no estava registada. Embora o comit a tratasse de
forma cordial, a minha tia pde perceber pelo grosso arquivador que se
encontrava  sua frente que o assunto era srio. Fez uma narrativa
verdadeira dos factos, tal como os conhecia, e recebeu o aviso de que
voltasse uma semana mais tarde com mais pormenores. Consultou
rapidamente a tia-av, que, por sua vez, tambm se encontrava a braos
com a sua prpria luta. A minha tia foi encaminhada para o Sr. Nee, um
colega de trabalho, cuja tarefa era lidar com agncias governamentais a
tempo inteiro. Alto, agradvel e bem parecido, ele e a mulher
tornaram-se amigos da minha tia e o Sr. Nee compareceu a muitos
interrogatrios como seu representante.  medida que o caso ia
evoluindo, tinham reunies frequentes, com o objectivo de discutir os
ltimos desenvolvimentos. As horas a que o Sr. Nee chegava e partia eram
descaradamente registadas por Miss Chien e devidamente comunicadas aos
meus pais. Aps vinte e oito meses de uma investigao penosa, o Sr. Nee
conseguiu com sucesso resolver o caso da cera das abelhas. Todas as
culpas foram atribudas ao meu tio Frederick, que, como convinha, estava
ausente. A cera foi confiscada e a minha tia repreendida, mas no
castigada. No foi este um feito de somenos importncia, pois ningum
desejava assumir responsabilidades e o Sr. Nee tinha sido enviado de uns
departamentos para os outros como uma bola de pingue-pongue. Alturas
houve em que se sentiu totalmente incompreendido, "como uma galinha a
falar para um pato". O passatempo preferido da tia Baba - jogar
mah.jong-foi considerado decadente. Uma das suas amigas tinha uma cave
e, no incio, o grupo reunia-se l para jogar secretamente mah jortg
silencioso. Para isso, a base de cada uma das peas do jogo fora
cuidadosamente forrada. Para evitar serem descobertos, colocavam um
vigia  porta, mas o risco que corriam era grande e a coragem limitada.
Mudaram rapidamente para o Jogo de brdege, pois os jogos de cartas
continuavam a ser autorizados. Campanha atrs de campanha, a situao no
Women's Bank comeou a piorar. O Movimento de Reforma do Pensamento era
contra os 204 205 proprietrios de terras no campo. Depois vieram Os
Trs Antis (contra os membros do Partido) e Os Cinco Antis (contra os
capitalistas, tais como comerciantes e banqueiros). Em 1952 tiveram
incio as reunies de luta contra a minha tia-av. Estas reunies tinham
como objectivo "ajud-la a interpretar a sua desobedincia no passado" e
"dar-lhe a oportunidade de corrigir os seus erros". Muitos dos seus
anteriores empregados denunciaram_na. Alguns fizeram-no para salvarem a
prpria pele. O veredicto de "culpada" era uma concluso inevitvel. A
minha tia-av foi multada numa grande quantia em dinheiro em 1953 e
forada a demitir-se de todas as suas funes no Women's Bank, mas
autorizada a continuar a viver no seu luxuoso apartamento do 6. andar.
Os privilgios que tinha foram-lhe sendo retirados um a um. Tiraram-lhe
o motorista, depois o carro, a cozinheira e at o direito a usar o
elevador para subir at ao 6. andar. Nessa altura comeou a viver como
um eremita sob priso domiciliria. Subir os cinco lanos de escadas
causava-lhe grandes dores no peito. Mesmo assim, quase todos os dias era
obrigada a subi-los para tomar parte nas reunies organizadas pela sua
har kotr e pela sua antiga dan wei. Com o passar dos anos seguiram-se
outras campanhas, todas elas com o mesmo padro: primeiro surgia grande
propaganda nos jornais, emisses radiofnicas e cartazes de parede a
explicar qual o grupo visado. Depois seguiam-se marchas com tambores e
gongos, msica militar e o som de microfones transmitindo discursos
inspiradores. Vinha mais tarde um sem-nmero de reunies obrigatrias,
durante as quais familiares, amigos, colegas de trabalho e vizinhos eram
encorajados a espiar e a transmitirem informaes uns sobre os outros,
por vezes de forma annima, deixando papis em caixas de recepo. A tia
Baba tinha sempre evitado as luzes da ribalta e no gostava de ~~ ~~
chis . feng tou (estar na primeira linha). Durante este tipo de reunies
escolhia sempre um canto despercebido: uma solteirona de meia-idade,
modesta, inofensiva e pacata que alinhava com a opinio da maioria e no
tinha ponto de vista prprio. Nos tempos em que a tia-av estava a ser
atacada, a tia Baba no disse uma nica palavra em sua defesa, pois
sabia que era essa a nica maneira de sobreviver. Em 1955 chegou o
Movimento Cooperativo Rural, durante o qual os camponeses ricos foram
denunciados. Pouco depois seguiu-se a Campanha do Extermnio dos Contra-
Revolucionrios Escondidos. Todas as 206 indstrias e negcios ainda em
poder de privados foram nacionalizados. Os proprietrios que "mereciam"
recebiam anualmente, e durante dez anos, 7 % do valor lquido do seu
negcio como forma de indemnizao. O problema era decidir quem
"merecia." ou no. Em 1956 a camppanha intitulada "Deixem Desabrochar
Cem Flores" encorajava toda a gente a transmitir as suas crticas ao
governo. A este movimento se chamava "liberdade de expresso". Um ano
mais tarde, durante a campanha antidireitista, aqueles que tinham falado
mais alto contra o regime no ano anterior receberam o castigo por se
terem "atrevido a deitar c para fora os seus gases intestinais". As
vtimas foram na sua maioria professores, artistas e cientistas. 1958
foi o ano do "Grande Salto em Frente", o ano em que Mao Zedong decidiu
aumentar a produo de ao da China e, da noite para o dia, transformar
o pas numa potncia industrial ao nvel internacional. A campanha foi
um fracasso e conduziu ao colapso econmico e a uma onda de fome
generalizada. Arroz, leo, acar, tgf39 e carne eram racionados, o
mesmo acontecendo com tecidos, l para tricotar, enchimento de algodo e
mantas acolchoadas. O governo exercia um controlo apertado. A minha tia
foi subitamente informada de que todas as propriedades do pai que se
encontravam alugadas em Xangai seriam confiscadas. H muito que ela
esperava que isto acontecesse e ficou quase agradecida quando as
autoridades a aliviaram dessa responsabilidade. A tia Baba tinha
frequentemente trabalho que lhe era destinado em sucursais do banco
longe de casa. Tratava-se de um meio de controlo para evitar os
subornos. Para chegar ao seu local de trabalho tinha de apanhar vrios
autocarros superlotados. Tomava as refeies sozinha e ia a reunies das
dan wei, onde no conhecia ningum. Sentia dores de estmago e comeou a
vomitar sangue. Pela "porta do cavalo" - pois pela porta da frente era
completamente impossvel - conseguiu ser vista por um importante
cirurgio no seu dia de folga. Diagnosticou-lhe uma lcera no duodeno,
receitou-lhe uns medicamentos muito eficazes e aconselhou-a a
reformar-se. Ela recuperou, mas ficou muito abalada. Devido  pobreza e
 fome, o governo comeou a encorajar a venda de terrenos para
sepulturas aos chineses que se encontravam fora do pas. A tia Baba
escreveu ao pai, " Produto derivado da soja, com aspecto semelhante ao
do queijo fresco, rico em protenas e utilizado em diversos pratos da
cozinha chinesa. (N. da T.) 207 contou-lhe da sua reforma e pediu-lhe
que lhe enviasse 400 yuan por ms para seu sustento. Pedia-lhe ainda que
comprasse uma parcela de terreno num cemitrio budista nos arredores de
Beijing, onde o .1ng shari (vento e gua, ou geomancia) era auspicioso.
O pai concordou e enviou-lhe de Hong-Kong as cinzas de Ye ye para que
fossem enterradas ao lado das da av. A minha tia viajou para Tianjin,
por forma a tratar do funeral. Esta visita deu-lhe a oportunidade de
visitar Lydia, a minha irm mais velha, pela primeira vez desde a
libertao. Em 1958, Lydia e a famlia ainda estavam a viver na casa que
o pai tinha no n. 40 da Rua Shandong. Samuel, o marido, era professor
na Universidade de Tianjin e Lydia estava em casa a tratar dos dois
filhos do casal. A tia Lao Lao, de 72 anos, tambm vivia com eles. Esta
irm da me de Niang, j falecida, era uma solteirona simptica e
simples, que no sabia ler nem escrever. No tinha os ps ligados e
falava mandarim com um forte sotaque de Shandong, o que a tornava quase
incompreensvel. A tia Baba s precisou de alguns dias para transferir o
corpo da minha av para a sua nova sepultura, mas teve tempo suficiente
para perceber que Lydia era uma mulher profundamente infeliz. A minha
irm mais velha tinha um profundo ressentimento por saber que todos os
seus irmos estavam a estudar na universidade em Inglaterra, enquanto
ela estava atolada num casamento sem amor e na China comunista.
Descarregava a sua frustrao em Samuel e atirava-lhe insultos. Ele
nunca respondia, mas saa a correr para fora de casa a meio de uma
qualquer tirada em que Lydia ainda gritava "Ovo de tartaruga!",
"Odeio-te!" ou "Espero que morras!". Ainda pior era a forma como
tratavam a tia Lao Lao. Juntamente com uma criada, fazia praticamente
todo o trabalho de casa, correndo de uma tarefa para outra e no se
atrevendo a dizer fosse o que fosse. Sofria de artrite, dores no peito e
falta de vista. Lydia implicava com ela sempre que lhe apetecia, dando
murros na mesa e insultando-a aos gritos. Em vrias ocasies chegou
mesmo a bater-lhe. Samuel ainda ajudava a mulher, fazendo comentrios
como "O que  que uma Prosperi faz em casa da famlia Yen?",
esquecendo-se que ele prprio era to Yen como a tia Lao Lao. 208 A
minha tia tentou chamar Lydia  razo, mas sem xito, pois ela vivia
corroda pela inveja e pela amargura. Suplicou  minha tia que
escrevesse ao pai em seu nome, pedindo-lhe ajuda. Quando regressou a
Xangai, a minha tia escreveu a carta prometida, mas nunca recebeu
qualquer resposta. Entre 1959 e 1966 os anos decorreram com relativa
calma para a tia Baba. A escassez de alimentos foi-se desvanecendo e por
volta de 1963 j a maioria dos produtos estava acessvel. As reunies
polticas tornaram-se menos frequentes. De manh j no precisava de
correr para apanhar um lugar no autcarro; podia ficar na cama e
deliciar-se com o People's Daily e o seu ch quente. Muitos dos seus
amigos tambm se reformaram e havia um grupo que se juntava regularmente
para jogar brdege. Chegaram mesmo a juntar os cartes de racionamento
para poderem voltar a fazer jantares. No Vero de 1966, grupos de
Guardas Vermelhos varriam as ruas de Xangai  procura de sarilhos.
Alteravam os nomes das ruas: a Bund passou a chamar-se Rua da Revoluo;
partiam montras e janelas; pilhavam casas; assaltavam quem ia na rua. A
tia Baba j no se atrevia a sair. As habituais marchas, desfiles e
propaganda nos jornais eram indcios de que uma nova purga poltica
estava j em marcha. Na rua da tia Baba havia cartazes denunciando os
"inimigos da Revoluo Cultural". As reunies das hc~ koz~ eram agitadas
e chegavam a durar todo o dia e toda a noite. No incio as vtimas foram
essencialmente professores e membros da alta hierarquia do Partido. No
dia 14 de Setembro de 1966, vinte e cinco Guardas Vermelhos bateram
estrondosamente  porta de casa da tia Baba. Eram adolescentes, rapazes
e raparigas, acompanhados por alguns homens na casa dos 20. Algumas das
crianas frequentavam escolas secundrias das redondezas e conheciam a
minha tia. Ordenaram a todos que se ajoelhassem no cho. Miss Chinn
batia com a cabea no cho e dizia que era grande amiga da minha tia.
Esbofetearam-na com tanta fora, que dois dos seus dentes saltaram.
Gritaram-lhe que admitisse o seu verdadeiro estatuto. Quando ela
respondeu "criada", gozaram-na e chamaram-lhe mentirosa, mas deixaram de
lhe bater. Voltaram-se, em vez disso, para a minha tia, a dona da casa.
Partiram-lhe a dentadura, puxaram-lhe os cabelos, bateram-lhe com os
cintos e deram-lhe pontaps at cair; em seguida esmurraram-lhe as
costas j feridas. 209 Fizeram uma fogueira no quintal, queimaram todos
os livros, lbuns de fotografias e quadros at tudo ficar reduzido a um
monte de cinza na relva do jardim, molhada por um sbito aguaceiro de
Setembro, Obrigaram-na a tirar a chave que trazia ao pescoo e a abrir o
cofre, mas ficaram furiosos ao descobrirem que no havia dinheiro nem
jias, mas somente as cartas de Ye Ye e as minhas fichas de avaliao e
recomendaes da escola primria. Antes de sarem, partiram as
antiguidades, reviraram a moblia, rasgaram as cartas que a tia Baba
guardava como um tesouro, bem como as minhas fichas de avaliao,
partiram objectos, despedaaram as cortinas, romperam os colches e
cortaram a roupa. Miss Chinn recebeu ordens para sair no prazo de vinte
e quatro horas. - Mas para onde hei-de eu ir? - lamentava-se ela. - Vivo
aqui h vinte e dois anos, muitos antes de a maior parte de vocs ter
nascido. No tenho direito a pelo menos um quarto at morrer? - Pr
merda! Fora daqui velha estpida e ignorante! De onde  que s? - Nasci
em Hangzhou. - Ento volta para Hangzhou amanh! No s de Xangai nem
desta casa! Mais tarde, e pela primeira vez em quinze anos, Miss hien
falou para a tia Baba num tom educado. Disse-lhe que lamentava toda
aquela selvageria, ajudou-a a ligar a cabea que tinha sido ferida com
vidros e pediu que lhe emprestasse umas malas. A minha tia deu-lhe uma
velha mala e despediram-se amigavelmente. Uma semana depois a tia Baba
recebeu ordem para se mudar para um quarto na casa de um vizinho que
ficava situada mesmo por detrs do seu jardim. Entretanto houve outras
famlias que se mudaram para a casa onde vivia e onde foi proibida de
entrar. A sua conta bancria foi congelada e as cartas do pai no lhe
eram entregues. O governo dava-lhe 15 yuan por ms para despesas de
sobrevivncia e ordenaram-lhe que usasse uma faixa preta sobre o peito
com a inscrio ~ % ~~ hei litt lei (seis categorias negras) em
caracteres bem visveis. Era agora uma "negra" desprezvel. Os negros
eram os capitalistas, proprietrios de terras, direitistas, camponeses
ricos, contra-revolucionrios e criminosos. Faziam os piores trabalhos e
eram sempre os ltimos a serem atendidos nas filas para comida ou
outras, especialmente quando os produtos eram escassos. Alguns eram
abandonados ao sofrimento e por pezes  morte, estendidos no cho dos
hospitais  espera de cuidados mdicos. Todas as escolas foram
encerradas. Autocarros e comboios estavam repletos de Guardas Vermelhos
que viajavam para libertarem toda a China. No havia distribuio de
correio e os telefones particulares foram desligados. Os templos
budistas e as igrejas crists foram destrudos. Muitos dos que residiam
nas cidades foram enviados para o campo, a fim de "reformarem o seu
pensamento atravs do trabalho ~~duo e de aprenderem com os
camponeses". Embora tivesse sido rotulada como "negra", a minha tia no
foi mandada embora. Ela pensava que Xangai tinha enlouquecido, mas
atribua todas as culpas  Revoluo. Acreditava que Mao Zedong, Zhou
Enlai e o resto dos da ren (os grandes) executavam um plano misterioso
para libertarem a China. As condies no melhoraram at ao Inverno de
1971. Corriam rumores de que Lin Biao, ministro da Defesa e
aparentemente o sucessor de Mao Zedong, tinha morrido em Outubro. Lin
era um general comunista cujos exrcitos tinham participado na
libertao da Manchria, Beijing e Tianjin. Chegou a ser o nmero dois
durante a Revoluo Cultural, altura em que muitas das altas patentes do
Partido Comunista foram eliminadas. A verso oficial da sua morte conta
que Lin tentara assassinar Mao, mas falhara. Tentara ento escapar para
a Rssia com a mulher e o filho, mas o avio despenhara-se sobre a
Monglia. Depois da morte de Lin, as reunies polticas na hu kou da tia
Baba tornal-asn-se visivelmente menos agitadas. Uma noite, todos
receberam ordens para rasgar e destruir as duas primeiras pginas do
Pegttetto Livro Vermelho, de Mao, que continham o prefcio escrito por
Lin Biao. Aps o reconhecimento oficial da China pelo presidente Nixon,
a vida do chins comum melhorou substancialmente. 1972 foi um ano de
viragem: houve mais alimentos e menos reunies polticas; as contas
bancrias foram descongeladas e o subsdio mensal do pai voltou a chegar
a Xangai. A tia Baba escreveu ao pai, suplicando-lhe que enviasse uma
mensalidade  tia- av. Como todos os outros, ela tinha sido expulsa do
seu luxuoso apartamento pelos Guardas Vermelhos em 1966. Os seus
depsitos bancrios foram permanentemente congelados e a sua
transferncia proibida. Mal conseguindo sobreviver com os quinze yuan
mensais atribudos pelo governo, ela tinha frequentemente frio e fome.
210 Depois de receber a carta da tia Baba, o pai passou a enviar
regula._ mente dinheiro  tia-av at  sua morte por pneumonia, trs
anos mais tarde. Em 1974,  campanha "Criticar Lin Biao" seguiu-se uma
outra: "Criticar Confcio". Confcio era alcunha do primeiro-ministro
Zhou Enlai, inventada pela Sr.a Mao. A hu kou da minha tia tentou avivar
o entusiasmo durante as reunies. Contudo, e apesar de a participao
ser obrigatria, muitos faltavam alegando motivos de doena. As pessoas
estavam pura e simplesmente cansadas destas campanhas interminveis. Em
Abril de 1976 houve uma manifestao de massas na Praa de Tiananmen
para assinalar a morte de Zhou Enlai. Era um sinal de apoio a Deng
Xiaoping (o protegido de Zhou Enlai) e de crtica camuflada  Sr.a Mao.
Polcias e soldados armados usaram bastes para dispersar a multido.
Milhares de manifestantes desarmados foram espancados, alguns ficaram
feridos e outros foram presos. Foi este o primeiro incidente de
Tiananmen. Em Julho de 1976, um violento tremor de terra que atingiu 8,0
na escala de Richter abalou Tangshan, uma cidade industrial nas
proximidades de Tianjin. Pereceu mais de um milho de pessoas. Na China
dizia-se por toda a parte que o tremor de terra era um sinal do fim de
Mao Zedong. Mao morreu dois meses depois. A 8 de Outubro de 1976, na rua
onde a tia Baba morava, foi convocada uma reunio da hu koa~ para depois
do jantar. O objectivo era anunciar a priso do "Bando dos Quatro", uma
designao inventada por Mao Zdong para descrever a Sr.a Mao e trs dos
seus seguidores de Xangai -Yao Wenyuan, Zhang Chunqiao e Wang Hongwen -
, reunidos para liderarem a Revoluo Cultural. O seu poder fra
absoluto, pois haviam contado com o apoio de Mao at  morte deste. No
dia seguinte realizou-se uma parada comemorativa da queda da Sr.a Mao. A
minha tia no participou alegando motivos de sade. Deng Xiaoping foi
reabilitado e nomeado vice-primeiro-ministro em 1977. A China comeou a
abrir as portas ao mundo exterior e deu-se incio  era das reformas.
212 21 Tian Zuo Zhi He Unio paradisaca Depois de ter obtido o divrcio
em 1971, a minha carreira continuou a evoluir bem. Depois das previses
sombrias de mdicos mais velhos, segundo as quais, num espao de cinco
anos, a medicina privada seria uma coisa do passado, a legislao sobre
a Medicare veio ainda trazer, sem se esperar, uma espcie de bonana
para mdicos como eu. Como anestesista, os meus honorrios baseavam-se
numa tabela publicada pela Sociedade Americana de Anestesiologia. Trs
anos depois de eu comear a exercer, os honorrios tinham subido 20 %.
Contudo, a maior parte dos pacientes no tinha conscincia deste grande
aumento, porque a despesa no era paga do seu bolso. As despesas
relacionadas com a sade eram automaticamente reembolsadas pela
Medicare, bem como por outras seguradoras. Na realidade, a discusso dos
honorrios com o mdico era considerada um sinal de falta de educao.
No incio dos anos 70, a discriminao racial e sexual fazia-se ainda
sentir claramente. A camaradagem que existia na sala de operaes 213
desvanecia-se quando os procedimentos cirrgicos estavam terminados.
Entre os meus colegas mdicos havia uma espcie de hierar_ quia
implcita na disposio dos lugares para o almoo. No topo da mesa
sentavam-se os homens brancos, "produtores primrios" em prestigiadas
especialidades cirrgicas. Seguiam-se os internos. Depois vinham os de
clnica geral. No fundo da lista situavam-se os mdicos baseados nos
hospitais: radiologistas, patologistas e anestesistas, especialmente os
que no eram brancos e que, como eu, eram mulheres. A nossa falta de
popularidade devia-se particularmente ao facto de no termos os nossos
prprios pacientes, mas, como aves de rapina, vivermos dos pacientes dos
outros. Alm disso, a nossa base era o hospital, no tnhamos
consultrio alugado e nem dispnhamos de pessoal de enfermagem,
originando, por conseguinte, custos baixos: Uma vez que o nmero de
admisses que um mdico fazia no hospital e o seu padro de referncia
determinavam o grau de ateno e respeito que lhe era concedido pelos
colegas, os nossos pares podiam seguramente ignorar-nos e centrar-se
naqueles que se encontravam em posio de lhes enviar pacientes
susceptveis de lhes aumentarem a renda. Esta atitude partia do conselho
de administrao e fazia-se sentir at aos funcionrios. Nos anos 60 e
princpio dos anos 70, as mdicas eram ainda raras. Tornei-me amiga de
Alcenith Crawford, uma oftalmologista divorciada. Trinta anos mais velha
do que eu, Alcenith tomou-me sob a sua proteco. Numa poca em que era
difcil at para as mulheres mais privilegiadas estudarem Medicina,
Alcenith fizera a faculdade recorrendo a enprstimos e trabalhos por
fora. O quadro de pessoal do West Anaheim Community Hospital, onde eu
trabalhava, tinha apenas mais duas mdicas. Elas costumavam sentar-se no
refeitrio dos mdicos e queixr-se dos respectivos maridos. Na verdade,
todas ns tnhamos uma vida privada atribulada. Alcenith dava esta
explicao: - Ns, mdicas, temos casamentos infelizes porque, na nossa
cabea, somos as estrelas da nossa famlia. Sobrevivemos s agruras da
Faculdade de Medicina e esperamos encontrar a nossa recompensa em casa.
Temos de lutar contra tudo e contra todos e, quando, finalmente,
conseguimos acabar o curso, poucas so aquelas que continuam tmidas. 
preciso um homem muito especial para aguentar isso. Os homens gostam de
se sentir importantes e de ser inequivocamente os 214 chefes da famlia.
Um homem no gosta de esperar pela sua mulher enquanto ela opera para
salvar uma vida. O que ele espera  que ela e os filhos se lhe agarrem
ao pescoo. Todavia, ns habitumo-nos a dar ordens nos hospitais e a
que nos obedeam. Uma vez chegadas a casa,  difcil adaptarmo-nos. Alm
disso, na maior parte das vezes ganhamos mais do que os nossos maridos.
 preciso um homem generoso e excepcional que nos perdoe tudo isto. O
sucesso que fiz na minha carreira no me compensava pelo desmoronar do
meu casamento. Na minha cabea, o divrcio equivalia a um fracasso
escuro e profundo. Em frente dos meus colegas mantinha a fachada da
mdica auto- suficiente, mas c por dentro sentia um vazio doloroso. A
minha amiga Alcenith compreendia o vazio da minha vida quando me via a
funcionar como uma mquina bem oleada  qual faltava uma pea. Decidiu
arranjar-me o que me faltava e preparou- se um encontro surpresa. Ele
era o professor Robert Mah, um sino-americano amigo do filho e que
ensinava na UCLA. Estava combinado encontravmo-nos em frente da School
of Public Health. Estvamos em 1972 e a tarde era de Primavera, daquelas
que so tpicas da Califrnia do Sul: quente, soalheira e enevoada.
Embora tivesse seguido as indicaes pormenorizadas que o professor me
dera ao telefone, perdi-me. Quando perguntei ao funcionrio de uma
estao de servio qual era a melhor maneira de entrar na UCLA, ele
respondeu-me que era estudando! Quando cheguei, com trinta minutos de
atraso, vi-o de p nas escadas a observar a estrada. Fiquei entusiasmada
ao reparar que era bastante bonito e alto, de cabelo negro, espesso e
brilhante e ar de rapazito. Sorriu e disse: - Chegou ao stio certo. Eu
sou o Bob. Bob nascera na Califrnia e nunca pusera os ps na China.
Nascidos na aldeia de Toishan, provncia de Guangdong, os pais haviam
emigrado para S. Francisco em 1906. Sem estudos e sem preparao
especial para um trabalho especfico, ganharam o seu sustento num
restaurante em Fresno, que era na poca uma pequena comunidade rural com
cerca de 30 000 habitantes no vale de San Joaquin. Convertidos ao
catolicismo, tiveram oito filhos (seis rapazes e duas raparigas), sendo
Bob o mais novo. Quando ele tinha 3 anos, o pai morrera de ataque
cardaco, deixando  mulher muito pouco dinheiro e muitos filhos, o mais
velho dos quais tinha ento 17 anos. Com tantas bocas para alimentar, a
215 me de Bob no teve outra alternativa seno recorrer  assistncia
social. Quando Pearl Harbour foi atacado, o pequeno Bob, ento com 9
anos, foi obrigado a usar um distintivo onde se podia ler "Eu sou
chins", para que se diferenasse dos seus colegas japoneses e evitar
que fosse rotulado como "inimigo". Mesmo dessa idade sentira_se confuso
e zangado por ver que as crianas japonesas eram insultadas e
internadas. A sua prpria famlia tambm teve de combater os
preconceitos, para alm da pobreza. As crianas tornaram-se extrema_
mente leais umas para com as outras e para com a me. Ela encorajava_
-os a participarem no esforo de guerra e a serem bons americanos. Dois
dos irmos mais velhos de Bob alistaram-se. Ed tinha ento 19 anos e
deixara a Universidade de Stanford para servir o seu pas, tendo sido
enviado para a Alemanha. Isolado num abrigo com nove soldados feridos,
resistiu sozinho a um contra-ataque alemo. Pela bravura e sucesso
herico foi-lhe atribuda a Cruz de Bronze. Outro dos irmos de Bob,
Earl, no foi aceite no exrcito por ter uma mo deformada. Cursou
engenharia em Fresno State College ao mesmo tempo que trabalhava a tempo
inteiro em folhas de metal nas Rohr Industries. Assim que se tornou
economicamente exequvel, a me pediu a Earl que escrevesse uma carta 
assistncia social cancelando os benefcios que at ento recebiam. Como
complemento dos seus parcos ganhos, a me plantava legumes chineses no
quintal da casa de West Fresno, doando parte dos lucros para o esforo
de guerra. A sua sade era frgil e, pouco depois de a guerra ter
acabado, sofreu um forte ataque que a deixou deficiente e afsica. Os
filhos mais velhos tomaram ento, em conjunto, a responsabilidade de
olhar pela me e pelos dois irmos mais novos. A irm mais velha de Bob
ficou em casa para poder cuidar permanentemente da me. A outra irm,
que ainda no tinha terminado o liceu, ofereceu-se para fazer os
trabalhos domsticos e para cozinhar. Alm de frequentar a faculdade e
de ter um emprego exigente como engenheiro, Earl ainda arranjou tempo
para cuidar de Bob, corrigir os seus trabalhos de casa, arranjar-lhe os
almoos e acord-lo para que no perdesse o autocarro da escola. Os
outros juntavam os cheques dos seus ordenados para pagarem as despesas
da casa e a faculdade de Bob. Com esta ajuda, Bob licenciou- se em
Microbiologia e tornou-se professor. No pude evitar a comparao entre
este amor e apoio mtuo e as discrdias e 216 invejas que grassavam na
minha prpria famlia. Enquanto a famlia tinha ajudado Bob a realizar
as suas ambies, eu sentia que tudo o que tinha o havia conseguido
apesar da minha famlia. Enquanto ele tinha tido amor em abundncia, eu
estava sequiosa de afecto. Quando Bob me convidou para jantar em sua
casa, percebi que h j dois dias que andava a preparar aquela refeio.
Cortara e lavara legumes frescos; tirara todos os pedacinhos de gordura
da carne de porco e da galinha, deixando-os a marinar em taas
separadas. Pensara especialmente bem na escolha dos vinhos que
acompanhariam cada um dos pratos. Enquanto partilhvamos esta refeio
preparada com tanto amor, atrevi-me a ter esperana de que estivssemos
destinados um ao outro. Ser que os deuses iriam finalmente sorrir para
mim? Seria esta a ~.4~.z,  tian za~o zhi he (unio paradisaca) cantada
pelos poetas T'ang? Nessa noite contei-lhe a minha infncia. Foi como se
uma torrente tivesse irrompido sem eu conseguir parar. Ele estava
sentado e segurava-me na mo e eu falei de toda a minha dor e de toda a
minha ansiedade. Eu era como um ser estranho, marginalizado, ansiando
ser aceite; o patinho feio ansiando transformar-se num bonito cisne; a
filha chinesa desprezada e indesejada, obcecada pela empresa de fazer
que, de algum modo, os meus pais sentissem orgulho de mim. Um dia,
certamente, se eu tentasse com todas as minhas foras ajud-los na
adversidade, eles haveriam de me amar. Como eu estava a trabalhar o mais
possvel e aceitava chamadas de emergncia trs vezes em cada quatro
noites, no dispunha de muito tempo para ver Bob, excepto nas raras
noites em que estava de folga. Muitas vezes o meu bip apitava nos
momentos mais inoportunos, chamando-me  sala de operaes, como se uma
corda me puxasse. As operaes prolongavam-se frequentemente noite
adentro, mas, qualquer que fosse a hora a que regressasse a casa,
encontrava o jantar feito e Bob  minha espera. Em toda a minha vida
nunca encontrei ningum que se importasse tanto comigo nem nunca me
senti to acarinhada. Ele era bom no s para mim, mas para o meu filho
Roger, acompanhando-o aos jogos de basquetebol e participando em
actividades da escola mesmo quando eu me encontrava nas urgncias. Mas,
acima de tudo, ele dava-me a estabilidade pela qual eu sempre tinha
ansiado. Bob foi o nico homem que conheci que professava o seu amor,
no atravs de 217 palavras, mas atravs de todos os seus actos. No
final do ano, pelo seu aniversrio, enviei-lhe um carto. "O dia em que
nasceste foi o dia mais feliz da minha vida. O teu amor protege-me dos
piores golpes da vida. Junto de ti sinto-me completamente segura.
Obrigada por me apoiares sempre." Com alguma apreenso, escrevi aos meus
pais, pedindo-lhes permisso para me casar com Bob. Juntamente com o seu
casto de Natal anual vinha uma pequena mensagem: "Ainda bem que
arranjaste tempo para nos escreveres antes do teu casamento", escrevia o
pai, relembrando-me a minha negligncia da primeira vez. "Bob parece ser
um bom homem e com uma boa profisso. Contudo, a que propsito  que,
com essa idade, ainda no se casou? Ter tendncias homossexuais?
Assegura-te de que todas as tuas propriedades permanecem no teu nome."
Casmo-nos pouco tempo depois. A nossa filha Ann nasceu dois anos mais
tarde. Por fim senti que tinha chegado a casa, mas passou-se muito tempo
primeiro que me convencesse de que ningum me ia tirar a minha
felicidade. Mudmo-nos para uma nova casa em Huntington Beach, situada
num lote em frente ao mar. A porta da frente abria-se para uma escadaria
em arco, suspensa sobre um trio cheio de bambus, palmeiras,
filodendros, piteiras e at um gi~iseng. Era uma casa grande, cheia de
luz e espao e foi amor  primeira vista. 218 22 Si Mian Chu Ge Cercados
por todos os lados Durante os anos 60 e no incio dos anos 70, os
negcios do pai foram sempre imensamente lucrativos. Em Hong-Kong
construiu vrios blocos de apartamentos e algumas vivendas grandes, que
vendeu com xito. O seu edifcio industrial em Cha Wan, construdo em
terreno adquirido a baixos preos durante as sublevaes de 1966 em
HongKong, estava totalmente alugado. Possua ainda duas toneladas de
ouro, que estavam depositadas em segurana em bancos na Sua. No Vero
de 1976, o pai e Niang foram, como habitualmente, para Monte Carlo,
procurando fugir do calor. Nas lies particulares de francs, o pai
participava cada vez menos, recusando-se a repetir as frases da
professora, no obstante o entusiasmo que esta tentava transmitir-lhe.
As sesses transformaram-se em dispendiosas conversas dirias entre
Niang e a professora, com o pai de olhar vazio posto no Beginner's
French, Part I. Em eventos sociais, o pai foi-se tornando cada vez mais
retrado. Durante o baile anual da Cruz Vermelha, oferecido pela
princesa Grace, 219 recusou-se a danar com quem quer que fosse. Em casa
ficava sentado horas a fio a ler, ou a fingir que lia, o Wall Street
Journal e o International Herald Tribune. Eram mais as vezes em que
dormitava do que aquelas em que no o fazia. Certa vez, quando conduzia
pelas estradas do Mnaco cheias de curvas, raspou a parte lateral do seu
Mercedes. Quando Niang lhe fez perguntas sobre o assunto, o pai
respondeu que aquela montanha nunca l tinha estado. Enquanto ela
discursava intempestivamente sobre a sua hu ttt (confuso), descobriu
com surpresa que ele adormecera. Quando regressou a Hong-Kong, deixou de
pintar o cabelo. Assinava o nome com dificuldade e treinava-se durante
horas seguidas com a porta trancada, procurando manter a mo firme.
Depois da sua morte eu descobri uma pilha de blocos de apontamentos
escondidos por detrs de umas toalhas. Todas as pginas estavam
diligentemente preenchidas com a sua assinatura.  medida que ia lendo o
seu nome uma e outra vez, apercebia-me perfeitamente do espanto e da
vergonha que deveria ter sentido. De manh levantava-se cada vez mais
cedo. Nos dias em que ia jogar golfe chamava o motorista s 4 da manh
para que o levasse ao clube, em Stanley. Quando l chegavam, era ainda
noite cerrada e dormitavam no carro, enquanto esperavam que os portes
se abrissem, s 6 horas. No incio do 1977 recebi uma carta de Niang. Um
conceituado mdico de Hong-Kong tinha aconselhado o pai a deslocar-se 
Universidade de Stanford para exames mdicos. Convidei-os a ficarem em
nossa casa. Embora estivesse seriamente preocupada com o pai, fiquei
muito feliz por terem recorrido a mim para os ajudar. E foi deste modo
que, com receio e emoo, eu e Bob tirmos o dia para os irmos esperar
ao aeroporto. Ao ver o pai com um aspecto to frgil e enfraquecido,
chorei. O seu cabelo embranquecera completamente. O olhar era vazio e
assustadio. Cumprimentmo-nos formalmente, com um aperto de mo. Bob
tinha conhecido os meus pais trs anos antes, numa visita de dois dias a
Monte Carlo, e ficou chocado com a mudana drstica na aparncia de
ambos. Embora impecavelmente vestida com um casaco de caxemira lils e
usando diamantes e prolas, Niang aparentava ter muito mais idade do que
os seus 56 anos. Ginger, a nossa governanta, abriu-nos a porta da frente
quando chegmos. Contra um fundo de 220 grandes bambus na entrada cheia
de frescura, estavam os nossos dois filhos, Roger e Ann, que correram
para ns, ansiosos por cumprimentarem os avs. O pai atravessou a
ombreira, parou e soltou um pequeno suspiro de prazer perante a vista
maravilhosa sobre o porto, atravs de uma entrada elevada, brilhante e
repleta de plantas. A expresso de orgulho do pai deve ter sido de mais
para Niang, que exclamou num tom irritado: - Joseph, entra e vai-te
sentar! Para onde  que estas a olhar?  s a casa de Adeline! Bob e eu
deslocmo-nos de avio a S. Francisco para os acompanhar. Alugmos um
carro e registmo-nos no hotel Holiday Inn, antes de nos dirigirmos ao
centro mdico onde o pai deu entrada. Fez diversos testes,
inclusivamente um TAC. Depois levaram-nos para o consultrio do
professor Hanbury, onde o pai tinha uma entrevista pessoal com o mdico.
O pai conseguiu responder a todas as perguntas de rotina at ao momento
em que o professor Hanbury lhe pediu que subtrasse 7 de 100. Fez-se uma
curta pausa. Finalmente, e com grande alvio meu, o pai respondeu: -
Noventa e trs. - Por favor, continue. Quanto  93 menos 7`? O pai
pensou, pensou. Comeou a suar. O rosto tornou-se vermelho. No
conseguia dar a resposta. J em desespero de causa, explodiu: - Porque 
tudo to difcil para mim'? Eu costumava resolver estes problemas
facilmente. Agora -me impossvel. Porqu, doutor, porqu`? Senti-lhe o
medo e desejei de todo o corao poder fazer alguma coisa que o
sossegasse. Olhei para Niang, de p, com uma expresso aborrecida, e
tentei passar-lhe o brao em redor dos ombros, mas ela afastou-se,
franzindo ligeiramente o sobrolho. - Lamento, mas isso faz parte do
processo de envelhecimento - respondeu o professor Hanbury. - Vamos
deixar as matemticas de lado, Sr. Yen. Quantos filhos tem? Novamente o
pai hesitou. Tentou responder por duas vezes, mas no foi capaz. As
lgrimas caram-me pela cara abaixo. Foi de mais para mim. Bob
segurou-me na mo e levou-me l para fora. Limpou-me as lgrimas com um
leno de papel. 221 - No chores. Afinal aquela pergunta sobre os filhos
era difcil. O teu pobre pai j no sabe, provavelmente, o que h-de
pensar, Conta as filhas deserdadas ou no? E, alm disso, as que ontem
foram deserdadas podero voltar a cair nas suas boas graas amanh. O
pai submeteu-se a novos testes e ficou no centro durante alguns dias. O
professor Hanbury informar-nos-ia do diagnstico final pelo correio.
Colocmo- nos na bicha do sector administrativo para saldar as contas e
obter os papis da alta. Por ser cidado britnico de HongKong, sem
seguro mdico vlido para a Amrica, fomos informados de que deveramos
pagar imediatamente a quantia total. Ao receber a factura, pude perceber
que Niang ficara perplexa com o montante. No estava habituada s
tarifas mdicas americanas. Suavemente, retirei-lhe os papis das mos e
eu prpria passei um cheque na totalidade da soma, prometendo-lhe que
todas as despesas mdicas do pai na Amrica ficariam a meu cargo e de
Bob. No Aeroporto de S. Francisco, enquanto tomvamos qualquer coisa no
coffee shop  espera do voo para Los Angeles, Niang levantou-se para
comprar uns postais. O pai sentia-se aliviado, quase bem-disposto, com o
final de todos os exames mdicos. Para lhe afastar os pensamentos da
doena comecei a fazer-lhe perguntas sobre o seu passado e quis saber
qual fora a melhor poca de toda a sua vida. Pensou durante alguns
momentos. - Foi quando eu era ainda um jovem em Tianjin e vocs eram
todos muito pequenitos. Tinha acabado de fundar a minha prpria
companhia e o negcio ia bem. Comecei a exportar nozes e andava de campo
em campo para inspeccionar a qualidade dos fiutos. Costumava comear
esta volta de madrugada e, quando dava por isso, j tinha escurecido e
estava na hora de voltar a correr para casa para o jantar. Era ento que
percebia que estava esfomeado e que tinha passado todo o dia sem comer.
Esse foi para mim um tempo muito feliz. - Conte-me coisas sobre a
Adeline! - pediu Bob. - Como era ela quando era pequenina? - Era um
ratinho de biblioteca e excelente na escola - respondeu o pai com um
sorriso. - Habituei-me de tal forma a que fosse a primeira da aula que,
quando ficava em segundo lugar, censurava-a por isso. O seu peito
enchia-se de orgulho e os meus olhos estavam marejados. 222 Lembro-me de
uma vez em que ela ganhou um concurso de escrita que era aberto a todas
as escolas do mundo em lngua veicular inglesa... A voz tornou-se-lhe
mais fraca. Vi-lhe no rosto uma expresso de desconforto e o seu olhar
fixou-se para alm de ns. Bob e eu voltmonos e vimos Niang de p,
mesmo atrs de mim. Estvamos to absortos que ningum a tinha ouvido
aproximar- se. - Bem! - disse ela secamente. - De que  que esto a
falar? Nenhum de ns sabia o que responder, pois no queramos ser
desagradveis. - Joseph! - exclamu ela, irritada. - O que  que foi? O
gato comeu-te a lngua? O pai permaneceu mudo e quedo, mas subitamente
pareceu diminuir. Enquanto estvamos na fila de embarque, veio-me 
ideia que, com o passar dos anos, o silncio se tinha tornado a sua
couraa. De regresso a casa, em Huntington Beach, o estado de esprito
do pai melhorou o suficiente para que sugerisse que convidssemos James
para passar umas pequenas frias connosco. Pouco depois da chegada do
meu irmo recebemos finalmente a carta do professor Hanbury. Niang j
tinha sido prevenida pelo mdico em Hong-Kong e os seus receios acabaram
por se confirmar, quase como um anticlmace. O pai sofria de atrofia
generalizada do crebro, devido  doena de Alzheimer. O TAC indicava
que o seu crebro j s apresentava dois teros do tamanho normal. Era
um diagnstico sem esperana, que previa a deteriorao progressiva e
irreversvel das suas faculdades mentais, at ao ponto de se tornar num
ser vegetal. Em tudo o resto estava saudvel e no sofreria dores
fsicas. No havia tratamento conhecido, apenas medidas de apoio. Sentia
boca a secar  medida que ia lendo a carta por cima do ombro de James.
Lancei os olhos a Niang, que estava sentada ao lado de James e perguntei
a mim prpria se ela estaria consciente das trgicas implicaes deste
sofrimento. Levantou-se de repente e foi para o seu quarto, murmurando
que tinha chegado ao limite das suas foras e que precisava de
descansar. James e eu ficmos sozinhos. Nessa tarde falmos de muitas
coisas, pois as implicaes da senilidade do pai e o eventual controlo
dos negcios por parte de Niang estavam iminentes. Aconselhei-o, uma vez
mais, a tomar conta da sua prpria vida. 223 - No posso abandon-los
agora. - disse ele. - No justamente agora quando esto s~ ~u ~~ si
ntian chu ge (cercados por todos os lados). No tm mais ningum. Ainda
que muito me custasse, assenti. - Alm do mais - confessou ele - a
velhota est a melhorar. Ontem disse-me uma coisa muito interessante: "O
teu pai tem tantos filhos, mas, quando precisa deles, s podemos contar
contigo e com a Adeline." H muito de verdade nesta frase, no achas`? -
S tu  que consegues aturar Niang! - exclamei eu com admirao -
Qualquer outra pessoa j se teria ido embora h muito tempo, O meu
relacionamento pessoal com Niang modificou-se como da noite para o dia
depois desta visita. Ela chegou a pedir-me que os ajudasse a comprar uma
casa perto da nossa, onde pudessem passar o Vero, em vez de Monte
Carlo. O facto de termos sido ns a pagar as contas mdicas do pai -
ascendendo a cerca de 50 000 dlares americanos - tocou-a possivelmente.
Como mdica, eu tinha plena conscincia do esforo que a doena do pai
implicava e no podia deixar de sentir compaixo por ela. O resultado
desta aproximao foi a excluso deliberada de Edgar. Mais tarde, nesse
mesmo ano, Niang ofereceu uma festa em HongKong para comemorar os 70
anos do pai. Gregory e Matilda vieram do Canad com os seus dois filhos,
Bob e eu comparecemos com Roger e Ann, James, Louise e a respectiva
prole tambm estiveram presentes. Para alm da famlia imediata, havia
cerca de uma dzia de convidados. Edgar nunca foi sequer informado e s
descobriu o que se tinha passado muito tempo depois. 224 23 Chu Cha Dan
Fan Arroz branco e ch de m qualidade Depois da morte de Mao Zedong, em
1976, Deng Xiaoping tornou-se presidente adjunto e deu incio a uma
srie de reformas liberais, incluindo a abertura da China ao turismo. Em
1979, uns amigos americanos convidaram-nos a irmos com eles numa
excurso organizada a Hong-Kong, Guangzhou, Xangai e Beijing. Assim, em
Dezembro de 1979 embarcmos numa viagem cuja realizao teria sido
absolutamente impensvel trs anos antes. Eu estava encantada com a
ideia de voltar a ver a minha tia Baba e foi neste estado de esprito
que escrevi a contar-lhe da nossa prxima visita. A nossa
correspondncia espordica, sempre mal vista por Niang, tinha sido
interrompida pelo governo chins desde o incio da Revoluo Cultural,
em 1966. A minha tia respondeu-me imediatamente. Voltar a olhar para a
sua caligrafia encheu-me de saudades. Estava a viver num quarto situado
na casa de um vizinho, na mesma rua, desde 1966 e era l que eu deveria
procur-la. Dizia-se cheia de alegria e ansiosa pelo nosso reencontro.
225 Em Hong-Kong a nossa excurso ficou alojada no Hilton Hotel (que
viria a ser demolido em 1995), apenas a dez minutos de txi das Magnolia
Mansions. Do aeroporto de Kowloon para Hong-gong atravessmos o novo
tnel por debaixo do porto; o demorado ferry para transporte de veculos
j no existia. No ia a Hong-Kong desde 1978 e, ao ser surpreendida
pela altura da linha dos prdios, fiquei maravilhada com o
desenvolvimento fulminante da colnia. Niang tinha-nos escrito a dizer
que o pai estava j incontinente. Da Califrnia trouxemos vrios pacotes
de fraldas para adulto. Quando fomos visit-los, James e Louise j
tinham chegado. O aspecto do pai era muito pior. Depois de nos
cumprimentar com um pequeno sorriso, no disse qualquer palavra durante
toda a refeio e parecia incapaz de compreender a conversa  sua volta.
Aps o jantar fomos para a sala de estar e o pai retirou-se, acompanhado
pela sua enfermeira da noite. L mais em baixo, as luzes de Hong-Kong e
Kowloon acenavam umas s outras por sobre as guas do porto. O pai
costumava falar com enlevo da magnfica vista da sua varanda, que se
iluminava noite aps noite num perptuo desfilar de luzes. Niang
ofereceu um cigarro a James e ela prpria acendeu um. Era este o seu
ritual todas as vezes que James jantava com ela. James confidenciara-me
muitas vezes que odiava aqueles cigarros; isso, porm, no o impedia de
os aceitar e de os fumar. Enquanto fumava lanou-se numa tirada de
crticas contra a tia Baba. Fosse o que fosse que a minha tia nos
contasse, pregava Niang, ela enviava-lhe o seu subsdio mensal e
"dava-lhe tudo aquilo que ela desejava". De seguida comeou a falar
furiosamente contra Lydia, avisando-nos de que a minha irm ia
possivelmente tentar que a ajudssemos a levar os filhos para fora da
China. - No faam nada disso! - ordenou ela. - Se o vosso pai pudesse
falar, dir-vos- ia que toda a famlia Sung  um frasco de veneno. Quero
que saibam que Samuel e Lydia fizeram chantagem com o vosso pai quando
regressaram a Tianjin, em 1950.  vossa frente ho-de elogiar-vos; nas
vossas costas ho-de conspirar contra vocs. Se ajudarem um dos membros
da famlia, os outros exigiro que tambm o faam por eles e o mais
certo  acabarem todos  porta de vossa casa. Vo acabar por virar a
vossa vida de pernas para o ar e nenhum deles vos ficar agradecido. 226
Adeline - continuou ela -, segue os meus conselhos. A vida tem-te
sorrido. Por que razo precisas de te misturar com pessoas da laia de
Lydia e Samuel? Aviso- te, se te meteres com cobras, sers mordida. Diz
a Lydia que o teu pai e eu te proibimos de levantar um s dedo para os
ajudar. Deixa-os apodrecer na misria!  o que eles merecem! - concluiu
Niang numa voz cada vez mais estridente. Despedimo-nos assim que
pudmos. James e Louise levaram-nos de volta ao Hilton. - A velhota 
vingativa - comentou James j no carro. - A tia Baba deve t-la ofendido
no passado. Niang odeia-a e nunca deixar de o fazer. - E tu, pensas que
devo ajudar Lydia, se ela me pedir? - Escreveste-lhe a dizer que vinhas
 China? - No. A nica pessoa que quero ver  a tia Baba. - Ento
porque no deixas as coisas como esto? Suan le! O nosso grupo de
quarenta pessoas fez a viagem de comboio de Hong-Kong para Guangzhou no
dia de Natal de 1979. Fomos conduzidos ao Hotel Baiyun (Nuvem Branca),
um edifcio de trinta e trs andares. Mesmo sendo um hotel s com dois
anos, tanto os quartos como o mobilirio tinham um aspecto usado e
maltratado. No eram autorizadas gorjetas e o pessoal do hotel era
mal-encarado. O pequeno- almoo era servido pontualmente s 7.45.
Quarenta ovos estrelados surgiam em quarenta pratos, dispostos em quatro
mesas redondas, de dez pessoas cada. A maior parte das pessoas do grupo
ainda estava a dormir, enquanto os ovos esperavam em cima das mesas at
ficarem secos. Chaleiras de metal eram atiradas para cima das mesas,
juntamente com oitenta fatias de po torrado, vinte para cada mesa. s 9
em ponto terminava o pequeno-almoo. Ovos, torradas e ch eram retirados
em cinco minutos por empregadas de mesa com ar de exploradas. Foi esta a
nossa apresentao  vida na China comunista. Dois dias mais tarde
partimos de avio para Xangai.  medida que o nosso autocarro ia do
aeroporto Hongqiao para o Hotel Jinjiang, onde estava previsto ficarmos,
senti-me a rebentar de emoo. Passmos por umas bonitas manses da
poca Tudor, de tijolo vermelho, ao estilo colonial ingls, com jardins
murados e relva verdejante. O autocarro dobrou uma esquina e dei por mim
na conhecida Avenida Joffre. Uma vez mais apreciei a avenida larga,
recta e ladeada de rvores, 227 estendendo-se a perder de vista.
Estiquei o pescoo para ler as tabuletas das ruas, escritas nos novos
caracteres chineses abreviados. A Avenida Joffre chamava-se agora Rua
Huai Hai. O autocarro virou para leste, cada vez mais para leste, para
longe do sol da tarde, afugentando centenas de bicicletas  sua
passagem, como uma baleia gigante rodeada pelo peixe mido. Estvamos na
Rua Huai Hai Zhong (Central). Comecei a reconhecer alguns edifcios.
Eram 5 horas da tarde e, por entre o tilintar das campainhas das
bicicletas e o restolhar das folhas do arvoredo, nuvens de
trabalhadores, igualmente vestindo os seus casacos  Mao, corriam para
casa depois do trabalho. E subitamente l estavam eles!  medida que o
nosso autocarro se aproximava do centro da antiga concesso francesa, da
paisagem citadina destacou-se uma viso mais poderosa para mim do que
qualquer outra: dois modestos pilares guardavam a entrada da rua da
minha lao jia (antiga casa da minha famlia). L estavam as casas
cinzentas de cimento, slidas, imutveis, como uma gravura do passado.
De muitas das janelas emergiam paus de bambu carregados de peas de
roupa a secar: roupa interior, lenis, cobertores, fatos  Mao, todas
elas esvoaavam ao vento. Rapidamente o autocarro passou alm dos
limites da minha infancia. Deitei o olhar aos Jardins Do Yuen e ao
Cinema Cathay. As inmeras lojas das redondezas j no ostentavam
tabuletas coloridas e bilingues. Longe ia o tempo dos anncios de non
em azul, vermelho, verde, roxo e branco. Longe ia o tempo dos
cabeleireiros, casas de modas, livrarias, cafs e padarias francesas.
Agora as lojas, sem nova pintura e gastas pelo tempo, mostravam nomes
mortios escritos nos novos caracteres chineses simplificados,
anunciando os seus produtos. No se vendiam artigos de luxo. Trinta anos
haviam passado, um perodo durante o qual Xangai tinha perdido o seu
brilho e a sua alegria, mas durante o qual, pelo menos, tinham
desaparecido os mendigos e os corpos de meninas recm- nascidas
embrulhados em jornais. O autocarro voltou em direco ao norte, muito
perto do Cinema Cathay, e parou em frente do nosso hotel, a poucas
centenas de metros da minha antiga escola primria Sheng Xin. Bob e eu
largmos a nossa bagagem e apanhmos imediatamente um txi para ir
visitar a minha tia. Era o ms de Dezembro e o dia estava extremamente
frio. Na cidade, a linha do horizonte estava envolta numa bruma
amarelada de 228 poluio. Bob pediu-me que dissesse ao motorista do
txi que desse uma pequena volta pelo Bund, em tempos conhecido com a
Wall Street da China. Estava radiante por poder conversar no meu
dialecto de origem e de o ouvir  minha volta uma vez mais, passados
trinta anos. Depressa me pareceu que nunca tinha sado da cidade. Quinze
minutos depois percorramos j a ampla curva do rio Huangpu, passando
rapidamente pelo Parque Huangpu (o mesmo onde ces e chineses eram
infamemente proibidos de entrar) e pelas imponentes torres de
escritrios erigidas pelos Britnicos nos anos 30. No havia qualquer
alterao nas fachadas exteriores, embora das janelas de alguns andares
altos sassem inapropriadamente os paus de bambu repletos de roupa a
secar. O nosso txi voltou  esquerda no Peace Hotel, com a sua
inconfundvel torre triangular a brilhar contra o cu do entardecer,
seguiu a movimentada Nanjing Lu (anterior Rua de Nanquim) a formigar de
pees e bicicletas. Passmos pelos grandes armazns, estdios
fotogrficos, restaurantes e mercados abastecedores; avistamos o banco
da minha tia-av, no n. 480 da Rua Nanquim, ainda um edifcio
imponente, agora chamado Banco de Comrcio e Indstria. Era j escuro
quando chegmos ao nosso destino. A tia Baba vivia no n. 21, outrora
uma magnfica casa, agora a precisar de arranjos, alis como todas as da
vizinhana. A rua era mal iluminada e tivemos de tactear o caminho
dentro do edificio. A porta da frente estava entreaberta para quem
quisesse entrar. Mal penetrmos no edifcio, o cheiro atingiu-nos como
um golpe fisico. Nunca tnhamos visto nada assim. O lixo e o suor dos
que ali tinham vivido nos ltimos trinta anos entranhara-se em tudo.
Cheirava a comida apodrecida, corpos por lavar, roupa suja e canos
entupidos. Embora houvesse lixo e poeira pelas escadas e entrada, havia
algumas bicicletas polidas, oleadas e fechadas a cadeado encostadas s
paredes sujas.  medida que subia as escadas, o corao ia-me pesando e
chamei: - Tia Baba, tia Baba! E l estava ela, uma figurinha minscula
no contraluz da porta entreaberta. Que pequenina que era! Bob e eu
ramos umas torres  vista dela! Abracei-a com toda a fora e senti o
corpito esqueltico dentro do casaco  Mo largueiro. No pesava mais
de 40 quilos. Levou-nos ao seu quarto e fez-nos sentar na cama dela.
Deitou-nos um olhar demorado, os olhos a brilharem de orgulho. 229 - A
tua letra no  muito diferente da daquela menina que partiu daqui em
1948! No  caligrafia de uma mdica que estudou em Inglaterra e na
Amrica. Ainda  a letra de uma criana da escola primria! - exclamou
ela com a voz repleta de emoo. O quarto era frio e cinzento. A nica
pea de mobilirio era uma cama, uma mesa de madeira e uma pequena
cadeira de costas direitas. Tudo o que tinha no mundo era guardado num
grande ba de madeira e dentro de algumas caixas de carto arrumadas em
filas. Tinha ainda um pequeno fogo de querosene, no qual estava a cozer
uma panela de sopa de fitas. Debaixo da cama havia um bacio de plstico.
Da parte central do tecto pendiam alguns fios elctricos, aos quais
estava ligada uma lmpada sem quebra-luz. Ela considerava-se uma pessoa
de sorte por ter tido um quarto s para si durante trinta anos. O
prprio dono da casa tinha de partilhar um quarto com a mulher e dois
filhos. O edifcio abrigava agora nove famlias. Serviu-nos as fitas
acabadas de cozinhar com vegetais em conserva. Observei-a atentamente
enquanto se movimentava no quarto, tal e qual como costumava fazer
quando era pequenina e ela era todo o meu mundo. O seu cabelo fininho
estava agora quase branco e cuidadosamente apanhado num tot preso na
nuca. Os seus grandes olhos pareceram-me encovados, delineados pelas
sobrancelhas da mesma cor que o cabelo. Apertei a sua mo pequenina,
enquanto contvamos uma  outra as histrias das nossas vidas, tentando
percorrer a distncia de trinta anos que nos separara. A voz da minha
tia transformou-se num sussurro. O medo de denncias e dos informadores
no seria vencido to depressa. - Parece impossvel podermos estarem
frente uma da outra, assim, a falar de tudo e de nada! H trs anos,
durante a Revoluo Cultural, isto teria sido perigoso. Falmos pela
noite fora. Tornou a contar-me a histria da nossa famlia e pediu- me
que escrevesse estas memrias antes que o tempo as apagasse de vez. -
Toda a nossa famlia sofreu quando Niang veio para nossa casa. O encanto
que ela lanou ao teu pai foi como o da raposa das histrias antigas.
Para alm da sua juventude e beleza, ele provavelmente encan tou-se com
o seu sangue estrangeiro. Lembra-te de que ele cresceu na concesso
francesa, numa poca nica na China. Todos ns somos vtimas da
histria. 230 Nessa noite, antes de nos despedirmos, a tia Baba
disse-nos que tinha um presente para ns. Rebuscou durante algum tempo
dentro de um velho ba e finalmente, de dentro do forro do seu casaco de
Inverno, tirou um envelope cuidadosamente dobrado. Ao abri-lo, descobri
uma velha nota de 100 dlares que ela devia ter guardada h, pelo menos,
trinta anos. Ficmos em silncio durante longos minutos, receosos de que
as palavras pudessem quebrar a magia daquele momento, que estava para
alm de toda a alegria e de toda a tristeza. No dia seguinte levei a tia
Baba at ao nosso hotel, onde pde tomar o seu primeiro banho em muitos
anos. O guia do nosso grupo, um membro do partido, olhou-a com desprezo.
Nesse tempo era poltica no oficial da China dividir as pessoas em
quatro grupos, recebendo cada um deles um tratamento distinto. 
primeira classe pertenciam os turistas, especialmente se eram
norte-americanos ricos. Na segunda classe incluam-se os chineses
ultramarinos que falavam chins. Eu pertencia a esta categoria. ramos
tratados como heris regressados a casa, proporcionando  China o apoio
para uma nova estrutura econmica. Na terceira classe arrumavam-se os
hua giao (pessoas de etnia chinesa nascidas na Amrica), cujos pais
tinham emigrado antes de 1949 e que no falavam chins. Era o caso de
Bob. Eram recebidos com um tudo-nada de desprezo misturado com honras
manifestas; o prato da balana pendia para um dos lados, de acordo com o
sucesso profissional e a prosperidade atingida. A ideia geral era a de
que toda a gente que vinha da Amrica era rica e tinha bons
conhecimentos.  quarta categoria pertenciam as centenas de milhes de
chineses nascidos na China, como a tia Baba. A roupa que usavam e a
atitude que tinham faziam que facilmente se distinguissem dos restantes.
O guia da nossa excurso ficou furioso quando convidei a minha tia para
almoar connosco na sala de jantar do 11. andar do Hotel Jinjiang.
Repreendeu-a por no se saber pr no seu lugar e por abusar da minha
hospitalidade. Bob e eu no escondemos o nosso desagrado. Com o apoio
dos outros participantes da excurso, a tia Baba tomou o almoo, mas
recusou-se a pr novamente os ps na sala de jantar. Durante os cinco
dias que passmos em Xangai fui buscar a minha tia para que ela tomasse
o seu banho quente no quarto do nosso hotel. O tempo no era suficiente
para dizermos uma  outra tudo o que queramos. 231 Ofereci-me para lhe
comprar um apartamento em Xangai, nurn prdio que estava a ser
construdo nas proximidades do nosso hotel. Ela recusou, dizendo que no
era seu desejo sair da zona onde sempre tinha vivido. - Vivo na mesma
rua desde 1943 - disse-me ela -, a minha casa  aqui. O nico stio para
onde gostaria de ir era a nossa antiga casa, no n. 5. Se conseguires
voltar a compr-la para mim, morrerei feliz. Dois anos mais tarde, Bob e
eu conseguimos comprar a casa em nome dela. L viveu at  data da sua
morte. Perguntei-lhe se se arrependia de ter ficado em Xangai. Como
resposta ouvi um "no" inequvoco: - Tenho passado mal aqui, com todas
essas campanhas e reunies de luta, a selvajaria da Revoluo Cultural,
pobreza, agruras e medo. Mas, honestamente, acho que todas estas
misrias juntas se suportam melhor do que viver com a tua Niang, debaixo
do mesmo tecto. Estou satisfeita com cu cha dan fan (ch de m qualidade
e arroz branco). Penso muitas vezes na vida como um depsito de tempo. A
cada um de ns so atribudos uns tantos anos, tal e qual como uma
determinada soma num banco. Quando as vinte e quatro horas acabam de
passar, gastei mais um dia. Li no People's Daily que a esperana mdia
de vida para uma mulher chinesa  de 72 anos. Eu j tenho 74. J esgotei
o meu depsito h dois anos e j estou a gozar um bnus. Cada dia  um
presente. De que me posso queixar? O nosso olhar cruzou-se. A coragem
desafiante que encontrei nos seus olhos surpreendeu-me. Depois, uma voz
cuja eloquncia contrastava estranhamente com a fragilidade do seu corpo
disse: - Da maneira como eu as vejo, as coisas so assim: o sculo xix
foi o sculo britnico; o sculo xx  um sculo americano. Prevejo que o
sculo xx seja um sculo chins. O pndulo da histria oscilar das
cinzas ying trazidas pela Revoluo Cultural para a fnix yang que
surgir dos seus destroos.  Na mitologia e filosofia chinesas, ying 
o princpio feminino gerador oposto a yang, o princpio masculino. (N,
da T.) 232 24 Yin Shui Si Yuan Quando beberes gua, lembra-te da fonte O
nosso grupo voou para Beijing na vspera de Ano Novo.  chegada a tarde
estava soalheira, mas fria. Sobre o telhado do novo terminal do
aeroporto uma fotografia gigante do presidente Mao sorria-nos, ladeada
por dois caracteres chineses gigantes, pintados a vermelho, 3E; ,~
Beijing (Capital do Norte). Aos microfones, uma voz feminina e graciosa
anunciava: "Beijing d-vos as boas- vindas." Quando samos do sector da
imigrao, uma chinesa de meia-idade correu para ns. O seu cabelo preto
estava mal pintado e usava um casaco castanho com uma gola de pele
artificial. - Wu mei! - chamou ela. - .~.~ Wu mei (Quinta Irm Mais
Nova)! s tu? Nunca mais ningum me chamara wu mei desde os tempos
longnquos da minha infncia em Xangai. Agora ali estava ela,  minha
frente, com um sorriso de orelha a orelha. Qualquer coisa na sua
postura, os ombros um pouco desiguais e descados, a cara arredondada e
inclinada, a mo esquerda semiparalisada, firmemente agarrada pela 233
direita com os dez dedos entrelaados, tudo isto me trouxe  lembrana
memrias do passado distante. Sem querer, comecei a falar o chins
familiar da minha infncia: - -~ ~ Jie jie (Irm Mais Velha) - respondi
respeitosamente sou eu. Embora no estivesse  espera de ningum, a
minha irm Lydia e toda a sua famlia tinham feito a viagem de Tianjin
at ali para nos virem esperar ao aeroporto. A tia Baba tinha telefonado
de Xangai a dar-lhe o nosso itinerrio. J l iam trinta e um anos desde
que eu tinha visto Lydia e o marido. No conhecia os filhos. Assim, lado
a lado, apercebi-me de que era agora uns 5 centmetros mais alta do que
Lydia. Cheia de emoo, ela gesticulava para o resto da famlia. Samuel
estava j na casa dos 60, vestia um fato  Mao coberto por um sobretudo
brilhante de vinil azul-escuro e um bon de trabalhador. Atrs dele
estava um jovem alto de 27 anos, o filho Taiway, e uma filha baixinha de
30, Tai-ling. Estava previsto que o nosso grupo ficasse no grande
Friendship Hotel. Construdo pelos Soviticos nos anos 50, era um
edifcio claramente russo, tanto na sua arquitectura como no desenho
formal dos jardins, fazendo-me lembrar fotografias que eu tinha visto
dos palcios de Inverno dos czares. Lydia e a famlia tinham feito uma
reserva no mesmo hotel. O txi deles seguiu o autocarro da nossa
excurso e fizemos o registo em conjunto. Encolhi-me quando vi alguns
rapazes da portaria a empurrarem Samuel para o lado, enquanto,
respeitosamente, passavam alguns membros do nosso grupo para a frente da
fila. A seguir ao jantar, Bob e eu fomos  suite de Lydia, conforme
combinado. A filha, Tai-ling, no se sentia bem e j se tinha ido
deitar. Sentmo-nos os cinco e comemos aquela que seria uma noite
muito longa. Em tom de remorso, Lydia confessou: - -nos penoso lembrar
como foste rejeitada quando eras criana. A culpa foi principalmente
minha, porque, sendo a irm mais velha, deveria ter dado o exemplo.
Falhei. Sendo tu a mais nova e a enteada menos importante, foste no s
insultada, mas tambm ameaada por todos ns. S tenho desculpa por
tambm eu ser ainda uma criana. Alm disso, no ramos encorajados a
sermos leais uns para com os outros, porque Niang tinha medo de que nos
pudssemos unir contra ela. 234 - Quando eras pequenina - continuou
Lydia -, os nossos pais deixaram bem claro que tu eras indesejvel e
intil. s vezes Niang at dizia em voz alta que eras horrvel. Quando o
pai e Niang vieram a Tianjin, em 1948, Niang deu ordens para que eu no
te fosse visitar em St Joseph's nem te retirasse do colgio durante as
frias. Ela vincou que no toleraria qualquer desobedincia e que as
freiras tinham ordens para lhe enviarem relatrios regularmente. Nessa
altura eu prpria me sentia triste de mais para pensar em ti. Estava
enganada e peo-te que me desculpes. Lydia culpava Samuel pela sua
"estupidez" em regressar  China com a famlia em 1950 e falou da
infelicidade deles como se ele fosse pessoalmente responsvel por ela.
Era culpa dele se os Guardas Vermelhos lhe tinham rapado metade do
cabelo, se a tinham fechado num armrio e se tinham enviado os seus
filhos para comunas rurais. Durante todo o tempo em que Lydia falou,
Samuel esteve sentado ao seu lado com um sorriso forado. O quarto
estava to quente que o seu couro cabeludo, agora careca, se cobria de
gotas de suor. A sua expresso nunca se alterou e nem um s msculo se
moveu. - Durante estes anos tenho escrito muitas vezes aos nossos pais a
pedir-lhes ajuda. Nunca acusaram sequer a recepo das minhas cartas.
Niang  uma mulher doente, a fervilhar de dio. Conheo-a bem. Aquilo de
que mais gosta so intrigas. Quanto mais ns sofremos, mais feliz ela se
sente. - Na nossa famlia - continuou Lydia - tu s a nica que tem a
coragem de fazer o que est certo e de desafiar Niang. Gregory e Edgar
so egostas e avarentos. Susan e eu fazemos uma grande diferena de
idades. James  um homem honesto, mas dir sempre "men" a tudo e no
tem fora de vontade. Foi ento que Lydia chegou ao ponto que queria.
Para ela e para Samuel no desejava nada. Tai-ling estava quase
arrumada, pois tinha um bom namorado em Tianjin e no desejava sair da
China. Alm disso, tanto ela como Samuel estavam a ficar velhos e
precisavam que a filha estivesse por perto. Mas, quanto a Tai- way, ela
exps o caso com empenho: - Os meus dois filhos so to diferentes como
o dia da noite. A minha filha  egosta e difcil, mas o meu filho tem
um corao bom e leal.  um msico de talento e ganhou muitos concursos
de piano. Estuda agora com Liu Shi-kuen, o famoso vencedor do concurso
de 235 composies de Tchaikovsky para piano, em Moscovo. O que te peo
 que lhe ds uma oportunidade e que o patrocines para ir fazer a
universidade na Amrica. Lydia voltou-se ento para o filho: - Tai-way
tambm te quer dizer algumas palavras. Tai-way falou em mandarim: -
Quinta Tia, no a conheo e a tia tambm no me conhece.  muito
generoso da sua parte gastar o seu tempo para se encontrar connosco. Por
aquilo que a minha me me contou, vejo que teve de lutar muito para
chegar onde est hoje. Talvez no seu corao encontre maneira de me dar
uma ajuda. Contou-nos ento como tinha parado.de estudar durante dez
anos por causa da Revoluo Cultural. Tinha sido enviado para uma comuna
na provncia de Shanxi, onde as condies de vida eram primitivas e a
comida escassa. Em vez de ir  escola, trabalhava numa quinta como
qualquer outro trabalhador. Tudo isto teria sido suportvel se houvesse
uma rstia de esperana para o futuro. Porm, na China esse era um sonho
impossvel. - Por vezes - dizia Samuel -, quando penso na minha vida
daqui a dez ou vinte anos, sou tomado de desespero. Vejo-me a tocar
piano numa aldeola remota, a ensinar msica a crianas desinteressadas
ou a acompanhar espectculos de amadores montados por camponeses.
Continuarei talvez a lutar pela vida tentando manter juntos a alma e o
corpo, insistirei provavelmente em escrever cartas  tia Baba,
pedindo-lhe embalagens de alimentos. O meu pai tem parentes ricos em
Taiwan e os pais da minha me vivem em Hong-Kong. E, contudo, ningum
quer ajudar-me.  intil e degradante continuar a escrever-lhes. No
tenho mais ningum a quem recorrer; a tia  a minha nica esperana. Por
favor, ajude-me a ir para a Amrica e eu ficar-lhe-ei grato para o resto
da vida. Enchi-me de pena daquele rapaz que por acaso era meu sobrinho.
No tive como recusar. Limpando uma lgrima com um grande leno j fora
de moda, Lydia acrescentou: -  muito o que te pedimos para fazeres:
arriscas-te  raiva de Niang ao patrocinares Tai-way. Poders mesmo ser
deserdada, se eles descobrirem que nos ests a ajudar. Seja o que for
que decidas, estou contente por termos passado esta noite juntos, numa
conversa em que os nossos coraes falaram. Acontea o que acontecer,
gostarei sempre de ti. ~ ~k m ~~ Yin shui si yuan (Quando beberes gua,
lembra-te da fonte). 236 Vieram-me  ideia muitos pensamentos.
Parecia-me injusto a vida ter-me dado tanta coisa, ao passo que a ela
lhe mostrava o lado mais desastroso. Seria esta reunio uma das tais
encruzilhadas para testar a minha coragem? Se os papis estivessem
invertidos e eu tivesse sido a filha deixada na China comunista, ficaria
de certeza grata se a minha irm me desse uma ajuda. Senti que no tinha
outra alternativa e assegurei-lhes que ficaria muito contente por fazer
o que pudesse por Tai-way. Acrescentei que pediria a colaborao de
todos os nossos irmos, na esperana de que a educao de Tai-way no
Ocidente fosse o elo catalisador da unio entre todos ns. Quando
regressei  Amrica, consegui inscrever Tai-way na University of
Southern California. Assinei a declarao de sustento e o meu sobrinho
chegou alguns meses depois. Durante os catorze meses que se seguiram
tratmo-lo como um segundo filho. Durante o segundo ano transferiu-se
para a University of Indiana, onde Leonard Bernstein o aconselhou a
prosseguir a sua carreira musical na Alemanha. Um ano mais tarde partiu
para Estugarda e tornou-se financeiramente independente, depois de obter
um emprego como acompanhante de ballet. Continuamos a manter contacto
permanente com ele. Em 1983, o professor John Leland, um grande amigo e
colega de Bob, tinha previsto passar um ano sabtico na Universidade de
Tianjin. Apresentmo-lo a Samuel e a Lydia. Ele e a mulher tornaram-se
amigos de toda a famlia Sung. Ficamos encantados ao saber que ele tinha
conseguido arranjar uma bolsa completa a Tai-ling para a Universidade da
Carolina do Norte quando o seu romance efervesceu. Lydia e Samuel
ficaram to gratos que nos enviaram uma carpeta como forma de
agradecimento especial. Em 1986 Lydia viajou para a Alemanha para ver
Tai-way. Comprei-lhe um bilhete de avio para que pudesse ir a Nova
Iorque ver a filha e fazer-nos uma visita na Califrnia. Durante os dez
dias em que esteve em nossa casa passamos muitas horas a conversar sobre
os anos em que tnhamos estado separadas. Confidenciei- lhe que andava a
aconselhar James a emigrar de Hong-Kong antes de 1997, uma ideia que
Niang no aceitava muito bem. Dei-lhe notcias da vida desolada que
Niang levava e mostrei-lhe fotografias do pai, j senil, deitado,
encolhido, indiferente a tudo, no Sanatrio de Hong-Kong. 237 O pai dera
entrada no quarto 525 do Sanatrio de Hong-Kong em 1982. Nunca mais
deixou o hospital e ocupou o mesmo quarto at morrer, seis anos mais
tarde. Niang contratou trs enfermeiras durante o dia e duas durante a
noite. Diariamente, e durante uma hora, vinha tambm um fisioterapeuta.
As suas duas criadas cantonenses tinham instrues para cozinharem os
seus pratos favoritos, que o motorista ia entregar. Susan ficou
extremamente preocupada quando soube da hospitalizao do pai. Foi
visit-lo ao seu quarto particular. Era tarde de mais. O pai j no a
reconheceu. As enfermeiras comunicaram as visitas de Susan a Niang, que,
por sua vez, ficou furiosa. Deu instrues a James para ameaar Susan
com uma aco em tribunal caso a nossa meia-irm tentasse visitar o pai
outra vez. Niang criou a sua prpria rotina. Todas as manhs passava
duas horas no escritrio do pai em Swire House. James e o Sr. Lu, o leal
director financeiro do pai, relatavam-lhe o abrandamento e a venda dos
vrios negcios do pai. Sete tardes por semana, das 4 s 6, ia visitar o
pai ao hospital. Passava as suas noites em casa e deixara de participar
em eventos sociais. Todos os domingos James, Louise e as trs crianas
iam jantar com ela, relutante, mas prontamente. Tornou-se uma fumadora
inveterada e passava horas sentada no seu sof imitao de Lus XVI,
voltada para o Porto de Vitria a fumar, enchendo a sala de fumo. 
noite, e apesar da grande quantidade de comprimidos que tomava, tinha
dificuldade em dormir. Contratou uma enfermeira que vinha fazer-lhe
companhia durante a noite e conversava com ela nas primeiras horas da
manh. Confessei a James que me era extremamente penoso ver o pai
reduzido quele estado em que se encontrava e acrescentei que devia ser
ainda mais difcil para Niang. - No te deixes levar por tudo isso -
disse James. - A maior parte do que faz  s para que os outros vejam. A
sociedade de HongKong  muito pequena. Tanto Gregory como Edgar esto
inconsolveis 238 Com os olhos rasos de lgrimas, ela pediu-me que
interviesse: Lydia queria ver o pai pela ltima vez e ser uma companhia
para Niang. Telefonei a Niang e fiz-lhe o pedido. A nossa madrasta cedeu
final mente e concordou em receb-la. Comprei imediatamente a Lydia uma
passagem para Hong-Kong. Lydia e Niang reconciliaram-se e Niang
perdoou-me finalmente por ajudar a famlia de Lydia. por ela ter
transferido todo o dinheiro do pai para o seu prprio nome. ge ela desse
algum sinal de negligncia para com o pai, abriria contra si prpria uma
aco em tribunal. Na verdade, os nossos dois irmos mais velhos j
puseram em causa a legitimidade das suas operaes financeiras. No
falaram contigo sobre esse assunto? - Falaram. Gregory telefonou-me a
perguntar se eu me juntaria a ele e a Edgar numa aco legal contra
Niang. Teme que Niang possa casar-se outra vez. Eu disse-lhe que no
pensasse nisso. Acho que neste momento Niang precisa  do nosso apoio
moral. Sempre que 1997 vinha  baila, Niang hesitava entre permanecer ou
no em Hong- Kong. - No vai acontecer nada. Hong-Kong  valiosa de mais
para os comunistas chineses - argumentava ela. - Seria um suicdio
financeiro para todo o pas. O mais provvel  que o milagre econmico
de Hong-Kong alastre  China depois de 1997. Uma vez ela chegou a
dizer-me: - Na verdade, o teu pai e eu somos cidados do mundo. Se a
situao piorar, podemos ir para qualquer pas de um momento para o
outro. Gostaria que procurasses uma casa para ns em Huntington Beach,
perto da vossa, para o caso de termos de sair de Hong-Kong. Em 1984 foi
assinada uma declarao conjunta depois de anos de dilogo entre a
Gr-Bretanha e a China. A totalidade do territrio de HongKong seria
entregue  China a 1 de Julho de 1997, o que inclua a ilha de
Hong-Kong, a pennsula de Kowloon e os Novos Territrios. Contudo, aos
cidados de Hong-Kong era assegurado que gozariam das mesmas liberdades
e direitos legais por mais cinquenta anos aps a transferncia da
soberania. Entre 1997 e 2047 Hong-Kong e a China seriam um s pas, mas
com dois sistemas diferentes de administrao governamental. O valor das
propriedades em Hong-Kong sofreu uma descida abrupta depois deste
anncio. James estava pessimista quanto ao futuro da colnia. Todos os
seus amigos influentes planeavam emigrar. Muitos tinham j obtido a
cidadania americana, britnica, australiana ou canadiana. Na maioria dos
casos, o emigrante permanecia neste pas de adopo durante o perodo
mnimo de tempo para obter um passaporte e regressar depois a Hong-Kong.
Por vezes s a mulher e os filhos permaneciam no estrangeiro e o marido
transformava-se num tai hong ren (astronauta de um vaivm) entre os dois
pases. 239 25 Yi Dao Liang Duan Cortar esta relao com um s golpe Em
Maio de 1988 recebemos um telefonema de James a dizer que o pai tinha
piorado subitamente e que no se esperava que vivesse mais de vinte e
quatro horas. Telefonei a Lydia em Tianjin, pressupondo que mais ningum
o tivesse feito. - Nunca ningum se lembra de mim - lamentou-se ao
telefone -, no me do importncia nenhuma. Provavelmente, nem me caber
nada do testamento do pai. Ao ouvir estas palavras, lembrei-me de que o
pai tinha deserdado Lydia na altura em que ela e o marido tinham feito
chantagem com ele, pelo que os seus receios no deixavam de ter
fundamento. - No te preocupes, Lydia - disse-lhe eu -, o que me couber
divido contigo. O pai morreu algumas horas mais tarde. Em Hong-Kong
James foi esperar-me ao aeroporto e conduziu-me a um pequeno hotel - o
New Asia - perto do seu apartamento, onde Niang tinha feito as reservas
para todos ns. Viajei sozinha, pois Bob no pudera deixar o trabalho.
Todos ficmos surpreendidos ao saber que Lydia j tinha chegado de
Tianjin e tinha sido convidada por Niang a ficar em Magnolia Mansions.
James levou-nos no carro at  sala do funeral, em North Point. A
encontrmos Niang, Lydia e Louise. Numa sala grande, nua e gelada, onde
o ar condicionado estava exageradamente frio, de paredes forradas a
pequenos azulejos brancos e tresandando a desinfectante, encontrmos o
corpo do pai sobre um div negro, coberto por um lenol de seda branca
encimado por uma grande cruz amarela. Parecia ter encolhido e perdido
qualquer esplendor. A doena de Alzheimer tinha cobrado a sua factura,
devorando, clula aps clula, todo o seu crebro durante doze longos
anos, at deixar de ser um ser humano. Um padre catlico pronunciou
apenas algumas palavras: - As cinzas s cinzas, o p ao p. Cumprido o
destino do pai, ns, "as crianas", transformmo-nos subitamente na
gerao mais velha. Em fila, atravessmos inmeras salas onde outras
famlias velavam os seus mortos. Monges budistas, de cabeas rapadas e
tnicas esvoaantes, usavam o elevador lado a lado com os padres
catlicos nas suas batinas negras. Havia arranjos florais por todos os
cantos e o gelo da morte corria no ar. Alm dos membros da nossa famlia
apenas estavam presentes as enfermeiras, as criadas e o Sr. Lu, o
empregado de confiana do pai h mais de trinta anos. Embora Gregory e
eu tivssemos informado Susan da morte do pai, Niang no a tinha
convidado e, propositadamente, omitira o seu nome da seco de bito dos
jornais. No houve amigos presentes. Seguimos o cortejo fnebre at ao
cemitrio catlico. O caixo do pai foi levado por carregadores
profissionais, pela escadaria ngreme que conduzia ao local da
sepultura, encastoada na colina. Durante alguns dias o tempo ganhou uma
dimenso diferente,  medida que o passado e o presente se fundiam.
Quando demos por ns, estvamos reunidos no escritrio dos Johnson,
Stokes & Masters para a leitura do testamento do pai. A ltima vez em
que estivramos todos reunidos fora quarenta anos antes em Xangai.
Sentei-me na minha cadeira, de costas direitas, saia preta imediatamente
acima do joelho, quase  espera de que surgissem algumas empregadas com
os pratos para o jantar. No topo da mesa, Niang e o jovem advogado
conferenciavam com ar srio em voz baixa. 240 241  minha esquerda,
Lydia tinha um aspecto sombrio e colocara o seu brao so afectuosamente
 minha volta. Os olhos de Gregory ainda estavam vermelhos e inchados.
Nervosamente, James cruzava e descruzava as mos, enquanto gotas de suor
lhe perlavam a fronte. Louise, a sua mulher, tinha um aspecto elegante
num vestido preto de corte simples. As feies de Edgar mantinham o seu
habitual aspecto grotesco, que o desgosto acentuava ainda mais. No
momento em que o jovem advogado leu a primeira pgina do testamento do
pai, anunciando depois que no existia um centavo nos seus haveres,
ouviu-se um "oh" colectivo. Engolimos em seco e olhmos para Niang.
Calmamente, ela encarou-nos um a um. A sua expresso era uma mistura de
triunfo e desprezo e, numa voz fria e clara, anunciou que o testamento
do pai no tinha qualquer significado, pois ele tinha falecido sem um
tosto. Embora todos soubssemos que ela tinha transferido todo o
dinheiro do pai para a conta que tinha em seu nome, ficmos boquiabertos
ao perceber que tinha ficado com tudo o resto: duas toneladas de
lingotes de ouro na Sua, aces na bolsa e em empresas, condomnios em
Monte Carlo e Hong-Kong, edificios industriais em Cha Wan, o escritrio
alugado em Swire House, terrenos na Florida ... O pai tinha morrido sem
um tosto, mas vivia h j algum tempo tambm sem um tosto. Anos antes,
em 1950, o pai tinha ido com Gregory visitar um conhecido adivinho em
Hong-Kong, que tinha a alcunha de "baco de Ferro", pois fazia previses
com uma grande preciso. Acima de tudo, na mente do pai estava esta
pergunta: "Ser que Gregory, o meu filho mais velho, vai ser um homem
rico?" O Sr. baco de Ferro no se quis comprometer: - A riqueza  to
relativa ... - disse ele ao pai - Para o homem do riquex 100 dlares de
Hong-Kong  uma grande riqueza, mas para si isso no  nada. O seu filho
mais velho vai ter uma vida confortvel. Todavia o pai achou que esta
resposta no era suficiente: --- O que eu desejo saber  se o meu filho
mais velho vai ser mais rico do que eu. O adivinho fez alguns clculos e
em seguida exclamou: - Sim, sim, Sr. Yen! O seu filho ser muitas, mas
muitas vezes mais rico do que o senhor. Disso tenho absoluta certeza.
242 O pai ficou satisfeito. Porm,  medida que os anos foram passando e
Gregory no singrava na carreira, o pai abanava a cabea e murmurava que
o Sr. baco de Ferro gozava de uma falsa reputao. ~ ~ .~ ~j` Tu jiao
gui mao, you ming wu shi (Tal como os chifres do coelho e os plos da
tartaruga, o adivinho tinha fama, mas no possua substncia). Quando
amos a atravessar o hall de granito da Johnson, Stokes & Masters,
cutuquei Gregory e disse-lhe baixinho: - Parece que o Sr. baco de Ferro
acertou outra vez em cheio! . ,        Gregory, por sua vez, sussurrou:
- Eu sempre disse ao Velhote que me desse tempo. Nessa noite Niang quis
deitar-se cedo. Lydia telefonou a dizer-me que o motorista de Niang a
deixaria no nosso hotel, pois queria passar a noite comigo. Depois do
jantar Lydia e eu voltmos para o meu quarto. Vestimos a camisa de noite
e cada uma de ns se meteu na sua cama, lado a lado. Com a ajuda do
candeeiro da mesinha-de-cabeceira colocada no meio das nossas duas
camas, eu via a expresso do seu rosto: uma espcie de determinao
cega, uma fria de concentrao. A amargura da sua vida foi jorrando
numa torrente de palavras. Comeou por me culpar por eu no ajudar a
filha Tai-ling. Segundo ela, eu era avarenta e deveria ter dado a
Tai-ling o mesmo dinheiro que dera a Tai-way. - Alm do mais -
acrescentou ela friamente -, s ajudaste Taiway por ele ser jovem e
bonito. - O que  que queres dizer com isso? - perguntei eu zangada. -
Tira as tuas concluses. Fiquei sem fala perante acusaes deste
calibre, totalmente inesperadas e formando um to grande contraste com
as suas anteriores manifestaes de amor e gratido. Era como se esta
mulher estranha e infeliz me tivesse atirado para um redemoinho. Cada
uma das minhas respostas dava origem a novos ataques cheios de veneno. ,
- O que  que se est a passar entre ns? O que  que tens contra mim? -
perguntei de forma pattica. - Durante estes dias tens-te comportado
como uma rainha e tens-me tratado como uma criada - continuou sem perder
o flego. Cheguei a um ponto em que j no podia mais. Passava das 3 da
manh e eu estava exausta. 243 - Se so esses os sentimentos que tens
por mim, vamos pr um ponto final no assunto. Fiz o melhor que pude para
te ajudar a ti, ao teu filho e  tua filha. Mas, por razes que s tu
pareces conhecer, parece que tens qualquer coisa contra mim. A soluo 
muito simples -11 T~ ~! Yi dao liang duan! (Vamos cortar esta relao e
com um s golpe). Subitamente Lydia virou-me as costas, puxou as
cobertas e comeou a chorar. Fiquei a observ-la a mover os ombros, mas,
como as lgrimas rapidamente se transformaram em roncos, compreendi que
a nica razo que a levara ali naquela noite fora levar a cabo um
rompimento comigo. Dois dias mais tarde voei para Los Angeles
completamente esgotada e cheia de pressentimentos. 244 26 Wu Feng Qi
Lang Fazer ondas sem vento Apesar da discusso que tive com Lydia,
Tai-way manteve-se continuamente em contacto connosco. Em Maro de 1989
recebemos um convite para o casamento de Tai-ling em St. Paul, no
Minnesota. Porm, Bob aconselhou-me a no ir: -  melhor no, sobretudo
depois de teres ouvido coisas to feias e deselegantes da boca de Lydia
em Hong-Kong. Foi ento que recebemos um telefonema de Tai-way, de
Estugarda, a pedir-nos que fssemos ao casamento: - Os meus pais vo de
Tianjin especialmente para a ocasio. Por que  que vocs no vm tambm
para fazermos uma verdadeira reunio familiar? Ele iria estar nos
Estados Unidos durante um ms aps o casamento e at planeara
visitar-nos na Califrnia. Ficmos deliciados com a perspectiva. - A me
est preocupada com a possibilidade de vocs ainda estarem aborrecidos
com ela, mas eu disse-lhe que vocs no so do tipo de guardarem
rancores. Por favor, venham ao casamento, quanto mais no seja por mim,
pois sei que a vossa vinda tambm  muito 245 importante para Tai-ling e
para o pai. Alm disso, tenho a esperana de que tudo se resolva quando
estiverem face a face com a me. Vomos para St. Paul na noite da
vspera do casamento e no dia seguinte, na igreja, Lydia, Samuel e
Tai-way cumprimentaram-nos de forma extremamente calorosa, como se a
discusso anterior nunca tivesse acontecido. Eu fora o nico membro da
nossa famlia a fazer a viagem, o que, no dizer de Lydia, lhe dava muita
face. Ela nunca mais esqueceria o nosso gesto. Era a primeira vez que
vamos Tai-ling desde o nosso breve encontro no aeroporto de Beijing
nove anos antes, e, como tal, mal a reconhecemos. Quando lhe oferecemos
um cheque chorudo como prenda de casamento, ela limitou-se a pass-lo ao
seu noivo, um caucasiano de nome Alan, dizendo-lhe para o "pr em
qualquer lado". Pelo seu tom, era manifesta a sua inteno de ser
hostil. Depois da cerimnia levmos Lydia e Samuel at ao local da
recepo no nosso carro alugado e foi ento que o assunto da questo que
tivramos em Hong-Kong foi trazido  conversa. - Hoje, vocs so ambos
nossos convidados para jantar - disse-nos Lydia. E acrescentou: - Depois
vos explicarei tudo. Perguntei-lhe ento se Tai-ling estava zangada
connosco. - Se realmente querem saber - disse aps uma longa pausa - ela
no est de todo muito contente convosco, pois pensa que deveria ter
recebido de vocs o mesmo apoio que deram a Tai-way. Lembrei-lhe que o
amigo de Bob, o professor Leland, tentara arranjar uma bolsa de estudos
completa para Tai-ling e fora ela que no a quisera. - Isso no  o
mesmo - respondeu-me com aspereza. - Tai-ling pensa que o teu dever como
tia era dar-lhe a mesma quantia de dinheiro que antes tinhas dado a
Tai-way. Sentiu-se discriminada. Foi aps este breve dilogo que
chegmos. Tai-way aproximou-se de ns com um sorriso aberto e com taas
de champanhe. Mostrou um imenso entusiasmo pelo seu trabalho como um
acompanhante na pera em Munique. Agradeceu-nos por lhe termos dado, a
ele e a toda a sua famlia, "aquele ingrediente fundamental para a
felicidade ... que  a esperana". Continuou a conversar revelando-nos
os preparativos para o jantar daquela noite, altura em que a me
explicaria tudo acerca do que se passara em Hong-Kong. - Sabes, nunca
teramos vindo se no fosse a tua insistncia - disse-lhe eu. E
perguntei-lhe: - Diz-me com toda a franqueza, a tua me est
verdadeiramente contente com a nossa vinda aqui? 246 - Claro que est! -
disse Tai-way enfaticamente. - E quero contar-lhe um segredo: Niang deu
ordens  me para no vos convidar para o casamento de Tai- ling, mas a
me desobedeceu-lhe deliberadamente. Ao ouvir estas palavras soou no meu
esprito o sinal de alarme. No fora h muito tempo que Niang me
admoestara pelo facto de ter ajudado Tai-way a sair da China. Durante
trinta anos as relaes entre as duas mulheres tinham sido de grande
animosidade. Mas agora, que j estavam reconciliadas, porque  que Niang
aconselhara Lydia a no nos convidar para o casamento de Tai-ling? O som
de um gongo anunciou entretanto que o jantar j estava servido. Eu e Bob
ficmos sentados na mesa de Samuel e Lydia. Houve discursos, brindes e
um recital de piano por Tai-way. No tive um nico momento de
concentrao, j que as palavras de Tai-way ecoavam continuamente na
minha cabea. Mexi e remexi o comer que me fora servido e num momento de
maior silncio entre os discursos, debrucei-me pela frente de Bob na
direco de Lydia e perguntei-lhe em voz baixa: - Diz-me,  realmente
verdade que a Niang te aconselhou a no me convidares para o casamento
de Tai-ling? Lydia ficou calada durante tanto tempo que cheguei a pensar
que ela no me tinha ouvido. A minha pergunta parece que a tinha deixado
petrificada. Finalmente, respondeu-me com uma voz apagada: - Sim, o
Tai-way deve ter-te dito. Explico-te tudo esta noite. Depois do almoo,
a recepo teve lugar na casa da me de Alan, que vivia nas redondezas.
Estvamos a ajudar a dona da casa a servir as bebidas e a fazer conversa
de ocasio, quando Lydia interrompeu a nossa conversa e nos puxou 
parte. Samuel estava-se a sentir mal e ela pediu-nos que os levssemos
de carro de volta a casa de Alan, onde se tinham hospedado.
Encontrar-se-iam connosco mais tarde para o jantar. Ela tinha feito uma
reserva "no melhor restaurante de St. Paul" e ficou combinado que nos
telefonaria por volta das 6.30 para dar algumas indicaes. O telefone
tocou s 6.30 no quarto do nosso hotel e Bob foi atender. Era Tai-way e
Bob parecia perplexo. - Mas porqu? - perguntou ele. Depois s o ouvi
dizer - Penso que  melhor seres tu prprio a dizer isso  tua tia.
Carregou na tecla da funo de "espera", voltou-se para mim e disse: -
Tai-way diz que o jantar foi cancelado, mas no foi capaz de dar nenhuma
explicao. 247 Sentou-se na borda da cama e puxou o telefone para junto
de mim. Eu estava preparada para uma longa conversa, que de facto no
viria a acontecer. S ouvi o meu sobrinho com uma voz comprometida a
repetir a mensagem. E depois de uma pausa ele disse em mandarim: - Tem
algo a ver com as vossas infncias. Tudo isto  muito complicado para eu
entender. De qualquer forma, o jantar est cancelado. - Posso falar com
a tua me? - perguntei. De novo se fez um momento de silncio aps o
qual ele acabou por dizer: - Ela no pode vir ao telefone. No quer
falar contigo. - E o teu pai, pode?" - O meu pai! Pela forma como falou,
parecia incrdulo, achando que o seu pai era a ltima pessoa com quem eu
podia querer falar. - Ele no sabe nada! Ele nada pode fazer. E, alm
disso - acrescentou -, o meu pai tambm no quer falar contigo. - E tu -
perguntei -,tambm no tens nada para me dizer? - Eu no tenho o direito
de te dizer o que quer que seja. - A sua voz tornou-se ainda menos
natural. - E quero ainda acrescentar que no vos irei visitar 
Califrnia. - Ento suponho que isto  um adeus - disse-lhe, sentindo-me
confundida e magoada. O meu sobrinho no disse mais nada e eu pousei o
telefone devagar. Foi assim que eu e Bob deixmos St. Paul aps o
casamento de Tailing. Depois de tudo nunca recebemos nem uma carta nem
um telefonema que nos esclarecesse acerca do que se tinha passado. De
qualquer forma, o extracto do banco mostrou-nos que o cheque que
tnhamos oferecido a Tai-ling tinha sido levantado na segunda-feira
imediatamente a seguir ao sbado do casamento. Quando, pelo telefone,
falei disto a James, ele disse-me de forma enftica que no confrontasse
Niang sobre os convites para o casamento da Tai-ling. - No ~ ~t, ~ ~~
wu feng q lang (faas ondas sem vento). Como  que os Ingleses dizem
isto? "No acordes co que dorme!" 248 27 Jin Zhu Zhe Chi; Jin Mo Zhe
Hei Junto do vermelho tornamo-nos avermelhados e junto da tint
[-da-china] tornamo-nos enegrecidos H um provrbio chins que diz que
"Quando a China espirra, Hong-Kong apanha uma pneumonia." A China estava
a viver momentos histricos. O casamento de Tai-ling, em Abril de 1989,
coincidiu com o incio das manifestaes estudantis em Beijing, exigindo
maior respeito pelos direitos humanos, mais justia, democracia e o fim
da corrupo e do nepotismo. Encorajados pela imprensa ocidental, cerca
de 50 000 estudantes desfilaram na praa Tiananmen no dia 4 de Maio. O
resto  histria. Subitamente, os cidados de Hong-Kong deram-se conta
de que para 1997 s faltavam oito anos. Em solidariedade com os
estudantes de Beijing, 40 000 pessoas estiveram presentes na primeira
manifestao em Hong-Kong, no dia 20 de Maio, apesar da chuva torrencial
e dos fortes ventos que anunciavam a aproximao do tufo 249 Brenda. No
dia seguinte, 500 000 pessoas vieram para as ruas e, segundo algumas
contagens, no dia 28 de Maio mais de 1 milho de pessoas juntou-se em
Central clamando por democracia. Na noite do dia 3 de Junho, o batalho
27 do presidente Yang Shang-kung abriu fogo na Praa de Tiananmen e
prendeu os lderes estudantis. Em Hong_ Kong a Bolsa caiu 581 pontos num
s dia. Uma manifestao de solidariedade foi marcada para dia 7 de
Junho. As pessoas desfilaram vestidas de preto e branco, mostrando o seu
luto  maneira do Ocidente e do Oriente. Tiveram lugar alguns motins na
Nathan Road, tendo a polcia usado gs lacrimogneo para dispersar os
manifestantes. Com receio da China Comunista, os cidados de Hong-Kong
pediram que lhes fosse concedido o direito de emigrao para a
Gr-Bretanha aps 1997. James e Louise ainda no tinham passaportes
estrangeiros. Eles sabiam que Niang queria que ficassem com ela em
Hong-Kong depois de 1997. Ela, porm, claro, com o seu passaporte
francs e a sua propriedade em Monte Carlo, era livre de partir quando
muito bem entendesse. Era ntido na cabea de James que, se se
decidissem a emigrar, Niang se juntaria a eles, para onde quer que
fossem. Por outro lado, ao encetar o processo de emigrao sem a
convidarem, corriam o risco de a ofenderem e punham a herana em risco.
Secretamente ento, James comeou a tratar da emigrao da sua famlia
para o Canad, onde os impostos sobre os rendimentos eram mais leves.
Contratou advogados para tratarem da burocracia e comprou uma casa em
Toronto no incio do Vero de 1989. Quando telefonei para Niang, em
Julho, foi a criada quem atendeu. Disse que Niang estava no Sanatrio de
Hong-Kong e acrescentou que era uma situao muito triste, pois que,
imediatamente a seguir  morte do pai, Niang era agora apanhada por uma
doena. Telefonei para o seu quarto no Sanatrio. - Ah! Ol Adeline. -
Pela voz pareceu-me educada, mas fria. - Que simptico teres-me
telefonado! Como conseguiste o meu nmero de telefone? Quase a 13 000
quilmetros de distncia, endireitei-me na minha cadeira e ajeitei a
minha saia. - Foi a Ah Fong quem mo deu quando tentei telefonar-lhe para
casa. Como se sente? O que aconteceu? No acha necessrio que eu me meta
no primeiro voo para estar perto de si? Com uma voz um tanto ou quanto
gelada, disse-me que tinha notado manchas de sangue nas fezes e que
tivera de fazer uma biopsia ao clon. Depois de se recompor um pouco e
com uma voz mais leve, acrescentou: - J me estou a sentir melhor e
dentro de dias j posso ir para casa. No  necessrio que venhas. Posso
cuidar de mim sozinha. - James est consigo? - No. James e Louise foram
de frias para Toronto. Pelo que ela me disse, fiquei preocupada.
Imaginei Niang sozinha, num quarto de hospital, no longe do lugar onde
o pai tinha sofrido durante sete longos anos, prestes a receber ms
notcias acerca do seu estado de sade. Este quadro fez-me ficar
profundamente triste. Por isso insisti em ir para o p dela, mas ela
recusou categoricamente a ideia, dizendo que estava perfeitamente bem e
que, alm disso, ela no teria tempo para me "acompanhar. -
Acompanhar-me?! No  essa de modo nenhum a minha inteno! Eu s quero
ajudar no que puder. - Eu no preciso da tua ajuda. Porque insistes? J
te disse inmeras vezes que, se tiver necessidade da tua ajuda, te
telefono. E, se no te importas, agora tenho de desligar. Preciso de
descansar. Imaginei imediatamente que James no saberia do estado de
sade de Niang, pois, de outra forma, no se teria ausentado para o
Canad. James pareceu-me deveras surpreendido quando lhe liguei. - Como
soubeste que eu estava no Canad? - A sua voz estava tensa e mostrava
nervosismo. - Quem te deu o meu nmero de telefone? - No me lembro -
disse em tom de brincadeira. - No sei se ter sido a CIA, o FBI ou a
polcia canadiana. - V l! Diz-me l, quem foi? - disse ele com voz
sincopada e mostrando um pouco de irritao. - Pronto, deixa l ...
Podes ficar calmo! Foi Niang quem mo disse e Ah Fong deu- me o teu
nmero de telefone. Consegui ouvir um suspiro de alvio. Disse-lhe ento
que Niang estava no Sanatrio de Hong-Kong e que os sintomas apontavam
para um cancro no clon. Percebi que ele no estava de modo nenhum
dentro do assunto. - Ofereci-me para ir para junto dela, mas no me quis
l. No percebo porque foi Niang to fria comigo. Ser que a ofendi sem
dar por isso? 250 251 - Talvez seja por causa da doena - disse James. -
No acho que seja nada de especial contra ti. Acho que  melhor ir eu
para ver se tudo est em ordem. Se ela te disse que no voasses para
Hong_ Kong,  melhor no ires contra a sua vontade. De qualquer forma
telefono-te mal saiba os resultados da bipsia. - Mas James no
telefonou. Esperei mais ou menos uma semana antes de lhe telefonar para
Hong-Kong. O meu diagnstico estava correcto. Niang tinha um cancro no
clon e precisava de ser operada. James alvitrou a possibilidade de a
operao ser realizada na Califrnia, mas ela recusou. - Nesse caso irei
para a para estar junto dela durante a operao. Senti nitidamente
hesitao da parte de James. Depois de alguns momentos disse com voz
pausada, com que para se assegurar de que a mensagem era por mim
cabalmente compreendida: - Por ora, ela no quer que tu venhas. Por um
momento no consegui articular palavra. Do outro lado da linha pude
ouvir James a gritar: - Est? Est? - E depois o mesmo em cantonense -
Wei? Wei? Ests-me a ouvir? Cerrei os dentes e perguntei-lhe: - Porqu?
Ele evitou a questo e a gritar, como que para me assegurar claramente
do que dizia, afirmou: - Pensei que a chamada tinha cado. Penso que
devemos desligar agora, at porque a ligao est muito m. Niang
decidiu que seria o Dr. Lim a fazer a operao.  formado pela Faculdade
de Medicina de Harvard. Ela pediu-me que te enviasse uma cpia da
biopsia, assim como o nmero de telefone do consultrio do Dr. Lim em
Hong-Kong, para com ele te inteirares melhor da situao. - O que  que
se passa James? - A pobre velhota est doente - ripostou James. - Por
favor, faz as coisas como ela quer. - Certssimo. Mas o que se passa?
Porque no me quer ela junto de si? - Contactar-te-ei mais tarde por fax
- disse ele sem responder  minha questo. E desligou. Poucos dias
depois recebi os resultados da biopsia. O contedo era devastador. O
cirurgio tinha retirado as clulas cancergenas dos in testinos, mas
encontrara dois grandes quistos no fgado. Niang recusou ser operada ao
fgado ou sujeitar-se a quimioterapia. A irm dela, a tia Reine, tinha
morrido alguns anos antes com um cancro no fgado, apesar de doses
macias de drogas e de radiaes, que lhe tinham causado um enorme
sofrimento. Tentei em vo persuadir Niang a vir at  Amrica a fim de
ouvir uma segunda opinio mdica. De todas as vezes que lhe telefonei, a
enfermeira disse-me sempre que ela estava a descansar e que no queria
ser incomodada. E at recebi um telefonema de James a recomendar-me que
no "incomodasse o descanso dela." Porm, alguns dias aps a grande
operao, foi a prpria Niang quem me telefonou a convidar toda a minha
famlia para uma visita de Natal em Hong-Kong. Pareceu muito afectuosa e
desculpou-se por no ter escrito ou telefonado enquanto estivera no
hospital, dizendo que no o fizera por querer esquecer a sua doena e
continuar a sua vida normal. Bob e eu pegmos nas duas crianas e
passmos umas frias de Natal bem agradveis com Niang em Hong-Kong.
Durante todo o tempo nunca mostrou qualquer sinal de doena,
participando em todos os festejos, trocando presentes e assinando os
seus cartes "Com muito afecto, Me." Despedimo-nos calorosamente.
Durante os oito meses que se seguiram telefonou-me com bastante
frequncia para me dar conta dos seus planos para emigrar para a Amrica
antes de 1997. Edgar ajudara-a a obter o "carto verde" e ela tinha
ainda recentemente comprado uma propriedade em Nob Hill, So Francisco.
Cheguei mesmo a desejar poder ter com ela uma conversa de corao aberto
e sonhei com um "rapprochement" junto ao seu leito de morte, num momento
em que tudo seria esclarecido e ela poderia ento morrer em paz, rodeada
de toda a minha famlia. Insisti com ela que viesse at Huntington Beach
passar algum tempo connosco, mas ela recusou sempre. Um dia, em finais
de Agosto, quando lhe telefonei, Ah Fong disse-me que ela tinha voltado
para o hospital. J vestida e pronta para sair, Niang sentira-se de
sbito muito fraca e incapaz de andar. Deu entrada no Hospital Baptista
de Kowloon. Quando lhe telefonei directamente, confessou-me que se
sentia muito mal e, para meu grande espanto, acrescentou que "gostaria
que pudesse ir ter com ela e lev-la para a Amrica~>. Em francs e em
itlico no original. (N. da T.) 252 253 Nem podia acreditar no que
ouvia! Tinha-me oferecido antes tantas vezes para ir ter com ela para a
trazer para a Amrica e agora era ela que do hospital mo estava a pedir.
Tentando ter algum sangue-frio, perguntei-lhe se o Dr. Lim a achava em
condies de viajar, ao que ela me ripostou dizendo que no lhe
interessava mais a opinio dos mdicos e o que verdadeiramente queria
era que eu a levasse para os Estados Unidos e arranjasse maneira de ela
ficar melhor. James sabia da sua nova hospitalizao? No, no sabia. E
tornou-se insistente nos seus desejos. Iria eu busc-la ou no?
Prometi-lhe que sim e pedi-lhe que entretanto descansasse. Deu-me uma
resposta carregada de amargura. Que sentido fazia estar deitada para
descansar se nem dormir conseguia? Informou-me que nunca mais dormira
bem desde que o pai tinha falecido. Perguntei-lhe ento se o mdico no
lhe prescrevera alguns comprimidos para dormir, mas ela respondeu-me
mostrando ntida exasperao na voz: -  Adeline, estou muito cansada.
Por favor, faz o que te peo. Vem c e leva-me para a tua casa na
Amrica. Telefonei para o mdico dela no Hospital Baptista, que me
revelou que Niang tinha fluidos no abdome e que, por isso, no mais
poderia andar e duvidava que ela resistisse mais de um ms. Quanto a ir
para a Amrica, poderia aguentar a viagem, mas s se a fizesse numa
maca. A propsito das insnias disse o seguinte: - Ela tem tomado tantas
drogas para dormir durante os ltimos anos, que agora j nada lhe faz
efeito. Muito francamente, as doses so alarmantes, mas talvez lhe possa
administrar morfina para lhe dar algum alvio. Fiz uma chamada para
James, que se encontrava no Canad a matricular a filha no Tufts
College, e dei-lhe conta do inesperado desejo de Niang. Devia agir de
acordo com o desejo de Niang ou de acordo com o que o Dr. Lim me
dissera, isto , que Niang estava a morrer? James aconselhou-me a
esperar pela sua ida para Hong-Kong, para ele pessoalmente poder falar
com Niang, j que estava a pensar regressar exactamente no dia seguinte.
Dois dias depois James chegou a Hong-Kong e telefonou-me com uma voz
cheia de cansao, a dizer que Niang j no o reconhecera. Perguntei-lhe
se ainda valia a pena pensar ir a Hong-Kong e traz-la para a
Califrnia. - Olha, ela est no seu leito de morte e no se encontra em
condies de ir onde quer que seja. O Dr. Lim diz que ela 'capaz de mor
254 rer dentro de poucos dias. Podes  preparar-te para vir ao funeral e
para a leitura do testamento. Eu estou j a tomar as devidas
providncias. Porm, Niang, embora inconsciente e a morrer, estava
prestes a lanar a sua melhor cartada. Filhos seus tinha dois, um morto
e um deserdado; mas ficara, contudo, com cinco enteados, com quem ainda
podia fazer o seu jogo final. Fizera-nos acreditar que era possuidora de
uma das maiores fortunas do mundo. H algum tempo atrs, no incio da
dcada de 70, quando o pai ainda estava activo, a famlia Yen era
considerada uma das mais ricas de Hong-Kong. No final da dcada de 80 a
fortuna do pai tinha-se diludo progressivamente. S James tinha acesso
a documentos e revelou-nos que o seu real valor era aproximadamente de
30 milhes de dlares. Para mim a verdadeira preocupao no era o
dinheiro como tal. Tanto Bob como eu tnhamos empregos estveis e bem
pagos, com direito a penses bastante razoveis Havia, isso sim, uma
necessidade que para mim era bsica: a aceitao pelos outros e a
ocupao do meu correcto lugar na famlia - o que, no fundo, me fora
negado em toda a minha juventude. Em todos ns havia um enorme desejo de
sermos tratados com justia e igualdade. No conseguia suportar a ideia
de ser eu, ou qualquer outro de entre ns, a ser deixado de fora por
mera discriminao ou negligncia. Apesar de saber que Niang no era uma
pessoa nem terna nem boa, sempre aspirei pela sua aprovao, como antes
tinha aspirado pela bno do pai. Neste particular eram os dois uma s
unidade. Niang jogou com o nosso sentido confuciano de piedade filial, a
fim de ir impondo a sua influncia. A sua nsia permanente de domnio
transcendia toda a lgica. A extenso da unidade familiar  o lao e a
fora motivadora que liga qualquer chins s suas razes. Exceptuando
Susan, que, com grande fora de vontade, se tinha tornado independente,
todos ns estivramos ao longo de toda a nossa vida acorrentados a
Niang. Telefonei para Gregory em Vancouver para discutir o
desaparecimento iminente de Niang e ele pareceu-me preocupado com o
facto de no ir herdar muito, j que Niang nunca tinha gostado dele. -
Achas que ela amou algum de ns? - perguntei. - Claro que no! Mas acho
que quem ela mais detestava era eu, uma vez que, sendo o filho mais
velho, ameacei a sua posio na hierarquia familiar. 255 Foi ento que
Gregory me espantou: - Ajudas-me, Adeline, no caso de s o James ficar
com tudo?  que estou a contar com esta herana. Respondi-lhe da forma
mais verdadeira que pude naquela altura: - Sabes que ser muito difcil
para mim lutar contra James, mas penso que ele nunca seria capaz de ser
assim to injusto. E, alm do mais, acho que James merece uma parte
maior. Afinal de contas, ele deu a Niang trinta anos da sua vida. Mas
Gregory no se comoveu: - Nunca ningum lhe fez frente. Obviamente que
ele sentiu que teria mais possibilidades de aumentar a sua parte junto a
Niang do que longe dela, vivendo a sua vida por si. Nunca podes estar
assim to certa do comportamento das pessoas quando h dinheiro pelo
meio. ~L ~ ~ ~ , ~C .~ ~- ~ Jing zhu zhi chi jing mo zhi hei (Junto do
vermelho tornamo-nos avermelhados e junto da tinta [-da-china]
tornamo-nos enegrecidos). James mudou muito ao longo dos anos. E passou
mais uma semana, at que no dia 9 de Setembro, domingo, James deixou uma
mensagem no atendedor de chamadas: "A velhota faleceu h hora e meia, s
4 da madrugada de domingo." 256 28 Jiu Rou Peng You Amigos apenas para
comer e beber O funeral de Niang foi marcado para o dia 17 de Setembro
de 1990. Alguns dias antes, Bob e eu vomos para Hong-Kong e eu discuti
com James os pormenores do enterro de Niang. Durante as nossas conversas
ao telefone dei conta a James das desconfianas de Gregory. Niang tinha
tomado doses to fortes de soporferos que Gregory e a mulher, que era
farmacutica, receavam pela sua sanidade. Tinham sobretudo receio que
ela tivesse alterado o testamento original do pai sob a influncia das
drogas. Poderia tambm ter, para alm de Susan, excludo Gregory do
testamento? James dissera que nunca fora consultado e, por conseguinte,
no tinha a mnima ideia acerca do contedo do testamento de Niang. De
sbito perguntou-me se eu me lembrava de Miss Chien, a antiga preceptora
de Franklin. Os Guardas Vermelhos tinham-na obrigado a sair da casa do
pai em 1966, aps o que, durante doze anos, viveu na mais completa
pobreza na casa da famlia do irmo, em Hangzhou, como uma tia
solteirona. A sorte no a bafejara e acabara por contrair cancro de
pele, que alastrara 257 aos ossos e ao fgado. Um dia, j em 1978, James
recebeu com surpresa uma carta de Miss Chien endereada ao pai, que na
altura j se encontrava senil. Miss Chien estava s portas da morte, com
o corpo torturado pelo sofrimento e no tinha dinheiro nem para os
medicamentos nem para a alimentao. Implorava por uma pequena soma para
aliviar os seus ltimos dias. James estava a preparar-se para lhe enviar
um cheque, quando Niang entrou no escritrio: - No faas nada! -
ordenou. - Miss Chien j viveu para alm de poder ser til. - Senti um
arrepio da cabea aos ps ao ouvir as suas palavras - confidenciou
James. - Ningum podia esperar razoabilidade ou justia da parte de
Niang. Era de facto uma pessoa cruel. Qualquer um de ns, em qualquer
altura, podia ter sido deserdado sem causa aparente. O velrio teve
lugar na mesma casa morturia em North Point onde, dois anos antes, se
tinha realizado o funeral do pai. Niang estava deitada num estreito
caixo e a sua face parecia manchada, apesar da maquilhagem muito
carregada. Estava arranjada com um pesado vestido preto e tinha os
braos rigidamente postos ao longo do corpo. O seu cabelo pintado cor de
bano estava esticado para trs, mostrando salincias na fronte que,
enquanto era viva, se esforara por esconder com bastante sofrimento. As
criadas cantonenses de Niang, Ah Fong e Ah Gum, vieram vestidas com as
suas tnicas brancas e com as calas largas e pretas. Tinham servido
fielmente o pai e Niang durante trinta anos. O seu motorista fez uma
breve apario. Chegaram tambm duas enfermeiras, que tinham sido
contratadas para fazer companhia a Niang durante a noite. Susan e o
marido foram os ltimos a chegar. A nossa irm mais nova estava
magnfica num fato preto de bom corte, com o cabelo comprido penteado
com muito cuidado s ondas. Informou-nos que tinha pedido que fosse
celebrada uma missa pela alma de Niang na capela catlica, naquela
tarde. Sentmo-nos em cadeiras de metal naquela sala fria e
anti-sptica,  espera das demais pessoas. Tinha visto fotografias e
ouvido inmeros relatos de dispendiosos almoos, jantares, bailes e
recepes. - A nica coisa m de viver em Hong-Kong - disse-me uma vez
!Viang -  a permanente roda-viva de festas e mais festas. Esperei que
um grupo de amigos seus entrasse a qualquer momento pela porta. Mas
ningum chegou a aparecer para lhe prestar uma ltima homenagem e para
lhe dizer um ltimo adeus. Revi ento a minha triste infancia e pensei
no contnuo abuso que Niang sempre dispensara a todos quantos a tinham
rodeado. Revivi o orgulho que sentira quando finalmente me tinha
conseguido livrar do seu reino de terror e opresso. E, ainda assim,
continuava a ser importante para mim o facto de ela me amar ou no.
Quando deixei os meus pensamentos e olhei  minha volta, vi o Sr. Lu, o
fiel chefe da contabilidade do pai, levantar-se e ir para junto de Bob.
Sussurrou- lhe: - Penso que no vir mais ningum. Ela no tinha
verdadeiros amigos, s tinha jiu rou peng you (amigos apenas para comer
e beber). Como vocs os dois sabem, ela era uma pessoa peculiar. No
gostava de muita gente. Vejam como ela empurrou Susan para fora da sua
vida e do seu testamento, ela que era a sua nica filha, os seus gu rou
(ossos e carne). A minha plpebra direita comeou a tremer
incontrolavelmente, enquanto eu fixava os meus olhos no Sr. Lu, ao mesmo
tempo que tentava perceber o verdadeiro sentido das suas palavras. - O
que est a tentar dizer-nos, Sr. Lu? - perguntei com alguma ingenuidade.
- Porque no vai directamente ao assunto em vez de continuar com
rodeios? O Sr. Lu voltou-se para Bob, mas as palavras eram para mim: -
Parece que ningum lhe diz nada - lamentou ele. - A Niang dela no quis
que ela soubesse, mas  possvel que no lhe caiba nada amanh aquando
da leitura do testamento. - No acredito em si! - gritei. - Ainda h
trs semanas ela estava a pedir-me que a levasse daqui para a minha casa
na Amrica! Acho que deve ter tido alguma ternura por mim, j que estava
disposta a ir morrer na minha casa. O Sr. Lu abanou a cabea, ao mesmo
tempo que evitava cruzar o seu olhar com o meu. - A causa do pedido dela
deve ter sido originada por motivos posteriores, com vista a voltar
todos os seus parentes contra si. Ela possua o "carto verde" e era
cidad permanente dos Estados Unidos. O governo americano deveria cobrar
imposto de sucesso sobre os seus bens, caso ela morresse na Amrica. E
voc seria censurada pelo facto de a ter levado para sua casa para
morrer. Comecei a tremer e tive por momentos dificuldade em respirar. Eu
tinha 6 anos e era Ano Novo chins. Ns, as crianas, estvamos 259
vestidas com roupas novas e brilhantes e toda a gente estava reunida
para tomar o tradicional almoo da ocasio: pes gelatinosos, bolos de
arroz doce, enquanto se ouvia na rua o barulho dos panches. Um a um,
todos ns recebemos um ya sui chiens, um envelope tradicional de cor
vermelha, contendo dinheiro e decorado com caracteres que diziam "Feliz
e Prspero Ano Novo". Todos receberam, excepto eu. Fui a nica criana
esquecida - castigada por ter falado contra o facto de Niang ter batido
em Susan, que era ainda um beb. - Um momento - interrompeu Bob -,est
realmente seguro do que est a dizer? J leu o testamento de Niang? E
James, tambm j o leu? - Ainda nenhum de ns leu o testamento -
explicou o Sr. Lu -, mas temos a certeza absoluta dos seus traos
gerais. Acredite, s falei neste assunto porque no vejo necessidade de
a Adeline ir amanh  leitura do testamento e ser desnecessariamente
magoada. O resto daquela tarde passou a correr e sem eu ter dado conta.
Todos fomos  missa catlica que tinha sido pedida por Susan. Eu no via
o momento de voltar ao hotel e ouvir de James toda a verdade. Mal
chegmos, telefonei-lhe. A empregada dele informou-me que Louise j se
deitara, mas que James estava com todos os seus irmos no Hotel New
Asia. Bob e eu descemos de elevador at ao quarto do Gregory. J no
corredor, ouviam-se gargalhadas. Dentro do quarto encontrmos os meus
trs irmos, a minha irm Lydia e o Sr. Lu, que ainda vestiam os fatos
negros do funeral. Em cima da mesa estava uma garrafa de usque meio
vazia e alguns copos. Os enteados de Niang estavam a celebrar o seu
desaparecimento. Era bvio que tinham tido conhecimento do contedo do
testamento. Quando entrmos, fez-se um silncio pesado. Olhei na
direco de James, que estava corado por causa do usque e ainda se ria
da ltima piada que ouvira. - Desculpem termos vindo interromper a vossa
festa - disse eu com secura -, mas posso falar contigo em particular
durante alguns minutos? O sorriso desapareceu dos lbios de James. - De
facto - disse ele -, ia mesmo agora levar o Sr. Lu a casa no meu carro.
Est-se a fazer tarde. z Envelope tradicional que se oferece na poca
do Ano Novo chins e que em cantonense se chama lai si. (N, da T.) 260 -
Ento, eu e Bob vamos convosco, se no se importam. - Muito bem -
murmurou James. - Vamos ento. Durante o percurso atravs do tnel que
liga Hong-Kong a Kowloon at casa do Sr. Lu, Bob tomou a minha mo na
sua, mas no trocmos palavra. Eram quase 11 horas e o trfego estava
fluido. Enquanto o Sr. Lu falava constante e nervosamente veio-me 
memria um incidente que h muito esquecera. Era um dia escaldante de
Vero no pico de uma onda de calor em Xangai. Eu tinha acabado os meus
trabalhos de casa e estirara-me em cima da minha cama. Niang e o pai
estavam fora durante alguns dias e a atmosfera na casa era de distenso
e de sossego. Sentamo-nos  vontade na ausncia deles. A empregada
entrou no meu quarto e disse que os meus irmos me esperavam na sala de
jantar. Eles tinham um presente especial para mim. Dei um pequeno salto,
mas ela informou-me que James tambm l se encontrava. Ser chamada pelos
meus trs irmos mais velhos era para mim misterioso e excitante. Corri
at ao rs-do- cho. Em cima da mesa da sala de jantar estava um grande
jarro de sumo de laranja rodeado de quatro copos, trs vazios e um
cheio. Edgar foi o primeiro a falar, com um sorriso de orelha a orelha:
- Dado que est um dia to quente e que recebeste to boas notas nas
tuas fichas de avaliao, pensmos que, como prmio, merecias um copo de
sumo de laranja, j que o pai no est aqui para te dar os parabns. -
Mas porqu? - indaguei com suspeio. - Vocs nunca foram bons para mim
antes. - Bebe! - disse Edgar em tom de ordem, dando-me uma pancadinha
nas costas. - No quero. Porque tenho de beber isso? Porque no o bebes
tu? - At tem gelo, vs? - Edgar pegou no copo e os cubos de gelo
tilintaram. - Vai- te refrescar num instante. Inspeccionei o sumo e
fitei Gregory. - Achas que posso beber isto, ~ ~ Da ge ( Irmo mais
Velho)? - Claro que podes. Fomos ns que o fizemos com o concentrado de
laranja desta garrafa aqui, vs? Fizemos-te este copo de sumo por causa
dos teus resultados to bons na escola. Dito isto, todos se riram
estridentemente. 261 A sala estava quente e fazia-se sentir muita
humidade no ar. O gelo flutuava fresquinho na garrafa do lquido
alaranjado. Peguei no copo e apelei para James, sabendo que ele nunca me
desapontaria: - Posso beber, _-~- San ge (Terceiro Irmo)? - Podes -
disse James. - Este  o teu prmio por teres sido exemplar na escola.
Aliviada e apoiada, bebi um enorme gole. Mal entrou na boca, cuspi todo
aquele lquido. Os meus trs irmos tinham misturado a urina de todos
eles com o concentrado de laranja e enganaram-me. Desfiz-me em lgrimas,
no tanto por causa da malcia de Edgar ou por causa da mentira de
Gregory, mas sim pela traio de James. Entretanto o Sr. Lu saiu do
carro e eu sentei-me no lugar da frente ao lado de James, que nos
conduzia agora de volta ao hotel. Senti que ele estava bastante
comprometido. Apesar de o ter negado repetidas vezes, como  que era
possvel que no tivesse conhecimento do que o Sr. Lu me tinha antes
dito? Ou, pior ainda, ele devia ter acordado com Niang em manter-me na
ignorncia. James pagou os 10 dlares da portagem e, acelerando,
atravessou de novo o tnel e saiu do lado da ilha de Hong-Kong. Graas a
Deus que estava escuro, pois assim no tive a conscincia de quo peri
gosa foi a sua conduo. Comeou a chover e James ligou o
limpa-pra-brisas. - O Sr. Lu informou-me - comecei eu com todo o
cuidado - de que tinha sido excluda do testamento de Niang e que, por
isso, no receberei nada. James no fez qualquer comentrio e iniciou a
curva para a Rua Wong Nai Chong, mas pela primeira vez no tentou negar.
Por um momento deixou de fingir. Virou mais uma vez noutra rua e pouco
tempo depois j estvamos estacionados em frente do hotel, mas ele ainda
no tinha dito nada. - Diz qualquer coisa! - pedi. - O Sr. Lu est a
dizer a verdade? Sem ter desligado o motor do carro e olhando em frente,
fixando o movimento compassado dos pra-brisas, acabou por dizer: - Sim.
- E o pai? E o pai? Tambm fui excluda do testamento do pai? Algumas
lgrimas rolaram-me pela face. Veio-me  ideia a imagem io meu pai
deitado, mudo e sem se poder mexer durante anos no quarto ?62 525 do
Sanatrio de Hong-Kong. Seria possvel que ele tambm me tivesse
rejeitado? - J te disse que no li o testamento do pai - disse James
sem esconder a sua irritao. - Como poderei eu saber o que  que o pai
quis? Mas, de qualquer maneira, o testamento do pai  irrelevante, pois
todos os bens estavam em nome de Niang. - Mas porque me excluiu Niang? O
que fiz eu que a tivesse ofendido? - Olha - disse James com azedume -,
eu no tenho todas as respostas. Niang ficou com uma impresso muito m
de ti quando estiveste com ela em 1987. Ela disse que tu querias pr o
pai num apartamento em Kowloon e que, alm disso, no estavas nada
agradecida pelos estudos de Medicina que ela te proporcionara em
Inglaterra. - Pr o pai num apartamento em Kowloon? Isso  to fora da
realidade que chega a ser risvel! Porque quereria eu que Niang fizesse
semelhante coisa? Achas mesmo que  essa a verdadeira razo? - Eu j no
sei em qu e em quem hei-de acreditar. Simplesmente estou a repetir o
que Niang me disse. Detesto conflitos, especialmente quando se arrastam
pelos tribunais, tanto mais que na minha idade comeo a pensar que a
vida  muito curta para isso.  importante para mim gozar em paz os anos
que ainda tenho para viver. Lembra-te - disse ele - que eu serei o
executante do testamento, por isso, se decidires alguma aco judicial,
estars a confrontar-te comigo e serei o teu adversrio em tribunal.
Enquanto ele falava senti um frio gelado dentro dos ossos, pois tinha a
certeza de que estava a ouvir um discurso antes preparado. Aquela no
era a fala espontnea de um irmo preocupado. Bob, que se tinha deixado
ficar sentado no banco de trs em silncio, dobrou-se para a frente e
ps a sua mo no meu ombro. - No vs que tudo isto a est a deixar
arrasada? Neste momento ela sente-se atraioada e enganada. - No me
venhas com essa conversa piegas! - disse James com rudeza. -  de
dinheiro que vocs andam atrs? Se  de dinheiro, eu posso ajudar-vos.
Diz-me quanto  que precisam? Olhei de lado para o meu irmo, que se
tinha deixado cair sobre o volante, tenso e triste. Veio-lhe um rubor
carregado  face e parecia por momentos inchado com a vergonha. 263 - Tu
e eu, James, j passmos por tanto juntos e deixas que tudo acabe desta
forma to baixa? Seguramente que tu, mais do que qualquer outra pessoa,
devias saber que no  de dinheiro que se trata aqui. Trata-se de
famlia e de fair play e da nossa insistente procura de uma me. - Nem
Bob nem James disseram palavra. - Ainda no consigo entender porque me
deserdou Niang enquanto me fazia passar por parva. Amanh - continuei -
irei ao funeral pela manh. Mas ir s 4 da tarde ouvir a leitura do
testamento ... isso no consigo aguentar. Esperarei por vocs no meu
quarto de hotel. Podes depois vir dizer-me o que se passou quando j
estiver tudo acabado? E, por favor, podes trazer-me uma cpia do
testamento? O testamento foi lido s 4 horas e s 6.30 James entrava no
meu quarto com uma cpia do testamento. O seu hlito cheirava a lcool e
mostrava que tinha bastante pressa em sair. Tinham todos ido directa
mente do escritrio do advogado para a Sala Clipper, no Hotel Mandarim,
para celebrarem e um jantar estava marcado para aquela noite no Shanghai
Club. Susan, eu e os nossos respectivos maridos no tnhamos sido
convidados. - Eu sou um homem de palavra - declarou James. - Esta  a
tua cpia do testamento de Niang e desculpem, mas no me posso demorar
muito. Esto todos  minha espera para o jantar e ainda por cima sou eu
quem convida. - O que  que est a escrito? - Gregory e Edgar recebem
20 por cento. Eu recebo 50 por cento. Lydia recebe 10 por cento. E Susan
e tu no recebem nada. Folheei apressadamente os papis at encontrar o
meu nome. - "Adeline Yen Mah" - li eu alto na direco de Bob -, "dado
que nem sequer  minha filha, Adeline Yen Mah no receber de forma
alguma nenhum dos meus bens." - a minha voz fraquejou - Porqu, James,
porqu? Porque me desprezou ela sempre tanto? "De forma alguma",  o que
aqui est. "De forma algumau! James, que estivera sentado todo o tempo,
levantou-se na direco do bar, tirou um copo e serviu-se generosamente
de usque. Bebeu-o de um s trago. - No leves esta questo to a peito
- disse ento. - Olha, deixa-me dar-te algo. Que tal o apartamento de
Niang? Porque no ficas com ele? Lembra-te de que, se fores para
tribunal, quem ganha so os advogados - continuou - e j tens dinheiro
que chegue. 10 ou 20 por 264 cento a mais no  o que te vai fazer
alterar o teu estilo de vida. Bem, tenho de ir. O jantar  s 7.30 e eu
ainda tenho de aqui voltar para levar Lydia. Ela quer telefonar aos
filhos para lhes contar as boas notcias. - No  incrvel que Lydia,
que Niang odiava e que h quatro anos no quis sequer ver, receba 10 por
cento, enquanto eu, que comprei em 1986 a passagem area para Lydia para
que ambas se pudessem reconciliar, tenha sido deixada de fora? - Esta
foi a forma como a Velhota quis que as coisas ficassem no fim - disse
James. -V-se l saber, porqu? De qualquer modo, amanh de manh todos
estamos convidados para irmos ao apartamento dela para se fazer a
diviso da moblia, das antiguidades e das jias. Telefona-me caso
queiras ir tambm. Agora tenho mesmo de ir. At amanh. 265 29 Wu Tou
Gong An Um caso sem ps nem cabea Susan foi bem mais clarividente do
que eu. - O qu?! - exclamou - Lydia ficou com 10 por cento e tu ficaste
sem nada? Que justia  esta? - Tu tambm no herdaste nada .J~ Xiao
mei (Irm Pequena). Estava a mostrar preocupao pelos sentimentos de
Susan em relao a mim, quando no fundo ela estava na mesma situao. -
Ela tinha-me deserdado em 1973. No estava  espera de nada nem nunca
mais quis nada que fosse dela! Mas tu, o que  que tu fizeste para
merecer isto? Era de facto uma mulher nvia! Porque teve ela de te
castigar desta forma? Pensei como seria dificil para Susan admitir que
uma pessoa assim era os seus gu rou (ossos e carne). Mas depois veio-me
 memria a valentia que ela tinha mostrado h dezassete anos, ao voltar
as costas ~ Niang, coisa que nunca nenhum de ns conseguira fazer. -
James disse que foi porque em tempos quis pr o pai num apartamento em
Kowloon e porque no me mostrara suficientemente agradecida quanto 
educao mdica que recebera. - Que disparate mais completo! Ento eles
devem ter discutido o testamento entre si ... e, se de facto o fizeram,
porque no te defendeu James? A minha irm mais nova tinha posto o dedo
na ferida. - Eu no te sei responder, mas uma coisa  certa: antes de
deixar Hong-Kong tenho de ter acesso ao que foi o testamento do pai.
James ofereceu-se para me dar o apartamento de Niang. E ainda para mais
convidou-nos a todos, tu includa, para irmos a Magnolia Mansions amanh
para ser feita a diviso do seu recheio. - Ele deve estar a brincar! -
disse a Susan a rir. - Nem pensar que eu l irei alguma vez. E as coisas
de Niang, alm de me causarem repulsa, trar-me-iam m sorte. A ltima
coisa que eu quero  que algo ma faa lembrar! Os preos caram
drasticamente e continuam em baixa por causa dos acontecimentos em
Tiananmen. James est a tentar comprar-te pelo preo mais baixo.
Possivelmente est com medo que tu ponhas o testamento em causa; coisa,
alis, que tens todo o direito de fazer. Durante a noite seguinte tive
um sono muito agitado. Acordei s 4 da madrugada e desde a voltei-me e
tornei a voltar-me na cama, mas no mais preguei olho. Bob abraou-me
longamente. Mas, mesmo assim, como nenhum de ns conseguia dormir,
samos para dar um longo passeio a p  volta do hipdromo de Happy
Valley e acabmos  porta de James e de Louise. Eram 8 da manh e eles
estavam a tomar o pequeno-almoo. Pouco depois Gregory e Edgar chegaram;
este ltimo, mal me viu, saiu logo, mas Gregory sentou-se junto de mim e
aceitou uma chvena de ch. - O testamento de Niang deixou-me muito
triste - comeou Gregory. -  to injusto que no te tenha cabido nada.
O que pensas que ns podamos fazer para tornar o testamento mais justo
e no te sentires to mal? Eu sugiro que cada um de ns te d 10 por
cento da parte que lhe coube, para que acabes por ficar com 10 por cento
do total. As suas palavras fizeram que algumas lgrimas me cassem pela
face e fiquei com um n na garganta. Esperei uns momentos at sentir que
podia falar com uma voz minimamente segura. - Agradeo-te do fundo do
corao, acho que a tua oferta  mais do que generosa. 267 - Dado que eu
tenho a parte maior - interrompeu James -, os meus 10 por cento so
equivalentes a 5 por cento do total, o que inclui tambm o apartamento
de Niang. - Olhou de soslaio para Louise, que se deixou ficar
cabisbaixa. Ningum disse nada. - Tal como j disse antes, estou muito
velho para batalhas judiciais. O que eu agora quero  gozar o meu
dinheiro, portanto acho que sim, a minha resposta  sim. - Fica ento
assim combinado - concluiu Gregory. - Depois falarei a Edgar e a Lydia.
Louise olhou para o relgio e disse: - Dissemos a Ah Fong que estaramos
l s 10 horas. J so quase 9.30 e ainda temos de ir buscar Lydia e
Edgar. Acho que devemos sair quanto antes. - Eu por mim vou s ao
cabeleireiro. No estou interessada nas jias nem na moblia de Niang.
Tudo o que eu quero  o testamento do pai. Voltei-me ento para James e
pedi: - Podes dar-nos, a mim e a Bob, permisso para irmos esta tarde ao
apartamento de Niang para o procurarmos? - Acho que vais s gastar o teu
tempo - replicou James -, mas muito bem. Vai l procurar e podes levar
todos os documentos que quiseres! Eu e o Sr. Lu j vimos e revimos todos
os papis de Niang e no conseguimos encontrar o testamento. Depois de
ter lavado a cabea e composto o cabelo voltei para o meu quarto de
hotel bastante mais fresca. Mal tinha acabado de entrar bateram  porta.
Era Gregory. - Falei a Edgar e Lydia. Edgar recusou liminarmente dar-te
o que quer que seja e Lydia a princpio tambm recusou, mas, depois de
eu lhe ter lembrado que ela tinha sido deserdada e, se no tivesses sido
tu, ela no teria ficado com nada, ela concordou em te dar 5 por cento
na condio de tu fazeres uma confisso completa. - Uma confisso
completa? Mas o que  que eu tenho de confessar? - perguntei incrdula.
- Foi o que eu tambm lhe perguntei, mas ela no me disse bem o qu. Ela
chamou ao facto de teres sido deserdada um ;~. l~ ~~~ ~ wu tou gong an
(um caso sem ps nem cabea). Ela quer que tu confesses as verdadeiras
razes que esto por detrs deste caso. Penso que esta ideia lhe vem dos
seus tempos de comunista. Ela delicia-se a ouvir as confisses dos
outros. Acho que a fazem sentir-se poderosa. Na China, 268 durante a
Revoluo Cultural, as pessoas passavam a vida a confessar-se em todos
os lados. - Ento Lydia quer deveras ouvir a minha verdadeira confisso.
Bem, o facto  que eu tambm gostaria de saber as verdadeiras razes.
Gregory, diz a Lydia que fique com o dinheiro dela - disse eu. - No
quero nada seu. 269 30 Kai Men yi Dao Abre a porta e sada o ladro Bob
e eu acordmos estremunhados s 5 da tarde, depois de nos termos deixado
dormir durante toda a tarde. Arranjmo-nos a correr e samos muito
apressados, apanhando um txi para Magnolia Mansions. No patamar de
mrmore do 10. andar fomos assaltados por cheiros que me eram
familiares: o perfume de Niang, a cnfora e o tabaco. Lembrei-me ento
de quantas vezes ali tinha estado naquele lancil com as mos a suar e o
corao a palpitar! Ah Fong abriu primeiro a porta de madeira e em
seguida o porto de ferro. No interior tudo estava como dantes. Ali
estavam os quadros de Castiglione, o jesuta italiano do sculo xviii na
corte do imperador Qian Long. Contra uma das paredes estavam quatro
cadeiras ricamente trabalhadas, que datavam do tempo do ltimo imperador
da China. De frente para o porto encontrava-se uma chaise longue
imitao Lus XIV. Por cima da mesa de caf da dinastia Qing vi uma
caixa de prata Tiffany, que eu lhe tinha enviado dezasseis anos atrs
por altura do aniversrio dela. Mesmo ao lado dessa caixa faiscava um
isqueiro em ouro que Bob lhe tinha dado num Natal. H alguns anos
aconselhara-a a deixar de fumar, ao que me respondeu como um tiro: -
Deixa-me em paz! No preciso que sejas tu a dizer-me que fumar faz mal 
sade. Isso est escrito em todos os maos de cigarros. - E depois de um
silncio acrescentou de forma um tanto pattica: -  o nico prazer que
tenho desde que o teu pai ficou doente. No lhe respondi, pois sabia que
era inteiramente verdade. Ah Fong andava  nossa volta a perguntar-nos
se queramos algo para nos refrescarmos e, de sbito, lembrmo-nos ambos
que no tnhamos almoado. Bob perguntou-lhe ento, no seu cantons
rudimentar, se ela no nos podia preparar ch e algumas torradas. Posto
isto, comemos sem mais demoras a busca no quarto de Niang. Desde o
incio da doena do pai que Niang se tinha mudado do quarto principal
para um mais pequena mesmo em frente da verde encosta da montanha, que
ficava mesmo por detrs do apartamento. Era decorado com uma cama de
solteiro, uma escrivaninha antiga chinesa com a cadeira respectiva, uma
cmoda com um relgio que lhe tnhamos oferecido alguns anos antes, um
guarda-fatos e um armrio incrustado na parede. Comecei a inspeccionar o
guarda-fatos e vi uma enorme fila de vestidos impecavelmente pendurados,
dzias de pares de sapatos em fileiras tal como soldados em parada, alm
de malas vazias arrumadas umas ao lado das outras numa prateleira em
cima. O testamento no se encontraria por certo ali. Todavia, o mero
contacto com os seus objectos pessoais deu-me nuseas. A fraca luz no
tecto, bem como a da mesa-de-cabeceira, coavam a luminosidade e faziam
sombras sinistras. Senti o peito a apertar-se pelo forte efeito da sua
aura; os meus sentidos ficaram saturados com o seu odor. Fui ento ver a
antiga escrivaninha chinesa. Seis anos antes, Niang tinha prometido a
Bob que lhe deixaria exactamente esta pea. "Trabalhada por excelentes
artfices durante o perodo da dinastia Ming", lembro-me que foi o que
ela disse nessa ocasio. Estaria ela j a mentir nessa altura? Pus-me
ento a observar com ateno o magnfico trabalho de madeira e
experimentei o deslizar perfeito da gaveta de cima, que abri. Os maos
de cartas deixaram-me de boca aberta. Pilhas e pilhas de envelopes de
correio areo, num total de talvez duzentas cartas, irrepreensivelmente
arrumadas em filas. Comecei pelas que estavam 270 271 manuscritas em
pequenos e familiares caracteres chineses com selos coloridos da
Repblica Popular da China. Todas vinham de Tianjin e eram endereadas 
Senhora Joseph Yen. Eram todas escritas por Lydia. A viso destas cartas
deixou-me grudada ao cho. Por que razo tinha Lydia escrito a Niang
quase dia sim, dia no? Num acesso de maior curiosidade, peguei no
envelope de cima e tirei de l a respectiva carta.  medida que comecei
a ler, o aperto no meu peito fez-se sentir com mais fora. Senti uma
tontura, como se estivesse no cimo de uma torre e visse tudo em baixo a
andar  roda. Carta aps carta, todas elas estavam cheias de mentiras a
meu propsito, incitando Niang contra mim. Eu era "cruel, egosta e
miservel" e Lydia aconselhava Niang a tratar comigo com todo o cuidado,
pois que ela j no se encontrava numa posio de fora. Acusava-me de
desobedincia pelo facto de ter continuado a contactar Susan e de me ter
juntado a ela e a todos os meus outros irmos para ajudar Taiway, com a
inteno pura e simples de desafiar as suas ordens. O ano de 1997
aproximava-se a grande velocidade, quando Hong-Kong passaria a ser
governado por Beijing. Ela jogava com os medos e as fobias de Niang,
escrevendo-lhe que eu andava a incitar James a emigrar, a fim de deixar
Niang s e abandonada durante os seus ltimos anos. Por fim pedia
segredo a Niang. Mesmo por debaixo destas cartas estavam outras de
Samuel e de Tai-ling com acusaes semelhantes. Com o corao pesado,
dei-me conta de que ao ir contra as ordens de Niang ajudando a famlia
de Lydia, tinha kai men yi dao (aberto a porta e saudado o ladro).
Quando me voltei para mostrar a Bob as cartas de Lydia, ele deu um grito
de alegria. Tinha estado a remexer papis na dispensa de Niang e era sem
sombra de dvida melhor detective do que eu. Apareceu junto de mim a
abanar triunfalmente um documento. Era o testamento do meu pai. Bob e eu
sentmo-nos na borda da cama de Niang e lemos repetidas vezes o
testamento do pai. Parecia que ouvia de novo a voz de meu pai, como se
se tivesse levantado da sua campa e eu o estivesse a abraar de novo. Os
seus desejos aliviaram o meu corao. O testamento de meu pai, escrito a
2 de Maio de 1974, era radicalmente diferente do de Niang, escrito a 2
de Junho de 1988, menos de trs semanas aps a sua 272 morte. O pai
tinha dividido os seus bens em sete partes. Deixava uma parte para mim,
outra para Gregory, uma tambm para Edgar, duas para James e as outras
duas para os seus netos que tivessem o apelido Yen. Nenhuma parte era
deixada para Susan. Alm disso, tinha escrito no testamento: "Gostaria
de esclarecer que nenhuma parte dos meus bens  deixada a Lydia Yen
Sung." Ao dobrar de novo o papel do testamento, senti-me a abraar o meu
pai. - No final de contas o testamento de Niang no  importante.
Acontea o que acontecer, este documento, o testamento do meu pai,  o
que  importante para mim. Ele pelo menos no me excluiu. No fundo,
talvez me amasse. E, alm de tudo o mais - acrescentei -, James far o
que  correcto.  ele o executor do testamento e  um homem honesto. Ao
acaso tirmos algumas das cartas de Lydia e juntmo-las ao testamento do
pai dentro da minha mala de mo. Sentados j no txi a caminho do nosso
hotel, Bob agarrou-me a mo e disse-me: - Lembra-te que sempre me ters
a mim ... 273 31 Yan Er Dao Ling No querer ver o que  evidente Na
manh seguinte, eu e James encontrmo-nos para o pequeno-almoo numa
loja de dim sum43. Sentmo-nos um em frente do outro em banquinhos que
estavam dispostos em volta de uma mesa, tudo ao estilo da "Velha
Xangai". Havia ventoinhas que se moviam lentamente no tecto, janelas com
vidros martelados, cho em parquet encerado, fotografias da poca, vasos
com crisntemos frescos. ramos os nicos clientes. L fora chovia
copiosamente. Serviram-nos ch e ns pedimos uma tigela de sopa de fitas
cada um. Em silncio passei o testamento para as mos de James e ele
mostrou-se admirado com a facilidade com que o encontrramos. Voltou a
dizer que tanto ele como o Sr. Lu o tinham procurado "por toda a parte",
mas sem qualquer resultado. - Eu gostaria de ficar com este testamento.
Bem sei que no tem qualquer valor, mas quero t-lo na mo para o
advogado que vai tratar das partilhas. ' Refeio matinal chinesa
composta de pequenos pratos leves, geralmente com comida preparada no
vapor. (N. da T.) - Alm do testamento, tambm encontrmos muitas cartas
na escrivaninha de Niang. Talvez umas duzentas. A grande maioria foram
enviadas por Lydia. Trouxemos algumas connosco quando deixmos o
apartamento de Niang ontem  noite. Tirei uma pilha de cartas da minha
mala de mo e pu-la junto ao testamento do pai. James olhou para as
cartas, franziu o sobrolho e cerrou os lbios. J lhe tinha visto esta
expresso muitas vezes, especialmente quando no fim de um bem disputado
jogo de xadrez, pouco antes do seu lano final para cheque-mate. - No
tinhas o direito de tocar nessas cartas, e muito menos de as tirar da
escrivaninha de Niang - disse ele com uma voz gelada. - Essas cartas so
privadas! - Eu penso que as devias ler. Olha aqui - disse eu com alguma
nfase -,esta carta tem a data de 7 de Outubro de 1987. Enquanto eu
tentava ajudar os filhos dela, Lydia conspirava contra mim. - Eu no
quero ler essas cartas envenenadas. - Mas no queres conhecer a verdade?
- perguntei eu, agora de forma um tanto pattica. - Tu no podes ~~ ~ ~.
i; yan er dao ling (no querer ver o que  evidente). - Ser que existe
a verdade absoluta? - lanou ele com retrica. - Tudo depende do ponto
de vista das pessoas. De qualquer forma,  tudo gua que passa sob a
ponte. Suan le (let it be)! Alm disso, detesto conflitos! Lembra-te
que, se denunciares o testamento, estars a entrar em confronto comigo.
E, se, por acaso, tu e eu nos tivermos de confrontar em tribunal, ento
estaremos a deixar- nos apanhar pela armadilha de Niang, pois que isso
foi sempre o que a velhota sempre quis. - Tu foste apanhado pelas teias
dela h j muito tempo. Ela sempre soube como lidar contigo. Tu nunca
foste um desafio para ela. Somente Lydia era suficientemente nvia para
competir com ela. James deu uma gargalhada. - Tens razo! So as duas
tiradas do mesmo molde. Pena foi que s compreendesses isso muito tarde
e  tua prpria custa. Foste tu quem levou Lydia e Niang a
reconciliarem-se. Se elas no se tivessem encontrado em 1986, as coisas
ter-se- iam passado de uma forma muito diferente. - Pousou os pauzinhos
e pediu a conta. - O teu grande problema, Adeline,  que ests sempre a
transferir para os outros os teus prprios sentimentos e pensamentos.
Quiseste sempre que todos ns partilhssemos o teu sonho de uma famlia
unida, mas de facto nunca nenhum de ns se importou com isso, excepto
tu. Desculpa, mas agora tenho de ir. Est-se a fazer tarde para mim. O
seu olhar por momentos cruzou-se fixa e obstinadamente com o meu.
Levantou-se e agarrou no testamento do pai e nas cartas de Lydia. -
Enviar-te-ei uma fotocpia do testamento do pai, mas, quanto a estas
cartas, como so privadas, vou queim-las. Samos e continuava a chover,
como se todo o mundo chorasse naquele momento. Durante a nossa infncia
e juventude, bem como quando j ramos adultos, sempre framos um para o
outro um ombro amigo. Ao longo de anos Niang deve ter sentido sempre um
certo rancor por esta inclinao especial que sempre tivemos um pelo
outro. Por fim, com a inteno de destruir este nosso lao, levou-o a
participar numa fraude que ele detestava. Nada mais lhe agradaria do que
ver-nos discutindo e lutando por causa da sua herana. Quando o vi
comear a afastar-se, protegendo-se da chuva, chamei-o: - `_ ~-! San ge!
(Terceiro Irmo mais Velho)! Foi um grande infortnio termos tido Niang
como madrasta. Mas no te preocupes, pois eu no vou contestar o seu
testamento. Nunca deixarei que ela triunfe  minha custa. 276 32 Luo Ye
Gui Gen As folhas que caem regressam s suas razes Num dia cinzento de
Maro de 1994 recebi uma carta da minha tia pedindo-me que fosse ter com
ela a Xangai. As notcias deixaram-me num estado de grande apatia, que
se conjugava naquele ano com um tempo excepcionalmente frio e cinzento
para o clima do Sul da Califrnia.Embora tivesse de continuar com os
meus afazeres dirios, tinha uma dor latente, que se agravava sempre que
me vinha  ideia a imagem dela a morrer sozinha na sua enorme casa. No
meu ntimo algo me dizia que aquela minha visita seria a ltima.
Instintivamente rejeitei a ideia, para mim inaceitvel, de que a tia
Baba pudesse partir deste mundo para sempre num futuro muito prximo.
Durante a longa viagem de Los Angeles para Xangai, via Tquio, fui
fazendo planos detalhados de como a trazer para a Amrica a fim de ser
observada pelos melhores especialistas. A Xangai dos anos 90 tinha-se
transformado numa cidade onde palpitava energia e vitalidade. Os carros
atravancavam as ruas. Por todos os lados se viam guindastes na
construo de novos edificios. O hori 277 zonte estava envolto numa
nuvem de fumo formada por esta renovao geral de velhos edifcios e por
novas construes. Uma vez mais entrei na rua que me era to familiar,
onde ela tinha vivido durante os ltimos cinquenta anos. Estava agora
suja, com restos de cimento e materiais de construo. Fiz o meu caminho
pelo meio de motas de grande cilindrada e de carros de luxo importados.
Do lado do jardim empurrei a nova porta de vidro pintado francs,
dirigi-me at  antiga sala de estar, que era agora o seu quarto, e
abracei a minha tia. Ela encontrava-se de cama com uma anca partida por
causa de uma queda que dera. Os raios X haviam mostrado que ela tinha
cancro no clon e que este j se tinha espalhado. Para minha grande
surpresa, encon trei-a com muita alegria e sem dores, em parte, se
calhar, devido s pequenas doses de morfina que lhe estavam a
administrar. Estava rodeada de vizinhos e de amigos que se revezavam ao
seu lado dia e noite. Neste ambiente ao mesmo tempo acolhedor,
barulhento e extremamente gregrio em torno da cama de um doente, to
diferente da rigorosa e estril solido dos quartos de hospital
americanos, a vida dela tinha-se surpreendentemente tornado uma contnua
festa de despedida. Bob, que na altura me acompanhava, tinha andado a
aprender mandarim. Tentou usar os seus novos conhecimentos com a minha
tia, apesar de eu achar que aquilo que dizia no se assemelhava a nenhum
dos dialectos que eu alguma vez ouvira. Aps alguns momentos, quando ele
se tinha embaralhado numa frase de sintaxe tortuosa, a tia Baba
interrompeu-o e perguntou-lhe qual era a lngua que ele estava a falar.
Quando ele lhe respondeu que era mandarim, ela retorquiu com ironia: -
Para a prxima, quando comear a falar chins, por favor diga-me "eu vou
agora falar mandarim consigo." De outra forma, os meus velhos ouvidos
podero julgar que continua a falar ingls. Tinha de facto voltado para
o aconchego do mundo da tia Baba, com a certeza de que ela fora a pessoa
para quem eu sempre seria importante. Ali, tendo as suas mos nas minhas
e ouvindo o seu falar cantado prprio de Xangai, at me esqueci do peso
que tivera na minha cabea desde que soubera da sua doena. Muito longe
do medo e da tristeza, a tia Baba emanava uma tranquila euforia. Ela
tinha recusado categoricamente considerar a hiptese de uma operao ou
de uma hospitalizao, repreendendo-me com gentileza quando lhe expus os
meus planos grandiosos de a levar dali, pois os achava "macabros" e
"antinaturais". 278 - Tive uma vida feliz durante oitenta e nove anos. 
tempo de aceitar o fim, pois que, se no h esperana de cura, para qu
prolongar a minha agonia? At ao final as suas preocupaes eram somente
as pessoas que amava e que tinha de deixar. Quis mesmo dar-me foras
para eu poder enfrentar o meu sofrimento. Deitei-me na borda da cama
dela junto do seu corpo fraco e magro ... como tantas vezes fizera
durante a minha infncia, especialmente quando no me vinha o sono por
tudo ser to terrvel e a vida me parecer sem esperana. Ento ela
aconchegou-me, tal qual como no passado, fazendo-me festas no cabelo e
contando- me uma histria. Chamava-lhe "A Ferida Incurvel". - H muito,
muito tempo, havia uma criana chamada Ling-ling que era uma artista
muito habilidosa. Depois da morte da me, a concubina favorita do seu
pai comeou a trat-la bastante mal, mostrando ntida preferncia pelos
seus prprios filhos. Ling-ling no tinha ningum com quem brincar e
passava o seu tempo a pintar. Ora acontece que os seus quadros se
tornaram muito famosos e ela conseguiu vend-los por muitos tais de
prata. Isto no fez mais do que espicaar o cime que a sua madrasta
tinha por ela. Uma noite, foi at junto da cama de Ling-ling e cravou um
prego sujo na mo da criana, no sem antes ter espalhado fezes no prego
para causar uma infeco. Passados alguns dias, a mo de Ling-ling
estava vermelha e inchada. Apesar de o prego ter sido retirado,
continuava a sair mudo pus da ferida. Porm, Ling-ling continuava a
pintar. Entretanto, algo de extraordinrio aconteceu. A ferida nunca
mais sarava, mas Ling-ling continuava a pintar e a sua pintura era cada
vez de melhor qualidade. Quanto mais pus saa da ferida, maior beleza
tinham as suas obras. Nunca se tinha ouvido nada semelhante em toda a
China. O sofrimento que lhe advinha da ferida na mo parecia ter enchido
Ling-ling da essncia da invencibilidade, dando-lhe foras para ~, ~n
,;G ~, I`fJ ~n .~ ~, zhan er bi sheng, dou er bi ke ( vencer em todas as
batalhas, ultrapassar todas as adversidades). A fama de Ling-ling chegou
mesmo aos ouvidos do imperador e este chamou-a certo dia ao palcio para
que ela fizesse o retrato do prncipe herdeiro. Apaixonaram- se um pelo
outro e casaram. Todavia, apesar de se terem consultado todos os
melhores mdicos do Imprio e de Ling-ling ter tomado todos os remdios
por eles preparados para si, o certo  que a sua ferida no sarava de
maneira nenhuma. Conti 279 nuou, porm, sempre a pintar de forma
surpreendente at  hora da sua morte, o que aconteceu era ela j
velhinha. ' As palavras da tia Baba eram como uma suave brisa que passa
por entre as nuvens negras. A sua crena nas minhas capacidades dera-me
sempre foras para ultrapassar as minhas inumerveis dificuldades. E,
naquele momento, a sua histria tocou-me por artes mgicas como uma
varinha de condo, trazendo-me harmonia e alvio. Dia aps dia, sentada
a seu lado, via-a cair em estado de coma, de onde nunca mais acordaria,
e acreditei que a minha proximidade a ajudaria a empreender esta sua
ltima viagem. Reflectindo nos seus 89 anos, que haviam coberto a quase
totalidade do sculo xx, dei-me conta de quo sbia tinha sido a minha
me ao ter-me deixado aos cuidados desta minha tia to especial. Com os
seus modestos modos e sem nunca o confessar, ela incutiu em mim um
esprito de independncia, que, alis, ela tambm tinha demonstrado
quando recusou sujeitar-se a Niang e preferiu deixar-se ficar em Xangai.
A tia Baba no era, alm disso, uma pessoa para se deixar afectar e
abater pelas provaes por que passou durante a Revoluo Cultural.
Amor, generosidade e humor foram sempre seu apangio. A vida tinha
fechado o seu ciclo. i~ -~ ;~ ~~ Luo ye gui gen. (As folhas que caem
regressam s suas razes.) Senti-me em profundo repouso, em calma
serenidade. 280 coleco gradiva 1. O JARDIM DE CIMENTO lan McEwan 2.
ACHADA NA RUA Patricia Highsmith 3. AS BRUXAS DE EASTWICK John Updike 4.
ALGUNS LUGARES MUITO COMUNS Eduarda Dionsio 5. A RVORE DOS TESOUROS
Henri Gougaud 6. O SISTEMA PERIDICO Primo Levi 7. PRIMEIRO AMOR,
LTIMOS RITOS Ian McEwan 8. UM MS NO CAMPO J. L. Carr 9. AS PAIXES
PARTILHADAS Flicien Marceau 10. CATSTROFES Patricia Highsmith 11. AMOR
E DEDINHOS DE P Henrique de Senna Fernandes 12. AS SETE GERAES Eva
Figes 13. A CRIANA NO TEMPO Ian McEwan 14. SEREIAS NO CAMPO DE GOLFE
Patricia Highsmith 15. ENTRE OS LENIS Ian McEwan 16. PALAIS-ROYAL
Richard Sennett 17. O DOLO Robert Merle 18. UM DIA NO VERO J. L. Carr
19. UM ALMOO NUNCA  DE GRA David Lodge 20. O ABISMO OCULTO Pierre
Bettencourt 21. O INOCENTE Ian McEwan 22. OS HOMENS QUE AMARAM EVELYN
COTTON Frank Ronan 23. OS DESPOJOS DO DIA Kazuo Ishiguro 24. ESTRANHA
SEDUO Ian McEwan 25. PIQUENIQUE NO PARASO Frank Ronan 26. VOX
Nicholson Baker 27. NOTCIAS DO PARASO David Lodge 28. O MELHOR ANJO
Frank Ronan 29. CES PRETOS Ian McEwan 30. ALGUNS HOMENS, DUAS MULHERES
E EU Maria do Rosrio Pedreira 31. A BELA DE MOSCOVO Victor Erofeev 32.
A MORTE DE UM HERI Frank Ronan 33. O SONHADOR Ian McEwan 34. OS HOMENS
BRONZEADOS FICAM BONITOS Frank Ronan 35. OS INCONSOLADOS Kazuo Ishiguro
36. TERAPIA David Lodge 37. OS MELHORES AMIGOS Joanna Trollope 38. OS
LIVROS DE PASCALE Maurizio Maggiani 39. O CONHECIMENTO DOS ANJOS Jill
Paton Walsh 40. LOVELY Frank Ronan 41. CONTACTO Carl Sagan        56. O
OUTRO LADO DO ESPELHO 42. UMA CASA EM PORTUGAL        Marya Hornbacher
Richard Hewitt 43. O FARDO DO AMOR        57. O AMANTE ESPANHOL Ian
McEwan        Joanna Trollope 44. AT ONDE SE PODE IR?        58. O
DIRIO DE EDITH David Lodge        Patricia Highsmith 45. PARENTES
PRXIMOS Jonna Trollope 59. REGRESSO  CASA EM PORTUGAL Richard Hewitt
46. O PRIMEIRO GOLO DE CERVEJA E OUTROS PRAZERES MINSCULOS        60.
FOLHAS CADAS Philippe Delerm        Adeline Yen Mah 47. A SOMBRA DE
FOUCAULT Patricia Duncker 48. IDORU William Gibson 49. FOLHAS MORTAS
Brbara Jacobs 50. BEBER: UMA HISTRIA DE AMOR Caroline Knapp 51. HILDA
FURACO Roberto Drummond 52. AMESTERDO Ian McEwan 53. MEUS QUERIDOS
MORTOS Erika de Vasconcelos 54. O INSECTO IMPERFEITO Beatriz Lamas de
Oliveira 55. QUARENTENA Jim Crace Carla Maria Ferreira dos Mrtires
2001-12-27
